Archive for novembro, 2008

Acadêmicos assumem compromisso com a sociedade

Os quinze sócios-fundadores da Academia Parintinense de Letras (APL) assumiram o compromisso de agir em favor da promoção da literatura e do estimulo à formação de novos leitores e escritores. A instalação da APL foi realizada na Câmara Municipal de Parintins, em solenidade presidida pelo escritor e historiador Antônio Loureiro, membro da Academia Amazonense de Letras (AAL).

Loureiro fez uma abordagem histórica das academias, desde Platão, fundador da primeira academia, até Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. A função histórica das academias sempre foi, segundo Loureiro, o desenvolvimento do conhecimento. Ele explicou que a academia parintinense faz parte de um projeto da AAL de interiorização da organização dos intelectuais no interior do Amazonas.

O presidente da APL, Narciso Picanco, explicou que o primeiro desafio dos sócios-funcadores será conquistar o apoio da sociedade por meio de projetos que mostrem a importância da literatura e demais manifestações artísticas na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e cidadãs parintinenses. “Vamos trabalhar para ter uma academia que ofereça benefícios à sociedade”, disse.
São sócios-fundadores da APL: Narciso Picanço, Gláucio Gonçalves, Tadeu de Souza, Sócio Peccela, Basílio Tenório, Heliomar Conceição, João Maria Ribeiro, Francisco Ferreira da Silva (Chico da Silva), Carlos Paulain, Felicíssimo Barbosa, Massilon Cursino, Odinéia Andrade, Floriano Lins, Neuton Corrêa e Wilson Nogueira. Tadeu Garcia, Fátima Guedes e Wanderley Holanda estavam fora da cidade e tomarão posse em outra oportunidade.

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Jornada evolucionária

Michelle Portela*

O fotógrafo inglês Fred Langford Edwards está em meio a uma jornada, não somente em busca da realização de uma idéia, mas também para tentar mudar o pouco conhecimento que se tem de Alfred Wallace (1823-1913), em comparação com Charles Darwin (1809-1882), quando se fala da Teoria da Evolução das espécies pela seleção natural. Edwards realiza uma viagem fotográfica que terminará no fim do mês e que tem como objetivo refazer a trajetória de Wallace, registrando a vida ao longo dos rios Negro e Uapés, na região do município de São Gabriel da Cachoeira, a 852 quilômetros de Manaus.

Edwards é também o idealizador da exposição Alfred Wallace – O evolucionista esquecido, que homenageia os 150 anos da Teoria da Evolução, formulada a partir dos trabalhos de Darwin e Wallace. A exposição, inaugurada em julho no País de Gales, ficará no shopping Millenium Center, em Manaus, até dezembro, para depois ser exibida em Brasília e São Paulo, em locais a serem definidos. A exposição de 50 fotografias veio de Londres com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia do Amazonas (SECT) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ela é resultado da primeira fase de um projeto de três anos para tentar trazer a memória de Wallace à história, desenvolvido com apoio do Museu de História Natural de Londres.

As fotografias foram produzidas a partir de gravuras de peixes e palmeiras, feitas por Wallace, que de 1848 a 1852 percorreu trechos do rio Negro e Uapés. O naturalista coletou espécimes e registrou dados sobre a geografia, flora, fauna, linguagens e pessoas que encontrou pelo caminho. No retorno da sua expedição para a Inglaterra, o navio no qual viajava se incendiou e passageiros e tripulantes foram obrigados a abandoná-lo. Poucas anotações e gravuras foram salvas.

Mesmo com o grande prejuízo, Wallace conseguiu publicar nos anos seguintes seis artigos acadêmicos e dois livros sobre a região que conheceu, Palmeiras da Amazônia e seus usos e Viagens na Amazônia. “Não por acaso, tenho muita identificação com Wallace, sobre quem me interessei quando li a biografia de Darwin, por volta de 1968. Assim como ele, percorri um longo caminho em busca de financiamento para realizar esse projeto, que é uma releitura do que foi documentado por ele. São trabalhos próximos em épocas distintas”, disse Edwards, que é mestre em teoria da arte, com graduação em química e fotografia.

Edwards destaca que grande parte dos estudos de Wallace sobre a evolução foi embasada na viagem que realizou à Amazônia, quando a região ainda era considerada um “novo mundo”. “Ele acreditou que na Amazônia encontraria a resposta para o problema da evolução das espécies”, disse. “Em minha viagem, pretendo fotografar, filmar e registrar a vida na região dos rios Negro e Uapés, para tentar compreender suas dificuldades e interesses. Sinto que esse é um projeto muito urgente, maior que a realização de um projeto pessoal, porque posso ajudar no reconhecimento de Wallace”, disse o artista antes do início da viagem.

O reconhecimento também é almejado por pesquisadores. “É uma grande polêmica a questão da Teoria da Evolução. Mas é fato que Wallace merece um maior reconhecimento”, disse Hugo Mesquita, pesquisador do Inpa. Para Mesquita, Wallace, além de ser autodidata, era socialista e espírita, posições que poderiam ajudar a explicar, quem sabe, uma omissão histórica. “Era um homem que não aceitava as respostas fáceis sobre a origem de vida e que teve uma trajetória impressionante. Se não estamos falando de um herói, sabemos que, pelo menos, foi alguém muito especial”, disse.

Após retornar de sua viagem à Amazônia, Edwards partirá para uma nova fase de sua jornada “wallaciana”. Será a vez da Malásia e Indonésia, percorrendo os caminhos de Wallace, que lá esteve entre 1854 e 1862. Em 1858, Wallace escreveu a Darwin, expondo suas idéias sobre a evolução das espécies, o que levou à divulgação conjunta dos trabalhos.Em 1º de julho de 1858, as teorias dos dois foram apresentadas na Linnean Society, em Londres, com o título duplo On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection. No ano seguinte, Darwin publicaria A origem das espécies.

Trechos de impressões de Wallace sobre o rio Negro e Manaus. “No dia 31 de dezembro de 1849 à cidade de Barra do Rio Negro (o primitivo nome da povoação, Manaus, só foi restabelecido sete anos da estada de Wallace na cidade). Na véspera desse dia, ao pôr do sol, ainda estávamos nas águas amarelas do Amazonas, mas continuamos remando pela noite adentro, até bem tarde. Ao chegarmos à confluência do rio Negro, junto a uns rochedos, paramos nos baixos das margens e ali pegamos alguns peixes. Quando raiou a manhã, vimos com surpresa que as águas haviam sofrido uma extraordinária modificação. Podíamos até imaginar que estivéssemos no rio Estige, pois as águas que nos rodeavam pareciam antes uma tinta preta., a não ser onde as areias alvas, a alguns pés abaixo da superfície, rebrilhavam com laivos dourados. Na realidade, a água tem uma pálida coloração pardacenta, conforme se pode observar colocando-a num copo de vidro. Mas quando está reunida na volumosa massa deste rio profundo, adquire uma cor preta como azeviche, justificando plenamente o seu nome de rio Negro.”

“[...] As ruas (da cidade de Barrado do Rui Negro) são dispostas de maneira regular, mas não têm qualquer tipo de calçamento. Ademais, são esburacadas e cheias de altos e baixos, tornando-se bem desagradável o ato de caminhar-se por elas à noite. As casas são geralmente de um só pavimento, cobertas de telhas vermelhas e assoalhadas de tijolos. Pintam-se as paredes, quase sempre, de branco e amarelo, e as portas e janelas de verde. É bem agradável o aspecto do casario rebrilhando ao sol. Da antiga Fortaleza da Barra restam apenas os restos de suas muralhas, que hoje circundam um montão de terra. A cidade tem duas igrejas, ambas muito pobres e bem inferiores a de Santarém.” (Viagem pelos rios Amazonas e Negro, Editora Itatiaia/USP).


*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
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Quero estar presente em 2009

Gerson Severo Dantas*

Obrigações profissionais, dessas que nos pegam quando estamos prontos para cumprir um daqueles programas que preparamos há tempos, impediram-me de acompanhar ao vivo, em cores e com colesterol, o FliFloresta, o Festival Literário Internacional da Floresta. On Line tomei conhecimento do sucesso do evento, dos 100 mil livros distribuídos em paradas de ônibus, das conferências, das mesas-redondas, do café literário, enfim acompanhei o que pude com a mesma ansiedade com que torço para o Fluminense se livrar do rebaixamento no campeonato brasileiro.

Na mesma medida e com a mesma intensidade com que meu time se afastou galhardamente da segundona, o FliFloresta se aproximou definitivamente do público leitor e não-leitor de Manaus. Deve ter sido uma experiência única e excitante falar em livros e literatura num Estado que sofre com a falta de bibliotecas. Deve ter sido empolgante realizar um evento desse porte, numa cidade como a nossa tão acostumada a pensar que cultura é cruzar tapetes vermelhos nesses festivais de araque que o Governo do Estado promove regularmente. Deve ter sido compensador ocupar o Parque dos Bilhares com várias idéias na cabeça e alguns livros no bolso.

Por conta dessa empolgação que não vivi, do sucesso que não presenciei, dos livros que não ganhei, das palestras e conferências que perdi, quero deixar um imenso PARABÉNS a turma que pensou, brigou, lutou, construiu e fez o FliFloresta um sucesso, um evento que com certeza terá vida longa. Cito uns poucos por não conhecer a todos: Tenório, Isaac, Wilson e o pessoal da Valer (Eliabe).
PS: Pessoal, o desafio agora é levar o FliFloresta para os municípios do interior. Boa Sorte!

*Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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"Temos que pensar também de que forma os indígenas passariam a ser turistas do seu próprio patrimônio"

Wilson Nogueira* e
Alessandro Malveira**
Ana Rosas Montecón, professora e pesquisadora da Universidade Nacional Autônoma do México, defende o turismo cultural como fator de inclusão social e como contraponto ao turismo de sol e praia, que, preferencialmente, favorece a companhias transnacionais do setor. A internet é, para ela, ferramenta indispensável ao desenvolvimento dos pequenos negócios turísticos Uma quinta parte do turismo que chega anualmente a Barcelona é feito graças à internet. “É um turismo que não chega a hotéis, mas às casas de pessoas que colocam anúncios na internet. São jovens que abrem as portas de suas casas e passeiam com os turistas mostrando as festas, os locais não acessíveis”, explica. Ana Rosas participou, em Manaus, em outubro, do seminário Cultura popular, patrimônio imaterial e cidades, realizado pelo Grupo de Pesquisa Cultura Popular, Identidades e Meio A.ambiente na Amazônia, vinculado à Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Confira a entrevista:

Qual o fio condutor das suas pesquisas?
Trato de dois itens que se conectam em torno de um tema central, que é o aspecto intercultural. Sempre pesquiso as decisões e efeitos das declaratórias patrimônio mundial da Unesco. São declaratórias elaboradas para que bens ou práticas locais de excepcional importância cultural ou natural se transformem em patrimônios da humanidade e gerem referências para o conjunto da humanidade. Isto é: referências interculturais que permitam que todos nós sintamos que essas produções patrimoniais são todos nossos e não de uma nação ou grupo em particular.
Conecto esse tema, também, com o turismo cultural. O turismo cultural alcançou, nos últimos anos, um desenvolvimento muito importante. Existe uma mudança no giro do turismo original. O patrimônio cultural e natural sempre foi motivo de atração turística, mas, nos últimos anos, houve uma mudança no gosto dos turistas que deixam de buscar exclusivamente os destinos de sol e praia, o turismo massivo, e buscam um turismo muito mais individualizado, muito mais local, que tenha um sabor pessoal e que lhe permita conhecer outra realidade cultural.

Qual a influenciada globalização nesse tipo de turismo?
Pode-se dizer que a globalização favoreceu o desenvolvimento desse tipo de turismo, que ainda não tem as dimensões econômicas do de sol e praia, mas que é importante frente à crise que gerou o “turismo da indústria sem chaminé”, como erroneamente se lhe concebia. Esse tipo de turismo tradicional gerou grandes problemas em seu entorno, porque, geralmente, se desenvolve em enclaves turísticos que têm o ganho econômico como única meta, por isso, não consegue gerar processos de desenvolvimento locais nem regionais, assim criando crises ecológicas e sociais imprevistas.
Mas eu me pergunto: em que medida esse tipo de turismo, que busca mostrar o patrimônio de uma nação, consegue competir em um mercado mais globalizado? Em que medida consegue, também, constituir-se em ponte para a interculturalidade, na possibilidade de que os turistas que viajam e conhecem os rituais, as danças, os festivais, os carnavais dos lugares visitados e não somente simulações espetacularizadas para os visitantes? Em que medida consegue conectar com outras culturas e estender pontes para o encontro das diferenças?

De que forma cidades, países e até organismos multilaterais devem ou podem se articular para fazer funcionar esse tipo de reconhecimento e uso dele como um produto turístico?
Na realidade, esse é um assunto muito complicado, onde ainda não conseguimos articulá-lo a políticas urbanas, a políticas de desenvolvimento mais amplo. O patrimônio passou por distintas fases (das políticas até ao patrimônio). O patrimônio, originalmente, constrói-se como uma referência de identidade local e nacional de uma população. É o patrimônio cultural, formado no conjunto da sociedade, que une um País. Quando selecionamos produções culturais de diferentes nações, construímos um novo modelo. Estamos falando agora de uma fase que é muito tecnológica, é uma fase nova que traz a globalização, onde a referência já não é só com a identidade, mas também que se vincula o turismo à indústria.

As chamadas localidades podem obter certa lucratividade com essa crescente modalidade de turismo?
Ao mesmo tempo em que se dá o processo de mercantilização, abrem-se as possibilidades para que o local arranque para o desenvolvimento. Mas, a única maneira para que isso ocorra, verdadeiramente, é a colocação da interculturalidade como o centro dessas políticas. Isso implica pensá-la como um espaço de encontro, implica que as pequenas comunidades tenham mais que isso. Geralmente neste modelo globalizado, o problema, para os nativos, é que eles são subordinados nas indústrias hoteleiras. Para eles sobram os piores postos de trabalho, como os de vendedores ambulantes. Quando pensamos como realmente podemos converter isso em um arranque de desenvolvimento, precisamos colocar as comunidades no centro, permitindo que não somente os grandes projetos se beneficiem. As sociedades locais devem obter contrapartida social e devem reconhecer seus direitos de acesso ao patrimônio cultural e natural valorizado.

Como essa relação se desenvolve no México?
No México, tem predominado o modelo de desenvolvimento turístico montado sobre as grandes empresas transnacionais. Existe, no entanto, algumas experiências nas quais certas comunidades se capacitam como guias turísticos, e elas participam, de certo modo, da cadeia produtiva do turismo. Ao mesmo tempo, elas usam o patrimônio arqueológico como produto turístico, como certas pirâmides, nas quais uma parte do bilhete de entrada vai para o desenvolvimento local. Os museus comunitários se distribuem por todo o território nacional: mostram ainda o patrimônio cultural e natural em pequenos locais, suas comunidades, suas culturas locais e procuram, justamente, gerar não só lucros, mas, também, desenvolvimento cultural.

Qual o impacto dessa atividade nas culturas locais?
Costuma ocorrer que as festas que entram nos circuitos de exibição turística no México perdem a sua lógica cultural. Existem danças ligadas a festividades religiosas que duravam a noite toda, mas, com a pressão mercantil, são feitas as mudanças para atender ao tempo dos turistas. Então, encurtam-se as danças, tira-se a lógica delas, negociam-se os vestuários. Essas danças e esses vestuários não tinham essa lógica de espetáculo. Agora têm cores mais vistosas, respondendo à expectativa dos turistas e das empresas que os mobilizam. Tudo está muito exagerado para conseguir o mercado. Acho que no Brasil também acontece isso, pois é uma lógica globalizada.

Certamente. Isso ocorre também no Brasil e na Amazônia…
O artesanato no México, na etapa da industrialização, adquiriu outra cara. Ao mesmo tempo em que o México se desenvolvia industrialmente, os produtos artesanais mostravam outras formas de produção e venda. Havia uma variedade na produção artesanal, permitindo que povos inteiros vivessem do trabalho artesanal. Com a globalização, o artesanato começa a perder o espaço que tinha. A música popular é a que está conseguindo negociar melhor com o mercado.

Pode-se dizer que o artesanato se desvaloriza?
No desenvolvimento artesanal, cada vez encontramos menos qualidade e menos produtos, e encontramos cada vez mais peças industrializadas. Os produtos têm que satisfazer ao mercado. Aconteceram dois movimentos: um é a massificação do artesanato, tirando a qualidade, e a outra é a elitização do artesanato. No caso da prata, grandes empresas têm produtos únicos desse metal, que são para um mercado de elite, e assim elas têm o espírito da peça única.

E o turismo ecológico em seu país?
Temos vôos internacionais que vão diretamente às cidades turísticas. A Zona Maia, por exemplo, se apresenta como área de turismo ecológico, mas não é massivo, não é de alto impacto. São pequenos lugares, com hotéis, com poucos quartos, mas o preço é exagerado. Os valores, inclusive, não são nem com a moeda nacional, são em euro. Esse turismo se vende como turismo ecológico. Existem parques que se apropriam de uma zona arqueológica e que vendem atividades de contatos com golfinhos, entradas em cavernas e apresentam danças maias estilizadas. Enquanto, isso os maias não podem nem entrar em suas terras e não há uma política que busque integrá-los.

Qual a contrapartida social da globalização do turismo?
Acho que é o fortalecimento das comunidades. Acho que a única possibilidade verdadeira é a parceria, porque ela permite a atração de visitantes. Há modalidades de turismo que se unem, como é o caso das empresas que atuam, simultaneamente, com turismo rural, turismo comunitário e com o ecoturismo, que beneficiam as pequenas comunidades. E agora, com a internet, cria-se uma grande vantagem. Pequenas famílias ou povoados podem montar sua página na internet. Não há necessidade de grandes recursos para se manter um site. O grande problema do México é que, lá, não se desenvolveu o turismo diversificado. Frente às restrições da legislação sobre patrimônio para participação das comunidades no seu cuidado e aproveitamento, houve grupos – em Chiapas, por exemplo – que quiseram se apoderar de patrimônios públicos, como das reservas arqueológicas, e isso gera conflitos porque a polícia tem que intervir.
A internet seria, também nesse setor, fator de inclusão social?
Acho que a internet abre possibilidades pela facilidade de divulgação, tudo está muito distante. Com a internet podemos visitar museus e baixar músicas populares para que elas se façam conhecidas. Acho que o acesso horizontalizado favorece a inclusão social. Não quero dizer que tudo seja, necessariamente, democratizado. Há também formas verticalizadas, existem barreiras educativas, generalizadas e culturais que limitam o acesso, mas as potencialidades de informação cultural são enormes, como a revolução com os blogs. Antes da tragédia das torres gêmeas havia dezenas de blogs, agora são milhões de blogs dentro de tão poucos anos, que abriram a possibilidade aos internautas de questionar a informação dos meios, gerar novas perspectivas e participar ativamente na esfera pública. Acho que a Tinternet é uma revolução nesse sentido.

Fale mais da experiência dos pequenos empreendimentos com a internet.
A Espanha desenvolveu uma política turística diversificada, que inclui todo tipo de apoios para o turismo rural, por exemplo. Uma quinta parte do turismo que chega anualmente a Barcelona é feito graças à internet. É um turismo que não chega a hotéis, mas às casas de pessoas que colocam anúncios na internet. São jovens que abrem as portas de suas casas e passeiam com os turistas mostrando as festas, os locais não acessíveis. O que me chamou a atenção é que a Associação Catalã de Turismo não os reconhece como turistas, porque, para essa instituição, turistas são os que se hospedam, comem, passeiam e compram. Temos que parar de pensar que turista é apenas aquele que vem de fora, o que não é bem assim. Temos que pensar também de que forma os indígenas passariam a ser turistas do seu próprio patrimônio. De que forma mudaríamos esses encontros interculturais? Inclusive, na América Latina, temos que pensar que os latino-americanos também são turistas. Mas, erroneamente, temos em mente que o turista, necessariamente, deve ser norte-americano ou europeu, que trazem muito dinheiro. Ainda não pensamos no turismo como um fator de encontro e desenvolvimento cultural.

Mas quais os fatores que gerariam essa incompreensão?
O grande problema é que agora, com a globalização, os estados se vêem fragilizados, quando teriam que ter uma atitude firme frente ao mercado. O grande problema é que o turismo se vê como um negócio e não com um gancho de desenvolvimento cultural. O setor turístico, eu acredito, não tem o interesse de conhecer a cultura, e o setor cultural, também, não tem interesse de dialogar e articular-se com o turismo. Quando vamos aos museus, dificilmente encontramos folhetos ou guias que falem outros idiomas, nos preparamos apenas atender o mesmo turista que estamos acostumados a receber.

No Brasil, há um esforço para a valorização do patrimônio cultural dos negros e dos índios. O turismo ajuda nessa empreitada?
Acho que o turismo abre também essa possibilidade. Quando chegam pessoas de fora e se fascinam com o que é nosso, acabam contagiando as pessoas que vivem no local visitado, porque começam a conhecer seus monumentos, as zonas arqueológicas e os parques. Antes, isso não fazia parte do cotidiano de prazer, de gosto e de divertimento da localidade.
No Brasil, por exemplo, a antropologia é pioneira no questionamento das formas desiguais nas que se constrói e circula o patrimônio nacional. No Brasil, o patrimônio que se valoriza é o dos brancos, e não a cultura dos negros ou dos índios. Valoriza-se o patrimônio das elites e não da cultura popular: as grandes obras de arquitetura, por exemplo. Com o desenvolvimento da indústria turística e da procura de mostrar as diferenças culturais para competir no mercado mundial, se abre possibilidade de revalorização das festas populares, árvores, frutas e ervas medicinais regionais.
Existem empresas, inclusive indígenas, de pequenos e médios empresários que vêm trabalhando por conta própria, sem grandes apoios, sem grandes recursos, mas que geram possibilidades dentro das legislações nacionais e até regionais, de proteção dos seus direitos relacionados ao conhecimento medicinal e técnico. Elas encontram nesta conjuntura de interação global crescente possibilidades de enfrentar a biopirataria. A grande desvantagem na América Latina é falta de regulamentação das patentes em favor das comunidades, nas quais se favoreceram empresas transnacionais que se apropriaram de seu patrimônio natural.
*Jornalista, sociólogo e escritor
**Jornalista e filósofo
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O natal e a crise

Wilson Nogueira*

Das manobras perigosas da Pampa, evapora-se o fedor de borracha queimada. O jovem condutor ultrapassa um, dois, três… mas esbarra na fileira de carros a 200 metros do sinal. Ele queria escapar do engarrafamento, mas só conseguiu uma saraivada de xingamento dos menos apressados, porém não menos estressados. O sinal abre e fecha sem a fila andar. Agora a reclamação é geral contra os motoristas dos carros que fecham a caixa do cruzamento.

Ninguém respeita ninguém. Prevalece a lei do mais esperto, quando o trânsito permite. O trecho que poderia ser feito em um minuto só é vencido em dez. É isso mesmo: o trânsito no centro das grandes cidades está insuportável. Manaus já é uma grande cidade. Tem engarrafamento! Tem arrastão em prédios de apartamentos! Os enormes e coloridos edifícios se multiplicam! Afinal, é por esses sinais que se mede o tamanho das cidades. A qualidade de vida dos que nelas vivem pouco importa.

A Pampa arranca sobre o cruzamento e some. “Vai-te infeliz estressado! Ligo o rádio. Lá estão, de novo, os empresários clamando por apoio do Governo para vencer a crise. Logo eles, que nunca chamam o governo, muito menos a população para compartilhar os longos dias de bonança. Troco de emissora: a música da vez é aquela da “lapada na rachada”. Sucesso absoluto. O povo gosta de poeta que vai direto ao assunto. E como vai.

O cemitério São João Batista fica no retrovisor. O cair da noite realça os enfeites luminosos que contornam os troncos e os galhos das árvores do canteiro central do boulevard Álvaro Maia. É Natal! O mundo está assim: enfeitado para celebrar o nascimento do Menino Jesus. Mas é a figura do Papai Noel que, preferencialmente, enfeita as casas dos pobres e dos ricos. É comum ver o bom velhinho pendurado nas sacadas dos edifícios ou nas paredes dos barracos.

O trânsito pára na entrada da passagem de nível Jornalista Josué Cláudio de Souza. Bate um chuvisco. Sintonizo outra emissora. Um grupo de jornalistas bate boca sobre quem sobe e quem desce na tabela do campeonato brasileiro de futebol. Esse assunto é tão importante quanto a crise financeira mundial. Falam tão rápido, e em sotaque paulista arrastado, que mal consigo entendê-los. O chuvisco se transforma em chuva torrencial e o tráfego fica mais emperrado. O pára-brisa acelerado range. O tráfego parado irrita..

Na escuridão facilitada pelo tempo carregado, sobressaem-se os enfeites natalinos. Ainda não é dezembro, mas já é Natal. Acreditem, pois o Natal não é uma data, é estado de espírito! Sempre será possível antecipar o Natal, principalmente em tempo de crise.

E viva o natal!

Ah! Antes que eu esqueça: o motorista apressadinho enfeitava a traseira da Pampa dele com um enorme Papai Noel, bonachão e risonho.

* jornalista, sociólogo e escritor

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A crise e a criação

Os escritors Zemaria Pinto, Miguel Barnet (Cuba), Pepetela (Angola), Márcio Souza e Francisco Welfort no debate do tema O escritor em tempos de crise, no Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), realizado em Manaus (AM), no período de 17 a 29/11/2008.
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Flifloresta encerra-se com autógrafos

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O Festival Literário Internacional da Floresta (Fliflorsta) encerrou-se ontem com uma sessão de autógrafos dos escritores Luiz Ruffato, Márcio Souza, Miguel Barnet (Cuba), Milton Hatoun, Pepetela (Angola), Thiago de Mello, Francisco Welfort, Wilson Nogueira e Zemaria Pinto. O evento (17 a 22/2008), realizado em Manaus (AM), envolveu uma centena de escritores e um público estimado em 200 mil pessoas em debates, simpósios, recitais, oficinas de literatura e sessões de filmes e de autógrafos.
Os escritores haviam participado antes de duas mesas temáticas. Uma sobre Como Ser Escritor em tempo de crise, com Pepetela, Miguel Barnet, Márcio Souza e Francisco Welfort, com a mediação do poeta Zemaria Pinto, e a outra sobre Machado de Assis – leitor – com Thiago de Mello, Milton Hauton e Luiz Ruffato, sob a mediação de Wilson Nogueira. O diálogo entre autores e leitores ocorreu em sete mesas temáticas, nos dias 19, 20,21 e 22.
Também participaram dessa atividade, que recebeu o nome de Café Literário, os escritores José Rocha, José Eduardo Agualusa (Angola), Alexei Bueno, Lina Tâmega, Carlos Quiroga (Espanha), Anibal Beça, João Gilberto Noll, Salgado Maranhão, Maria Antonieta (Venezuela), Astrid Cabral, Max Carpenthier, Fabrício Carpinejar, Ernesto Cardenal (Nicarágua), Alisson Leão, João de Jesus Paes Loureiro, Neide Gondin, Mazé Mourão, Daniel Galera, Maria Carpi e Daniel Pellizzari.

O Café Literário, as sessões cinematográficas, o Florestina (programação literária para crianças), as sessões de filmes e autógrafos, e o encontro dos escritores indígenas foram realizados no Parque Municipal dos Bilhares, e os simpósios de Cultura e Natureza na Amazônia e o de Leitura e Formação de Leitores ocorrem no auditório da reitoria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Durante o festival foram distribuídos, gratuitamente, 100 mil livros dos escritores Márcio Souza, Thiago de Mello, Elson Farias e Luiz Bacellar em paradas de ônibus da cidade. Vinte e cinco mil livros de cada autor.
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A idéia

Wilson Nogueira*

Certo dia, meia dúzia de pessoas se reuniu para propor uma celebração ao livro, aos escritores e aos leitores. Mil idéias! Poucos ou quase nenhum meios para realizá-las. De concreto, só a determinação de disseminar esse desejo e de tentar atrair os prováveis colaboradores e parceiros para materializá-lo. Mais alguns dias, mais idéias, mais pessoas dispostas a transformar o sonho em realidade.

O Festival Internacional da Floresta (Fliroresta) nasceu assim: da sinergia de diversos segmentos – estudantes, jornalistas, professores, escritores e empresários –, contagiados pelo poder mágico do livro. O esforço foi compensado. Mais de oitenta escritores brasileiros e estrangeiros participam do Flifloresta (17 a 22/12/2008).A estimativa dos coordenadores é de que mais de duzentas mil pessoas participem da programação que se estende do diálogo entre autores e leitores às sessões de filmes etnográficos.
Taí! A idéia andou. Melhor dizendo: iniciou-se a caminhada para a consolidação e aprimoramento do projeto, cuja finalidade é estimular a leitura como fator de inclusão social e formação de massa crítica em benefício da Amazônia e dos povos que nela vivem. Para atiçar ainda mais a sede pela leitura, o Flifloresta distribuiu, gratuitamente, em paradas de ônibus, cem mil livros dos escritores amazonenses Thiago de Mello, Márcio Souza, Luiz Bacellar e Elson Farias. Vinte e cinco mil unidades de cada um dos títulos, cedidos pelos autores, para essa campanha de incentivo à leitura. Os leitores agradecem e querem mais.
A idéia, elaborada em uma acanhada sala da Editora Valer, transbordou e se espalhou por toda a cidade. Aliás, tornou-se uma causa da cidade (por sinal muito justa) pela vontade dos cidadãos e cidadãs que não se intimidam com os ares imperativos da palavra impossível. Impossível, agora, é não realizar esse festival nos anos vindouros. Há milhares de pessoas unidas por essa vontade de praticar o bem coletivo, e essa constatação injeta ânimo na veia de qualquer mortal.
Por fim, creio que essa história um dia será esmiuçada. Essa medida se faz necessária, porque dela emanam a perseverança e o otimismo em favor da esrança de que o livro pode mudar o mundo. E como pode.

*Jornalista, sociólogo e escritor
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literatura

Daniel Galera e Fabrício Carpinejar em sessão de autógrafo no Festival Literário Internacional da Amazônia (Flifloresta), que se realiliza em Manaus (17 a 22/12/2008), capital do Amazonas. O evento reuniu escritores de Angola, Brasil, Cuba, Colômbia, Portugal e Nicarágua.
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Flifloresta homanageia Maroaga

Escritores e demais participantes do Festival Literário Internacional da Floresta (Fliforesta), que se realiza em Manaus, fizeram um minuto de silêncio em respeito à memória dos índios waimiri-atroari massacrados durante a invasão das suas terras, na década de 1970. As duas etnias saíram recentemente da lista de povos ameaçados de extinção.

O ato (19/11/2008) ocorre na Cachoeira da Onça, no município de Presidente Figueiredo, durante a leitura e assinatura da Carta da Floresta, documento que reafirma compromissos em defesa da Amazônia e das suas populações. A carta foi elaborada no Simpósio de Cultura e Natureza na Amazônia, uma das atividades do Flifloresta.
Manoel Moura, da etnia tucano, em nome dos escritores indígenas, homenageou Maroaga, cacique legendário dos waimiri-atroari que resistiu até a morte contra a invasão das suas terras. Moura disse que essa cachoeira era um dos lugares sagrados dos povos de Maroaga. Os sobreviventes das duas etnias, que tiveram suas terras reduzidas pela BR-174 (Manaus-Boa Vista), Hidrelétrica de Balbina e Mina do Pitinga, vivem, atualmente, em área demarcada pelo Governo Federal.

“Já começamos errado ao entrar aqui sem pedir licença ao espírito de Maroaga”, alertou Manoel Moura. Ele mencionou, também, os espíritos dos brancos (missionários, funcionários da Funai e operários) que morreram no conflito. “Esse é um momento de reflexão sobre a história recente”, explicou o escritor Tenório Telles, um dos gestores do Flifloresta.

A Cachoeira da Onça e demais patrimônios naturais do município de Presidente Figueiredo fazem parte de um projeto ecológico desenvolvido pelo Poder Público e pela iniciativa privada. Cachoeiras, cavernas, rios e igarapés não sofrerão intervenções que as descaracterizem ou possam comprometê-los ambientalmente. Esse compromisso foi reafirmado com participantes do Flifloresta.

Os dez itens da Carta da Floresta reforçam que os governos da Amazônia e as sociedades que nela e dela vivem precisam se empenhar para manter os ecossistemas amazônicos em permanente equilíbrio. Acentuam que as intervenções no ambiente social e natural, quando necessárias, devem resultar do diálogo entre a ciência e conhecimento das populações tradicionais amazônicas.

O Fliflorestra, que se encerra no sábado, conta com a participação de personalidades do Brasil e do exterior, como João Gilberto Noll, Milton Hauton, Márcio Souza, Thiago de Mello, José Eduardo Agualusa, Pepetela, Ernesto Cardenal e Miguel Cabernet.
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