Archive for outubro, 2008

Festa para a literatura na Amazônia

Ao menos 200 mil participarão das atividades do 1º. Festival Literário da Floresta (Flifloresta), que será realizado no período de 17 a 22 de novembro, em Manaus, capital do Amazonas. A proposta do evento é promover o encontro dos leitores da Amazônia com 83 autores convidados. As atividades dirigidas à celebração do livro se concentrarão no Parque Municipal dos Bilhares, uma área de 60 mil metros quadrados, no bairro Chapada, onde serão erguidas tendas temáticas.
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Flifloresta também abrigará os simpósio de Natureza e Cultura e Leitura e Formação de Leitores, que serão realizados no auditório da Reitoria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Ambos terão como foco a Amazônia. Os debates envolverão pesquisadores, estudantes, professores e profissionais que atuam em instituições ambientalistas. O simpósio de Natureza e Cultura elaborará a Carta da Floresta, que será lida na Cachoeira da Onça, no município de Presidente Figueiredo (a 100 quilômetros de Manaus).

Seis convidados de fora do Brasil já conformaram presença: José Eduardo Agualusa (Angola), Ernesto Cardenal (Nicarágua), Artur Pestana “Pepetela” (Angola), Fernando Rendón (Colômbia), Arturo Corcuera (Peru) e Carlos Quiroga (Espanha). Dos demais Estados virão 27 convidados, entre eles João Gilberto Noll, Alex Bueno, Raimundo Carrero, Daniel Galera, Fabrício Carpinejar, João de Jesus Paes Loureiro e Vera Du Val. O Amazonas terá 47 participantes, entre eles Milton Hauton Thiago de Mello, Marcio Souza e Elson Farias.

O diálogo dos leitores com os autores ocorrerá no Café Literário, em uma das seis tendas do parque, com capacidade para 200 lugares. Haverá, também, sessão de autógrafos após cada palestra. Todo o ambiente do parque foi recriado para a festa em homenagem ao livro. “Autores e leitores se sentirão cúmplices dessa grande celebração”, disse Isaac Maciel , um dos coordenadores do Flifloresta.

O Flifloresta terá uma programação dirigida ao público infanto-juvenil, o Florestina, realizada em parceria com Serviço Social do Comércio (Sesc). Nesse espaço, crianças e adolescentes terão encontro com autores, sessões de cinema, teatro e música. O Sesc elaborou e vai gerenciar o Florestinha com uma equipe que tem experiência de mais de uma década com a realização de feira de livro dirigida ao público infanto-juvenil.

Mais informações no site: www.flifloresta.com.br

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A pregação

Ilustração: Myrria

 

 
Neuton Corrêa

Orai e vigiai, irmãos! A luta contra o demônio não acabou! Tive o coração tocado por essa verdade na última viagem que fiz a bordo do ônibus 219 (Augusto Montenegro-Centro). A pregadora que me fez pensar assim conseguiu isso com poucas palavras. Nem precisou colocar meu nome na caixinha de orações nem mergulhá-lo no óleo santo da Nação dos 318 da Igreja Universal.

Aquela mulher foi direta.

A pregação dela destruiu tudo o que eu já havia planejado para pôr em prática, caso algum dia resolvesse atender ao convite das minhas colegas de sala de aula Priscila e Ana Cleide.

Antes, já havia me imaginado em um púlpito da Assembléia de Deus, caso fosse persuadido pela Ana e pela Priscila: “Eu falaria para o público: ‘irmãos, Jesus vai voltar; irmãos, o julgamento final vai chegar.’ Em seguida, via-me indagado: ‘lá vem o senhor de novo com essa conversa!”.

E as divagações foram se sucedendo desde o dia em que comecei a ser convidado para tornar-me pastor. Desisti naquele encontro com a pregadora do 219.

De lá para cá, penso que deveria ser, sim, também um pregador. Mas um pregador agnóstico, que prega a destruição de Deus e que promove a construção do homem. Mas essa idéia está por demais cansada. O momento não é próprio para esse tipo de coisas de super-homem. A propósito, essa idéia de super-homem dizem que levou a Alemanha ao nazismo. O defensor original dessa história era um cara chamado Nietzsche (pronuncia-se: Nítche).

O momento agora é o de crença. O homem está em crise. E todas as vezes que isso acontece na história da humanidade as pessoas recorrem àquilo que está mais distante delas – ou quem sabe mais perto.

Aquela pregadora mostrou o momento atual: o de encarar a luta contra o demônio!

Ela subiu na viagem três paradas depois da minha, no bairro Alvorada. Debaixo do braço carregava uma Bíblia e vestia uma túnica cinzenta, de tecido remendado. A imagem dela lembra aquelas figuras de filmes da Semana Santa. Ela entrou apressada no carro e discutia com um grupo de rapazes que a zombavam na parada de ônibus.

Inquieta, não se sentou, embora houvesse um grande número de cadeiras vazias. Os rapazes da parada continuaram. Ela, então, furiosa, colocou a cabeça pela janela do ônibus e gritou:

- Vai dar tua bunda, filho da mãe, para ver se tu ganha um real!
Todo mundo se assustou. Ela pôs o corpo de volta e recomeçou sua pregação para os passageiros, agora, com um tom mais moderado:
- É, mano, com satanás é assim: a gente não pode dar mole!

Ela continuou a pregação até as proximidades do estádio Vivaldo Lima, onde eu e o meu filho desembarcamos.

* Filósofo, graduando em Jornalimso e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Novas fronteiras para a Amazônia

Wilson Nogueira
Do Blog

Os colombianos começaram a debater uma nova lei de fronteira. Não faltarão temas conflituosos e polêmicos, principalmente na redefinição do conceito de integração fronteiriça. “Só estamos começando a conhecer e a discutir essa lei”, avisa o diretor da Universidade Nacional da Colômbia em Letícia, doutor em Sociologia Carlos Zárate, que investigou, na sua tese de doutoramento, a formação das populações fronteiriças da tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. Nessa região, segundo ele, formaram-se sociedades transnacionais, que precisariam ser reconhecidas, também, por meio de políticas públicas e cooperação econômica e cultural integradas dos três países. Os problemas sociais entre os três países, para o pesquisador colombiano, só serão resolvidos se o antigo entendimento a respeito da soberania de cada país deixar de ser pensado isoladamente. Confira a entrevista:

Como se deu a formação social da tríplice fronteira?
A minha tese de doutorado é sobre a formação de uma sociedade transnacional na Amazônia do Brasil, do Peru e da Colômbia na época da exploração da borracha, entre 1880 e 1930. Nessa época, a partir do comércio da borracha, deu-se o encontro entre pessoas de diferentes nacionalidades. No caso do Brasil, de nordestinos; no caso da Colômbia e do Peru, de gente de diferentes províncias dos Andes; no caso do Peru, de gente, também, de outras partes do país. Todas essas populações se encontram numa área de extração que chamamos hoje de fronteira amazônica desses três países. Desde essa época, formou-se, nessa região, uma fronteira e, também, um contato transnacional.

Qual a experiência tirada dessa singularidade?
A experiência que se obteve, conforme os estudos desse período, é que muitos dos marcos atuais das fronteiras surgiram nessa época, com os contatos entre indígenas e agentes estatais, assim como soldados, funcionários de aduanas e outros tipos de funcionários, e com seringueiros também; caucheiros do lado peruano e seringueiros do lado brasileiro, e deu-se na formação de uma mistura e formação de uma cultura de fronteira, uma cultura de contato entre as gentes desses países. Depois se constituiu uma amalgama muito mais forte que explica que hoje existam pessoas que moram em lugares como Letícia e Tabatinga, ou em Santa Rosa, do lado peruano, que foram miscigenados biologicamente, e que seus filhos são resultado de uma mistura de etnias e, também, de nacionalidades. Isso resultou na particularidade dessa gente da fronteira hoje: pais brasileiros e mães colombianas ou pais peruanos e mães colombianas, que geraram um tipo de pessoas diferentes das que temos no resto dos nossos países, que são as gentes de fronteiras.

Qual a implicação dessa composição histórica para os três países?
Uma das conclusões desse trabalho de pesquisa é que a formação das fronteiras é um acordo, é uma negociação, uma disputa entre diferentes países e nações. Só acho que essa noção de soberania que se tinha no século passado tem que ser reavaliada, porque o problema de soberania não é um assunto de cada país, separado; e, sim, uma relação entre os diferentes países. A Colômbia, por exemplo, não pode proclamar a sua soberania sem levar em conta o Peru, sem levar em conta o Brasil. A definição da fronteira, nesse caso, é o resultado de uma negociação às vezes conflituosa entre forças distintas. Mas não se explica que um país, sozinho, crie a sua fronteira sem levar em conta seu vizinho, Por isso, em termos geopolíticos, não podemos explicar a história de Letícia sem explicar a história de Tabatinga, no Brasil, sem explicar a história de Santa Rosa ou de Cavalo Cocho, no Peru. Essa é uma história comum.

Esses seriam os principais elementos de integração?
Em termos geopolíticos, isso significa que há elementos importantes para a integração dos nossos países aí nessas zonas. Apesar de se seguirem as decisões de tipos nacionais, que são importantes também, não se deveriam desconhecer todos os elementos de integração que existem não somente em nível dos países, mas, sobretudo, dos povos, porque encontramos políticas nacionais que, ao contrário, impedem uma verdadeira integração. Em termos geopolíticos vemos, por exemplo, que, em Tabatinga, temos um aeroporto internacional e em Letícia temos outro aeroporto internacional. Se não existe cooperação entre os dois aeroportos, não é possível que se usem ambos porque há aí uma legislação nacional que impede essa cooperação. Essa visão de geopolítica e de soberania, penso, deve ser superada. Isso deve ser superado para se garantir o melhor aproveitamento das vantagens que têm em cada país.

De modo prático, como essa cooperação se daria em benefício das populações que vivem nas fronteiras?
Os povos que vivem ali (na fronteira) sabem que existem populações indígenas da etnia Ticuna que vivem, lado a lado na fronteira, que utilizam os serviços dos três países, que aproveitam os seus laços de parentesco para desnacionalizar-se, para aproveitar-se de três sistemas nacionais distintos. Isso deveria ser feito não apenas pelos povos, mas, também, pelos Estados que estão nesses lugares. Há alguns elementos de cooperação entre o Exército brasileiro e o Exército colombiano, porém, para outros assuntos deveria haver mais cooperação e não somente em termos das forças militares. Em relação a essa soberania da qual estamos falando, poderia haver, também, mais entrosamento em termos de educação, de saúde e de outros serviços que os Estados deveriam ter mais entendimento e maior cooperação.

E a integração dos povos indígenas? Ela poderia ocorrer de forma mais consistente?
Se falarmos dos povos indígenas que vivem na fronteira, há uma dificuldade para que se realize, na verdade, uma integração entre eles, e é possível que essa dificuldade continue existindo no futuro. Estamos falando, por exemplo, de que existem diferentes políticas lingüísticas. Seria difícil o povo ticuna ter uma só língua, uma só escrita, porque eles estão mediados pelos sistemas nacionais, pelo português e o espanhol. Há também, na organização política, muita divisão entre o povo ticuna de cada país. No Brasil, por exemplo, há líderes que têm divisões internas que impedem uma melhor integração dentro do mesmo povo ticuna. As fronteiras ajudam a reforçar essas divisões, eles têm que ver como, no futuro, poderão se integrar melhor em termos políticos. Em termos culturais, eles estão mais integrados. É possível que a etnia ticuna esteja praticando e expressando, nos três países, a mesma cosmovisão e as mesmas tradições. Eles têm muitas tradições em comum, como a raspagem do cabelo das adolescentes verificada nos diferentes países, mesmo assim eles terão que romper com algumas barreiras fronteiriças que há entre eles. Então, sendo assim, eu penso que, eles seguirão tentando encontrar caminhos de melhor entendimento, mas as políticas nacionais não ajudam, acabam contribuindo para que haja um impedimento para a melhor integração entre o povo ticuna.

Qual é o nível dessa integração hoje?
Você sabe que os laços de parentesco entre os índios são muito fortes. Eles têm parentes no Brasil, têm irmãos na Colômbia ou no Peru. Você sabe que a política do Estado brasileiro de aposentar, de apoiar a população anciã indígena, faz com que muitos indígenas do Peru ou da Colômbia passem a viver no Brasil porque existe esse apoio do Estado. O povo ticuna tem muitos elementos de integração que vêem cotidianamente. Mas há, também, muitas diferenças em termos de religião. Sabemos que em muitas comunidades eles praticam ou tem uma visão religiosa diferente das outras. Estamos falando dos evangélicos, das igrejas cristãs ou da persistência dos movimentos messiânicos, como o cruzismo, que são elementos culturais que geram algumas diferenças entre as distintas comunidades. Então, todos esses elementos têm que ser levados em conta para o seu fortalecimento cultural e integração.

Qual é o impacto social do conflito armado colombiana na fronteira?
O conflito interno colombiano não tem produzido um grande efeito sobre a fronteira, no sentido de que não há uma migração em massa da Colômbia para o Brasil. O que existe é um fluxo migratório de baixa intensidade. Reconhecemos, entretanto, que há pessoas que, por causa do conflito interno na Amazônia se deslocaram para zona de fronteira, principalmente para Letícia. Conhecemos umas duzentas ou trezentas famílias que abandonaram suas localidades para fugir do conflito, e algumas passaram para Manaus. Existem famílias de refugiados, não tenho os números, que se assentaram em Manaus.

A Colômbia, neste momento, discute uma nova lei de fronteira. Quais os pontos polêmicos dela?
Agora estamos discutindo os pontos polêmicos de um projeto de lei que está apenas em fase de estudo. Estamos começando a discutir essa lei de fronteira. É um projeto muito recente. É uma lei que trata da integração fronteiriça. Ela divide o país em várias regiões fronteiriças, define uma série de mecanismos de integração da economia e da política. Só estamos começando a conhecer e a discutir essa lei. Esse processo, que está muito recente, ainda não se tem avançado muito nele.

Para o senhor, como deve ser essa lei?
O melhor seria uma lei de fronteira que avançasse, com muita imaginação, para o reconhecimento da região transfronteiriça como uma zona de integração social, econômica e política, da qual participassem as comunidades (rurais e urbanas), os indígenas e os demais setores da sociedade fronteiriça. Deveria ser uma lei muito boa para os três países, pelo menos nessa zona de fronteira com o Brasil e o Peru.

Não haveria, então, uma relativa integração entre os índios hoje?
Os povos indígenas estão integrados faz muito tempo aqui. Antes que existisse a fronteira elas já estavam nesse território compartilhando do que se tornaram, mais tarde, as zonas dos três países. Eles, nesse aspecto, estão integrados natural e socialmente.

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Manah Manaós

Antônio Paulo*
Maio/1991

Manah Manaós
De longe te vejo
Do alto da hiléia habitada
Num fim de tarde de maio
Na hora do rush citadino.

Teus arranha-céus em meio à floresta
Tuas obras faraônicas.
O verde se confunde com o granito
Num céu cinzento de fumaça industrial.

Goles de cerveja te observam, vislumbram
O paisagismo vesperal
Sem pensar, sem refletir
Sobre o caos que espelha em tua face.

Favelados, loucos mal tratados
Operários escravos da zona
Que nada tem de franca.

Manah, Manaós!
Calcutá dos trópicos,
Ecológica por excelência
Governada por Boto
Parido da corrupção e da mentira.
Alguém de te viu e vê como tu és
Mesmo que seja numa tarde de sol poente.

* Jornalista, correspondente do jornal A Crítica em Brasília (DF)

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Educação não é nada: uma idéia clara e distinta de Renato Janine Ribeiro

Gerson Severo Dantas*

O filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é um cara de coragem e de idéias claras e distintas, como bem recomenda Descartes. Conheci o professor lá pelos idos de 90, quando era presidente do Centro Acadêmico de Filosofia (Cafca) da Universidade Federal do Amazonas – uma das piores experiências da minha vida – e desde lá acompanho suas idéias ao longe. Intelectualmente umas vezes me distancio, outras tantas me aproximo.

A intensidade desses movimentos, sobretudo os de aproximação, dá-se em conformidade com minha transição para as hostes conservadoras da sociedade. Dessa experiência gostaria de dividir com os leitores aqui do TEXTOBRASIL duas questões postas por Janine nos últimos tempos: a defesa da pena de morte para os bandidos que arrastaram e mataram no ano passado o menino João Hélio, de seis anos, no Rio de Janeiro, e a constatação de que Educação não é a solução para os males do Brasil, como tão insistentemente defendem pedagogos de amplas matizes.

A pena de morte, defendida em artigo publicado na Folha de São Paulo, era, nas palavras de Janine, uma reprovação da sociedade, não uma simples eliminação física dos criminosos. O filósofo reconheceu que a defesa de uma pena que fracassou em todos os lugares em que foi aplicada era mais uma manifestação, uma implosão da razão pura dele, uma reação à violência com a qual o crime foi praticado. Era a revolta do cara pago para pensar, para racionalizar as mais diferentes e extremas situações. Gostei dessa só pela coragem dele em se expor na contramão da razão e do “senso comum intelectualizado”. Faz mais de um ano que gostaria de escrever isso, mas… taí.

A constatação de que a Educação não é nada, não é tudo se não vier complementada por outras ações foi feita num programa da TV Câmara. O filósofo defendeu que a universalização da educação pura e simples causa apenas o barateamento da mão-de-obra, ou seja a socialização da miséria bem qualificada. É o caso de Cuba, onde todo mundo tem anel de doutor, mas ganha uma miséria de salário. O pulo do gato para escapar dessa situação é equilibrar o binômio universalização da educação x geração de emprego. Ou seja temos que dar uma martelada no cravo do social e outra na ferradura da economia. Original o filósofo, não? O que acharam?

Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Lula, eleição, Eloá, Polícia e a Montanha dos Sete Abutres

Gerson Severo Dantas*

O povo brasileiro, e o manauara em particular, tem umas coisas que só nós mesmos para agüentar e (não) entender. É capaz, por exemplo, de eleger duas vezes presidente um metalúrgico, garantir-lhe popularidade recorde – maior do que JK ou Getúlio Vargas jamais sonharam ter – e ao mesmo tempo ignorar solenemente seus candidatos aliados. Em Manaus, tende, se as pesquisas estiverem certas, a se reencontrar com o passado. O que será que isso significa?

Pois bem, esse intróito nariz de cera é para dar cores mais vivas à discussão que gostaria de trazer a baila nesse espaço: o que faz pessoas desconhecidas irem a velório de pessoas que não conhecem? Fulanizando: o que 40 mil pessoas foram fazer no enterro da Eloá? Mais um pouco: Por que será que hoje a Polícia Militar de São Paulo parece, nos meios de comunicação, mais culpada pelo desfecho trágico do seqüestro do que o assassino Lindemberg?

Vou meter a colher nesse assunto sem qualquer tese na cabeça, apenas remoendo o que vi e ouvi na televisão instalada numa parede às minhas costas na redação do jornal que trabalho. Dessa posição privilegiada, vi a multidão aplaudindo o cortejo fúnebre, vi gente, ainda no velório, carregando criancinhas para ver o corpo inerte de Eloá, vi gente tirando fotos do corpo, vi gente chorando a tragédia na hora da descida à sepultura. O que movia essas pessoas? O espetáculo midiático do seqüestro transmitido ao vivo e em cores, com entradas do seqüestrador ao vivo no Ana Maria Braga, na Sonia Abrão? Que coisas são essas, meu povo?

Fui recentemente ao enterro de um querido tio, Luis Severo – da segunda geração de Severo da minha família – e de lá sai com uma tristeza danada, pequenas lembranças de momentos felizes com ele e meus primos na cabeça, com uma preocupação danada com minha tia. Posso afiançar, um velório machuca a alma da gente. Encarar aquilo tudo fazia sentido, era um rito de passagem doloroso que eu e nossa família tínhamos de passar, mas no caso da Eloá… Que sentido fazia para aquelas pessoas sofrerem a dor que não era delas? Ou será que a dor era, sim, delas também? Se era, que dor era essa que deve ter feito alguém faltar o trabalho para ir a esse enterro? Que dor era essa que fez uma dona de casa pegar sua filha pequena, tomar um ônibus (o que em São Paulo imagino ser uma coisa mais complicada do que em Manaus) e disputar espaço com outras 39.998 mil pessoas e mais a pequena família da menina assassinada? “Tamo” precisando de um sociólogo para explicar essas situações, que, aliás, não se restringem a enterros.

Vocês se lembram da saída do casal Nardoni – acusado de matar a filha Isabela – para a penitenciária? Pois é, já naquela oportunidade me incomodei com a multidão que se aglomerou em frente ao prédio para assistir à polícia recolhê-los ao xilindró. Lembro bem de uma senhora, já entrando na terceira idade, dizendo que viajou quatro horas de ônibus para ver a cena, o castigo dos Nardoni. O que motivava essa senhora, meu Deus? Será que não tinha nada melhor a fazer? Será que isso era o melhor que tinha a fazer: condenar o casal previamente com sua raiva, sua crença na versão da polícia e da mídia?

Pois bem, essa era a deixa que vinha costurando para discutir, já de forma teórica, refletida e acadêmica, a atuação da mídia nesse caso. Para mim foi deplorável, condenável sob todos os aspectos, antes, durante e depois. Tratou-se, como costumamos dizer nas aulas da faculdade, de espetacularizar a notícia, colocar mais drama numa situação que já era em si dramática. Chego a concordar com os que apontam o dedo para certos apresentadores de televisão que entrevistaram o seqüestrador.

Meu Deus, para que dar voz a alguém que está cometendo um crime? Mesmo que não tivesse matado Eloá, Lindemberg já ferira uns seis ou sete artigos do Código Penal. Era um bandido – apesar das motivações – no exercício de seu metiê. Ganhou as luzes da ribalta, auto-proclamou se “príncipe do gueto”, “o cara”. Tinha razão, a mídia irresponsável – que se contrapõe à responsável – o transformou em astro relâmpago, quase como um Alemão (vencedor de um desses BBBs), deu-lhe os 15 minutos de fama previsto pelo artista plástico Andy Warhol e agora, por cúmplice dele, o poupa, preferindo buscar os erros da polícia.

Aliás, sobre espetacularização devemos todos relembrar as aulas de Tomzé, na Ufam, e assistir novamente à “A Montanha dos Sete Abutres”, com Kirk Douglas. Jornalista que assistiu ao filme e entendeu a aula do professor da Ufam não entrevistaria seqüestrador durante o seqüestro. Para tudo na vida há limite, até para a irresponsabilidade.

Por fim, não tenho procuração ou motivação para defender a PM – de São Paulo ou mesmo a de Manaus -, mas seu papel deve ser reposto no caso. Cometeu equivoco? Sim, como qualquer instituição comete. Não é 100% infalível, sobretudo ao deixar a amiga Nayara voltar ao cativeiro. Poderia ter matado Lindemberg? Poderia, e aí todo mundo a condenaria por não negociar.

Vejo com especial atenção a busca pela opinião de especialistas em segurança e como eles falam besteiras. Foi dado, por exemplo, a um perito da Unicamp, uma fita gravada a um quarteirão e meio de distância do local para que ele atestasse ou não se a polícia entrou antes ou depois de tiros terem sido disparados. A fita é horrível, está a um quarteirão e meio de distância, o foco do cinegrafista era outro, depois da explosão da porta ele focou na origem do barulho. O perito diz na passagem (quando ele fala para as câmeras) que não houve tiro antes da explosão. Na nota pelada da apresentadora (quando ela encerra com citação dele), o perito diz que a conclusão é provisória. Isso é sacanagem!!!!

À noite, no programa da burra-mor, um cara disse que a polícia poderia usar uma máquina de scanner que dava para saber pelo calor dos corpos quem estava em qual quarto. Máquina de scanner???? Esse cara tá assistindo muito Law&Order, CSI, SWAT no canal TCM. Pelo amor de Deus, o culpado pela tragédia é o Lindemberg. A polícia não pode ser 100% eficiente. Pegue-se o histórico do tal grupo especial, é uma excelência na polícia brasileira, mas mesmo assim deve viver a míngua. Francamente!!!!

* Filósofo, jornalista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Leitura para bebês

A biblioteca do museu mantido pelo Banco da República da Colômbia, em Letícia, capital do Departamento do Amazonas, tem uma sala de leitura para bebês. “Aqui, acompanhados dos pais ou das babás, eles têm o primeiro contato com os livros”, conta a psicóloga e pedagoga Elizabeth Murilb, responsável pelo programa Leitura em família, que já completou dez anos. Ela explica que os resultados dos projetos são animadores: crianças que manuseiam os livros desde os seis meses conseguem ler aos três anos de idade, antes mesmo de freqüentar a escola. Por R$ 3 por ano, o programa conduz os futuros leitores entre a biblioteca e seus lares. Uma vez por semana, os livros são levados até aos bairros. Letícia faz fronteira com o Brasil e com o Peru, na região Amazônica. Confira a entrevista que Elizabeth concedeu ao repórter Wilson Nogueira:

Há quanto tempo existe esse programa de leitura para bebês?
Há dez anos trabalhamos nesse programa que se chama Leitura em Família, que promove a leitura de afeto desde os seis meses de idade.

Qual é a metodologia empregada?
A idéia é aproximar os bebês dos livros através da leitura e da relação direta que eles têm com os seus pais, com suas mamães, com uma figura paterna ou com uma babá quando eles não estiverem acompanhados de seus pais. Essa proximidade de afeto também aproxima os bebes dos livros e os põem em contato direto – e de maneira voluntária – com os livros.

Qual o resultado desse trabalho?
O resultado tem sido um envolvimento das crianças com os livros desde a tenra idade. Também tem resultado na formação de leitores desde os três anos de idade, sem que eles tenham ainda passado pela escola.

Como os pais participam desse projeto?
A biblioteca tem um programa que se chama Leitura em família, que se realiza todas as quartas-feiras, a partir das quatro horas da tarde, com atividades específicas e dirigidas. Porém, os papais e as mamães, que queiram trazer seus filhos à biblioteca, podem vir a qualquer momento. O importante é que eles ponham os seus filhos em contato com os livros. A biblioteca também pode levar os livros à casa deles. Nesse momento temos oitenta bebês inscritos nesse programa. São crianças entre seis meses e quatro anos de idade. As crianças com mais idade são muito mais. Queremos que os livros, para as crianças, sejam uma ferramenta lúdica, de aprendizagem e de utilização do tempo.

Esse projeto ocorre apenas nessa biblioteca ou ele faz parte da política pública do governo colombiano?
Essa é uma política pública de leitura que, neste momento, estamos trabalhando em muitas partes do país. É parte de uma política pública governamental, e eu sou gestora desse projeto e estou promovendo essa experiência em nível nacional. Temos alguma experiência de dez anos e estamos difundindo e demonstrando que os livros e as crianças, desde cedo, podem fazer uma boa parceria.

Qual a participação indígena nesse projeto?
Os indígenas têm uma forma de ser bastante diferente, tranqüila, que temos que respeitar. Com eles o processo de aprendizagem é mais lento por meio dos nossos livros, porque esses livros são pensados para cultura ocidental e não para a cultura indígena. Entretanto, nós também aprendemos por meio dos cantos, dos sinais, da tradição oral e das lendas. Os índios também têm seus cantos, suas festas e suas lendas, e por intermédio dessas atividades que ocorre o primeiro envolvimento das crianças com a palavra. Primeiro se consegue o contato direto da imagem com a palavra. E palavra é experiência. As mães são importantes nesse processo de aprendizagem, e assim atendemos a todos as crianças e seus pais sem distingui-los.

Qual o nível de leitura dos colombianos hoje?
Subiu um pouquinho, porque o Ministério da Cultura tem vários programas que incentivam a leitura. Um deles é o Valor da palavra. Em nível de banco (Banco da República) há várias atividades culturais, como as que ocorrem nos 32 museus que ele mantém. Cada vez há mais bibliotecas e mais programas de incentivo à leitura. Eu diria que estamos entre trinta por cento e quarenta por cento em nível de leitura, no conjunto da população, em relação há dez anos.

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As preocupações da cacique

Wilson Nogueira*

Olímpia Pereira Faria, 34 anos, (foto) mãe de cinco filhos, freqüentará as teses acadêmicas e os livros de história da Amazônia daqui a alguns anos. Há doze meses, ela assumiu o posto de cacique da aldeia ticuna Água Limpa, localizada na margem do rio Solimões, próximo à cidade de Tabatinga (AM). Desde então, age dentro e fora da comunidade em favor de 150 pessoas sob a liderança dela. A função de líder não é comum às mulheres, também, nas sociedades indígenas. A outra cacique em atividade, entre os ticunas, a segunda maior população indígena do Brasil, é Janete Ticuna, da aldeia Islândia.

Com uma filha no colo, Olímpia transita entre os participantes do seminário Realidade socioambiental na fronteira Brasil/Colômbia/Peru, na casa Frei Ciro, em Tabatinga. O evento, promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na semana passada, reuniu líderes indígenas dos três países amazônicos. “É duro ser cacique porque temos que dar conta da casa, dos filhos e ainda trabalhar para toda a comunidade”, explica. Sem cerimônia, revela que assumiu a direção da Água Limpa em razão da fraqueza do antecessor.

Os lagos e as florestas de Água Limpa estavam sob depredação desenfreada. Ninguém respeitava o cacique anterior. “Chamei a Polícia Federal e fiz a lei ser cumprida. Toda vez que nossa reserva é invadida eu chamo os agentes federais”, conta a nova cacique. Mas Olímpia atua em outras frentes. Na aldeia, ela retomou os tradicionais mutirões para realizar tarefas mais complexas. Na cidade, percorre os órgãos oficiais em busca de serviços e equipamentos públicos.

“Não tínhamos barcos. Reuni o pessoal, cortamos madeira e construímos o barco. Depois, solicitei o motor da Prefeitura de Tabatinga. Só depois de muita luta conseguimos o motor”, disse. Para a cacique, sua pior tarefa é convencer os gestores públicos de que os índios necessitam de serviços de saúde, de escolas, de transporte e de estradas para escoar produtos destinados ao mercado. “Nunca desisto de ir à Prefeitura atrás de um benefício para a minha aldeia. Insisto até consegui-lo”, ensina.

Nesse momento, Olímpia luta para impedir que o lixão de Tabatinga despeje chorume no igarapé Takana, que corta as terras ticunas nessa região. As águas do Takana deixaram de ser límpidas há muito tempo, e o igarapé corre risco de se tornar um esgoto a céu aberto. Aliás, esse é um problema que aflige comunidades urbanas e ribeirinhas amazônicas. O lixo e os dejetos domésticos são jogados diretamente nos mananciais.

A situação de quem mora na beira dos rios é a pior possível. Não bastasse a escassez de peixes, provocada pela pesca comercial, agora falta até água potável segura. “A gente bebe esse água porque é obrigada. Mas a gente sabe que ela está contaminada e que causa doenças”, afirma Olímpia. No plenário, o líder indígena Gilson Maioruna informava que caciques do rio Javari haviam decidido retornar à cabeceira dos rios, para fugir das doenças do branco. “Nas cabeceiras, as águas ainda estão limpas”, explicou.

Olímpia, com a criança no colo, ouve os parentes atentamente. “Tá vendo? A vida dos índios é dura. Se não agirmos agora, o futuro será pior”, comenta, enquanto acaricia o rosto da filhinha.

Ela já está na história

* Sociólogo, jornalista e escritor

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O amor nos tempos da cólera

Ana Celia Ossame*

A humanidade precisa rever seu conceito de amor. Penso nisso depois do final trágico do seqüestro da adolescente Eloá, 15 anos, praticado de forma fria e calculista pelo ex-namorado dela Lindemberg Fernandes Alves, 22. Eloá foi mantida em cativeiro por mais de 100 horas até os disparos fatais. Dizer que isso foi uma demonstração de amor é atentar contra a mais frágil inteligência.

É preciso deixar claro, para não confundir a cabeça das crianças e de adolescentes, quais gestos podem ser classificados como de amor. Quem ama é incapaz de violência, a não ser para defender alguém querido de um mal, o que não era o caso. Quem ama não agride, não maltrata e não machuca. Para confirmar isso, basta ir ao dicionário da língua portuguesa. Qualquer desses livros explica que amor traduz afeição, compaixão, misericórdia, atração, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido etc.

É pouco? Vamos aos filósofos da Grécia antiga. Platão falava de um amor ideal, que seria a falta, a verdade essencial que a pessoa não possuía e buscava no ser amado, traduzido erroneamente, segundo os especialistas, como amor impossível, o famoso amor platônico. Em nenhuma hipótese Platão falava em agressão, intimidação, humilhação e covardia.

O amor está bem definido também na Bíblia. O apóstolo Paulo o examina com uma delicadeza e sabedoria que atravessam os séculos sem perder o vigor e a simbologia. Mostra que o amor é a força de Deus e daqueles que O seguem. Quem ama é paciente, não arde em ciúmes, não se ufana e nem se ensorbebece, escreveu o seguidor de Jesus, este o maior exemplo do que se pode ter de amor como fonte de inspiração para os éticos, os puros de coração, os humildes e os honestos. Tudo o que o Lindemberg ignorou.

Cabe perguntar: cadê os pais desse jovem, por que não foram chamados a intervir e tentar demovê-lo da fúria sanguinária? Certamente já o tinham abandonado há muito, contribuindo para fazer crescer nele essa personalidade doentia capaz de atitudes tão trágicas.

O título deste artigo empresta o do livro do escritor Gabriel Garcia Marques, “O amor nos tempos do cólera” , como uma provocação. Nele, Marques conta a história de um cidadão que soube amar e esperar. Na mocidade, o telegrafista Florentino apaixona-se perdidamente por uma jovem que, seguindo os conselhos do pai, rejeita o assédio, casando-se com um médico famoso da cidade. Isso fez Florentino esperar nada menos que 51 anos, 9 meses e 4 dias até a morte do rival para se reaproximar da amada. O final é memorável. Os dois juram amor eterno e ficam juntos. Quer mais amor que isso?

Lindemberg jamais experimentará essa sensação, por viver no tempo da cólera, da ira, da raiva cultivada silenciosamente nos seus 22 anos de existência. Com o fim do caso, a mídia vai se recolher e ele ficará só, sem a audiência que, quem sabe, pode tê-lo animado a permanecer com a arma em punho e não aceitar qualquer argumento. Ficará também sem Eloá que, queria por força nos convencer, seria sua amada ideal.

Ficam lições para nós, jornalistas, que precisam ser alvos de discussões e debates nos sindicatos e redações. Em que a imprensa contribuiu para esse desfecho trágico? É claro que o louco era o Lindemberg, mas será que sem essa exposição toda o caso poderia ter tido outro final? Ficam lições também para a sociedade capaz de construir pessoas tão doentes. Tentar saber onde tudo começou pode ser um bom começo para se refletir.

Para não engolirmos toda a amargura desse caso voltemos ao apóstolo Paulo. Ele disse que tudo desapareceria, as profecias, as línguas, até a ciência. Menos o amor, que permaneceria para sempre. Vamos espalhar esse sentimento. Vamos nos contaminar de amor para evitar que outras jovens como Eloá sejam vítimas de venenos tão fulminantes quanto o ódio produzido, em grande escala, em famílias onde não há tempo para o respeito, o diálogo, atenção ou simplesmente o amor.

* Jornalista, poeta, pós-graduada em Marketing pela FGV.

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O árabe como um parente distante!

Michelle Portela*

É difícil imaginar a literatura de Milton Hatoum (foto) sem a presença da cultura árabe. De todos os escritores amazonenses, esse é o que mais gosto. Não somente por sua poética, mas principalmente pela força humana que dá aos seus personagens. Esses, sem nunca tê-los imaginados, parece que sempre os conheci, que convivo com eles e pelos quais alimento um amor profundo.

Milton usa os recursos literários aos quais se dedicou a estudar antes de iniciar a carreira com destreza, quando ainda era professor universitário. Descendente de libaneses, a força humana talvez tenha sido um encontro em sua própria história. Assim, o escritor passou a fazer parte da tradição literária do País, a ponto de tornar-se matéria-prima para a compreensão da percepção que a sociedade faz sobre imigrantes de “um certo oriente”.

Apaixonado por literatura, o pesquisador Valter Luciano Gonçalves Villar percorreu um caminho teórico que trespassa autores de toda história brasileira para depois focar-se em duas obras para produzir o trabalho “A Presença Árabe na Literatura Brasileira: De Jorge Amado a Milton Hatoum”, como dissertação para o Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Villar realizou sua pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a orientação da professora Wilma Martins de Mendonça, coordenadora do grupo de pesquisa “O Brasil em sua Literatura: Memória e Identidade Cultural”, da UFPB.

Grandes nomes da literatura, como Machado de Assis, Castro Alves, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, se referiram, às vezes, assiduamente, como o escritor Jorge Amado, à presença do imigrante árabe em suas letras poéticas. Mais a fundo, encontrou insinuações da presença árabe desde as cartas inaugurais, como a do escrivão Caminha e a do Piloto Anônimo, passando pelo padre José de Anchieta, os colonizadores Gabriel Soares de Souza e Pero de Magalhães Gandavo, além do barroco Gregório de Matos.

Em Jorge Amado, o árabe está em vinte e quatro romances, dado que foi definitivo para o autor delimitar as obras que pretendia estudar. “Gabriela, cravo e canela” foi escolhida pelo fato de ser o primeiro romance nacional em que um personagem árabe, no caso o Nacib, nos é apresentado como protagonista. “Dois Irmãos”, a segunda escolha, pela força poética e humana que representa o personagem Halim. Posteriormente, constatou que havia muita ligação entre esses dois personagens.

Villar descobriu que nossos poetas, escritores nacionais, olham para o árabe como um brasileiro, como nosso irmão, como um parente que chegou de terras distantes. É uma empatia geral!

Par ele, esse discurso estereotipado é produto da mídia afiliada aos interesses europeus e estadunidenses, como se mostra, por exemplo, a Globo, a Veja, o Estadão, entre outros. Mesmo os estigmas mais comuns aos árabes, como a avidez no comércio, são retratados positivamente por esses dois autores.

Em Jorge Amado, o comércio dos árabes, a mascatearia, é comparado à magia, quando os mascates, para venderem, encantam as pessoas com sua atenção, seu respeito, seu interesse pelo outro, causando em seus fregueses espécies de deslumbramentos diante das fabulosas e encantadoras histórias que os árabes contam aos seus clientes. Em Milton Hatoum, o comércio é visto como uma oportunidade de se fazer relações de amizade, como várias vezes demonstra o personagem Halim.

O estudo mostra ainda que Jorge Amado foi o pioneiro, o antecipador dessas questões identitárias, especificamente árabe. Soube como ninguém, dizer o quanto o árabe é brasileiro e o quanto o brasileiro simpatiza com esses parentes distantes. Mostrou o modo amoroso dos árabes, sua psicologia, sua forma de lidar com a tristeza, com a alegria, sua religiosidade, como nos exemplifica o fabuloso Fadul, personagem de Tocaia Grande, e seus esforços em se aclimatar às terras brasileiras, suas profundas gratidões pelas terras de adoção, sua honestidade, sua brandura, enfim, todos os qualificativos positivos. Que digam os iraquianos, os libaneses, os afegãos, os palestinos, os iranianos, constantemente agredidos, caluniados e ameaçados por esses “colonistas midiáticos”, para usar uma expressão do jornalista Paulo Henrique Amorim.

Trilhando esse mesmo caminho, encontramos nos dias atuais o melhor de nossa tradição literária: o escritor Milton Hatoum. Respeitando a opção estética amadiana, Milton enriquece esse olhar sobre o árabe. Na sua prosa, observamos o quanto seu estilo, sua estética, fala a verdade, sem ter a pretensão de falar a verdade. Universaliza o regional de maneira tão esmerada que olhar, por exemplo, para o drama do árabe Halim, é olhar para o drama de qualquer cidadão do mundo. A plasticidade, a mistura de sentidos, o uso adequado de certas expressões regionais, enfim, um conjunto de elaborações formais que fazem dele um dos escritores mais respeitado no universo literário, não só no Brasil, como em todo o mundo, como atestam as variadas traduções de seus romances.

Ao viver o mundo literário de dois mestres, Villar foi posicionado e reposicionado no local e no universal. No decorrer do trabalho, não deixou de comover-se. Associou sua vida ao tema lembrando-se de conhecidos, vizinhos e amigos no município de Itacoatiara, onde viveu na juventude, especialmente, de alguém parecido com o personagem Halim, de Dois Irmãos, com quem diz estar em dívida de gratidão.

Em tempos de guerras étnicas e crises financeiras, o trabalho de Villar traz um novo, sensível e delicado aprofundamento teórico sobre a questão árabe, fundamental para a compreensão do papel da identidade, dos deslocamentos e comovente capacidade humana de recomeçar. Uma grata surpresa!

* A autora é jornalista

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