Archive for setembro, 2008

“A decisão do Presidente Lula era a de não romper com a ordem internacional”

Os brasileiros nunca estiveram tão otimistas quanto agora, segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Thomas Patrick Dwyer, neozelandês que mora no Brasil há 25 anos. Ele disse que já testemunhou outros momentos de euforia em relação ao rumo do País, mas que não duravam mais de seis meses. Dwyer participou, em Manaus, no período de 16 a 19 de setembro, do 1º. Encontro da Região Norte da SBS, onde expôs as diretrizes da instituição para a divulgação da Sociologia e os desafios que os sociólogos enfrentam para interpretar as mudanças que ocorrem no mundo. Sobre a América Latina, ele disse que a região busca um novo modelo de modernidade. Confira a entrevista que ele concedeu ao repórter Wilson Nogueira:

Qual é o mercado de trabalho dos sociólogos atualmente?
Uma coisa que foi observada é que a metade das pessoas que se formou em Sociologia também se formou em outras disciplinas. Por isso, o campo de trabalho poder ser o Ensino, Administração, Direito, Geografia. Essa é uma coisa que ocorre em muitas partes do mundo, as pessoas saem (das universidades) com duas formações. Quem está formado em Sociologia, teoricamente teria mais capacidade de pensar o complexo da interação humana de maneira melhor que os outros. Agora não é uma formação de campo fechado, muito prática, a não ser que o sociólogo se forme com uma base muito forte em metodologia. Então, aí ele pode ir mais para a pesquisa, mais para o planejamento etc.

Quais os setores que mais recorrem aos sociólogos?
A Educação é a grande empregadora, no Estado ou na iniciativa privada. Isso vai mudando ao longo do tempo. Agora, com a expansão das universidades particulares, tem muita gente trabalhando no ensino privado. Então, eu diria que esse setor é o primeiro. Agora isso depende muito do lugar. Há empregos em órgãos de planejamento, há interfaces de pesquisadores e, eventualmente, nos setores que formulam políticas públicas. Agora esse é um espaço que, muitas vezes, a gente está perdendo para quem faz Administração. Isso é uma coisa que tem me preocupado bastante. Seria natural que ocupássemos esse espaço. Até o Sindicato dos Sociólogos de São Paulo, que tenta a regulamentação da profissão, quer impedir que quem não é sociólogo posso trabalhar com opinião pública. Acho isso um erro, porque, nesse momento, infelizmente, a maioria dos nossos cursos não oferece uma formação sólida das metodologias que são precisas para trabalhar com opinião pública. O Brasil tem uma peculiaridade muito grande, porque tem muita gente que se forma e passa a ocupar posições de liderança em ONGs, em partidos, sindicatos etc. Isso é uma coisa que, realmente, existe em poucos países. Já tivermos um sociólogo na Presidência da República, a Luiza Erundina, que foi prefeita de São Paulo, e por aí vai… Então o campo é um pouco isso.

Isso quer dizer que não pára por aí?
Há outros campos emergentes. O setor hospitalar, por exemplo, é um lugar extremamente complexo. No Brasil, os médicos estão tão fechados que eles acham que podem cuidar dos hospitais sozinhos. Mas eles estão sempre recorrendo aos sociólogos por causa da complexidade da atividade. Existem, também, outros campos de investigação. A gente pensa também na condição de fracasso das escolas. O sociólogo teria muito a dizer sobre a dinâmica da sala de aula, mas pouco pode fazer, porque esse problema é colocado para a Pedagogia, que está comprometida, de certo modo, com os professores, que são encarregados de desvendar os problemas. A gente tem as pessoas que se formaram em Sociologia, mas que vão fazer outras coisas, muitas vezes com forte ligação com a Sociologia, como no cinema e na Comunicação, usando toda aquela cultura que traz para tentar explicar e desvendar o mundo.

Qual o papel do sociólogo na explicação das crises mundiais, como as que derivam e derivarão das mudanças climáticas?
Tem muito sociólogo que trabalha com ONG e tenta acalmar os males do mundo. A crise, para mim, diz respeito à incapacidade de agir. As coisas estão acontecendo e eu não seu como agir. É muito mais isso do que outra coisa. A partir do momento que a gente tem uma noção de agir, a crise retrocede. As mudanças são muito mais hoje do que climáticas. Tivemos uma abertura fantástica no comércio nos últimos anos. O renascimento da China é uma coisa impressionante. Lá, 400 milhões de pessoas saíram da pobreza nos últimos vinte anos. Nunca na historia da humanidade houve uma mudança tão positiva em tão pouco tempo. Mas a China é um país de regime totalitário, essencialmente totalitário. Isso é tema, também, da Ciência Política, da Antropologia e da Sociologia. Lá, na China, eles estão usando sociólogos para analisar a complexidade. Isso depende do tipo de informação e da formação que o sociólogo possui. Obviamente, acredito que, se não for a Sociologia, qual seria a outra disciplina para explicar as crises? A Teologia? Ou seja: nós somos os únicos que tratam das complexidades das mudanças. Não é para a gente agir. É para a gente explicar para os outros de maneira clara, para que os outros tomem suas responsabilidades e atuem em suas funções.

O senhor indicaria o curso de Sociologia para jovens que buscam o mercado de trabalho?
Para o mercado de trabalho, eu não diria necessariamente. É um curso que você tem que fazer pensando em alcançar um conhecimento de nível superior de conhecimento da realidade. É para isso que se faz curso de Sociologia. Se se quer mercador de trabalho, vai virar contabilista, economista, administrador, mas certamente você não vai fazer esses cursos para alcançar um grau de esclarecimento sobre o mundo que você alcança na Sociologia. Então, é o mesmo que ocorre com o filósofo. Não se faz curso de Filosofia para alcançar o mercado de trabalho. De jeito nenhum, porque é uma disciplina que tem outras finalidades. Quando você é um filósofo bem treinado, o que é que você faz? Faz o mesmo que a Sociologia, vai para a sala de aula e ensina, mas há filósofos hoje em empresas, que trabalham com marketing, mas não em coisas mais empíricas e sim em mais conceituais, publicidade, por quê? Porque eles têm uma capacidade que outros profissionais não têm de buscar conceitos, de buscar a essência. É uma disciplina mental que leva a isso.

Quais problemas enfrentam os sociólogos como corporação?
Eu, como presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, represento o lado científico, meu papel e de toda a diretoria da SBS é de promover a nossa ciência, e promover o conhecimento etc. Agora existe o outro lado da luta por salários e melhores condições de trabalho que tem outras agendas, que é o movimento sindical, a federação, a confederação etc. As duas associações são irmãs por natureza, mas são irmãs com interesses bastante diversos. Uma é mercado de trabalho e não, necessariamente, o conhecimento, o outro, para avançar o conhecimento e não, necessariamente o mercado de trabalho. Muitas vezes há conflitos justamente por causa dessas duas lógicas de ação.

“Morales e Chávez não são a mesma coisa. Eles são muito diferentes”

Como o senhor analisa a América Latina em relação aos governos mais à esquerda, como são os casos da Equador, do Chile, da Bolívia e da Venezuela?
Cada um desses casos é diferente um do outro. Certamente o Chile está se descolando da América Latina e vai ser tornar, dentro de pouco tempo, um país e alta renda, e tem tido um desempenho excepcional, como o na erradicação da pobreza, com medidas econômicas que podemos chamá-las de boas medidas. Isso é o resultado de uma redemocratização com governos de esquerda. O Brasil adotou muito a contragosto do próprio Partido dos Trabalhadores uma política bem parecida. Obviamente, que o nosso caminho foi muito mais sofrido devido à inflação e diante de todos aqueles problemas que tivemos por algum tempo, como o calote da dívida externa. Então foi muito difícil a integração do Brasil no bloco mundial dominante. A decisão do Presidente Lula era a de não romper com a ordem internacional, mas tentar aproveitar esse momento. Essa é uma estratégia que está se demonstrando muito bem sucedida, mesmo para os críticos dessa opção. Hoje, a gente não encontra mais ninguém colocando que deve ser dessa ou de outra maneira que vai trazer o bem-estar e a redução das desigualdades. Realmente esse momento é muito importante para o Brasil. Eu nasci na Nova Zelândia e moro no Brasil há vinte e cinco anos e nunca vi o Brasil tão otimista quanto vejo hoje. Já vi otimismo de seis meses. Mas esse está há um bom tempo e a confiança é muito grande, acho que isso está refletindo no mundo inteiro.
Bolívia. Bolívia é aquela coisa. É o País mais pobre da América Latina. O governo Morales é um resgate histórico. Agora, para mim, Morales e Chávez (presidente da Venezuela) estão jogando dentro da democracia. Quanto a Chávez, tenho as minhas reservas e acho que o povo venezuelano também. Ele está perdendo referendo e apoio popular. Acho que ele está em um caminho perigoso, está sempre buscando conflito. Mas ele fez algumas coisas muito importantes. Aquele país riquíssimo não distribuía renda, aquela pequena classe domina e deixou todo o resto empobrecido. Eu sempre recuso a idéia de que Morales e Chávez são a mesma coisa. Eles são muito diferentes, e do mesmo modo que Brasil e Chile são diferentes no modo das políticas que adotam
A América Latina hoje está num momento muito importante na sua história. Há mudança na hegemonia mundial, que não é mais hegemonia americana ou da Rússia, aquela coisa de Guerra Fria já passou. Vivemos um momento de equilíbrio e acho que isso é bastante animador.

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O matemático

Neuton Corrêa*

Passaram-se cinco anos desde o meu encontro com aquele passageiro e ainda hoje as seis palavras que ele me falou continuam martelando o meu juízo. “Mais um dia, menos um dia”.

Penitenciei-me para o resto da vida. Ou melhor: para o resto do meu caminho em direção à morte. Até porque a culpa é minha. Fui eu quem procurou essa situação. Não tinha nada que provocá-lo.

Acho também que foi o destino que me colocou diante dele. Eu estava no Expresso 300 (Cidade Nova-Centro). Ah, por falar em 300, entre os passageiros, ele é conhecido por esse número não apenas por referência à linha, mas, também, pela quantidade de pessoas que sobe nele a cada deslocamento.

Coisa rara acontecia na viagem. O ônibus estava lotado, mas ninguém queria se sentar ao lado daquele homem. Só eu.

A tranqüilidade desse cidadão não combinava com inquietação que ele carregava. Deveria ter uns cinqüenta anos de idade. Assim que me acomodei ao seu lado descobri o porquê de outros passageiros terem dispensado a sua companhia. Ele exalava o cheiro animal do ser humano, mas dava para suportar.

Mas não foi o cheiro dele que me deixou perturbado. Foram as únicas seis palavras que ele me dirigiu, quando o abordei.

A primeira abordagem foi assim: “Tudo bem, mestre?”. E ele, nada. Fiquei desconcertado porque ele só fez olhar para mim e deu de ombros, com um olhar desdenhador. Depois resolvi encarar as conseqüências das minhas inconseqüências e perguntei-lhe outra coisa: “Mestre, como vai a vida?”

Foi aí que ele soltou a meia dúzia de palavras:
“Mais um dia, menos um dia”.

Na hora representei numericamente o que ele falara: + 1 -1. Depois continuei falando comigo mesmo. “Não, o que ele falou eu posso representar de outra forma”: 1 + 1 = -1. Fiz a terceira operação, partido daquilo ele me falara. Iniciei com o positivo, grafei o negativo e o resultado me levou ao nada, ao nulo, ao inexistente: + 1 – 1 = 0.

Repeti essas operações várias vezes nos últimos cinco anos para hoje chegar a uma conclusão: “Perguntei-lhe da vida e ele me falou da morte”.

Aquele matemático não havia falado nenhuma coisa impossível de se imaginar. Ele mostrou naquela operação simples a profundidade incrível da existência. “Somos seres finitos e temos consciência da morte. De fato, a consciência da morte é uma característica indefinidamente humana e desta forma podemos dizer que os seres humanos são os únicos seres mortais”. Foi isso que li em um filósofo chamado Heidegger. Aportuguesando, lê-se assim: Raideguer.

Se na operação um dia mais um dia o resultado sempre será menos um dia, então, era disso que aquele homem estava falando: a caminho do fim, todo passo à frente representa um passo atrás.

Justo eu, péssimo em matemática, fiquei perturbado com os números.

Quando dei por mim, o 300 já estava começando a ficar vazio. Estávamos na Avenida Constantino Nery. Havíamos passado do estádio Vivaldo Lima e parado em frente ao banco de sangue estadual, Hemoam, ao lado do antigo Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. E lá ele desceu.

Talvez, lá, um dia, eu desça também.

*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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O cientista e o presidente

Wilson Nogueira*

O presidente Lula surpreendeu os convidados da cerimônia de abertura da Feira Internacional da Amazônia, no dia 10 de setembro, no Studio 5, em Manaus, ao cumprimentar, quando discursava, o ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Ennio Candotti, que se encontrava na platéia. Disse que havia sido informado sobre a opção de Candotti pela Amazônia como lugar para morar e trabalhar. A decisão do cientista, segundo o presidente, não é um caso isolado: outros cientistas estão se transferindo do Sul e do Sudeste para regiões antes desprezadas em razão da ausência de investimentos em pesquisa.

Lula utilizou-se da ilustre presença de Candotti para dizer que o Brasil desenvolvido tecnológica e economicamente espraia-se, agora, para o Centro-Oeste, para o Nordeste e para o Norte. Os investimentos públicos e privados descentralizados atrairiam, na perspectiva do presidente, cientistas e outros profissionais de alta qualificação para regiões onde eles hoje são raridades. A função deles, além da ampliação dos projetos de pesquisa, seria a formação de novas gerações de pensadores e técnicos comprometidos com a realidade de cada uma das regiões do País.

O presidente seduz a todos com essa explanação, principalmente aqueles que vivem na Amazônia, onde as vagas nos cursos de pós-graduação são disputadas a tapas e beijos. Afinal, a presença do cientista, aureolado pela ciência como sinônimo de modernidade, denota a possibilidade de produção de conhecimento de uso amplamente legitimado. Trata-se de um fato animador. Ninguém em bom juízo menosprezaria o conhecimento cientifico como fator de aperfeiçoamento da humanidade.

Mas há nesse desejo de promovê-lo como ente indispensável uma questão crucial: qual e/ou quais conhecimentos interessariam às populações amazônicas? Seriam os mesmos dos formuladores das políticas públicas que agora dominam a política e a burocracia do País? Pois bem: a propósito, nos dias 16, 17, 18 e 19 deste mês, sociólogos da região Norte se reuniram em Manaus, em encontro promovido pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBC), realizado na Universidade Federal do Amazonas, para discutir o tema Amazônia em busca de novas abordagens.

Os participantes, entre os quais pesquisadores, professores e profissionais de outras disciplinas, esmeraram-se para legitimar o tema: avaliaram que as Ciências Sociais precisam ser mais ousadas e mais criativas para dar conta dos velhos e emergentes fenômenos e conflitos sociais amazônicos. Os mais visados são os relacionados à tentativa de flexibilização dos territórios e fronteiras tradicionais, que atingem, principalmente, as terras indígenas e os quilombolas, e os que derivam dos projetos de grande impacto ambiental e social, como os da produção de energia por grandes hidrelétricas e os de extração de minérios. As políticas do governo Lula para a Amazônia estariam muito próximas do desenvolvimentismo das décadas de 1960 e 1970, cujos resultados foram os mais nefastos possíveis.

Não faltam reclamações contra a falta de recursos para pesquisa para os Estados do Norte.

Entre os sociólogos, Candotti seria aplaudido certamente.
Quanto a Lula, sei não!

*Sociólogo, jornalista e escritor

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Paulo!? que Paulo? – O da arte, que arte?

Gerson Severo Dantas*

Assim como o Macaco Simão, que dirige uma mesopotâmica campanha anti-tucanês, eu também tenho lá minhas fixações ou perversões. Não gosto de bossa nova, que de nova não tem nada, é uma provecta senhôura de meio século, e já expus isso aqui no TEXTOBR em duas considerações. Pois bem, depois de muito tempo vi o comentário do Paulo, mas que Paulo? O Sampaio. Ele discorda do texto “A mais velhaca das bossas” e lança uma provocação e uma pergunta. A provocação é sobre o termo elite branca que perspeguei nos mediocres compositores e cantores da bossa. A pergunta é: “Se Jobim e Edu Lobo são péssimos compositores, o que é bom compositor para mim?” Vamos, no estilo Jack, o Estripador, por partes.

A provocação merece uma consideração rápida: antes de ser uma acusação, é uma constatação. Ninguém deve se sentir envergonhado, mesmo no Brasil onde a elite sacaneou meio mundo, de pertencer a uma determinada classe social. Somos capitalistas, assim nosso povo – contra a minha vontade e sonho – reiteradas vezes decidiu. Além do mais, o crime não extrapola a figura do criminoso, portanto não posso culpar um branquinho, de olhos verdes e morador da zona Sul carioca pelos crimes de lesa cultura brasileira praticados pela turma da bossa. Tenho dito!

A pergunta envolve uma análise mais completa. Sobre Edu Lobo não vou falar, ele não merece, é perda de tempo. Tom demanda um pouco mais de atenção, até porque em algum momento ele abandonou a fraude e enveredou, ao lado de Vinicius, pela lado bom da força e do verdadeiro samba brasileiro. Exemplo:
“Vim tanta areia andei,
Da lua cheia eu sei
Uma saudade imensa
Vagando em verso eu vim
Vestido de cetim
Na mão direita rosas vou levar”
É “Andanças”, provavelmente a música mais tocada nos barzinhos de todos os lugares do mundo. A música é belíssima.

Mas Tom tem suas culpas. “Chansong” é escrita em inglês e conta a chegada do maestro a Nova York. Não é a única composição em inglês desse expoente da bossa nova. Tem ainda “Don´t Ever Go Away”, “Double Rainbow”, “Dreamer” e “Drinking Water”. Há ainda versões “clássicas”, como “Girl From Ipanema” e “Corcovado”. Com isso penso que a tese do provincianismo exposta no artigo resta novamente provada. Ademais, inglês por inglês, prefiro Morris Albert e sua, essa sim, clássica “Feelings”. Por fim não me acusem de preconceito com os falantes da língua de Shakespeare, pois nela também sou versado.

O maestro Antônio Carlos Brasileiro Jobim também nos ofereceu um bom conjunto de músicas e composições que falam muito sobre aquilo que chamei de lócus determinado da bossa, aquele que fez de uma cidade feia e fedorenta um ideal de Cidade Maravilhosa. Temos, por exemplo:

Copacabana:
“Copacabana, princesinha do mar
Pela manhã, tu és a vida a cantar”

Corcovado
“Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo”

Ela é carioca
“Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais (…)
Ela é carioca, ela é carioca”

Garota de Ipanema
“Moça do corpo dourado
Do sou de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É coisa mais linda que eu já vi passar”

Samba do avião
“Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara
Esse samba é só porque Rio, eu gosto de você”

Vamos caso a caso: Copacabana, tirante a métrica, só devemos dessa música destacar que não fala do roubo dos desenhos do mosaico do chão de nossa Praça de São Sebastião. Sobre o Corcovado e a estátua do Cristo, devemos refletir sobre que beleza existe numa pedra lisa e negra e a megalomania de quem mandou construir, numa cidade pobre e miserável do início do século passado, uma estátua daquele tamanho e a um custo astronômico. Se concordar com essa obra, devemos todos retomar a idéia do ex-governador Amazonino Mendes de erigir uma estátua do índio Ajuricaba no encontro das águas. Você concorda? Do contrário, risque (fique de olho nessa palavra) Corcovado de seu i-Pod. Ela é carioca e Garota de Ipanema, bem nem devemos falar sobre um ideal de beleza cujos cabelos tingidos é um de seus atrativos. Para mim, sou mais as morenas belas (fique de olho nessas duas últimas também). Por fim, resta novamente provado que a bossa nova só serve, enquanto movimento cultura-musical, a uma pequena burguesia carioca e seus interesses localizados na zona Sul.

Enfim, mas quem é bom compositor mesmo? Como diria Cartola, “As rosas não falam” (fique de olho nisso também”. Tenho dito!

* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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A Raposa Serra do Sol e a independência do Brasil

Thaís Brianezi*

Eis que setembro vai chegando ao fim. Lá se vai o mês que reacende nacionalismos de variadas matizes, com ruas em todo o país sendo tomadas tanto por paradas militares, quanto pela já tradicional marcha do Grito dos Excluídos. Mais um setembro passa, mas o debate sobre a soberania nacional permanece. Nele, a Amazônia e hoje, especialmente, a terra indígena Raposa Serra do Sol são pauta fundamental.

Já expliquei em artigo no Overmundo por que eu não compro arroz de Roraima. Correndo o risco de ser repetitiva, retomo aqui no TEXTOBR o tema dos conflitos entre arrozeiros e indígenas. Poucas semanas após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter adiado o julgamento da petição que questionava a homologação em área contínua da Raposa Serra do Sol, acredito que não poderia fugir do assunto.

O decreto de homologação da Raposa Serra do Sol foi assinado pelo presidente Lula em 2005, após um longo processo formal iniciado em 1993, que cumpriu todas as etapas legais. Ironicamente, foi um senador petista, Augusto Botelho (RR), que apresentou ao STF a petição 3388, que contesta o direito dos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona ao território que tradicionalmente ocupam.

Quantos são esses indígenas e qual o tamanho do território onde vivem e trabalham? Talvez essa seja a primeira curiosidade do leitor urbano, constantemente bombardeado com o argumento de que é “muita terra para pouco índio”. Nos 1,74 milhão de hectares da reserva vivem 19 mil pessoas, o que daria 1,1 habitante por quilômetro quadrado. Comparada aos padrões do Sul do país, parece de fato pouca gente. Mas o que a mídia comercial não costuma informar é que a densidade populacional da Raposa Serra do Sol é quase o triplo do 0,4 hab/Km² das demais áreas rurais de Roraima. Dados do IBGE mostram que essa terra indígena concentra 21,4% da população rural do Estado. Por que políticos e formadores de opinião indignados com o “privilégio” dos indígenas não se incomodam com o fato de que na Amazônia temos muita terra para pouco grileiro?

Brasileiros e brasileiras

“Paulo César Quartiero, não esconde da imprensa que gostaria de ver parte do
território de Roraima incorporado ao país vizinho”.

O olhar da opinião pública sobre os indígenas e os latifundiários também é desigual quando se trata da distorcida ameaça de internacionalização da Amazônia. Os povos indígenas, em geral, não são reconhecidos como brasileiros que historicamente (e ainda hoje) ajudam a construir o país, inclusive por meio da ocupação e defesa de nossas fronteiras. Já os arrozeiros, vistos como vítimas de interesses estrangeiros sobre a região, carregam a bandeira da Venezuela em suas manifestações. O porta-voz do grupo, Paulo César Quartiero, não esconde da imprensa que gostaria de ver parte do território de Roraima incorporado ao país vizinho. Fã declarado de Hugo Chávez, talvez ele acredite que assim conseguiria manter a posse das suas fazendas localizadas na Raposa Serra do Sol.

O prazo máximo para que os produtores de arroz deixassem a terra indígena venceu no dia 15 de abril de 2006, um ano após a assinatura do decreto de homologação. A maior parte deles já recebeu, por meio de depósito judicial, a indenização correspondente. Apesar disso, permanecem no território provocando danos ambientais e violência. Em maio deste ano, Quartiero foi multado pelo IBAMA em R$ 30,6 milhões por desmatamento e contaminação do solo e das águas com agrotóxicos. No mesmo mês, passou oito dias na sede da Polícia Federal, em Brasília, preso por porte ilegal de armas e acusado de ser o mandante de ataques ocorridos contra indígenas.

Desde 1981, de acordo com o Conselho Indígena de Roraima (CIR), 21 pessoas foram assassinadas na luta pela demarcação da Raposa Serra do Sol, 103 foram agredidas fisicamente e 10 mulheres foram estupradas. Os números da destruição se estendem também aos bens materiais dos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona: 90 casas, oito roças, três escolas e 31 retiros comunitários foram derrubados e/ou queimados. Às margens não tão plácidas dos rios amazônicos, esses cinco povos que resistem pacificamente ecoam ao STF e a todos os brasileiros o brado heróico de “Justiça ou Morte”.

*Jornalista e mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam

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Janelas abertas!

Michelle Portela*

A informática facilitou a vida dos trabalhadores, mas ao mesmo tempo aprofundou as diferenças entre as classes sociais. Percebi como a frase, tão repetida sem conhecimento de causa no meu cotidiano acadêmico, é sentida na pele, ao conhecer três mulheres na manhã desta terça-feira (23), durante inauguração de um telecentro na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel.

Elas não lerão este artigo porque não sabem utilizar um computador ou desconhecem um vocabulário mínimo de inglês, a língua mais falada na Internet, que, por sua vez, nunca acessaram. Antes mesmo da inauguração do telecentro, procuravam uma vaga no curso de informática básica.

Nenhuma delas concluiu o antigo Segundo Grau, atual Ensino Médio, e, como chefes de família, enfrentam jornada dupla, como trabalhadoras e donas de casa. Contrariando o estigma do comodismo, ontem, foram brigar por novas oportunidades. Para mim, ressaltaram a vontade de conhecer um novo mundo: a internet. “Quero conhecer como funciona um computador, acessar a internet, coisa que nunca fiz”, disse-me Kedma Oliveira Vasconcelos, 21, ao sentar-se pela primeira vez à frente de um micro.

Há nove anos, Lúcia de Almeida usou um computador, porém, em uma única oportunidade. Desempregada, ela vislumbra a possibilidade de voltar ao mercado de trabalho tendo o curso de informática básica no currículo. “É o básico, mas nós não sabemos nem o básico”.

Cleidimar Patrícia de Oliveira, 24, quer melhorar seu desempenho e buscar novas oportunidades no emprego. “Quando me mandam fazer, muitas vezes não sei como. Quero conhecer mais”, afirma.

A iniciativa é inédita na comunidade Rio Piorini, no bairro Novo Israel. “Nosso bairro é escasso de tudo. Se buscamos qualquer atendimento, precisamos nos deslocar. Não temos escolas ou posto de saúde”, diz Maria Assunção da Silva Alfaia, 34, educadora popular e uma das coordenadoras do telecentro.

Fora das estruturas sociais da modernidade, estão condenadas a perder boas oportunidades de emprego. Sabe-se que, nesse mundo, as portas se fechem aos mais pobres e menos escolarizados. O filósofo e escritor francês Pierre Lévy acredita que o Brasil não é um excluído digital do mundo moderno. Para a inteligência coletiva, o principal obstáculo à participação não é a falta de computador, mas o analfabetismo e a falta de recursos culturais.

Imaginemos, em um País como o Brasil, o impacto que “o acesso” traria. A internet, ainda dialogando com Lévy, decerto aumenta as possibilidades de informação e controle democrático sobre as ações governamentais, bem como sobre as grandes empresas e todos os poderes de um modo geral. Porém, é preciso compreender o crescimento da internet como o prosseguimento do nascimento e da extensão da esfera pública que se manifestou com o desenvolvimento sucessivo da imprensa, do rádio e da televisão. O conjunto da sociedade se tornou um pouco mais visível, mais transparente, e, sobretudo, um número maior de pessoas puderam exprimir seus pontos de vista.

A internet permite, hoje, que milhões de pessoas se dirijam a um vasto público internacional – pessoas que não teriam podido publicar suas idéias nas mídias clássicas como a edição em papel, nos jornais ou em televisão. O TEXTOBR.COM surge como um movimento genuíno e convergente a essa análise.

Lévi me tranqüiliza, pois nessa hora de agonia, me auxilia na reflexão. Ao longo prazo, é possível que o uso da internet conduza a uma renovação da democracia participativa local e a formas de governo mundial mais eficazes do que as atuais. Evidentemente, nada disso acontecerá sem um comprometimento ativo dos cidadãos. A tecnologia se limita a abrir possibilidades. Somente a atuação das pessoas permite que elas se realizem bem.

Estou envergonhada. Sou cúmplice disso tudo. Pago uma internet cara, reclamo pouco da baixa qualidade do serviço e nem sabia que a comunidade Rio Piorini já estava asfaltada ou tinha abastecimento de energia. Na verdade, nem sabia onde ficava. Para a maioria, existem como uma massa de indesejáveis. Ao escrever esse texto, sofri porque não conseguia me definir pela identificação, ou não, das referidas entrevistadas. Decidi pelo sim. Ao me dar voz, quero oferecer a essas mulheres, minhas boas-vindas a um novo mundo!


* jornalista e mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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O ato de perguntar

Wilson Nogueira*

Dois jornalistas de Manaus, André Alves (a Crítica) e Valmir Lima (Diário do Amazonas), estão sob ameaça de processo criminal pelo governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB). Motivo do suposto crime: o exercício do ato de perguntar. O governador se sentiu ofendido em sua honra porque o vice-governador e candidato a prefeito de Manaus Omar Aziz (PNM) foi questionado, no programa Roda Vida (22.07.2008), da TV Cultura, sobre prováveis delitos de corrupção no governo estadual.

Caso venham a ser condenados – o que não é difícil, porque, ambos assalariados, não têm dinheiro para pagar advogados com a experiência dos que defendem Daniel Dantas – terão seus currículos enriquecidos por levar o jornalismo a sério. O governador, por sua vez, terá reforçado o medo que as autoridades autoritárias causam aos que lhes prestam obediência. Não casusa esforço imaginar, também, que empresas jornalísticas rasguem a convenção coletiva de trabalho assinada com o Sindicato dos Jornalistas e neguem defesa aos seus profissionais.

Textos que não sejam resultado de perguntas instigantes, com polêmica, com confrontação de fatos e idéias não se configuram jornalismo, ainda que bem arrumados nas páginas de jornais, nas telas de TV ou na Internet. Infelizmente, é o palavreado molenga, choco e cheio de dedos que prevalece sobre um punhado de leituras e audições que se caracterizam como do âmbito do jornalismo vibrante e corajoso.

André e Walmir perguntaram sobre assuntos que correm soltos nas esquinas, e sobre os quais, aliás, o governador se pronunciou em outras ocasiões. Tratam-se de denúncias de corrupção amplamente noticiadas pelos jornais e TVs do Amazonas, desde os supersalários, passando pela Operação Albatroz, até as obras de infra-estrutura pagas e supostamente não-realizadas nas cidades do Alto Solimões. Ora, são temas que, pela relevância, retornarão à ordem do dia na atual campanha eleitoral. O eleitor-contribuinte quer ser informado das providências tomadas pelo governo para punir os que subtraíram os cofres públicos.

Chega a ser ingênuo, para qualquer gestor público, imaginar que os escândalos conhecidos ou ainda não revelados passem em brancas nuvens em programas de TV, especialmente em período eleitoral. Isso só seria possível em um governo ditatorial, ou em situação de jornalismo faz-de-conta, no qual os entrevistadores fingem perguntar para que o entrevistado faça o gol de placa. Pela expressão do candidato Omar Aziz na TV, diante dos questionamentos de André e Walmir, os produtores do Roda Viva esqueceram-se de informá-lo de que o programa não seria uma sessão de lava-pés. Aliás, Omar ficou tão atônito que se atrapalhou na defesa do governo “deles”.

A atitude do governador, de ocupar mais de uma hora na mesma TV, no dia seguinte, para tratar do mesmo assunto, denotou desespero com a repercussão das denúncias contra o seu governo, arrogância e tentativa de intimidação a jornalistas que fazem perguntas de interesse público. Felizmente há profissionais que não se intimidam nem sob pressões dos poderosos, nem se rendem ao ambiente de autocensura.

Afinal, como diz o povo, o verdadeiro dono do dinheiro movimentado por “eles”: “Perguntar não ofende”.

*Sociólogo, jornalista e escritor

Também publicado no Jornal dos Jornalistas, edição julho/agosto de 2008 (http://www.jornalistasam.com.br/).

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Tempo de delicadezas

Eu tenho uma saudade generosa
Nos bolsos da camisa,
Anotações rabiscadas no
Guardanapo de papel
Para me despir frente ao sorriso
Do meu amado
Batendo à porta.
______________________________
Há quanto tempo não sei de ti
Dos teus sinais, encantos e sorrisos,
E tua espontaneidade, a quem entregas?
Há quanto tempo estão perdidos meus versos
Nessa estrada infinita de te querer…

__________________________
Vou quebrar os vidros
Do teu coração
Pra te pegar com as mãos.

__________________________
Estendo meus braços ao sol
Para secar a saudade de ti…
__________________________
Desse amor, guardarei os risos
que não escaparam pelas portas
cada vez que nos derretemos…
__________________________
Meus olhos encheram-se
de pássaros.
Vôo no adormecer.
__________________________
Meu amor por ti nunca acaba
Está guardado no amanhã.
__________________________
Quando ficar sem você
Vou partir para o deserto
E inspirada,
Cantarei como as cigarras,
Rasgando o silêncio da minha saudade
Pra espantar as lágrimas
Que não mereces.
Não olhaste nos meus olhos
Para dizer que ias…

Ana Celia Ossame

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“Brasil não conhece o Brasil, o Brasil não conhece a Amazônia”

A socióloga Edna Maria Ramos de Castro disse, no 1º. Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia, realizado em Manaus (AM), no período de 16 a 19 deste mês, que o Brasil revive as práticas desenvolvimentistas das décadas de 1960 e 1970, cujas conseqüências fora desastrosas para a Amazônia. A região, segundo ela, mantém-se no centro das discussões mundiais, mas sempre sob pressão de idéias que não consideram o modo de viver, de produzir e de pensar das sociedades que nela vivem. O Brasil, para ela, ainda se orienta por uma visão colonialista-evolucionista e por isso planeja suas políticas de desenvolvimento baseadas na dualidade progresso versus atraso. Edna Castro é doutora em Sociologia e professora na Universidade Federal do Pará. Confira a entrevista da socióloga ao repórter Wilson Nogueira.

A senhora disse, na sua conferência, que a Amazônia vive em dois mundos: o da pré-modernidade e o da modernidade. Como lidar com essa contradição?
É um dilema, né? O primeiro ponto é uma constatação. A Amazônia é falada, é vista, é discutida, é representada no mundo inteiro. É uma região que eles, fora daqui, não conhecem, eles percebem a região e o verde, mas não percebem muito bem a sociedade, não percebem muito bem a dinâmica da vida social. Hoje a Amazônia está no centro de discussão de inúmeros interesses. Podemos dizer que esse olhar sobre a Amazônia é o que transforma a representação que tem fora da Amazônia. Então, a Amazônia é uma região pós-moderna (para quem prefere esse conceito), ela está na pós-modernidade e na modernidade, no sentido de que a Amazônia está nas questões fundamentais que o mundo discute hoje. Por exemplo: a questão ambiental, que é um tema de angústia internacional, é um grande desafio porque diz respeito à própria sobrevivência não só humana, mas à sobrevivência do planeta; a Amazônia é um ponto de esperança dentro dessa possibilidade de discussão de meio ambiente. A Amazônia também é tema central quando se pensa nas possibilidades de recursos naturais, quando o mercado pensa na expansão econômica, na integração, em minérios, na pecuária, na produção industrial da madeira e dos fitoterápicos. Ela está no debate mais avançado, está em questões importantes da coletividade mundial. Nesse contexto, ela é uma região globalizada, as decisões que são tomadas são decisões globalizadas. Porém, essa mesma Amazônia é pré-moderna no sentido de que as grandes questões sociais da pré-modernidade persistem nela. Vejo isso como um grande desafio.

Qual o papel das ciências sociais nesse contexto?
Elas têm papel fundamental. Penso que a Sociologia deve uma leitura mais crítica, mais comprometida e mais original sobre a sociedade amazônica. Esse desafio não foi cumprido. Há uma série de colegas que estão trabalhando nesse sentido, mais esse fato é um desafio e, ao mesmo tempo, uma aposta que a Sociologia e as Ciências Sociais devem fazer para que o entendimento da região ou a representação dessa região, produzida dessa (nova) forma, atravesse a sociedade brasileira, porque o Brasil não conhece o Brasil, o Brasil não conhece a Amazônia. Não conhece e não tem consciência de que não o conhece.
Por isso, as instituições e pessoas que pensam o planejamento e as políticas públicas para a Amazônia – o Senado, a Câmara Federal, o Congresso Nacional e outros segmentos do Legislativo, Executivo, os intelectuais e as elites dominantes – representam, influenciam e definem de políticas absolutamente dentro de estereótipos, dentro de interesses pessoais que não dizem respeito à realidade dessa região.
Nós não podemos impedir essas representações. A mídia, por exemplo, reproduz uma representação espetaculosa da Amazônia, e ela influencia os circuitos de conhecimentos que vão sendo produzidos, repassados e se refazendo também, porque eles são dinâmicos. Não temos como atravessar essa representação de outra forma, a não ser pela produção de conhecimento mais aprofundado, mais comprometido e que rompa (com a atual situação), um conhecimento que tenha comprometimento, que tenha coragem de fazer ruptura com essas formas de interpretação e de representação da Amazônia que acabam sendo prejudiciais à vida social aqui, à vida social, à vida econômica, à historia, à memória da região, à diversidade das etnias. Esse um grande projeto para as ciências sociais.

Qual a causa da falta desse entendimento por parte das elites políticas, econômicas e intelectuais?
Eu não diria uma causa. A sociedade brasileira é atravessada por uma mentalidade colonial, evolucionista, linear e dualista, que vê o moderno versus atrasado, que vê ricos versus pobres, que vê desenvolvimento versus subdesenvolvimento. Isso está na cabeça dessas pessoas, faz parte de uma racionalidade e de uma mentalidade brasileira. Essa mentalidade colonialista não reconhece o outro, ela funciona na lógica da invisibilidade, ela não vê o outro, ela não o vê, mas ela recria, a partir da sua imagem e de seus interesses um projeto, por exemplo, de ocupação e de aproveitamento do que existe aqui, do que aquela outra sociedade, do que aquela outra região tem para lhe dar. Essa mentalidade colonial, que é reproduzida no Brasil, essa mentalidade dualista vê a Amazônia como subdesenvolvida. No fundo, o projeto que eles elaboram é um projeto Ocidental de desenvolver uma região subdesenvolvida, o que significa desenvolver sob a imagem criaram, porque eles não podem se contrapor a essa imagem, eles não têm outra imagem da Amazônia. Por isso, diria que não se trata de uma causa, mas de um sistema de conhecimento, de uma estrutura colonial atravessa a sociedade brasileira e que acaba percebendo, na Amazônia, o que ela tem de recursos. Também é uma mentalidade da busca do europeu, do espanhol, do português, da busca do outro, as mesmas bandeiras que desbravaram o sertão em busca também de recursos. Acho que é esse a mentalidade que prevalece.

Como reverter esse problema?
A única forma de se contrapor a esse conhecimento é produzindo outro conhecimento. Isso significa produzir conhecimentos e interpretações, e torná-las visíveis, como vocês fazem, por exemplo, numa mídia comprometida, num jornalismo comprometido com essas preocupações. Existem vários profissionais na Amazônia fazendo isso. Isso significa romper com esse tipo de interpretação, mas tendo algo para colocar como interpretação a partir de uma visão amazônica.

“A bandeira ambiental, a meu ver, é consistente e coerente, mas não pode ser
separada de um entendimento da sociedade”.

O ambientalismo se apresenta como includente, mas essa questão pode ser vista como fundamental às incompreensões a respeito da Amazônia?
O ambientalismo ou o debate, ou a militância em torno da problemática ambiental precisa também ser vista no que há de diferente. Não se trata de uma coisa homogênea: há grupos diferentes que se filiam, digamos, dentro de um determinado ambiantalismo. Tem-se uma empresa que é poluidora, mas que está falando de responsabilidade social. Temos que distinguir sobre o que estamos falando. A bandeira ambiental, a meu ver, é consistente e coerente, mas não pode ser separada de um entendimento da sociedade, porque já se incorreu no erro de se pensar a Amazônia simplesmente pelo verde, que é pensar a Amazônia apenas como meio ambiente. Essa é uma forma de invisibilizar ainda mais as dinâmicas sociais, culturais étnicas das sociedades que vivem aqui há milênios, que construíram sistemas de conhecimento, que construíram formas e modelos de sobrevivência autênticos e originais. Essas sociedades devem provocar esse debate sobre meio ambiente; e não nós adotarmos modelos ambientalistas alienígenas.
O primeiro esforço é o de separar esses discursos, porque eles aparecem como homogêneos, mas eles não são homogêneos. Depende muito de quem formula a idéia e de quem pratica esse ambientalismo, e como a sociedade é uma sociedade de classes, torna-se, também, uma sociedade de interesses diferentes; é, do mesmo modo, uma sociedade múltipla nos temos que essas propostas ambientalistas também são propostas múltiplas, de acordo com os atores e sujeitos que trazem essa proposta. Esse é o primeiro ponto.
O segundo ponto: é que a questão ambiental é central, ela tem uma centralidade nas discussões da sociedade regional. Não dá para se deslocar da Amazônia esse debate ambiental, mas dá para problematizá-lo e enriquecê-lo a partir de que? A partir das percepções, a partir do conhecimento dessa região que foi produzida pelos diversos grupos sociais aqui existentes e, também, pela sociedade nacional. Nesse caso há uma aliança de grupos que se dá em nível nacional, não se dá apenas em nível regional. Essa dimensão nacional precisa ser resgatada na importância que ela tem.

São recorrentes os vários pontos de tensão entre a Amazônia e Brasil. As decisões ou indecisões sobre elas têm destinos definidos na política…
Entra aí a relação Estado versus sociedade e a produção do conhecimento científico. O primeiro ponto é que temos que ampliar a nossa capacidade institucional de fazer pesquisa. Temos que tomar em mãos um pouso isso: institutos de pesquisas, produção de conhecimento, recursos para pesquisa, porque a Amazônia sempre ficou mal servida dos recursos públicos para a área da pesquisa, e esse campo tem que avançar, aumentar os programas de pós-graduação e abrir novos campos de produção de conhecimento na região. Isso me parece que é um ponto fundamental, sobretudo, porque as políticas públicas de desenvolvimento para a região trabalham numa abordagem que volta um pouco aos anos sessenta, de uma perspectiva desenvolvimentista, de desenvolvimento de infra-estrutura, de grandes projetos, e muitas vezes esses projetos deixam de fora toda a dimensão social. Pensam mais numa dimensão econômica, achando que o econômico, a médio termo, vai acabar resolvendo os problemas da sociedade, os problemas de infra-estrutura, os problemas de falta de recursos para a educação, para a saúde, melhoria das cidades, enfim, que são problemas cruciais que a Amazônia tem em todos os seus estados. Sabe-se que os índices de IDH dos Estados da Amazônia e dos municípios da Amazônia são os mais baixos do Brasil.
Quando pensarmos em política, por exemplo, temos que pensar num quadro que temos: as duas metrópoles da Amazônia, porque eu considero Manaus também como uma metrópole, estão entre as dez primeiras em situação de maior precariedade do Brasil, e Belém é a terceira. Quando pensarmos em desenvolvimento, temos que pensar nisso, isso é fundamental. Não é só o desenvolvimento de estruturas empresariais e econômicas, porque muitas vezes, como no caso da Jari, deixa de muito pouco de desenvolvimento regional. Quer dizer: tem uma grande empresa de fábrica produzindo celulose e grandes plantações de melina, pinos etc. e, por outro lado, tem-se um beiradão com uma população enorme vivendo em péssimas condições.
A mesma coisa é termos um imenso projeto de mineração Carajás e ter-se uma pobreza em volta dele. Então, no conceito de desenvolvimento, tem que estar contida a solução para esses problemas gravíssimos que a população tem. Nesse início de século voltamos, portanto, a questões cruciais que, para as Ciências Sociais, conduziram os debates dos anos sessenta. Um dos temas mais marcantes do debate nas Ciências Sociais, na Economia, na Sociologia, na Política e na Antropologia e na Geografia eram o desenvolvimento e o subdesenvolvimento, e sobre como encontrar um modelo mais adequado para a Amazônia. Hoje estamos no início de outro século, mas nós estamos voltando às políticas, pelo menos as que nos avizinham, de perspectiva mais desenvolvimentista, que recupera uma dimensão e uma lógica dos anos sessenta, cujas conseqüências nos as conhecemos muito bem. Isso não me deixa desconhecer que há muitas políticas sociais no atual governo
Para fechar esse pergunta, quero dizer o seguinte: desenvolvimento de ciência e tecnologia não é uma coisa neutra que paira acima dos mortais, ciência e tecnologia é uma coisa muito concreta. Quando se faz ciência e tecnologia tem-se que saber para o que se faz. Portanto, pensar ciência e tecnologia para o desenvolvimento, é pensá-la para o desenvolvimento do conjunto da sociedade e que todos tenham o direito de acesso aos resultados desse conhecimento; e os resultados desse conhecimento não podem se beneficiar apenas algumas empresas ou algumas regiões em detrimento da maioria da sociedade. Isso significa colocar no centro da discussão o direito, os direitos sociais, a noção de justiça, a noção de equidade como fundamentais dentro de um modelo mais avançado de desenvolvimento.

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O triunfo dos nerds!

Michelle Portela*

Nas escolas católicas, padres acumulam a função de professor de religião e supervisores pedagógicos. Quando fazia o segundo grau, atual Ensino Médio, no Colégio Dom Bosco, fui surpreendida lendo “Morte: o grande momento da vida” e ouvi um sonoro: “quem é este herege?”, para, em seguida, ser encaminhada para a psicóloga.

Fiquei chocada! Disse para a senhora que me avaliou que não entendia como não podia ler mais uma grande obra de Neil Gaiman, escritor e quadrinista britânico que usava sua literatura de forte apelo poético para tratar de temas clássicos, fazendo uso de mídias tradicionalmente discriminadas e levando-as a alcançar status de best-seler em países do “primeiro mundo”. Deu certo, a ponto do fato não constar em meus registros.

De certa forma, conhecer Neil Gaiman foi determinante em minha vida. A admiração faz com que obra e autor façam parte do meu cotidiano, seja em referências literárias ou em experiências de vida. Acesso o blog journal.neilgaiman.com diariamente, tenho a coleção completa da graphic novel Sandman, obra que o elevou de escritor de história em quadrinhos à posição de autor, e dos livros publicados no Brasil, e minha fantasia favorita é Stardust, que narra a queda e a luta pela sobrevivência de uma estrela para falar de humanidade. Ele me apresentou um novo mundo, no meu próprio tempo. Falando sobre ele, me aproximo de qualquer pessoa no planeta. Para mim, ele abriu portas.

Mais sobre ele? Ao receber homenagem no Scream Movie Awards de 2007, subiu ao palco, de calça e jaqueta de couro e um perceptível óculos de grau, para dizer que aquele “era o triunfo dos nerds”. Em Paraty, na Flip, deixou a sala vip e foi passear com a filha pela cidade. Tirou, inclusive, foto abraçado ao “curupira”.

Concretizando as expectativas manifestadas na internet, tanto por fãs quanto pelo próprio Gaiman em seu blog, ele ficou por seis horas consecutivas autografando livros e quadrinhos de leitores emocionados, que superaram mais de um dia de espera na fila, como expuseram membros de comunidades virtuais que freqüento. “Se antes o amava, agora o amo mais ainda” se tornou um novo tópico após o episódio. É o maior recordista de autógrafos da Flip.

A atitude chamou a atenção do escritor Tenório Teles, que esteve na Flip e hoje usou o exemplo “daquele autor” para falar do comprometimento que a categoria deve ter para com seus fãs, em reunião preparatória para o Festival Literário da Floresta (FliFloresta). “Esse rapaz deu um grande exemplo de humildade”, reconheceu Tenório.

A citação me fez retomar uma análise crescente. Não é nova a constatação, mas não custa lembrar. Há escritores muito simpáticos que escrevem mal. E há escritores antipáticos que escrevem bem. Agora, nada como encontrar escritores simpáticos e competentes no que fazem. Podiam ser antipáticos se quisessem. Porém, são simpatias pessoais que garantem a priori simpatias literárias. Vide Tenório, que sequer sabia o nome do cara.

Nesse caso, transfiro o julgamento do mérito literário aos leitores, mas garanto que é sempre mais agradável conversar com um autor simpático, aquele que talvez nem se atribui importância indevida, do que com coroas que se tem em alta conta e enfiaram a modéstia no canto da bolsa de marca.

Cees Nooteboom, um outro grande autor, nem sei se simpático ou antipático, traduz meus sentimentos assim em Paraíso Perdido:
“Ele costumava não suportar a maioria dos escritores como pessoas, sobretudo se admirava o trabalho deles. Mais valia jamais encontrá-los. Melhor seria se fossem de papel e estivessem encadernados.”

* Jornalista e mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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