Archive for dezembro, 2008

A submissa

Neuton Corrêa*

Desci do ônibus tentando memorizar: “Efésios Capítulo 5, versículos de 21 a 24”. Repeti as palavras e os números da Cachoeirinha à Cidade Nova. Atravessei da Zona Sul para Zona Norte em sessenta intermináveis minutos, pensando na referência bíblica. Desembarquei e quando percebi que não havia ninguém me olhando gritei: “Efésios Capítulo 5, versículos de 21 a 24”.

Vibrei! Já havia decorado. Corri para casa. Restava saber se ali eu poderia encontrar um exemplar do Livro Sagrado. Revirei minha biblioteca de meia dúzia de livros, coleção “Os Pensadores”, apostilas, cópias de textos… E nada! Apelei à minha sogra. Ela também não tinha. Faltava apenas minha mulher, mas só chegaria três horas depois. Então, continuei: “Efésios Capítulo 5, versículos de 21 a 24”.

Minha esposa chegou e a recebi com a pergunta: “Você tem uma Bíblia?”. Ela olhou desconfiada, abriu um sorriso, depois baixou os óculos com a ponta do dedo indicador direito, olhou por cima das lentes, revirou suas coisas num armário velho e disse: “está aqui”.

Não perdi tempo. Abri o livro e saí página por página procurando “Efésios”, desde o começo. Passei por Gênesis, Êxodo, Levítico, Salmos, Mateus, Marcos e nada de Efésios.

Aliás, nessa busca achei a sabedoria de Davi. No livro dos Reis, logo no começo, trata da velhice de Davi. O texto inicia-se assim: “Ora o rei Davi tinha envelhecido, e achava-se em idade muita avançada, e por mais que o cobrissem de roupa, não aquecia. Disseram-lhe, pois, os seus criados: busquemos para o rei nosso uma jovem virgem, que esteja diante do rei, durma ao seu lado e preserve do grande frio”.

Mais à frente, o “Cântico dos Cânticos” apresentava-me poesias apaixonadas, que beiram o erotismo. Há um trecho que diz: “Sua boca me cubra de beijos! São mais suaves que o vinho tuas carícias, e mais aromáticos que teus perfumes é teu nome, mais que perfume derramado; por isso as jovens de ti se enamoram. Leva-me contigo! Corramos! O rei introduziu-me em seus aposentos”.

Prestes a desistir da busca, encontrei, perto de Apocalipse, Efésios (5: 21-24). Estava ali: “As mulheres são instruídas a se submeterem aos seus maridos em tudo, como também se sujeitam ao Senhor. Deus tem dado ao homem o papel de ‘cabeça’ da mulher, da mesma maneira que ele deu para Cristo o papel de ‘cabeça’ da igreja. Do mesmo modo que a igreja de Deus se submete à autoridade de Jesus em todas as coisas, a mulher deve se sujeitar à autoridade do marido”.

O quebra-cabeça estava montado. Tudo fazia sentido. Procurei “Efésios” para tentar entender o que duas passageiras conversavam ao meu lado. Foi no 423 (Amazonino Mendes/T3-T2). Elas embarcaram na primeira parada depois do Terminal da Cachoeirinha. Entraram conversando. Eram duas jovens senhoras de alianças nos dedos: uma loura e a outra, morena. Suponho que a loura deveria ter pouco mais de 25 anos, e a morena na faixa dos 20.

A mais velha falava mais e mais alto que a outra. Era uma voz aguda e nasalizada, quase fanhosa. Sempre que se dirigia à morena, advertia: “Olha, mana!”. A amiga apresentava um olhar murcho que misturava tristeza e preocupação.
Percebi que estava preocupada quando ela disse à amiga:
- Não tem jeito, não!
A confidente responde:
- Olha, mana, você tem que tentar.
- Vai ser pior. Não vai dar!, retruca a morena.
A conselheira, porém, chama atenção para o tempo do casamento:
- Vocês se casaram este ano!
- Eu sei, mas é que eu não agüento. Ele está querendo coisas que não concordo.
A loura mal deixa a amiga falar e lhe diz:

Olha, mana, eu prendo o meu marido de todo jeito. Faço de frente, faço de costa, faço de lado e até de cabeça para baixo, se ele pedir. Está escrito na Bíblia. Pode procurar em Efésios Capítulo 5, versículos de 21 a 24.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
(Ilustração: Gusmão)
No Comments

O auto e o baixo do boi-bumbá

*Massilon de Medeiros Cursino

Igualmente às apresentações folclóricas de nossos folguedos juninos, Garantido e Caprichoso dividirei este artigo em atos, para melhor exposição de minha concepção acerca do momento vivido pelos dois bumbás.

O primeiro ato consiste no auto do boi, ou seja, na composição dramática com argumento alegórico engendrador do evento festivo que hoje tomou proporção mundial, graças, principalmente ao maior apanágio dos caboclos parintinenses, a criatividade.

O auto do boi conta a estória da negra Catirina que, grávida desejou comer a língua do boi mais estimado pelo dono da fazenda. A fim de atender o desejo de sua amada, Pai Francisco, esposo de mãe Catirina, mata o melhor animal de seu patrão e, em seguida, foge. Sob perseguição, Pai Francisco pede ajuda ao padre que sai em seu auxilio e faz ressuscitar o boi, para alegria e comemoração de todos na fazenda.

Como tudo é dinâmico, o auto do boi já manifesta suas inovações, como a substituição da figura do padre pela do pajé, o líder espiritual e curandeiro tribal que, depois de inalar o alucinógeno paricá e rebolar as cadeiras, faz a sua pajelança capaz de ressuscitar não só um boi de pano, como toda uma galera que ansiosa assiste à apresentação de um belo espetáculo.

O segundo ato deste artigo versa sobre o baixo do boi, referindo-se aos contratempos e às coisas negativas que maculam a imagem da maravilhosa festa, coisas que, sinceramente, não gostaria de fazer alusão, no entanto, não poderia ficar alheio, porquanto assim estaria ajudando empurrar esse lixo imundo para baixo do tapete.

São contas que não se conhece o tamanho real, estando cerradas numa caixa preta que alterna os valores em fração de segundos, um milhão, três milhões, cinco milhões, como se milhões fossem valores irrisórios. Decerto é que, no momento da prestação de contas, elas se fecham, como nas partidas dobradas, em que para cada débito um crédito de igual valor.

Algumas vezes chegam a apresentar, inexplicavelmente, saldos favoráveis de unidades de reais e até centavos, sendo aprovadas sem um mínimo gesto ou esforço de seus associados, que para isso precisam tão somente permanecer sentados. Aos que ousam contestá-las, o frívolo ensaio de apupos é o suficiente para arrefecê-los.

O baixo do boi também envolve leilões, praças, dívidas trabalhistas, revelias e até trancamento de vias públicas (com sucatas de alegorias). O baixo do boi é o retrato do descaso e da leviandade.

Se no auto do boi pode-se apelar ao padre ou ao pajé, para ressuscitar a rês predileta do patrão, no baixo do boi já não se sabe mais a quem recorrer. O que se sabe é que milagres acontecem na assembléia de aprovação das contas, após a qual se começa outro momento de comemoração, regado a muitas latinhas de cerveja!

* Economista, bacharel em Direito e membro da APL.

1 Comment

A flauta de Noel

Antônio Paulo*

Nesses dias que antecedem ao Natal, envolvido física, simbólica e financeiramente com essa festa milenar cristã – na compra de presentes, cartões, enfeites de pinheiros e cartas de minha filhinha endereçadas ao Papai Noel – vêm-me à memória lembranças e histórias da infância e juventude que marcaram minha vida natalina.

A começar pela primeira vez que comi carneiro com sobremesa de maçã. O estômago fraco e pobre de nutrientes não reconheceu as iguarias da ceia. Baixei ao hospital e lá fiquei internado por vários dias. Da pequena enfermaria, vi os fogos do Ano Novo.

Idem esquecer a ousadia de montar, na década de 1980, juntamente com grupo de jovens coarienses, um auto de Natal cuja história, ainda que tivesse o menino Jesus como personagem principal, seus parentes, pastores e até os reis dos presentes, era contada por ciganos. Imaginem a reação da Igreja (católica), a qual a “trupe” pertencia.

No entanto, a lembrança mais significativa dessa época tem a ver com presentes e o “bom velhinho”. Era primeira vez que ia a Manaus, acho que tinha apenas sete anos. Minha mãe me levou em uma grande loja – não posso afirmar com certeza, mas acho que era nos tempos áureos da TV Lar – foi quando vi um Papai Noel gigante, mexendo-se (ainda não falava), balançando a cabeça e anotando os pedidos da petizada. Claro, que já ouvira falar nele, pois, mesmo sendo um menino pobre do interior, sempre ganhava presentes modestos na noite de Natal. Meus irmãos, que moravam na capital, trabalhando na nascente Zona Franca, mandavam as “lembranças” ou meu pai os comprava na taberna que lhe vendia fiado.

O que me deixou encantado foi vê-lo ali tão perto e atento aos pedidos. Perguntei à minha mãe o que significava? O que ele estava fazendo? Ela respondeu: O Papai Noel anota os presentes que as crianças querem ganhar na noite de Natal. Veio-me à cabeça pedir uma bicicleta daquelas que meus colegas de escola (mais endinheirados) possuíam. Ou um carrinho de controle remoto que meu vizinho ganhara no dezembro anterior. Mas, sabendo, quase adivinhando os meus pensamentos, mamãe atalhou: Só não pode pedir brinquedos caros porque ele tem pedidos de milhares de crianças pelo mundo todo. O que eu peço, então? Perguntei obediente. Aquela flautinha que você me pediu um dia desses, cochichou ela no meu ouvido. Lá fui eu. De pé, diante daquele gigante vermelho, o coração batendo de tanta alegria e encantamento fiz o pedido tão desejado: Querido Papai Noel, quero ganhar uma flauta neste Natal!

Acho que naquele mesmo dia retornamos a Coari. De barco, que ainda levavam três dias para chegar. Em casa, não falava de outra coisa. Contava a Deus e ao mundo, à minha irmã menor, aos primos e colegas da rua que tinha visto o Papai Noel de pertinho e que ele mesmo havia anotado o meu presente. Só não falava o que era com medo de ele esquecer, trocar o pedido e eu passar por mentiroso. Tinha uns primos que nunca acreditaram em Papai Noel. E diziam: Deixa de ser besta, rapaz! É a tua mãe que compra os presentes e deixa debaixo do mosqueteiro. Eu mesmo já vi a minha fazer isso! Para mim, aquilo era uma ofensa. Corria, chorando e enredava lá em casa. Minha mãe punha-me no colo, limpava minhas lágrimas de criança inocente e me acalentava: Não liga, não, meu filho. Esses meninos não sabem o que dizem. O Papai Noel vem e vai trazer o que você pediu.

E chegou o grande dia! Nem consegui comer direito, jogar bolinha de gude ou mesmo fazer uns gols no campinho de futebol improvisado no terreno baldio lá nos fundos de casa. Caiu a noite e minha aflição aumentou. Meus pais e os demais adultos foram à Missa do Galo na Catedral de Nossa Senhora Sant’Ana e São Sebastião. E vocês têm que dormir cedo, se não o Papai Noel não vem. Sentenciou minha mãe. Quem disse que eu conseguia pregar o olho? Queria ver o “bom velhinho” de perto, trazendo em seu saco vermelho o presente que tinha pedido naquelas lonjuras que era Manaus. Queria provar aos meus parentes incrédulos que ele existia e que não havia mentido sobre tê-lo visto tão de perto. A ansiedade da espera me fez adormecer.

Era manhã de Natal. Dei um pulo da rede para me encontrar com o meu sonho. E lá estava ela. Dentro do meu sapato, embrulhada em um papel de presente vermelho, a minha flauta, de plástico, azul, com o bico branco e tocava uma canção infantil. Eu era só sorrisos. Papai Noel havia cumprido sua promessa. Corri, deu um beijo em minha mãe, que olhava carinhosa, e saí de casa a fora pra contar e mostrar a novidade.

* Jornalista

No Comments

A apertadinha

Neuton Corrêa*

O Sol e ela sempre chegavam juntos. Ele pela janela; ela pela porta. O Sol não deixou de brilhar, foi ela quem perdeu o brilho. Hoje, a luz chega; ela, não. Não como antes! As manhãs tornaram-se mais cinzentas. Entre os passageiros-expectadores já não há admiração. Há tristeza, frustração!

Agora ela embarca como uma passageira comum. Se tiver lugar vazio, senta; senão, segue a viagem em pé; às vezes, pede para alguém segurar seus cadernos; às vezes, recebe oferta de ajuda, não mais com a mesma intensidade de antes. Antes, todos queriam lhe ajudar. E quem não queria estar ao seu lado?

Seu olhar assanhado cedeu ao olhar perdido, daqueles que se olha e nada se vê. É o olhar da flor que acabou de passar e deixar seu perfume. A piscadela já lhe faz falta para molhar a pupila, que agora mira a rua para acertar a imaginação. O que se passa em sua cabeça é impossível saber. Apenas seus gestos traduzem a mudança.

Há um ano, quase todos os dias, tomamos o ônibus juntos. Eu com um bloco de anotações e um gravador no bolso. Ela, de cadernos com fotos de artistas na capa e livros carimbados: “Biblioteca Central da Ufam”.

Assídua! Pontual! Ajudou-me da forma que nem faz idéia: só por sua causa passei a chegar antes dos professores. Valia a pena! Era um colírio, a melhor forma de começar o dia. Não só para mim, mas também para o Paulo Henrique, com quem discutia os detalhes da fantasia que ela levava para o 125 (Campus/T1/Centro).

Para não pagar duas passagens, tomávamos o ônibus no Terminal da Avenida Constantino Nery. Eu e o Paulo posicionávamos no banco de trás para vê-la embarcar. Era de onde se tinha a melhor visão do espetáculo, a começar pelo esforço em tentar colocar os pés na escada. Ali, já era possível ver os contornos de suas pernas e a exuberância de seus peitos.

Era impossível não chamar a atenção da viagem só para si. Sempre apertava o corpo contra a justeza da saia jeans. Tão acochada que era obrigada a andar de passos curtos. A blusa também fazia sua barriga se contrair e ressaltar as mamas.

Quando não conseguia lugar e era obrigada a ficar pendurada, passava a viagem toda se contorcendo e baixando a microssaia. Lembro-me da ocasião em que descobri que eu e o Paulo não éramos os únicos a ver aquilo como um show. Certa vez, quando a saia subiu demais, fui advertido por meu colega de viagem: eram cabeças inclinadas em direção ao corredor do ônibus, olhando em sua direção.

Foi em um desses dias que as manhãs perderam o brilho.

Ela embarcou no local de sempre. Chamava a atenção de todos, como sempre. O incomum foi a tragédia: o motorista, apressado, acelerou o carro no Boulevard; a platéia a olhava, ela sorria. Não quis que ninguém segurasse seus livros. Apoiou-se com a mão esquerda e com a direita prendia os papéis no peito.

A viagem segue; o motorista freia, todos se desequilibram, o público se exalta; o motora força o arranque, ela perde o apoio; alguém assobia. Ela ri.

Foi o último sorriso!

O motorista acelera ainda mais. Na mesma marcha, faz uma curva fechada. Ela desprende-se do apoio. Sua saia não suporta a pressão da barriga: o zíper e o jeans se rompem; a roupa se abre; ela usa os cadernos para esconder a minúscula calcinha. O peito, porém, aparece. Ela já não sabe o que fazer, desespera-se e pede para descer.

Em frente ao cemitério, onde ela desembarcou, muitos riram, alguns lamentaram. Ali, ela enterrou as roupas apertadas. Agora desfila saias longas, blusas grandes, rosto sem maquiagem e calçados sem saltos.

Que pena!

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam
(Ilustração: Myrria)
No Comments

Chico Mendes vive!(?)

Michelle Portela*

Poucos dias antes de morrer, o líder seringueiro mais famoso do mundo escreveu uma carta. Endereçada aos “jovens do futuro”, pedia esperança e fé, pois em cem anos, o socialismo teria triunfado e os homens viveriam em harmonia. Utopia típica de um sonhador como Chico Mendes. Porém, na mesma carta, encerrava dizendo: “Desculpem, eu estava sonhando”.

No dia 22 de dezembro de 1989, após meses sob proteção policial, Chico levantava-se da mesa da cozinha, na qual jogava dominó com dois policiais militares que faziam sua escolta, para tomar banho. O banheiro, como é de costume nas casas interioranas, ficava do lado de fora da casa. Ao abrir a porta ‘de trás’ para sair, foi atingido por um tiro de espingarda bem no peito e anunciou: “Me acertaram!”.

Os policiais fugiram pela janela, presumindo uma matança. Chico se arrastou até a porta de um dos dois quartos de sua humilde morada, encontrou sua filha Elenira, deitou-se em seu colo e deu seus últimos suspiros. Seus filhos e esposa sobreviveram e batalham por um legado.

As marcas do tiro e do sangue de Chico ainda estão naquela porta, na casa tombada pela Fundação Chico Mendes, com sede em Xapuri, cidade natal do seringueiro, onde viveu e lutou por toda a vida. As mesmas marcas ainda não cicatrizaram no movimento social do Acre e no ambientalista, categoria pela qual é mais lembrado.

Em 2008, são 20 anos da morte do seringueiro, quando proliferam as camisetas emblemáticas “Chico Mendes vive!”. Assim como Che, Fidel, bandas de rock e outros produtos midiatizados, a mercantilização da imagem de Chico talvez seja mais contraditória do que coerente com o ‘movimento’. Contradição, aliás, esta que nos traz o benefício da dúvida!

Antes de tudo, porém, é importante reconhecer que Chico assumiu um papel fundamental na luta pelo direito de estar vivo no Acre dos anos 1970, com o aparelho burocrático funcionando para extorquir, reprimir, violentar e matar, típico aos regimes ditatoriais.

“Chico vive” porque sua trajetória ratifica o laconismo. Ainda jovem trabalhador dos seringais, entendeu que os seringueiros precisavam monetarizar o debate e apresentar modelos de sobrevivência com base no extrativismo lucrativo frente à expansão da pecuária e exploração madeireira. Pensou que poderia fazer isso nos modelos tradicionais. Com apoio dos seus, candidatou-se a vereador pelo MDB e assumiu uma cadeira na Câmara Municipal de Xapuri.

Durante sua pesquisa de doutorado, a antropóloga Mary Allegretti, amiga de Chico e peça-chave na articulação do movimento seringueiro, conseguiu copiar todas as atas das sessões realizadas na Câmara, menos a da sessão secreta que decidia pela cassação do mandato do “vereador seringueiro” caso não renunciasse à presidência da Casa. As demais atas, no entanto, relatam os fatos:

“No dia 17 de setembro de 1979 Chico Mendes, já presidente da Câmara dos Vereadores, organizou, no plenário da Câmara, uma reunião de seringueiros ligados ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais para discutir os problemas que estavam enfrentando em relação aos conflitos fundiários.

No dia 23 de novembro, o vereador João Simão dos Santos, vice-líder do MDB, apresentou ao presidente da Comissão de Justiça, uma denúncia formal contra o Presidente da Câmara Municipal de Xapuri, sob a alegação de que a reunião realizada com os seringueiros no plenário da Casa contrariava os estatutos e convocou, em seguida, os membros da comissão para uma reunião na qual deveriam resolver os devidos processos. A posição foi endossada pela maioria dos demais vereadores, que acrescentaram críticas à atuação do STR de Xapuri.

Na última sessão ordinária do ano, realizada em 30 de novembro, Chico Mendes já havia renunciado ao cargo de Presidente da Câmara dos Vereadores de Xapuri. A sessão esteve sob a presidência em exercício do vereador Amadeu Dantas e foi secretariada em exercício pelo vereador Eurico Gomes Fonseca Filho. Foi registrada a entrega, para a Mesa Diretora, de um envelope lacrado com documentos e uma fita de uma SESSÃO SECRETA realizada dia 29/11/79 na Casa do Povo, que foi verificada pelo Presidente da Comissão de Justiça na qual teria sido decidida a cassação de Chico Mendes. Para não perder o mandato, ele renunciou da presidência.”

Diante de tamanha violência, aquilo que se tentou esconder tornou-se mais evidente. A partir daí, Chico organizou a Aliança dos Povos da Floresta e os sindicatos de trabalhadores se tornaram forças, reuniu em torno de si um grupo de intelectuais e artistas que faziam frente o governo militar vigente e ampliou o debate além das fronteiras. Ganhou prêmios na ONU e se tornou um dos militantes mais reconhecidos em sua causa. Caso inédito, em se tratando de um homem que vivia em ‘lugar isolado’, como insistem em nos posicionar. O conflito por terras e poder na Amazônia estava novamente no mapa mundi!

As reservas extrativistas foram criadas como modelo de desenvolvimento, terras indígenas foram reconhecidas, o movimento se organizou politicamente e construiu um “Governo da Floresta” – bom ou ruim, é um marco na história política do País -, ocupando as principais prefeituras, o Governo do Estado e cargos na Câmara Federal e no Senado, inclusive nos ministérios. A eleição de Lula à Presidência foi o ápice!

São estes mesmo elementos que levam à nova pontuação na expressão título deste artigo: “Chico Mendes vive?”. As reservas extrativistas viraram grandes pastos e nesse momento, posseiros estão sendo expulsos dessas áreas. O ‘meio ambiente’ padece e as licenças ambientais são aparelhos de negociação política. ‘Sempre saco uma licença na hora da negociação’, disse o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, à Veja desta semana. Ele substituiu a senadora pelo Acre, Marina Silva, a “inegociável”.

Fato novo, só a anistia post-mortem do “do líder sindical e ecologista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes”, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no último dia 10 de dezembro. A viúva Ilzamar Mendes protocolizou o pedido de anistia há três anos e, a partir de agora, a família do seringueiro terá direito a receber indenização retroativa no valor de R$ 337 mil, mais R$ 3 mil mensalmente, pelo fato de ele ter sido perseguido pela ditadura militar.

Chico Mendes foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional (LSN), em 1980, juntamente com os sindicalistas Lula, Jacó Bittar, João Maia e José Francisco, por incitação à desordem e ao crime. Foram acusados de envolvimento na morte do capataz Nilo Sérgio. “Nilão”, como era conhecido, foi emboscado por trabalhadores e assassinado a tiros de espingarda, após o assassinato de Wilson Pinheiro, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, dentro da sede da entidade.

Chico Mendes e seus companheiros participaram, em Brasiléia, de um ato de protesto contra o assassinato de Wilson Pinheiro. Na ocasião, diante de centenas de trabalhadores rurais, Lula usou durante o discurso a expressão “está na hora da onça beber água”, o que teria, na avaliação da ditadura, sido o sinal para que os seringueiros assassinassem “Nilão” como vingança.

Não sei. Na verdade, quem sabe. A vida de Chico Mendes talvez tenha sido uma crônica da realidade!

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

No Comments

Livros em promoção

A Livraria Valer (rua Ramos Ferreira, 1195, Centro, em Manaus) colocou em promoção, desde hoje até sábado, o seu acervo de 30 mil livros. Os descontos se estendem dos 40% a 90%. Milhares aproveitaram a promoção no primeiro dia.

O dono da empresa, Isaac Maciel, disse que a Valer fará a reposição dos estoques todos os dias, para manter as gôndolas sempre com novidades. Ele explicou que a promoção é um presente para os clientes que, ao longo de 18 anos, têm prestigiado a livraria e seus eventos culturais.

“Essa promoção faz parte do esforço da Valer para democratizar o acesso aos livros”, disse o professor de Literatura e membro da Academia Amazonense de Letras Tenório Telles, coordenador editorial do grupo.

Para o pedagogo e membro do Clube Literário do Amazonas, José Farias, nos primeiros anos escolares e até a universidade, e depois por toda a vida, o “Cinzas do Norte”, livro é sempre um instrumento de trabalho. Ele afirma que a promoção amplia o acesso à leitura.
No Comments

Bomba midiática

Wilson Nogueira*

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mostrou-se ágil ao se desviar dos sapatos atirados pelo jornalista Muntadar Al-Zaidi, durante uma entrevista coletiva, no Iraque. Muntadar, por sua vez, não deixou dúvidas quanto a sua pontaria. Todo mundo notou que os sapatos acertariam a cara do Presidente. “Foi uma bizarrice”, teria desdenhado G.W.B, na sua arrogância impecável. Explicações devem os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Iraque.

De todas as bizarrices do episódio, a maior é a da imprensa encaixada nos interesses de G.W.B e seus aliados, que tenta, também, desqualificar o protesto de Muntadar. “Ainda não está claro se ele recebeu dinheiro para fazer o que fez ou se estava alcoolizado ou sob efeito de drogas no momento do ocorrido”, especula uma agência européia. É brincadeira! Querem agora convencer o mundo de que a resistência iraquiana, palestina ou afegã é coisa de gente vendida, bêbada e drogada.

Muntadar não se transformou em herói por acaso. Manifestações de rua, na a Palestina e no Iraque, pedem a imediata libertação dele. Não é difícil compreender que os sapatos voadores transportaram a indignação dos oprimidos pela guerra motivada, principalmente, pelo controle das maiores reservas petrolíferas do Oriente Médio. Aliás, trata-se de um ato pacífico se comparado às bombas humanas que explodem em mesquitas, feiras e mercados das principais cidades iraquianas.

Independentemente das razões culturais, a atitude Muntadar pode ser entendida como uma bomba midiática. Não existiria situação mais melancólica para o homem mais poderoso do Planeta como a de terminar o mandato atingido no rosto por sapatos atirados durante uma coletiva de imprensa. Não se trata, a essa altura, da figura de G.W.B, ridicularizada e enxovalhada dentro do próprio Estados Unidos por sua política econômica e militar extravagantes, mas do Estado norte-americano vulnerável. Ainda que G.W.B seja um Pato Manco, alvejá-lo com sapatos e ovos sempre será estimulante aos sentimentos anti-americanos. Resta saber se a polícia que se gaba ser a inspetora do mundo sabe disso.

As interpretações que chegam até nós dão conta de que imensos setores muçulmanos estariam satisfeitos com Muntadar. As sapatadas, mais especificamente as que atingem o rosto do alvejado, para os que professam o Islã, são o pior dos insultos, e o insultante o mais magnânimo dos heróis. Por isso, o jornalista, que também é atirador de sapatos, mereceria a fervorosa comemoração em países de maioria muçulmana.

O incidente estende-se, de imediato, à postura do jornalista no exercício da profissão. Muntadar teria profanado o jornalismo e sua suposta imparcialidade. Essa discussão é longa e apaixonante, mas, antes de iniciá-la, é necessário frisar que o Iraque é um país invadido e ocupado por um grupo de potências econômicas e militares que apostam suas fichas no controle permanente do mundo. Não aprovo a violência, mas dá para entender os porquês de tanto regozijo a mais um dos inúmeros ataques bizarros ao presidente Bush.

A guerra é o limite humano. A razão não age nesse ambiente trevoso onde reina o ódio e a insensatez. Melhor mesmo seria evitá-la.

Jornalista, sociólogo e escritor.

No Comments

Para Maria Eunice

Ivânia Vieira*

A edição de A CRÍTICA, de 28 de agosto último, mostrou uma cena insólita: juízes nas ruas de Manaus panfletando em defesa do voto ético. Fotógrafos registraram essa atitude, rara na história da Justiça Eleitoral local. Ari Moutinho, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), e Maria Eunice Torres do Nascimento, presidente do pleito eleitoral deste ano, abordando pedestres e motoristas sobre a importância de votar eticamente. Da mobilização também participaram Carlos Queiroz e Gildo Carvalho, juízes da propaganda eleitoral.

Para os habitantes de Manaus, a notícia parecia indicar um novo e bom momento. A retomada da reconciliação da Justiça com ela mesma na versão maiúscula. Não se vai à rua pedir a eleitores ética no voto impunemente. Tem troco e tem cobrança. Principalmente quando os atores do convite público são magistrados.

A Justiça Eleitoral do Amazonas está sendo cobrada. Sua conduta é avaliada pelos juízes da rua, do meio do povo. As manifestações de apoio às ações da juíza Maria Eunice Torres são parte de um ensaio maior. A maioria das pessoas participantes desse movimento tem história de luta em defesa da liberdade, da democracia e do aprimoramento desta. Não é ‘filha da ficha trocada por favores pessoais’. São mulheres e homens dignos, portadores de esperança e da determinação de construir boas mudanças.

O embate ora travado no TRE-AM é outro ato do exercício para vencer a anomalia. Pior é quando se faz silêncio entre os homens e as mulheres da Justiça; pior é a harmonia das falas desse Poder. Nessa perspectiva, é um cancro, mina o organismo e mata.

As decisões de ontem do Pleno do TRE expõem contradições espetaculares. Elas vão ganhar as ruas e produzir questionamentos à Justiça, independente da vontade desse ou daquele juiz. Mesmo com a dança da vitória passageira, a sentença avança além da condenação de eleitos, para cobrar publicamente os que vestem a toga.

Jornalista, professora da Ufam.

No Comments

Imortais da ilha*

Lane Lima

Estimular a produção literária amazonense na divulgação das obras de autores locais, formar novos escritores e sobretudo, desenvolver conhecimento. Este é o compromisso da Academia Parintinense de Letras, fundada no dia 29 de novembro deste ano.

A instituição faz parte de um projeto da Academia Amazonense de Letras de interiorização da organização dos intelectuais no Amazonas. Segundo Narciso Picanço, presidente da APL, Parintins foi escolhida em função de ser um centro cultural de repercussão nacional. “A fundação da academia em Parintins foi o feito de maior importância cultural para cidade. Não estou desmerecendo os outros institutos, mas uma academia traz o que há de melhor para um povo desenvolver trabalhos literários e culturais”, disse.

Desafio
Quinze personalidades foram convidadas a se tornarem imortais membros e sócio-fundadores da APL. Narciso informou que o primeiro desafio dos sócios é mostrar a importância da literatura na melhoria da qualidade de vida dos parintinenses, por meio de projetos que incentivem a prática da leitura e a produção de obras literárias.

Para o jornalista Wilson Nogueira, a instituição pode e deve atuar de forma intensa e sistemática na formação e divulgação da produção literária amazonense. “Eu acredito que a leitura é fundamental para a compreensão do funcionamento da sociedade. A minha posição dentro da academia, vai ser trabalhar com a promoção da leitura”, disse.

O maior envolvimento de Wilson com a academia é em função de um compromisso com a sociedade. A atuação do jornalista será com a produção de atividades como palestras que contemplem as feiras de livros e o estímulo para outras artes, entre elas o teatro e o cinema. “Sempre estudei em escola pública, então, quero devolver à sociedade aquilo que a ela me deu, a oportunidade de estudar, me graduar e até me tornar mestre em instituições públicas”, conta.

Planejamento
No próximo dia 18, os membros da APL terão a primeira reunião ordinária com a finalidade de planejar as atividades para 2009. Narciso informou que um dos projetos é a produção da obra que irá contar a história de Parintins em períodos e em fascículos. Outro projeto idealizado é a história do Boi Bumbá, contada pela população da cidade. Em relação à influência que a tradição do festival terá na APL, o presidente adianta que a instituição terá a cultura do Boi Bumbá, mas sem as cores. A APL irá abrir inscrições para os interessados em se credenciar.

Blog – Neuton Corrêa
Filósofo, cronista e membro da APL
“Fazer parte da Academia Parintinense de Letras para mim significa uma cobrança de Parintins em relação ao meu trabalho. Na verdade eu estou começando a fazer ensaios de literatura agora. Escrevo há vinte anos, mas para jornal. Fico pensando como estimular novos leitores e como será nosso produção a partir de agora, já não bastam mais os textos jornalísticos. É um sentimento de cobrança.”

*Matéria publicada na edição de hoje do Jornal A Crítica.

No Comments

Pacto com o diabo


Neuton Corrêa*

As abelhas pousam na fatia de queijo coalho. Ele as agride com um trapo gorduroso. Apressado, o cliente pára e lhe pede um pouco de fogo para acender o cigarro. Ele nega; depois, resmunga. Tudo incomoda seu Antônio. Sinto até falta das frases prontas que costuma soltar nas horas certas.

Seu Antônio é o bombonzeiro da parada onde costumo tomar cafezinho à espera do ônibus. Imaginei que ele tivesse descoberto que sua namorada anda saracoteando pela noite. Vi a moça numa madrugada de sexta-feira, na Ladeira do Forró, aqui ao lado do jornal. Dançava de tudo e de todo jeito: ia e voltava para frente e para trás segura pelas mãos do parceiro; rodopiava feito pião; e depois de mais uma sessão de ida e vinda saltava-se na cintura do rapaz, abraçando-o com as pernas para em seguida girarem no mesmo eixo. Eu deixei a festa, e ela ficou molhada de suor.

Mas não era isso que perturbava seu Antônio. Aliás, aprendi com meu amigo Camilo, criador de gado que hoje beira os 80 anos, que velho não sente ciúme. “Prefiro dividir um docinho a ter que comer sozinho uma lata de estrume”. O bombonzeiro já passou dos 70 e a namorada dele está perto dos 20.

Senti-me tão incomodado com a mudança de comportamento do meu amigo que o instiguei:

- O que aconteceu, seu Antônio?
- Nada, por quê?, retrucou.
- O senhor está brigando até com as abelhas.
Ele abriu um sorriso, depois baixou a cabeça e disse:
- O bispo pediu para a gente não comprar mais nada da Xuxa. Nem assistir ao programa dela.
- Mas por que, seu Antônio?
- Ela vendeu a alma para o diabo, por isso é que ficou rica. Tu já imaginou?

E eu, pensei comigo: sim, já havia imaginado. Essas histórias escutam-se em todos os lugares. No livro “Os pactos”, li a história da família Picasso, em uma cidade chamada Santa Rosa. Eram lavradores. Da noite para o dia, tornaram-se donos de tudo. Mas havia um problema: a cada salto que davam na fortuna, um filho morria. Foram-se três. Todos de maneira trágica. O último, por exemplo, debaixo de um contêiner, que despencou de um guindaste no cais do porto de Santa Rosa.

Outra história do livro contava a sorte de um pobre mecânico de aviação. Vivia se queixando da vida. Passava horas em sua oficina, falando sozinho. Ficou rico ao se encontrar com o cramunhão, durante um acidente aéreo. Dizem que quando o avião começou a apresentar problema, todo mundo se pegou com Deus. Só ele com o dito cujo. Depois da tragédia, comprou a empresa para a qual prestava serviço e tudo o que desejava possuir.

Seu Antônio tinha a história dele também:
- Na minha terra tinha um coronel muito rico. Perdeu tudo depois da Segunda Guerra. Ficou igual a gente. Mas, da noite para dia, começou a comprar navios, comércio… Dizem que vendeu a alma para o diabo. Assim como subiu, caiu. Morreu só em um pau-de-arara. Adiantou?

Concordei com o meu amigo. E lhe disse:
- Seu Antônio, sei que a Xuxa vendeu outra coisa. Não a alma. O primeiro trabalho dela foi para uma revista de mulher pelada.
Ele, porém, insistiu:
- Não, o bispo disse que ela vendeu a alma por cem milhões de dólares!
- Cem milhões de dólares é muito dinheiro, respondo, em defesa da apresentadora.

Notei que eu não teria êxito em demovê-lo da idéia. Desisto, mas ele recomeça:
- Olha, vou te dizer uma coisa, morro vendendo bombons, mas não entrego minha alma por preço nenhum. Essa é a única coisa que não se vende.
Concordei com ele e tentei dar minha opinião sobre esse assunto, mas o 600 (T4-Centro) passava com alguns lugares vazios e corri para embarcar.

* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
(Ilustração: Myrria)

No Comments