Archive for janeiro, 2009

Michael Löwy critica ONGs e defende o ecossocialismo

O cientista social Michael Löwy, 70, disse em Manaus que as redes ambientalistas não propõem alternativas eficazes aos problemas ambientais. Segundo ele, ONGs como Greenpeace têm papel positivo, mas atacam apenas os sintomas da questão. Michael Löwy, que mora na França, está na Amazônia pela primeira vez. Na semana passada, proferiu palestras no auditório da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e esta semana está em Belém, onde participa do Fórum Social Mundial. Löwy nasceu em São Paulo, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, em 1960. É um dos mais destacados estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin. Ele concedeu entrevista ao jornal A CRÍTICA, no dia 21 de janeiro. O material, editado, foi publicado no domingo passado. Com autorização do jornal, o TEXTOBR publica a íntegra da entrevista que ele concedeu à jornalista Elaíze Farias.

Como o ecossocialismo articula-se com o pensamento marxista?
Ele parte da idéia de que uma ecologia que não seja socialista não enfrenta os desafios que estão colocados para a humanidade do século 21. Inversamente o socialismo que não seja ecológico está atrasado em relação aos problemas de nossa época. O ecossocialismo é o início de um processo de luta e de conscientização das pessoas. Surgiu em vários lugares ao mesmo tempo na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil. No Brasil existe uma rede brasileira bastante ativa. Ano passado foi fundada em Paris uma rede internacional. Agora vamos publicar o manifesto, que se chamará o Manifesto de Belém, no Fórum Social Mundial. Depois vamos fazer o segundo encontro ecossocialista internacional.

Quais as ações apresentadas pelo ecossocialismo?
O objetivo é reunir e associar uma espécie de osmose de difusão química entre a critica marxista do capitalismo e a análise da destruição do meio ambiente. Mostrar que as duas coisas estão relacionadas. Aquilo que Marx explica sobre a natureza do capitalismo, um sistema que só pode existir da produção ilimitada de mercadorias.

Qual o grande papel do capitalismo na destruição do planeta?
Exploração e destruição ilimitada dos recursos naturais é inerente do capitalismo. Faz parte do seu código genético. Não depende da boa e má vontade do empresário ou do banqueiro ou governante. É a lógica do sistema.

O ecossocialismo parte de qual análise sobre a nossa realidade?
Partimos da análise de que o processo de destruição do meio ambiente que está se acelerando com uma rapidez catastrófica resulta não apenas da ação humana. Porque a humanidade vive neste planeta há milhares de anos. Tem a ver com a nossa civilização industrial, capitalista, ocidental. O que está colocado na ordem do dia é uma mudança muito profunda no paradigma de civilização. Não é só mexer com as relações de propriedade, com a maneira de administrar a economia. Precisamos de um novo modelo de civilização. Uma nova maneira de produzir, de consumir, de se transportar.

O ecossocialista é uma forma de atualizar o pensamento socialista clássico?
Para nós o ecossocialismo é uma aposta. É uma possibilidade que corresponde a uma necessidade real. O Marx teve algumas intuições, mas obviamente na época dele a questão não estava colocada desta maneira. A gente parte de uma visão bastante crítica do que foi a experiência do chamado socialismo real, na União Soviética, na China, que desprezou completamente a questão ambiental. Por dois aspectos. Um é que faltou democracia. Outro é que faltou ecologia. Então, não dá para pensar o socialismo que não seja democrático.

Qual a resposta do ecossocialismo para lógica do capitalismo?
A unidade dos povos da floresta para defender a floresta contra os latifundiários, o agronegócio, as multinacionais, é um combate que vai no sentido da idéia do ecossocialista. Talvez estes movimentos não saibam disso. Mas para nós é importante mostrar que essa luta dos povos da floresta interessa ao movimento.

O senhor faz alguma crítica às atuações de redes ambientalistas?
Por um lado, devemos reconhecer a utilidade dos movimentos ecológicos. Mesmo ongs como Greenpeace tem papel positivo. Mas atacam os sintomas do problema, não vão à raiz. As alternativas que eles propõem são ineficazes. Apelam à boa vontade do indivíduo para não jogar plástico na rua. Não somos contra isso. Mas não está à altura do desafio. Sobretudo agora que está se colocando o problema do aquecimento global, que é de todos os desastres ecológicos o mais grave que está se apresentando.

Qual a relação entre os movimentos sociais e o ecossocialismo?
Nosso objetivo é conscientizar os movimentos sociais, movimentos de esquerda e movimento ecológico. Juntar a crítica do capitalismo com a questão ecológica. Não somos nós que vamos resolver o problema. Estamos simplesmente a serviço dos movimentos, tentando trazer uma proposta. É uma utopia, mas não só uma idéia. É algo que se traduz em prática. Uma reivindicação que a gente levanta é desenvolver grandes redes de transportes públicos gratuito. Isso reduz o transporte de carros, responsáveis pelo efeito estufa. A gente está a fim de coisas concretas.

Quais os movimentos sociais do Brasil com os quais o ecossocialismo mais se identifica?
Os movimentos mais próximos no Brasil e na América Latina com quem já há um diálogo são os camponeses e indígenas. Faz parte da experiência deles lutar contra a expansão do latifúndio. Mas não é só ter um projeto de uma outra sociedade, de um outra civilização. Precisamos agir e agora. Não dá para esperar. Precisamos de ações para defender um pedaço da floresta, criar uma rede de cooperativas de agricultura biológica, de impor o transporte público no lugar de transporte de cidades.

O que o senhor acha de atitudes individuais, aparentemente banais, como sempre fechar torneira? O senhor as considera ingênuas?
Acho importante a pessoa fechar a torneira. Mas é preciso tomar consciência que isso não basta. Porque enquanto isso uma empresa de produção está desperdiçando água em quantidade astronômica. Não basta fechar a torneira. É preciso enfrentar a questão global do sistema. As pessoas devem fechar as torneiras, mas tomar consciência de que é um problema político. Não depende da boa vontade de uns e outros, mas de uma mudança estrutural no funcionamento da sociedade.

Qual a informação ou tem contato com os movimentos sociais da Amazônia?
Vim aqui para aprender. É a primeira vez que venho para a Amazônia. Os paulistas não dão atenção para a Amazônia. O Fórum Social Mundial vai ser um grande momento de escutar. Estou muito interessado sobre o que os movimentos indígenas vão mostrar. Os indígenas têm um relacionamento com natureza diferente da civilização capitalista moderna.

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Diversidade cultural


O
Acampamento do FSM, em Belém, expressa a luta dos povos por um outro mundo possível por meio da divesidade social.

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Vereador – Ter ou Ser

Ivânia Vieira*

Está em pleno andamento a operação para aumentar o número de vereadores no Brasil. Argumentos em defesa dessa proposta aparecem numa sucessão infindável, como uma espécie de rolo compressor. O objetivo é impedir outros questionamentos e, assim, criar um ambiente favorável ao aumento do número de cadeiras nas câmaras municipais. Mas o País realmente precisa ter mais vereadores?

Hoje o segmento é formado por 51.748 parlamentares. Poderá chegar a 59.791, se a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 333/04, já aprovada em dezembro, com alterações, no Senado, vier a ser promulgada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados (até agora contrária mais por conta das mexidas feitas pelos senadores).

À população, uma das mais interessadas no assunto o embate no âmbito do Parlamento vale pouco. Afinal, não nasceu da sociedade organizada a reivindicação por mais representantes nas câmaras municipais. Esse de fato não é um pleito popular, ao contrário, é impopular. Talvez porque o vínculo entre representantes e representados esteja bastante fragilizado, quase irreconhecível.

Pelo que lutam os vereadores? Eleitores e as pessoas em geral se vêem contempladas na ação do legislador municipal? Indicadores da organização não-governamental (ONG) Transparência Brasil (vale a pena conhecer: www.transparência.org.br) estabelecem em R$ 4,50 o custo médio do voto no Brasil, tendo como parâmetro os dados oficiais das eleições municipais de 2004. Em São Paulo, o custo médio à época ficou em R$ 4,75.

Nas eleições do ano passado, um candidato a vereador em Belém (PA) aparece como detentor do voto mais salgado do Brasil – R$, 138,00. Ter acesso aos dados sobre quem financia a campanha é um aprendizado fundamental à comunidade. Ela poderá acompanhar o vereador e saber quais setores o mandato dele está beneficiando.

Enfim, esta é uma pauta para as organizações populares se apoderarem dela. A sociedade está diante do ter mais ou ser mais vereador. Esse sim anda em falta.

*Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Maturana

Neuton Corrêa*

Maturana previu a própria desgraça. Poderia ter evitado-a, mas, mesmo desconfiando que o fim da noite lhe seria trágico, entregou-se aos prazeres da noite e da carne.

Juan Carlos Maturana se diz um dos sobreviventes dos massacres cometidos no Peru pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso, na década de 1980. Jura ter testemunhado o assassinato de oito jornalistas na comunidade de Uchuraccay. “Isso aconteceu dia 26 de janeiro de 1983”, diz ele, com precisão para se mostrar verdadeiro.

Maturana lembra também do ataque que naquele mesmo ano deixou 69 mortos, entre eles 20 crianças, em Santiago de Lucanamarca, na região de Ayacucho. Ao contar a tragédia travou a voz e molhou os olhos para depois falar de sua decisão de se refugiar no Brasil.

Do grupo de jovens que o acompanhou, a maioria familiares, foi um dos poucos que não quis nada com o comércio ambulante. Preferiu a estiva e a vida da zona portuária. Do sotaque espanhol, pouco lhe resta.

Fui levado a conhecê-lo, no início desta semana, por um grupo de amigos dele. Leram a história de sábado, a do Miguinho, lembram? Aquele que atrofiou a perna, atirou-se da tolda do barco em cima de dois botes de alumínio, foi esfaqueado, resistiu a tudo isso e hoje está preso.

Os colegas de Maturana acharam que ele tinha história semelhante a do Miguinho. Mas não tinha nada a ver. O Miguinho era atraído pela sorte. Maturana, não. Maturana prevê o que vai acontecer.

A vida dele lembra figuras da história das civilizações. O personagem Prometeu, por exemplo, sabia que seria punido por Zeus e mesmo assim roubou o fogo dos deuses para dar ao homem. Teve de cumprir pena de 30 mil anos de prisão em um rochedo, vendo uma águia beliscar seu fígado.

Adão também sabia que se aceitasse a maçã de Eva seria expulso do paraíso.

Maturana é assim: se ele lhe disser não faça isso, não insista.

Certa vez, estava na Praça do Relógio. Nesse dia, não bebeu nada, porque, logo cedo, teve o pressentimento de que alguma coisa lhe aconteceria naquela data. O dia passou. A noite avançava, quando foi abordado por uma mulher. Receoso, olhou para o relógio, e concluiu intimamente: “hoje não acontecerá mais nada”.

Maturana e a companheira beberam e antes que o último ônibus deixasse a estação da Matriz ela o convidou a ir para a sua casa. Ele hesita. A mulher insiste. Maturana volta a consultar seus guias e pensa: “isso não vai dar certo”. Recusa o convite, mas acaba sendo seduzido a morder a maçã.

Já no quarto da parceira, uma estância no bairro Coroado, entrega-se às volúpias da madrugada. Uma noite inesquecível! Como nada tinha lhe acontecido, achou que seus oráculos haviam cometido erro. E seguiu rindo com as paredes.

A madrugada, porém, não havia terminado. O ex-marido da mulher reaparece, perde o controle, agride o casal a cassetadas e para marcar a punição joga-o no buraco de uma fossa em construção e vigia os dois por algum tempo.

Ao perceber que o agressor não estava mais no local, Maturana literalmente sai da fossa. Furta um par de roupa da vila e espera o sol e o primeiro coletivo aparecerem. Não demora e o ônibus passa. Maturana embarca, encontra a melhor posição para cochilar, mas quando o sono chega, o carro freia bruscamente. O peruano se assusta, olha pela janela, estica a cabeça para ver o que havia acontecido e não viu nada!

Nesse momento, porém, o motorista desprende-se do cinto de segurança e caminha no corredor do articulado. Maturana ensaia uma pergunta e quando começa a falar recebe um soco na cara.

Ele se apruma para revidar, mas antes de desferir o golpe, pergunta:
- O que é isso, rapaz?
E o motorista responde:
- É para você nunca mais mexer com a mulher dos outros.

*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Pelo direito de andar

Ivânia Vieira*

Manaus está sob a ‘Lei da Desordem’. Ande nela, na área central ou na periferia, o cenário é o mesmo: A ausência dos parâmetros de uma cidade. Não é crise provocada pela falta de recursos financeiros. Afinal, este não é um dos lugares mais pobres do País, ao contrário aparece bem situado em vários indicadores, inclusive como um dos melhores destinos brasileiros para investimentos.

A crise é de outra ordem. Atinge as instituições, estimula a retomada de um antigo processo de ocupação dos espaços públicos por quem grita mais alto, pela truculência dos apadrinhados do poder constituído e pelo entendimento de que as leis estão temporariamente arquivadas.

Pedestre não tem espaço para andar. As sobras das minguadas calçadas existentes foram tomadas e transformadas em áreas de negócios – os mais variados. É uma grande feira a céu aberto. Motoristas vivem a esquizofrenia de uma cidade asfixiada pelo excesso de carros. Então, as calçadas também foram transformadas em lugar de carros e as pessoas são, violentamente, empurradas para a pista de corrida, obrigadas a um malabarismo de alto risco, tornando-se parte de um ciclo diário de violência, reproduzido em casa.

O caos de Manaus favorece a um grupo sem compromisso com a cidade, com o seu presente e o seu futuro. Quer apenas fazer negócios, saqueá-la e, depois, com os bolsos cheios, olhar de longe o nosso lugar referindo-se a ele como lixo. É um grupo com ramificações nos vários espaços de poder, ‘legalizando’ o ilegal e tentando tornar atos imorais em atitudes de moralidade.

Esse tipo de gente faz mal a todos nós. Suas ações tem longa duração. São alimentadas por migalhas cotidianas, negando direitos e tenta impedir a população de avançar no aprendizado sobre dignidade.

A cidade, candidata a sediar grandes eventos nacionais e internacionais, a ser roteiro turístico, está sendo massacrada pela balburdia.

* Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Miguinho

Neuton Corrêa*

Estava a bordo do 112 (BR-174). Algumas paradas depois, decidi: teria que desembarcar o mais depressa possível. A imagem que eu via era perturbadora. Não poderia ficar ali nem mais um minuto. Pensei em descer pela porta traseira sem pagar passagem, mas controlei o impulso. Planejei, então, passar pela porta da frente, rogando para não ser visto por meu amigo de infância que acabava de embarcar.

Na verdade, graças a Deus, ainda não o tinha visto, mas já tinha a certeza que era ele. A voz e as brincadeiras eram as mesmas. Deficiente da perna, com passe-livre, aplicou uma carteirada. Antes de subir havia cumprimentado o motorista: “E aí, come gente, como vai?”. Subiu e falou com outra pessoa: “E aí, vascaíno, até segunda!”.

Depois de alguns minutos resolvi encará-lo. O tempo havia lhe dado bastante pêlos brancos na barbicha e nos cabelos. Também ganhou mais peso, um esforço a mais para arrastar a Poderosa. O rosto trazia uma nova cicatriz perto do canto da boca.

O encontro acionou o filme sobre a vida dele em meus pensamentos. José Nildo Prestes das Neves, o aluno mais famoso do “primário”. No colégio, era chamado de Nildo; entre os seus amigos era tratado como “Miguinho”; e, por fim, a alcunha de “Oruco”. O agrado é uma curruptela de urucubaca. Sempre riu das próprias desgraças, sobre as quais dava um jeito de fazer piada.

Poderosa, por exemplo, foi nome que ele mesmo deu para a perna que atrofiou do toco da coxa até a ponta dos dedos. O trauma aconteceu durante uma escapada das aulas de Educação Física do Professor Treme para o lago do Ropoca, no derredor de Parintins.

A garotada se organizava para pular n’água de um lugar estratégico. Oruco quis furar a fila, mas foi barrado. Ao realizar o salto, porém, voltou com o calcanhar sangrando. Passou meses em tratamento, mas não houve jeito: ganhou a Poderosa.

Certa vez, aventurou-se em um passeio para a praia do Uaicurapá. Durante a viagem, porém, na tolda do barco, apronta. Dança, canta e baixa a roupa na frente das meninas… Um vexame! Com dupla ressaca, Oruco acorda, lembra-se da noite anterior e resolve atirar-se n’água. Corre sobre a tolda para o salto, mas ao lançar-se ao rio dois botes de alumínio o aguardavam embaixo. Foi o fim do passeio.

Oruco deixa Parintins e, em Manaus, ajuda criar uma das primeiras bandas de boi-bumbá do Estado. Após as festas, no entanto, era preciso deixá-lo em casa e só sair de lá depois que estivesse dormindo.

Pois em um desses dias, Oruco enganou a todos. Fingiu que dormia. No outro dia, no começo na noite, a notícia: o Nildo havia sido esfaqueado. Seus parceiros o procuram no Pronto-Socorro 28 Agosto. A recepcionista confirma: “É verdade, um rapaz esfaqueado na Praça 14 deu entrada, sim. Mas ele acabou de morrer”.

Os tocadores de toada se emocionam. No hospital, até quem não tinha nada a ver com a história se comove. Lá mesmo, no pronto-socorro, começa o velório. Minutos mais tarde, porém, um dos colegas resolve levantar o plástico e ri; cobre o morto, depois suspende novamente a lona e diz: “Não é ele!”. Voltam para a recepcionista e um dos rapazes protesta:
- Aquele não é nosso amigo.
A funcionária responde:
- Mas esse é o único esfaqueado da Praça 14. Tem outro, mas foi esfaqueado no Centro. Esse está bem! Saiu da cirurgia e vai para a UTI.

Um dos artistas insiste que quer vê-lo. A recepção permite. O violonista, hoje vocalista, consegue a autorização. Mas ao ver o parceiro mexendo o olho, caiu na risada, repetindo várias vezes: “Minguinho! Minguinho! Minguinho!” Oruco, também riu. Riu tanto que alguns pontos de sua cirurgia se romperam.

Depois de lembrar a saga de meu amigo, afastei a carga negativa de sua história e tentei descer antes que alguma coisa acontecesse na viagem, mas ao passar por ele, Oruco me parou e disse:
- E aí, come gente, já vai descer?
Respondi que sim e lhe disse:
- E você vai para onde?
E ele falou baixo em meu ouvido:
- Agora estou no semi-aberto.

Desci, corri para a mesinha de jogo do bicho da parada e bati nela três vezes; não sei se a viagem do Miguinho chegou ao fim.

*Filósofo, estudante de jornalista e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração (Carlos Augusto Myrria)
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A última

Neuton Corrêa*
Não o reconheceria se ele não tivesse falado comigo. “E aí, cara, não fala mais com os pobres?” Em princípio, fiquei assustado. Minha mulher já me puxava pelo braço, mas ele insistia: “Ficou orgulhoso, né?”. Senti-me importunado e respondi-lhe sem abrir a boca: “Com pobres eu falo, eu só não falo é com bêbado”. Antes, porém, que eu reagisse, ele falou: “Sou o Barroso, cara!”

Era ele mesmo! Mas não era mais aquele Barroso da beira do rio Amazonas. Não era mais o Barroso que desafiava as histórias da dona Valdiza, que amedrontava a molecada com histórias da cobra grande, da pirara e da piraíba, esses bichos aquáticos que engolem gente e endoidecessem as pessoas que pulam n’água o dia todo. Ele não era mais o Barroso que se enfiava nas bolas de capim trazidas pelas correntezas e só as abandonava rio abaixo. Não! Não era mais ele.

Aliás, Barroso era o único a embarcar nas bolotas de capim. Ninguém ousava segui-lo. Quem se cria na beira do rio sabe que os pedaços de barrancos são os barcos que as cobras-grandes utilizam para viajar na Amazônia. Era assim que eu e meus primos imaginávamos o que poderia existir no meio daquelas canaranas.

Mas era exagero de minha parte esperar que o tempo tivesse parado. Afinal, a última vez que eu vi o Barroso foi por volta de 1988. Eu estava com 17 anos. Ele também. Eu começava dar os primeiros passos como repórter. Ele acabava de ingressar no Bar da Tia. Era o mais jovem daquela turma. Aliás, daquele grupo, é o único que ainda continua vivo.

O Barroso que encontrei na estação do 120 (Ponta Negra/Centro), perto do Tropical Hotel, numa madrugada de segunda-feira, após um show do Fagner, no Arraial da Cidade, era outro. Sujo, fedido e chato. Mas um detalhe ainda lembrava nele as aventuras do rio Amazonas. Ele estava molhado. Parecia que tinha acabado de dar um mergulho nas águas do rio Negro. Naquele detalhe vi o Barroso da infância. Em plena madrugada, enfrentava a escuridão da noite e do Negro.

Aquilo tudo era o cenário perfeito para ilustrar a famosa frase que eu havia conhecido poucos anos antes e com a qual me encantei nas aulas de Filosofia: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Era isso que acontecia naquele momento: Nem ele nem o rio eram mais os mesmos.

O 120 estava prestes a sair e ele começou a chorar:

– Eu não consigo parar de beber. Eu tento. Já perdi minha mulher e não sei por onde anda meu filho.
Aproveitei o ato de contrição de meu amigo e o incentivei:
– Você vai conseguir.
Ele sorriu e respondeu:
– Toda manhã, quando acordo, penso que aquele será o último dia com a bebida. Mas o dia passa e quando a noite chega, começa meu arrependimento até a outra manhã. Às vezes, a noite demora a passar.
Achei que aquele choro era um avanço. Ele estava incomodado com a depressão.
Quando tomei iniciativa para embarcar no 120, ele apelou:
– Arranja aí um dinheiro para eu comprar um churrasquinho de gato?
Olhei para ele e brinquei:
– Se for para comprar comida, eu não tenho. Se for para beber…
Ele começou a sorrir, depois falou postado.
- Essa é a última.
Puxado pela minha mulher, embarquei.

*Filósofo, estudante de jornalista e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustraçao (Carlos Augusto Myrria)
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Crise e pressão

*Wilson Nogueira

As indústrias incentivadas do Distrito Industrial de Manaus (PIM) fecharam 2008 com um faturamento de U$$ 28,5 bilhões, 20,1% a mais que o do ano passado. Mas, mesmo assim, com argumento dos prováveis efeitos da crise mundial na ponta da língua e projeções catastróficas no pen drive, os empresários apelam por mais benesses ao Estado. Não lhes bastaram os R$ 400 milhões em renúncia fiscal do pacote anticrise estadual nem os resultados das demais medidas da União que cobrem todo o setor produtivo nacional.

O mais engraçado dessa história, que sempre se repete como farsa, é que, de uma hora para outra, o empresariado dota o Estado, por meio da retórica, de eficiência imprescindível na arrumação dos negócios arruinados pela mão invisível. Que se diga, entretanto, que a eficiência do Estado, para os capitalistas, só dura enquanto ele jorra dinheiro no buraco deixado pela eficiência de fabricar lucros irreais das companhias globais.

O argumento do analista econômico camaleônico chega a ser cansativo: “Olhem só: o Estado deve agir, comprar e vender moedas ou emprestar dinheiro barato aos borbotões para o setor privado até reequilibrar o mercado, e dele deve sair imediatamente”. Na economia sã, para esse tipo de analista, o Estado é ineficiente, preguiçoso e prejudicial. Esse fingimento nutre o velho e o novo liberalismo econômico. Fora dele não haveria solução. Novas experiências? Nem pensar!

O fantasma da crise – fruto dos efeitos reais das incertezas do mercado mundial e dos filhotes destas gerados pela mídia – é usado para emparedar governos e sociedades em escala mundial. Quem não tem medo de perder o emprego? Qual governante não se assusta com a possibilidade de instabilidade social? São questões preocupantes. Não seria prudente desdenhar da realidade. De igual modo, não se deveria tê-la como imutável, sem solução ou sem saída senão as das leis de mercado.

A crise não deve se transformar em arma de pressão do empresariado insaciável. Ela precisa, sim, ser discutida por toda sociedade, para que seus impactos sejam amortecidos em todos os setores, principalmente nos das populações mais pobres. Os balanços das indústrias incentivadas de Manaus mostram, por exemplo, que elas têm mais gorduras para queimar que os trabalhadores. Deveriam subtrair algumas gordurinhas. Afinal, o capital se reproduz em função do trabalho humano. A contrapartida social, antes de uma obrigação legal, deveria ser compreendida como um inarredável compromisso ético.

Suscitei esse tema para demonstrar que a proposta de corte no repasse, pela indústria incentivada, para o fundo que mantém a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) soa como pilhéria, caso não se trate de equívoco daqueles que formulam tamanho absurdo. Comprometer os avanços da educação superior (ensino, pesquisa e extensão) no Amazonas já seria um ato insano; recuar nessa conquista será crime imperdoável. Os governantes e a sociedade devem agir., rápido e energicamente, contra essa tentativa reacionária de barrar as conquistas do ensino público democratizado.

*Jornalista, sociólogo e escritor

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No sorriso de Alice

Ivânia Vieira*

O artigo de hoje deveria abordar as manifestações esquisitas feitas na cidade, nesses primeiros dias de 2009, em defesa de causas tão pequenas. Elas são como lamento de uma Manaus em dificuldades para superar determinados estigmas e andar rumo ao futuro. Mas, nas primeiras horas da manhã de ontem uma notícia mudou a motivação inicial e provocou uma embolada de sentimentos. Comentar as manifestações atrofiadas pareceu pequeno demais diante do adeus de Alice. Passei horas pensando se Alice cabia como questão privada e deveria ser guardada e sentida somente por aquelas pessoas do universo dessa mulher.

Talvez, devêssemos nos recolhermos para pensar melhor nessa história. Então, veio à mente o sorriso de Alice. Nossa! Esse é um bem público. Não é justo ficar entre nós. Alice esteve em tantas batalhas, encheu de significado as lutas de tantas minorias, saiu muito marcada delas. Alegria, tristeza e emoção esparramada diante de pequenos gestos. Ela emocionou tanta gente, com seu jeito determinado e sedento de liberdade. Não é possível tratar no campo restrito uma pessoa conjugada no plural, forjada no embate público e generosa como uma espécie de grande abrigo.

Nesse momento de despedidas, não combinadas, é esse sorriso de Alice a imagem a passear em nossas vidas. Quem sabe a insistência dele em permanecer vivo e farto seja um presente dela para Manaus. Afinal, estamos desaprendendo a sorrir de verdade diante do avanço do exercício da farsa. E nele está a tradução de uma necessidade local: invadir a alma humana com um sorriso. Olhe a cidade, a cara dela. Alice fez isso a vida toda. Invadia nossas almas e, depois dessa invasão, valia a pena sorrir, seguir adiante.

“Ela é uma pessoa de luz”, resumiu Adriano ao falar da sua passagem. Olhei para alguns anos atrás, desde os primeiros momentos em que a vi, jovenzinha, em festa, depois, adulta, carregando sempre a sua marca – irradiar a vida. Eis uma grande causa para ir às ruas. Aprenderíamos a sorrir daquele jeito, feito fonte.

*Jornalista e professora da Ufam da Universidade Federal do Amazonas/Ufam.

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O Cão Presidencial

Massilon de Medeiros Cursino*

Em meio à crise mundial, da quebradeira e da recessão, os títulos imobiliários e os clientes “subprime” são os bodes expiatórios. Os sacrificados são os trabalhadores que voltam para casa e têm que se adaptar a uma realidade dura, de desempregado.

O governo anuncia medidas de intervenção na economia e não espera mais que a “mão invisível” ajuste o mercado. Em muito, a crise se parece com a grande depressão econômica de 1929, até mesmo na sua origem, justamente no país que se declara como o mais desenvolvido e estável do planeta.

Enquanto a crise, igualmente a uma pandemia, avança para o resto do mundo, os americanos estadusunidenses encontram outra preocupação: qual será o novo cão presidencial?

O novo presidente escolhido depois de uma longa campanha que inicia antes até mesmo que as prévias, já está se acomodando no quarto presidencial e atendendo na ante sala do salão oval. Resta saber agora quem vai ocupar o canil da Casa Branca.

As bolsas de apostas estão divididas entre um cão “labradoodle”, resultante do cruzamento de um labrador co um poodle, e um cão de água português. Os especialistas explicam aos apostadores e curiosos as qualidades de cada raça do animal. O labradoodle é tranqüilo e sem agressividade, enquanto o cão de água português é companheiro de crianças e de idosos.

O próprio Barack Obama manifestou a dificuldade em definir o cão presidencial, afirmando que a escolha é mais difícil que encontrar um Secretário do Comércio.

Os Estados Unidos vivem o dilema da escolha do cão presidencial ao mesmo tempo em que Israel continua avançar em sua ofensiva na faixa de Gaza, o Iraque e o Afeganistão mantêm-se ocupados e o mundo está estado de tensão e insegurança.

É preciso ter a tranqüilidade de um labradoodle e o companheirismo de um cão de água português para assistir a tudo impassivo! Como não sou cão…

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).
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