Archive for fevereiro, 2009

O paquerador enrascado

Neuton Corrêa*

Todo mundo se assustou com o grito desesperado do rapaz: “Ai! Ai! Motorista, pelo amor de Deus, pára o ônibus! Pára! Pára! Pára!”. O drama não comoveu ninguém. Ainda houve quem tivesse vontade de tirá-lo da viagem à base de pontapé. Ele merecia. Estava gaiato demais.

Quem não merecia isso era a passageira que costuma fazer integração no mesmo ponto onde desço para também pegar outra linha, perto da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na rua Recife. Conhecia-a de vista. Fina e branca como uma vela. Nunca a vi conversar com ninguém. Naquele dia, porém, ela resolveu me pedir socorro.

Notei a diferença em seu comportamento ainda na parada. Estava agitada. Olhava para rua para ver se o 215 ou o 001 davam sinal. Cruzava as pernas de um lado para o outro. Fechava o olho e suspirava profundamente ao mesmo tempo em que colocava as mãos sobre a blusa amarela para massagear a barriga.

Nosso ônibus apareceu. Perguntei se conseguiria subir e ela respondeu que sim. Quando voltei a olhá-la, ela se esforça para trocar os passos, apertando as coxas até o joelho. Outra pessoa lhe ofereceu ajuda e ela respondeu: “Já está passando. Vai dá para agüentar.”
Foi nesse momento que me lembrei do gaiato.

Aliás, quem nunca passou por um aperto? Vivi uma situação dessas num articulado, o 672. Foi logo que me mudei para o endereço onde moro hoje. O quintal da casa era repleto de mamoeiro. Num dia, quis dar uma de bacana. Fiz um café da manhã com as frutas do terreno. Tracei meia dúzia de fatias de mamão e saí para resolver as burocracias da compra da casa.

Três horas mais tarde, no 672, veio o “efeito mamão”. No primeiro sinal leve, achei que era coisa passageira. No segundo, perto do Amazonas Shopping, a coisa piorou. Quando o ônibus retornou pela Constantino Nery, fiz todos os cálculos e achei que poderia descer no Bosque Clube e lá pedir socorro. Não deu! O motorista não atendeu à chamada! A coisa apertou! No ponto seguinte, desci e corri para me esconder em uma moita, onde resolvi o problema.

Mas, em nenhum momento, assim como aquela mulher magrinha, brinquei com coisa séria. Aliás, com isso não se brinca.

Ao contrário, o gaiato brincou. Foi em uma viagem para a Festa do Leite, em Autazes. Ele integrava um grupo de três rapazes, na faixa dos 20 anos: Todos vestiam camiseta, bermuda, tênis da moda com meia branca erguida até a canela. O mais claro deles, era baixinho e gordinho; outro tinha traços indígenas, principalmente no olho e no cabelo, tanto que era chamado de “macu” pelos colegas.

O terceiro era ele, o gaiato. Não era tão alto, mas era maior que os dois amigos. Suas principais marcas eram a careca, que já começava a aparecer no meio da cabeça, e os olhos e os cílios grandes, cobertos por uma sobrancelha que emendava a da direita com a da esquerda. Fez as primeiras graças ainda em Manaus. Na viagem, pulava e gritava quando o ônibus enfrentava a buraqueira da pista.

Já em Autazes vi os três na praça da cidade bebendo, paquerando e comendo tracajá, que antes era vendido em bancas de churrasco. Pela manhã, estavam no parque de exposição. Tomaram leite, beberam coalhada e se empurraram no queijo. À tarde, no domingo, pouco antes do retorno, estavam com uma lata de conserva de carne.

Na subida do ônibus, duas moças se insinuam para os três jovens. O gaiato aceita a provocação e troca olhares com as meninas. Tudo dava certo para ele, até que, de repente, as coisas começam a mudar: um vapor estranho toma conta do ônibus e todo mundo começa a abanar o nariz com a mão. O sobrancelhudo grita:

- Manda rezar uma missa para tua alma, desgraçado, que teu corpo já está podre!
Cinco minutos depois a situação se repete e ele ameaça:
- Se eu pego esse filho da mãe, eu mato. Pô, man, pede para fazer o serviço lá fora.

Mais cinco minutos! O paquerador se levanta, as meninas se animam, passa por elas, dá um sorriso amarelo e depois, desesperado, apela:
- “Ai! Ai! Motorista, pelo amor de Deus, pára o ônibus! Pára! Pára! Pára! Pelo Amor de Deus, motorista!”.

Depois disso, ainda interrompeu a viagem mais três vezes.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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O encanto da cobra*

Cate vê-se no meio do lago do Limão. Estranhamente, ele descobre-se um homem feito: vigoroso da cabeça aos pés. Uma brisa embala a canarana das margens, enquanto o espelho d’água se arrepia. O vento leve maltrata-lhe o corpo. Um frio traiçoeiro corre-lhe toda a espinha dorsal. Isso não é bom sinal. O Velho Duca havia-lhe advertido: “A alma humana sente o perigo a distância!”.
Cate, confuso, descansa o remo sobre as pernas e volta-se para o centro da canoa: ali estão o arpão, uma zagaia e uma espingarda novinha em folha. Ele não titubeou: pegou a arma de fogo, engatilhou-a num gesto mecânico e, atônito, apontou-a a esmo, como se a ameaça viesse ao mesmo tempo do rio, da vegetação das margens ou do céu límpido.

Aliás, Cate não sabe mais se é noite ou se é dia. Sua mente tilinta com fervor superior ao do coaxar que vem do charco; e os vaga-lumes lhe parecem uma constelação errante.
De repente, o rio fica turvo no entorno da canoa. Bolhas monstruosas brotam das profundezas, e delas exala um fedor insuportável de pitiú e de mato apodrecido. Esse ar incômodo deixa Cate ainda mais inebriado. “O perigo está próximo”, pensou.
Ele tenta apertar o gatilho da espingarda, mas faltam-lhe força e pontaria. Fez então um esforço sobre-humano para detonar o cartucho, mas, em vez disso, a espingarda se desfaz e esvai-se, na forma líquida, entre os dedos das mãos. Cate contempla as mãos de pele grossa e, mansamente, verga-se para fora da canoa.
Do meio das bolhas fedorentas emerge uma enorme sucuri, que aplica nele um severo bote, puxando-o, logo, para o fundo.
Estranho! Muito estranho!

A cobra não faz nenhum mal a Cate. Ela simplesmente o fez repousar sobre uma areia finíssima no leito do rio, e ele sentiu-se como se estivesse no útero materno, pronto para nascer de novo.
O menino acordou com o roncar dos motores dos ônibus. “Meu Deus, que sonho estranho!”. E assim, cheio de indagações em torno dessa intrigante fantasia, tomou banho e se preparou para as aulas na Cidade da Ciência, com a professora Maristela.

*Episódio incluído na segunda edição do livro Órfãos das águas (Editora Valer, 2008), de Wilson Nogueira.
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Welcome to the jungle!


Michelle Portela*

Beatles, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Iron Maiden, Pink Floyd, Rolling Stones, Queen, Black Sabbath… todas essas bandas surgiram no Reino Unido, terra do Rock e do Metal. Tudo começou na década de 60, com os Beatles. Depois, vieram os Rolling Stones para dar conceito ao Rock n’ Roll. Apareceu o Jimi Hendrix com a sua guitarra “incendiária” e finalmente, surgiu a famosa máxima Sex, Drugs & Rock n’ Roll. Até aqui, pelo menos três grandes nomes, todos adorados, glorificados. Até que, na década seguinte, surgem outras estrelas do Rock. Led Zeppelin, Black Sabbath, Queen e Pink Floyd meteram a sola nas páginas da história da música.

Um novo gênero surgia e na cola, seus subgêneros. O Black Sabbath e seu Ozzy Osbourne inventaram o Metal. O psicodélico foi outro que veio, embora não tenha sido para ficar, trazido pelos Pink Floyd. O Queen arrebentava e se tornou uma das bandas mais prestigiadas de sempre, até quando toca sem Fred Mercury. Quando tudo parecia já ter alcançado seu máximo, em plena década de oitenta, eis que surge a maior banda de Heavy Metal do mundo! Seis homens bravos, com nítida influência dos Sabbath, resolveram criar o Iron Maiden. “Heavyy na veia”!

Nos EUA, é preciso reconhecer, também surgiram grandes nomes. Bandas como The Dorrs, Metallica, Red Hot Chili Peppers (argh!), Nirvana, Soundgarden e muito etc… Os bons velhos tempos… Gosto de pensar nesses tempos como a época em que as mulheres tinham todas cabelo curto e os homens é que tinham brinco e cabelo comprido, e fama de metaleiros, camisas-preta e…

Toda essa viagem foi a trajetória para encontrar a música ideal para o nascimento da filha de um amigo meu. Quando perguntei por que era tão importante escolher a música certa, logo entre aquelas vindas da Inglaterra, ele se apressou em responder: “Pense bem, o que seria de nós, fãs de Rock e de Metal, se estas bandas não existissem? E se a Inglaterra não tivesse existido?”

Fiquei impressionada com o laconismo. Como não poderia perder a piada, sugeri “Welcome to the jungle” (Bem vindo à selva), do Gun´s Rose, que tinha esquecido até então, mesmo sabendo que a banda é norte-americana. Ele também sabia. Pensei que poderia ajudar mais ainda, afinal, como viver uma vida sem música?

Não me surpreendeu encontrar dezenas de fóruns, comunidades, chats e outras ferramentas virtuais onde se discutiam a experiência do nascimento. Afunilando, sobre rock era mais complicado. Quer dizer, sobre o rock em si ou sobre a identificação familiar da criança com o gênero, algo como “Meu filho gosta de rock” soando mais como orgulho do que como susto, foi tranqüilo. Heavy foi encontrar algo mais específico.

Por fim, decidiu-se tocar Beatles na hora do parto. Morri de rir. A imaginação correu solta. Como me chamaram para fotografar (e eu nunca mais vou fazer isso pelo simples fato de querer ter filhos), acompanhei os momentos decisivos. Minha amiga estava no delírio absoluto do parto normal quando a Lucy nasceu. Meu amigo chorava diamantes nas nuvens. Eu, vivi o sonho absurdo de “Lucy in the Sky with diamonds”. Foi lindo! Até cantei. Fiquei pensando se, em caso de menino, se chamaria “Elvis”… Rá!

Nome escolhido, voltei-me a pensar que desde aquele primeiro momento de relacionamento físico do meu amigo com a filhinha dele, estava estabelecido um forte laço de identificação cultural naquela família. O nome a acompanharia para sempre. A música estará sempre presente em sua vida. O repertório dos pais é o que mais influencia e, se for variado, o da criança também será. De modo abrangente, conhecer de tudo vai ajudá-la a formar seu gosto musical e sua opinião. E aí, quem sabe, acontece aquilo que o educador e poeta Rubem Alves diz: “Ensina-se música sem perceber”.

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Em nome das meninas

Ivânia Vieira*

Encerrou em janeiro o prazo dado pelo Talebã para retirar das escolas públicas do Paquistão todas as meninas. Escolas particulares daquele país também estão sob ameaça de destruição se desobedecerem às ordens do grupo. Informações mais recentes são de vários estabelecimentos de ensino depredados.

No ano passado, 130 escolas públicas foram queimadas na região do vale do Swat porque meninas freqüentavam as aulas. A BBC estima em 70 mil o número de estudantes sem lugar de estudo por conta desses atos. A ordem é impedir o acesso de mulheres à educação. E para fazer valer a regra qualquer ação está autorizada, até matar. Mulheres, de todas as faixas etárias, são vítimas desse estado de violência e de massacres contínuos.

Mulheres nas escolas são vistas como desestruturadoras do sistema e responsáveis pela subversão do poder no Paquistão. Parece estranho, em 2009 do século 21, nos defrontarmos com situações como essa. Elas estão ai e não são exclusividade de um único país, diversificam em suas abordagens de violência e silenciamento.

Em junho de 2008, uma instância de poder – o conselho de notáveis (ou Yirga) – da província de Baluquistão, decidiu resolver um conflito entre clãs, entregando 15 meninas virgens a um dos clãs. As crianças tinham entre três e 10 anos, informou o jornal El País citando o motivo do conflito em nome do qual muitas pessoas têm morrido: um cachorro de um grupo mordeu um burro pertencente a outro grupo. O animal atacado morreu. A matéria abordava a noção de valor de mulheres e de animais no Paquistão. A história das mulheres naquela região é de tamanho sofrimento e negação absoluta dos direitos que soa como uma terrível ficção. Mas é realidade cruel.

Somos todas e todos, no mundo inteiro, convocados a conhecer a luta das mulheres paquistanesas, das afegãs… e nos tornarmos, a partir da solidariedade, operárias e operários na construção de uma outra cultura e no reforço, extremamente necessário, de fazer a denúncia acontecer além fronteira. Estamos diante da exigência de pressionar as instâncias nacionais e internacionais para impedir a continuidade dessa prática e desnaturalizar o massacre imposto às mulheres.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Cego é aquele que não cheira

Neuton Corrêa*

Há muito ouço falar que quando se perde uma sensibilidade se aguça outra. É a chamada lei natural da compensação. Se não existe, passará a existir agora. É aplicada desde a coisa mais fútil à mais complexa.

A melancieira, por exemplo, em média, vive cem dias. Em compensação, produz um fruto grande e gostoso. O taperebazeiro, ao contrário, dá um fruto pequeno e azedo. Mas vive décadas.

“Viagens” à parte, prova da existência desta regra tive na véspera do último Natal. Precisava de uma toalha para cobrir a mesa improvisada da ceia. Fui à Esplanada a contragosto, em compensação conheci a dita lei.

Foi na linha 014. Embarquei no núcleo 3 da Cidade Nova, em frente ao mercadinho Akitem. Eu e minha mulher. Na parada seguinte, perto da escola Dom João, embarca o cidadão que colocaria em prática tal regra.

Antes de subir, ele pôs a ponta da bengala no primeiro degrau da escada do ônibus, tateou o bastão de um lado para o outro, colocou a guia no degrau superior, repetiu o procedimento, depois resolveu embarcar.

Ele se apoiou na porta do coletivo, dirigiu o olhar para o motorista e esticou a perna. O passo foi mais alto do que o necessário, tanto que perdeu o equilíbrio assim que o carro partiu. Alguém lhe ofereceu ajuda. Ele, porém, recusou e em seguida, encolheu a bengala do tamanho que lhe coube no bolso da calça.

Até aquele momento, imaginava que seus olhos ainda captavam alguma coisa. Mas só pude perceber o grau de sua deficiência visual quando virou a cabeça em minha direção: olho pequeno e totalmente branco que abria e fechava aceleradamente.

Era um cidadão de envergadura incomum. Sua cabeça quase roçava o teto do ônibus. O suor lustrava sua pele negra. Não aceitava ajuda de ninguém.

A expressão dele só mudou quando uma encantadora mulher entrou na viagem. Aliás, assim que ela embarcou esqueci dele. Era uma moça também alta, cabelos da cor da noite sem luar: volumoso, negro e misterioso.

Ela vestia um conjunto de roupa preta: um vestidinho de malha colado até a barriga e solto da cintura para baixo, formando uma saia. Por baixo, usava uma meia preta transparente, que moldava as coxas e as pernas até as extremidades das batatas, bordadas com renda marrom que acentuavam ainda mais sua sensualidade.

Confesso que tive vontade de continuar olhando para ela, mas eu estava ao lado de minha esposa, mais sério do que cachorro na proa da canoa.

A moça só não escapou da percepção do passageiro de olhos brancos. Assim que ela passou por trás dele, notei que virou o pescoço em sua direção. Depois, como se estivesse farejando algo, seguiu seu rastro e ficou atrás dela. Aquilo me chamou atenção, mas quando achei que ele havia ousado demais o vi esfregando o joelho nas costas da mulher.

A jovem fecha a expressão, ameaça reagir, mas o ô nibus já estava no terminal. Ela entra na fila para o desembarque, mas ele não desiste. Como um cão farejador à caça de sua presa, continua cheirando a moça até a porta do ônibus.

Minha mulher, que a esta altura já acompanhava o assédio, olhou para mim e fez um gesto com o olho e a boca em sinal de surpresa e eu comentei: “Você viu? Cego é aquele que não cheira.”

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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Eco a preço de banana

Antônio Paulo*

Quase não acreditei quando vi na vitrine de uma grande livraria de Brasília o mais recente livro de Umberto Eco – “A misteriosa chama da rainha Loana”, Editora Record, 2005, ao preço de R$ 14,90. A promoção garantia que a volumosa obra – 447 páginas –do mestre da semiótica e autor do renomado “O nome da rosa” (1980) custava R$ 49,90. Este é o preço comum de qualquer desses livros de autoajuda, pseudoeducativos/reflexivos que vendem como água ou banana na feira da Panair.

Entrei na loja e vi uma pequena pilha de “Loana”. Fiquei a me perguntar: por que será que o livro de um escritor tão famoso e tão importante custava tão pouco, quase acessível a qualquer leitor contumaz ou em potencial?

As respostas vieram com hipóteses do tipo: o professor-ensaista-escritor italiano é mesmo muito difícil de ser assimilado; ou, a editora compreendeu, enfim, que livro bom e barato é livro vendido – assim como qualquer outro produto cultural/intelectual ou mesmo material. Ou ainda o famoso encalhe, quando a mercadoria “boia” (sem acento mesmo pela nova regra do acordo ortográfico) na prateleira e o vendedor tem que passar adiante para não ter prejuízo, sendo obrigado a baixar o preço. A questão é que com (bons) livros quase nunca há xepa.

Saí da livraria sem comprar o Eco que estava a preço de banana, valendo-me da expressão popular para significar um produto barato, mesmo sabendo que, com a carestia atual, até esta deliciosa fruta tropical está pela hora da morte. De antemão, resisti à tentação de comprar (livros) por estar mergulhado na obra do alemão Friedrich Nietzsche (“Humano, demasiado humano”) – nada fácil de entender e absorver toda a sua eloqüência misturada à “arrogância” para mudar o mundo e o ser humano a partir de si mesmo.

Outro motivo de não ter comprado “Loana” foi porque também estou propenso a imergir na obra de Edgar Allan Poe, o norte-americano considerado o pai do romance policial e autor de “Os assassinatos da rua Morgue”, “O corvo” (poema) , “Histórias Extraordinárias” e tantas outras obras-primas. A curiosidade por Poe veio ao ler um artigo literário sobre o seu bicentenário de nascimento, ocorrido em 19 de janeiro de 2009.

Quem disse que esses pseudomotivos me aquietaram ou diminuíram o desejo de possuir “A misteriosa chama da rainha Loana” tanto pelo preço (R$ 14,90) quanto pelo valor intelectual da obra? Mas, os questionamentos em saber por que aquele Umberto Eco estava tão barato não sumiam da minha mente. No dia seguinte, estava na livraria. Percebi que a pilha de livros havia reduzido e logo me apressei pra pegar meu exemplar.

Antes, porém, perguntei ao vendedor: Por que esse livro está na prateleira das promoções e é um dos mais baratos? Laconicamente, o livreiro me disse que a editora tinha feito uma negociação no preço do exemplar e a rede de lojas comprou todo o estoque em âmbito nacional. Portanto, verifique se na sua cidade há uma livraria que está vendendo Umberto Eco a R$ 14,90, acho que até mais barato que um cacho de bananas.

Nem sei de vou começar a lê-lo, agora, diante dos “compromissos” com os outros monstros já citados, por isso, não posso adiantar, ao caro leitor-internauta, o conteúdo da obra sob a minha percepção e entendimento dela. Mas, adianto aqui o que diz o poeta-ensaísta-tradutor e professor de literatura italiana na pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marco Lucchesi, na orelha de “Loana”.

“Depois de Baudolino (2000), Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros e saudades. Decidiu assumir a paisagem de sua geração e, a partir dessa luz, num vasto painel dos anos 1930 e 1940, do brevíssimo e sobressaltado século XX. O protagonista, Yambo, é um senhor de meia-idade, provido de grande cultura, que trabalha com livros raros, em Milão. Após salvar-se de uma doença grave, Yambo perde uma parte da memória afetiva, ou biográfica. Para tentar recuperá-la, passa um longo período nas montanhas do Piemonte, na casa que fora do seu avô. As lembranças reaparecem – com idas e vindas – quando se depara com um acervo que lhe marcou a infância: jornais, discos, quadrinhos – um imenso parque (ou cemitério) de objetos. Toda uma semiologia que leva aos tempos do fascismo e às portas da segunda grande guerra. Que o leitor descubra todo o percurso de Yambo, e que reconheça imagens e canções, que marcaram parte essencial da história da Itália e do mundo”.

Vida e obra
Nascido em Alexandria, Itália, em 1932, Umberto Eco construiu sólida carreira como professor de semiótica na Universidade de Bolonha. Ensaísta de renome mundial, dedicou-se a temas como estética, semiótica, filosofia da linguagem, teoria da literatura e da arte e sociologia da cultura. Entre suas obras ensaísticas destacam-se “Obra aberta” (1962), “Apocalípticos e integrados” (1964), “A estrutura ausente” (1968), “As formas do conteúdo” (1971), “Tratado geral de semiótica” (1975), “Semiótica e filosofia da linguagem” (1984), “Seis passeios pelos bosques da ficção” (1994), “Kant e o ornitorrinco” (1997), “Sobre a literatura” (2002) e “A história da beleza (2004). Sua obra “Como se faz um tese” (1977) é de forte relevância para aqueles que estão se iniciando na pesquisa bibliográfica. A obra une a perícia de um pesquisador sob a gerência de um professor que conhece as dificuldades dos alunos.
Em 1980, Eco publicou seu primeiro romance, “O nome da rosa”, que virou filme de grande sucesso com Sean Connery (o monge franciscanoWilliam de Baskerville) e Christian Slater (o noviço Adso von Melk). Posteriormente, o mestre italiano publicou “O pêndulo de Foucault”, em 1988; “A ilha do dia anterior” (1994) e “Baudolino”, em 2000.

* O autor é jornalista correspondente do jornal A Crítica em Brasília.

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As contas dos candidatos

Massilon de Medeiros Cursino*

Há momentos em que acho que a vida é uma grande encenação, um teatro. Uns fingem que representam, outros fingem que acreditam piamente na representação de uns.

Em política, por exemplo, não existe coisa mais excêntrica que prestação de contas de candidatos. Como se sabe, há dois grupos de candidatos, os candidatos modestos e os extravagantes. Estes últimos, apesar de exímios perdulários durante a campanha, após o pleito se apresentam como os mais simples dos parcimoniosos.

Na verdade, a coisa acontece mais ou menos assim: Durante a campanha os verdadeiramente modestos são atropelados pelo rolo compressor dos mais abonados, a começar pela qualidade do material de publicidade, indo até o número de cabos eleitorais que acompanham os candidatos nas caminhadas, nas carreatas, nas bandeiradas das esquinas ou que os aplaudem nos comícios. Cabo eleitoral mais exaltado chega a esgoelar e até brigar pelo seu candidato preferido, que lhe bonifica por semana ou por quinzena, conforme o acordo.

Quando da apresentação das contas junto ao tribunal eleitoral competente, os números aparecem irrisórios, quase a nível franciscano. O que não faltam, por parte dos que abusam do poder econômico são os discursos hipócritas que variam entre a humildade e a auto-exaltação, como se o carisma pessoal fosse o fator que tivesse falado mais alto para angariar os votos, ocultando-se os verdadeiros subterfúgios, os astronômicos valores das despesas eleitorais.

Dá pena e dó de alguns candidatos quando se conhece os valores oficiais por eles declarados. Pensa-se até que estão na vida pública por diletantismo e por satisfação em servir ao próximo.
Não, não vamos culpar os números, eles não mentem, já que a matemática é uma ciência exata. Quem mente, infelizmente, é o ser humano que gasta para “nos representar”!

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).

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Sim, é Woodstock!

Ivânia Vieira*

Os meios de comunicação no Brasil tentam, a cada ano, desqualificar o Fórum Social Mundial (FSM). A insistência nessa ação tem objetivos explícitos: negar a possibilidade de construção de outro mundo, reafirmando o atual e decadente modelo. “É o Woodstock da esquerda”, resumiu o âncora do ‘Jornal da Band’, Boris Casoi. Isso depois de a emissora de TV exibir ‘reportagem’ sobre o FSM, em Belém (PA), privilegiando danças e brincadeiras. Não foi a única. A maioria das emissoras de televisão do País seguiu o mesmo foco.

Essa pauta comum dos grupos mais poderosos de comunicação do País quando se trata do FSM é indicador à espera de reflexões profundas e, a partir delas, de fincar outras posições. Não é uma infeliz coincidência. Trata-se de uma decisão pela negação dessa manifestação planetária como força de pressão.

Dançar e brincar são partes importantes desse mundo FSM, não o todo. Entre as emergências de trabalhos, esta é uma tarefa a ser assumida pelos trabalhadores da/na comunicação e pela sociedade organizada. Mais de 2 mil atividades foram cadastradas para a 9ª edição do FSM, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro. Outras tantas aconteceram fora dos registros oficiais.

Gente de 144 países discutiu e posicionou-se sobre questões decisivas para a humanidade hoje, fez relatos de experiências, denúncias, protestos, ensaiou novas palavras de ordem, também brincou, dançou, plantou uma árvore, testou o tamanho da sua cidadania.

Documentos aprovados nas assembléias setoriais e referendados na assembléia das assembléias já estão sendo trabalhados em várias regiões do mundo e vão se confirmando, inicialmente, na série de manifestações globais que acontecerão a partir de março. Uma outra voz – construída por milhares de vozes – ganha corpo e ecoa. Os meios de comunicação vão tropeçar nela. A caminhada continua e se revitaliza além deles.

*Jornalista, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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A força do diálogo

Wilson Nogueira*

“Só vem ao fórum quem gosta de dialogar!”. A frase veio de um tumulto formado no centro da tenda que abrigou os debates sobre os 50 anos da vitória da revolução cubana, no Campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém (PA), no dia 29 de janeiro. O Fórum Social Mundial realizou-se no período de 27 de janeiro a 1.º fevereiro, com a participação de mais de 100 pessoas de 141 países.

O autor da frase acalmou o interlocutor dele, que se queixava da falta de condizente às centenas de pessoas que esperavam a palestra da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. A ministra havia chegado naquele momento e a platéia se espremia para vê-la do melhor ângulo possível. Sequer vi as duas pessoas que conversavam em voz alta sobre desconforto generalizado. Suspeito que a providencial frase esfriou o ânimo dos que, por acaso, planejam deixar o lugar.

A conversa com a ministra e outras personalidades femininas durou ao menos quatro horas. A platéia xingou, aplaudiu e suou, mas suou mesmo! Ninguém arredou o pé da tenda dos revolucionários cubanos. O evento encerrou-se como havia começado: acochado para os que assistiram e não menos sufocante às que palestraram. Mas, pelo visto, o diálogo fez bem para todos.

Essa é a minha primeira participação no FSM, mas estou certo de que o autor da frase é um veterano no evento. Somente o esforço do diálogo pode superar as dificuldades na elaboração e realização de um encontro de pessoas, em escala global, que pretendem tornar o mundo mais justo, mais solidário e mais democrático. O FSM de Belém realizou-se em condições precárias em infra-estrutura e em organização. Mas isso não desmotivou a grande maioria dos participantes.

Ouvi muitas avaliações do tipo: “Faltou apoio de toda ordem, mas esse foi o fórum com maior participação popular”. Realmente, uma multidão participou da passeata de abertura, na tarde e noite do dia 27. Quem não gostou dessa demonstração de força popular foram os motoristas de táxi e os devotos de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. “Será que esse pessoal vai colocar mais gente na rua que a padroeira?”, questionou um taxista, que também resmungava contra o engarrafamento do trânsito no trajeto e no entorno da passeata.

O certo é que, no final das contas, o FSM de Belém cumpriu a missão de alertar a humanidade para a necessidade, urgente urgentíssima, de um outro mundo possível: sem desigualdade social e sem agressão ao meio ambiente.

A Amazônia, por sua vez, demonstrou, por meio das suas populações tradicionais, que pode e deve participar desse diálogo, porque ela é vítima da perversidade do capitalismo de terra arrasada e, ao mesmo tempo, protagonista de experiências que atendem às atuais necessidades de reequilíbrio do Planeta.

Somente o diálogo viabilizará as conquistas do presente e do futuro.

*Jornalista, sociólogo e escritor.

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Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

Massilon Medeiros Cursino*

No novo testamento há várias passagens em que Cristo enaltece a pobreza e condena a riqueza e a luxúria. O Senhor espera de seu povo um coração desprendido de coisas terrenas e perecíveis.

A começar pelo seu nascimento numa estrebaria, entre animais. Passando pela explicação, em Mateus, de que seria mais fácil passar um camelo por uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus. Ou em Lucas, contando a parábola do mau rico e do pobre Lázaro.

A Igreja que condena a riqueza é a mesma que adorna com ouro seus altares. Na idade média capitalizava recursos com a venda de indulgência. Infelizmente, essa prática ainda não foi abolida por completa e continua a contrariar ao novo Testamento, onde mostra um Jesus que expulsa os comerciantes e mercenários da porta do Templo.

Nem a exegese bíblica é inexorável. Para cada versículo da Bíblia, há uma interpretação diferente. Assim, alguns espertalhões aproveitam para explicar da forma mais conveniente financeiramente e utilizam-se dos ensinamentos do livro sagrado e da doutrina cristã tornando-a essencialmente lucrativa, aproveitando-se das atribulações e instabilidades que o mundo capitalista produz na sociedade, assim como das fraquezas espirituais que acometem as pessoas.

Atualmente, para cada dez canais de televisão, em média, três são de propriedade das igrejas ou de seus representantes eclesiásticos. Os canais mais sensacionalistas expõem cenas de exorcismos, pregam a riqueza e a felicidade como respostas ao bom mantenedor ou dizimista. Há igrejas que utilizam de débito automático, aceitam cartão de crédito e têm até tabela de preços por bênção. Um mercado voraz em que por trás da palavra e do nome de Cristo está dissimulado o interesse financeiro e ambicioso de um pequeno grupo que se locupleta.

Os escândalos vêm à tona constantemente, porém a capacidade de domínio da mente dos fiéis, a lavagem cerebral, é tamanha que as vítimas embaidas se negam a acreditar que muitos de seus líderes não passam de espertalhões e farsantes.

Como cristão, prefiro ter o cristianismo como a mais bela das doutrinas religiosas, que somente prega o amor, a caridade, a bondade e a paz entre os Homens. Essa história de pagar para ir pro céu não passa de uma forma de comercialização da fé.

Eis uma triste realidade: criar igreja virou uma atividade econômica altamente atrativa nos dias atuais, instrumento para amealhar altas cifras com o benefício de imunidade tributária das suas receitas e propriedades.

Como dizem as antigas carolas: “Isso é sinal dos tempos!”.

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).

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