Archive for agosto, 2008

Djalma Batista – um herói do nosso tempo

Tenório Telles*

A Amazônia, além de última fronteira da civilização e um dos últimos espaços naturais do planeta, conserva-se como um enigma a ser decifrado. É a grande esfinge do nosso tempo. Desde os primeiros viajantes, inúmeras explicações, teorias e visões foram construídas sobre esse universo verde, líquido e misterioso.

O poeta Pereira da Silva, fascinado com sua grandeza e pujança, concebia-a como a representação do paraíso. Outros, amedrontados e sem compreender sua natureza superlativa e enigmática, imaginavam-na como um mundo cheio de riscos, uma representação do caos originário. Algumas mentes sensatas e altivas assumiram o compromisso e o desafio de estudá-la e decifrá-la, como forma de protegê-la e usufruir de maneira responsável os seus bens.

Djalma Batista faz parte dessa linhagem de pesquisadores que ousou enfrentar a esfinge. Fruto desse gesto de coragem e compromisso com a Amazônia, produziu uma das reflexões mais consistentes e atuais sobre a complexidade da região: “A natureza amazônica não está suficientemente conhecida e estudada. Considero, por isso, em primeira prioridade, a necessidade de incentivar pesquisas científicas e tecnológicas, que venham a servir de orientação indispensável”. Aliás, o grande mérito de seu trabalho foi ter percebido o caráter diverso e integrado desse mundo em contínuo processo de vida e renovação. Problematizou muitas questões sustentadas por ilustres cientistas do nosso tempo: a natureza como um organismo vivo, a noção de equilíbrio dos ecossistemas naturais, o reconhecimento da biodiversidade como fator de desenvolvimento e formação de uma consciência ecológica.

Seu livro “O Complexo da Amazônia” é o resultado de uma existência dedicada à ciência e ao estudo sobre a realidade amazônica. Não é só um diagnóstico sobre a complexidade desse universo, o que explica o subtítulo da obra: “Análise do processo de desenvolvimento”. É uma declaração de compromisso e proposição de caminhos possíveis para engendrar possibilidades inovadoras em termos de desenvolvimento para a Amazônia, capazes de compatibilizar a produção de riqueza e seu usufruto pelas suas populações, sem negligenciar a preservação do meio ambiente. Por isso, advertia: “É urgente que se crie uma agrotécnica para os trópicos, até hoje desconhecida, e que permita o aproveitamento racional das terras amazônicas e a produção de alimentos”.

O que sobressai, além do estudioso, na personalidade de Djalma Batista é a figura humana. Construiu uma trajetória ímpar, fundada em compromissos éticos, políticos e num entendimento de que a ciência não é um fim, mas instrumento para melhorar a condição humana, os processos sociais e gerando qualidade de vida para a sociedade. Seus leitores terão muito a aprender com as reflexões e seus estudos, mas, sobretudo, com o seu exemplo como cientista, intelectual e pai de família. Foi um homem de sua época, que, como poucos, honrou seus valores e consagrou sua vida à sua maior causa – a Amazônia. Profeta de um mundo incompreendido e ameaçado, Djalma é um dos heróis do nosso tempo.

* Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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O discurso do árabe

Neuton Corrêa*

O homem estava indignado, não escondia esse estado. Ele é um dos meus companheiros de viagem no 439 (Zona Norte-Centro), por volta da meia-noite. Nesse horário, apesar da demora dos ônibus, a viagem é boa: pouca gente, alguns cochilando, outros dormindo mesmo. Há ainda os que preferem observar a atividade dos meninos e meninas que estendem os braços para os carros que passam pela Avenida André Araújo e pela Alameda Cosme Ferreira.

O cidadão embarcou na parada do Inpa. Tinha cabelos grisalhos, barriga cervejada e baixote. Era um pouco mais baixo do que eu. Um nordestino. Tive certeza disso assim que ele começou a falar com sotaque de paraibano. Estava falante! O bafo dele denunciava alguns goles de bebida alcoólica.

Tão logo entrou, cumprimentou o motorista e quando alcançou o cobrador já estava falando sobre as obras do viaduto do Coroado: “Este viaduto está demorando muito e não vai resolver o problema. Só serve para eles. Político é todo igual. Este ano não vou votar em ninguém”.

A senhorita que sentava à minha frente e que também observava o paraibano virou-se em direção dele, ficando quase de frente para mim, e falou em tom de provocação:
- Vote no árabe!

Antes que o passageiro respondesse, percebi que a intenção da moça não era a política, mas dizer-lhe que ela também era uma nordestina. Tratava-se de uma pessoa muito simpática. Sorria o tempo todo, mostrando seus dentes pequenos coladinhos uns aos outros. A cada sorriso, ela fechava os olhos, suavemente, expondo linhas do tempo no canto dos olhos. A moça também falava com sotaque típico do interior do Nordeste.

Notei que ele rapidamente mudou de humor, pois deu uma resposta gritada:
- Nesse é que eu não voto!
Com uma expressão desconcertada, mas com sorriso, a jovem pergunta:
- Mas, por quê?
E ele explica:
- Quando ele era vice-prefeito, eu ganhei, com a ajuda da mãe dele, uma placa para trabalhar na praça. Graças a isso só dependo de mim, ganho meu dinheiro e…
Antes de concluir o raciocínio, a passageira insiste:
- Mas, se ele te ajudou, por que não votar no árabe? Pelo menos o senhor mostraria sua gratidão.
- Olha, eu vou na casa da mãe dele dizer que não vou votar nele.
- Mas por quê?
Ele, então, tira o olho da mulher, fixa-o em outra direção, baixa um pouco o tom da voz e diz:
- O que ele fez com aquelas crianças no começo da propaganda política foi uma humilhação. Isso não se faz com ninguém!
A mulher agora já não pedia voto. Queria saber, assim como eu, por que aquele eleitor estava tão irado.
- Mas o que ele fez?

E ele de novo faz um rodeio:

- Eu fui casado três vezes. Quando casei com a primeira mulher, ela já tinha um filho. Tivemos outro. Ela foi embora, eu fiquei com os dois meninos. Arranjei outra mulher, que já tinha duas meninas. Ela morreu! Eu fiquei com as meninas. Hoje, estou com a terceira mulher, que tem dois meninos. Todos eles estão comigo e são meus filhos.

Eu fiquei sem entender para onde ele queria levar o desfecho da história. A jovem também. E foi ela que o instigou:
- O que tem a ver uma coisa com a outra?
Ele finalmente contou:

- O árabe, quando começou a campanha, levou a família para TV, botou todos num estufado e disse: Essa é minha mulher. Esses são meus filhos. E esses são meus enteados. Ora, isso é uma humilhação para os meninos. Pai é quem cria.

Na primeira parada da Cidade Nova eu desci e dois continuaram a conversa.

* Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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A gula do grill designer é vermelha

Gerson Severo Dantas*

Comer carne, sobretudo as vermelhas, não é um ato bem visto nos dias atuais. Tem até quem se jacte de só comer verduras, como se um camaleão fôssemos para comer apenas folhas e tubérculos. Somos hoje carnívoros envergonhados, pois carne engorda, dá colesterol, triglicerides, acelera o mau humor, deixa a barriga protuberante, dá uma preguiça danada, enfim traz as quatro bestas do apocalipse e nos aproxima mais do Todo Poderoso, como se já não estivéssemos, a cada dia, nas proximidades daquele que realmente manda na parada. Enfim, como nos ensina o filosofo, somos seres para a morte.

Pois bem, como estudioso teórico e prático de um assunto obscuro (assar carne) tenho a dizer que esse pequeno ato mudou a história da nossa espécie – homo sapiens, sapiens. Talvez não tivéssemos o sorriso bonito que ostentamos hoje, sobretudo quando temos dinheiro para cuidar dos nossos dentes se não fosse a obrigação de desenvolver nossos caninos para rasgar a carne, primeiramente crua e depois assada.

Mas o ato de assar a carne, um ato sagrado e admirado com água na boca por tantos nas mais diversas churrascarias do mundo, é um ato civilizatório, talvez o primeiro. Assar a carne reduziu os problemas de saúde decorrentes das infecções causadas pela carne crua, desenvolveu o paladar da espécie e sofisticou o homem. Assar carne foi a redenção da espécie, até mesmo visual, pois ver uma picanha na brasa, uma chuleta no alho, hummmmmm, nada se compara ao ato pré-alimentar de degustar uma carne assada com os olhos. Ah, que fome!!!!!!!!

* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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Raposa-Serra do Sol, muita ideologia e pouca preocupação com o índio

Gerson Severo Dantas*

O Brasil não aprende mesmo a tratar da questão indígena, deixa rolar discussões infrutíferas, carregada de ódios estrangeiros, ideologias e concepções ultrapassadas. O mais recente exemplo desse laissez-faire é a demarcação em terras contínuas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Eu conheço bem o conflito existente ali porque fui ao local, não escrevi por ouvir falar ou por fonte secundária, estive lá e ouvi todos os lados da questão, não fiquei sentado na minha cadeira ouvindo relatos de gente com interesses na questão. Há uma clara divisão entre os próprios indígenas e entre os indígenas e a sociedade envolvente. Parte dos índios, ligados ao Conselho Indigenista de Roraima (CIR), da igreja Católica, luta pela demarcação em terras contínuas. Agora existe uma parte significativa, estimada à época em que estive lá em 30% do total de 18 mil e poucos, que são contra. Preferem a demarcação em ilhas. Esses índios são, majoritariamente, evangélicos. Eis um dos focos do conflito.

Além das questões religiosas, há um conflito econômico. Os que defendem a demarcação contínua querem os índios fora de qualquer atividade econômica e sem qualquer contato com o resto da sociedade. Querem um modelo semelhante ao dos índios Ianomâmis, que hoje, pobres, miseráveis e doentes, só se relacionam com pessoas autorizadas, a saber: gente da Fundação Nacional do Índio, ongueiros e missionários religiosos de matizes suspeitas. Será esse o melhor modelo? Claro que não.

O Estado brasileiro há muito deveria tomar como exemplo para as demarcações o que acontece na Terra Indígena Waimiri-Atroari. Ali, com o Programa Waimiri-Atroari (PWA), os indígenas estão livres de ONGS e religiões, o povo se desenvolve, mantém um relacionamento adequado com o resto da sociedade, avança no fortalecimento de sua cultura, aproveita-se financeiramente de suas riquezas, são saudáveis – o que poucas nações indígenas podem ter orgulho de dizer que são – se educam na língua original. Agora isso foi possível porque estavam fora das discussões as religiões e as ONGS. Com elas dentro, só temos conflitos, seja na Raposa-Serra do Sol, seja na terra dos Cinta-Larga, seja no Alto Rio Negro, onde sem a autorização de uma certa ONG não se faz nada, sequer se consegue entrevistar uma índio. Isso eu sei e vivi em São Gabriel da Cachoeira, não falo por ouvir falar.

Uma demarcação nos moldes da TI Waimiri-Atroari resolveria grande parte dos conflitos da Raposa-Serra do Sol. Os índios teriam sua terra garantida e quem quisesse usar dos recursos nela contidos pagariam por isso, como hoje fazem Manaus-Energia e Mineradora Taboca aos Waimiri-Atroari. É tão simples, basta que essa história de colocar índios em “aquários” isolados fique para trás, fique nos discursos ideológicos.

Os índios precisam de nós e nós precisamos dos índios. Chega desse conflito estéril. Que o Estado brasileiro assuma sua função, tire de tempo ongs, religiões e grupamentos econômicos.

ps: A dona de casa e o trabalhador manauara têm razões para preferir a demarcação em ilhas da Raposa-Serra do Sol, pois sem o arroz vindo de Roraima, exatamente das fazendas que estão no caminho da demarcação contínua, o preço do produto certamente vai subir e não será pouco. Comparem o preço do arroz da marca São João, importado do Sul, e os roraimenses (Faccio, Acostumado e outros) para ter uma idéia do estrago econômico no bolso dos locais.

* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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Propaganda eleitoral: fardo ao eleitor

Valmir Lima*


“Eu, o Eduardo e o ministro do presidente Lula (mencionar o nome) vamos fazer muito mais por Manaus”. “O candidato que vai fazer por Manaus o que o presidente Lula está fazendo pelo Brasil”. Essas frases têm sido usadas por candidatos à Prefeitura de Manaus na propaganda eleitoral gratuita e nas entrevistas e debates na televisão. A estratégia de campanha, no entanto, beira o insulto ao eleitor. Ao tentar colar a imagem do candidato à do presidente da República só porque este tem altos índices de aprovação nas pesquisas de avaliação do governo federal, é supor que o eleitor não tem a mínima capacidade de escolher o prefeito a partir das propostas e do passado de quem se dispõe a concorrer.

E não há aqui uma avaliação a partir do ponto de vista da elite, que, para os analisas mais arrogantes, têm maior capacidade de discernimento porque freqüentou mais a escola e a universidade. Qualquer cidadão, independentemente da escolaridade, desconfia de um candidato que tenta esconder-se atrás da imagem de uma autoridade com o objetivo de obter a mesma popularidade a ela conferida. É como alguém incapaz que depende de outras para lhe carregar de um lado para outro.

Uma busca mais cuidadosa aos grandes feitos e defeitos do tal “ministro do presidente Lula” certamente frustrará o eleitor honesto, que dá seu voto na esperança de que o candidato promova as políticas públicas de que a cidade precisa. É o mesmo ministro que vendeu a idéia, quando prefeito, de que o Expresso seria um sistema de transporte eficiente para Manaus. Como ministro, muito pouco tem feito para melhorar o transporte nas rodovias e rios da região. Exemplos? BR-174 e BR-319.

Ao dizer que vai fazer o que o presidente está fazendo pelo Brasil, o outro candidato deixa, no eleitor mais esclarecido, uma série de interrogações. O que esse e outro um milhão de eleitores querem ver são as propostas concretas, as condições objetivas para que elas se realizem e não fiquem apenas no campo das promessas.

Nesse sentido, não temos visto na propaganda política nada que possa gerar discussão nas rodas de conversas dos eleitores de Manaus. Os seis candidatos têm apresentado uma verborragia no horário eleitoral que mais agride olhos e ouvidos do que informa sobre a real intenção daquele que pede voto.

Uma série de promessas de construção de escolas e creches, de melhorar o sistema viário (sem dizer como), de ampliação do atendimento de saúde… Nos programas de entrevistas, aliás, esses são os temas recorrentes: saúde, educação, transporte e infra-estrutura. Nenhum candidato discute as finanças do Município. Nenhum diz quanto o Município arrecada, como gasta esse dinheiro e como seria gasto numa eventual gestão. A promessa de construção de qualquer prédio, por menor que seja, precisa estar no orçamento, que depende, essencialmente, do dinheiro que o município arrecada.

Por que os candidatos não discutem essas questões na propaganda eleitoral gratuita e nas entrevistas e debates? Porque avaliam que o eleitor é incapaz de entender assunto tão complexo como as finanças de um município. Os marketeiros olham o eleitor a partir do mais “ferrado”, porque imagina que eles podem ser mais facilmente convencidos. Esquecem, por exemplo, que os sem-água representam um universo muito menor do que os que pagam um valor exorbitante para ter água na torneira.

O que sobra para o cidadão que quer votar num candidato sério? Nada, pois na propaganda, todos são iguais. Os que ainda assistem à propaganda eleitoral no rádio e na TV o fazem no afã de ver, pelo menos, uma pontinha de criatividade dos homens da comunicação. Mas está difícil. A propaganda eleitoral é um fardo ao eleitor.

*Jornalista, professor universitário e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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A irmã

Neuton Corrêa*

Eu pensei que a passageira iria desmaiar…

É comum a bordo do 351, de manhã, encontrar pessoas com mal-estar. Tão comum que quase ninguém se importa. Geralmente, é fácil identificar o passageiro que terá enjôo.

Pendurado, via a mulher agoniada. Ela olhava para trás e para frente e depois erguia a cabeça para o teto do ônibus, como se estivesse em busca de oxigênio onde não existe. Repetiu o movimento várias vezes, sempre amparada por outra pessoa que lhe passava as mãos sobre suas costas.

Distante dali uns dois metros, resolvi me aproximar. Via hora e momento ela desabar. E iria desabar, porque, em ônibus, solidariedade, gentileza e cavalheirismo são coisas raras. Não nego que já negligenciei esses adjetivos, mas somente à noite, no retorno. É assim: se você conseguiu um lugar para se sentar, você tem que preservá-lo. Se aparecer uma grávida, uma criança ou uma idosa, você finge que não os vê, olha para outro lado e espera que outros façam aquilo que você deveria fazer.

A passageira era vítima desse comportamento no ônibus. Aproximei-me dela! Pela roupa e a Bíblia que carregava, supus que era uma evangélica. Usava um vestido estampado, que lhe cobria os ombros, com decote no pescoço e escorrido até abaixo do joelho. Calculei que ela tivesse uns 50 anos. Era uma senhora bem conservada. Seus longos cabelos estavam reunidos em um feixe, preso a um elástico (era elástico, mesmo) e reforçados com grampos perto da testa e um pouco acima das orelhas.

Dois detalhes em seu corpo chamavam atenção: a cintura e os quadris. Eram uma insurgência contra a repressão da roupa. Assim que estava próximo, esperando ela cair, pensei: “deve ter sido uma mulher muito linda na juventude”. E deveria ter sido mesmo. Mas, a essa altura, os passageiros começavam a descer. Dois assentos ficaram vazios e as duas senhoras nem deixaram o banco esfriar.

Então, a mulher que lhe massageava as costas, aconselhou-a em sussurros:

– Tá amarrado, isso é coisa do demônio! Tenha paciência! Não vá se desesperar. Deus é grande, irmã!
Apontei o meu o ouvido para escutar melhor. E ouvi a resposta:
– Eu não agüento mais!
E a conselheira insistiu, tentando dar-lhe o ar que ela buscava:
– Ele já fez isso comigo, mas eu resisti.
– É, mas agora o problema sou eu!
– A senhora? Por que a senhora?, retrucou a amiga, assustada.

Nesse momento, nem notou que já haviam elevado o tom da conversa. E a crente falou-lhe:

– É porque ele disse que é Deus que está falando no coração dele!
Senti que a outra não gostou e dirigiu-lhe palavras para desqualificar o homem sobre o qual falavam:
– Irmã, ele dá em cima de todo mundo. Não vale nada!

Olhei para o lado e flagrei duas jovens se entreolhando e rindo. Talvez quisessem saber o que eu também queria: “De quem elas estavam falando?”. E conseguimos saber, quando a conselheira, insistente, a advertiu:

– A senhora já pensou se o seu marido descobre que o pastor está dando em cima da senhora?

O ônibus fez parada perto do Pronto-Socorro 28 de Agosto. Atrapalhadas, desceram, cada uma com uma Bíblia na mão.

* Filósofo, estudante de jornalismo e metrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

(Ilustração: Myrria)
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Lembrar Gandhi

Tenório Telles*

A vida é uma tapeçaria tecida com os fios dos acontecimentos cotidianos. Alguns desses episódios marcam definitivamente a consciência da civilização: exemplo disso é o dia 30 de janeiro. No dia 30 de janeiro de 1948, o fanatismo e a estupidez puseram fim à vida de um dos homens mais generosos e justos que pisaram no chão deste planeta. Um homem feito de luz, sonho, carne e esperança, a quem Einstein chamou de “porta-voz da humanidade”.

Este texto é para celebrar a memória deste ser humano especial. Que fez da sua vida um gesto a favor do bem, do nobre e da crença na construção de um mundo regido pela justiça, pela fé, tolerância e respeito pelo outro e suas crenças. Que acreditava que a regra de ouro da boa convivência “consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos como uma, toda a família humana”. Para afirmar a autenticidade de suas palavras, renunciou aos prazeres e ilusões mundanos, consagrando sua vida à santidade e à luta pela libertação de seu povo, e dignidade do gênero humano.

Gandhi faz parte de um seleto grupo de homens que fizeram a diferença. Gandhi é verdadeiramente um homem. Sua história e grandeza são mais que um exemplo para o nosso tempo, especialmente para os jovens. A vida desse ser luminoso, que mereceu de seu povo o cognome de Mahatma (“grande alma”), é um sol aceso sobre este mundo dominado pelas sombras, pela arrogância e pelos fundamentalismos. A trajetória de Gandhi nos ensina que um ser humano não é o tesouro que acumula ou o poder que detém, mas a riqueza de seu coração e a fortaleza de seu caráter. Exemplo disso é que vestia-se com uma rústica túnica, por ele mesmo tecida, e morava numa casa modesta.

Sua religiosidade não estava dissociada das preocupações com o destino de seu país e da própria civilização. Sonhava um mundo diferente, fraterno e justo. Compromissado com a liberdade, fez-se líder de seu povo, colocando sua vida a serviço de sua libertação. Defensor da Não Violência, usou métodos pacíficos de luta contra a dominação inglesa na Índia. Vitorioso, firmou-se como uma das maiores lideranças políticas do século passado. Infelizmente sua mensagem e atitudes encontraram poucos seguidores: em nossos dias, reinam na política a intolerância, a mentira e a falta de compromisso com o bem comum. Diante de Gandhi, os líderes de nosso tempo são anões. Se considerarmos a realidade brasileira, temos uma legião de pulhas e degenerados. Esse é um tipo de gente que empobrece a existência.

Não há nada mais inadequado do que falar desse homem nestes dias de festa, excessos e promiscuidade. Coisas que em nada contribuem para tornar o gênero humano melhor. Gandhi defendia que o ser humano deve cuidar cotidianamente de seu aprimoramento espiritual e “viver em santidade”. E para isso é indispensável combater o que chamou de os “sete pecados capitais” responsáveis pelas injustiças: “riqueza sem trabalho; / prazeres sem escrúpulos; / conhecimento sem sabedoria; / comércio sem moral; / política sem idealismo; religião sem sacrifício / e ciência sem humanismo”. Gandhi está vivo e sua voz ecoa no canto dos pássaros e brilha no colorido das manhãs. Pena que tantos estão surdos e cegos para perceber a sua presença.

* Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras

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As desculpas de Diego

Ana Célia Ossame*

Descontada a frenética propaganda dos meios de comunicação exaltando a “maravilhosa e espetacular” participação brasileira nas Olimpíadas da China, as medalhas continuarão minguadas principalmente nos esportes individuais por uma razão simples. Ao contrário dos EUA, Rússia, Alemanha, Japão e China, para citar alguns, o Brasil não investe na formação de atletas. Por isso, o pedido de desculpas do ginasta Diego Hypolito e do judoca João Gabriel deve ser desconsiderado. O Brasil é que deve desculpas não só a eles, mas à Daniela Hypólito, Daiane, Jade Barbosa, Ana Cláudia Silva, a Kettleyn Quadros, primeira mulher a trazer medalha no judô e a todos os demais atletas que, para ir às Olimpíadas da China quase precisaram vender a alma.

A medalha do nadador César Cielo não coloca o Brasil no pódio. Ele chegou lá por mérito próprio, com investimento da família que o mantém nos EUA chorando de saudades, mas certa de que só ali poderia transformar o talento dele em medalha do mais brilhante metal. Felizmente, deu certo. Enquanto isso, gastam-se fortunas com “fenômenos” e “super-craques” de futebol criados por obra e graça dos apresentadores de televisão pagos para vender produtos de qualidade duvidosa, haja vista o apático desempenho da seleção masculina não só nas Olimpíadas, mas em outras disputas. Já as meninas do futebol dão show de bola, embora muitas delas sem direito sequer a um salário decente. A prova disso é que a mãe de uma das melhores jogadoras em campo, Formiga, assistiu ao jogo da filha numa televisão emprestada pela vizinha.

Quando a Jade franze a testa antes de executar sua apresentação, demonstra a falta da segurança dela e de outros atletas brasileiros. As meninas da ginástica ainda formam um grupo que se apóia e o Diego, que sozinho, representa o Brasil no masculino. Como aceitar o pedido de desculpas dele? Ouvindo o canto da sereia dos “comentaristas” esportivos, eram certas as medalhas dos ginastas. Mas a falta de técnica apurada, obtida após muito treino sob acompanhamento de especialistas é vital. Os vôos deles desafiaram não só a força da gravidade, mas o País que só sabe aplaudi-las nas competições internacionais. Só lembra deles nesses momentos. A queda era previsível para mostrar ao Brasil que só aplauso e torcida não basta. É preciso investir.

Nós, enquanto Governo, empresas e instituições financeiras, principalmente os bancos que batem recordes de lucro, é que deveríamos a eles o pedido de desculpas por não encontrarmos recursos para investir no talento representado por esse grupo, que pela primeira vez na história levou o Brasil a disputar medalhas. Para não ir longe, no Amazonas, temos uma Vila Olímpica que já recebeu atletas olímpicos. Mas de lá o velocista amazonense Sandro Viana foi praticamente enxotado. Agora, com chances de ganhar medalha, poucos sabem que ele treina em São Paulo, sem apoio oficial. Mas se ganhar, certamente não faltarão “autoridades” para brindar a vitória pessoal do atleta com tapinhas nas costas. Ainda mais em época de campanha, quando todos os candidatos são amigos do povo. Será que algum deles sabe responder por que a Vila não rende frutos-atletas? Por que não vêm para cá os técnicos do porte dos que atendiam a atletas como Maurren Maggi, Joaquim Cruz, Zequinha Barbosa, Vicente Lenilson, Bruno Lis, Sandro Viana, Fabiana Mourer, o cubano Yoel Hernandez, Fábio Gomes Silva, Jessé Farias e Marilson Gomes aqui na Vila? Se faltam verbas para mantê-los, porque não pedi-las das empresas do Distrito Industrial detentoras de incentivos fiscais? Será que elas não iam gostar de ter o nome em destaque no uniforme desses atletas?

Antes de candidatar-se a sediar uma olimpíada, o Brasil tem que aprender a investir na formação de atletas. Tirar o foco do futebol criador de escândalos e estabelecer uma política para os esportes amadores. Não é à toa que no basquete, atletas que jogam no exterior recusaram a convocação e o time saiu mais cedo da disputa. Se o Brasil não faz nenhum esforço para tê-los aqui e prepará-los, por que só quando estão prontos teriam que servir à pátria? O amazonense Sandro Viana fechará o revezamento em Pequim, depois que o bastão, símbolo da corrida, passar por Vicente Lenilson, Rafael Ribeiro e Bruno Lins. Que ele o receba com vitória e dê ao Brasil mais do que um presente, uma lição. Para ganhar medalha olímpica ou competições internacionais, não basta só vontade e sonho. É preciso despertar e descobrir atletas, treiná-los técnica e psicologicamente para as disputas. Poupá-los o mínimo do esforço de mendigar patrocínio. Do contrário, caso ganhemos o direito de sediar a olimpíada de 2016, seremos apenas levantadores de bandejas com medalhas a serem entregues aos países que sabem fazer a tarefa de casa nessa área.

*Jornalista

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A Crítica repercute análise de Paes Loureiro

A entrevista do poeta e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro ao jornalista Wilson Nogueira, um dos fundadores deste blog, gerou reportagem em A Crítica, um dos principais matutinos de Manaus (AM).

O texto, assinado pelo repórter Thiago Hermido, está editado na página A3, do Caderno Bem Viver,com o título Em busca da identidade. O jornal entrevistou, também, o poeta e músico Celdo Braga, e o documentarista Marco Adolfs. Ambos defendem que as preocupações de Paes Loureiro são legitimas, porque elas decorrem a ausência de políticas públicas de valorização das culturas regionais.

Neuton Corrêa, um dos editores do Textobr, disse que a matéria de A Crítica confirma a importância do diálogo entre os diversos gêneros de mídia. “Esse diálogo permite que as informações circulem como um bem público”, disse Corrêa.

Este blog é administrado e alimentado por um grupo de jornalistas, escritores e profissionais liberais motivados pelo uso da Internet como um meio capaz de compartilhar informações e idéias.

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Poeta diz que até a academia discrimina o imaginário amazônico

O poeta e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro (foto) disse, em entrevista a Wilson Nogueira, que a academia ainda é preconceituosa na abordagem do imaginário regional, e que essa postura acentua o estigma sobre o modo de viver e de compreender o mundo das populações amazônicas. Os mitos e lendas amazônicos, para o pesquisador, possuem valor explicativo e estético idêntico aos da mitologia grega. A diferença entre ambos está no fato de que os valores do mundo grego impressionam a academia, enquanto as formas de pensar e agir das populações amazônicas, principalmente as dos índios, são rejeitadas ou tratadas de modo pitoresco por professores, pesquisadores e intelectuais. Paes Loureiro é professor de Estética, História da Arte e Cultura Amazônica, na UFPA, Mestre em Literatura e Semiótica, pela PUC/Unicamp, e Doutor em Sociologia da Cultura, pela Sorbonne, Paris, França. Confira a entrevista:

Em que sentido o imaginário regional pode contribuir para o reconhecimento de uma cultura amazônica?

Esse caráter tão presente na vida amazônica decorre de um sistema de vida em que a relação do homem com a natureza propiciou essa necessidade de criar, pelo seu imaginário, novos mundos e novas realidades. O imaginário povoa esses mundos de deuses, mitos e lendas, e, ao mesmo tempo, de entidades de uma significação tão rica em modos de compreender a realidade e de interpretar o mundo por meio de uma reflexão alegórica. Essa particularidade na relação do homem com a natureza, com a solidão, com as distâncias, com os rios das águas doces correntes, deu, para o acervo do imaginário que temos, uma condição exemplar de intermediação entre o real e o não-real, o que é preenchido pelo imaginário como uma outra forma de realidade. O que ocorre é que essa mitologia toda, essa simbologia que decorre da nossa cultura, não é de um caráter propriamente filosófico, de um caráter propriamente místico ou de um caráter normativo. O que eu percebo é que todas essas formulações do imaginário, esses seres fantásticos, essa realidade fantástica, são construídos por via da aparência, por via do que elas conseguiram como luminosidade, como forma. Ou seja, são exatamente qualidades que dotam os objetos de uma dimensão poética e estética. O Boto, a Iara, as Mães-d’agua, a Mãe do Vento, para citar alguns exemplos simples… em todos esses casos, o que se tem é uma configuração sensível de algo que impressiona pela beleza e não pelo caráter de religiosidade, de normatividade ou de dimensão reflexiva sobre a realidade. Então, o nosso imaginário se configura e estimula essa dimensão poética nos produtores e nos receptores, tanto que a Amazônia sempre é encarada por toda a sua história, predominantemente, como uma dimensão do imaginário e como uma força poética desse imaginário capaz de poetizar todos os discursos. Noto que essa riqueza do ethos da cultura amazônica – e essa riqueza de significações nos produtos desse imaginário – não tem tido a atenção reflexiva e interpretativa que ela merece e que a riqueza que ele contém propicia. Ultimamente, tenho imaginado que, talvez, isso seja mais um dos efeitos perverso desse preconceito, muitas vezes na academia, muitas vezes na cultura urbana, esse preconceito diante da cultura originária da região, da cultura que vem do ribeirinho, que vem do índio especialmente.
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