Archive for março, 2009

A praça e a saudade

Ana Celia Ossame*

Não pensei que a ida, no último sábado, 28, à recém-reinaugurada Praça Heliodoro Balbi, fosse me fazer viajar a um passado não tão remoto, mas de um sabor muito especial capaz de acender meus olhos para o tempo em que, estudante do então Colégio Estadual do Amazonas, experimentei do orgulho que significava ser aluna daquela escola, que sempre teve aquela praça como vizinha perigosa e ao mesmo tempo deliciosa para os alunos que “matavam” aula.

Era final da década de 70 e eu me submeti a fazer o então segundo grau em saúde, curso oferecido no Estadual, só por querer estudar ali, já que não tinha qualquer inclinação para essa área. Não lembro se, nessa época, com menos de 20 anos, já queria ser jornalista. O que sabia mesmo era que queria estudar no Estadual, onde, nos dias de falta de professor ou devido a qualquer outro problema e éramos liberados da sala, não fazíamos questão de voltar logo para casa, pois tínhamos a praça para jogar boas e agradáveis conversas ao vento.

Meu pai era bedel à noite daquela escola bela e grandiosa onde conheci professores homéricos. A principal e inesquecível Nely Braga, chamada ironicamente de “jararaca” por não ter pena de aluno e reprovar sem dó grande parte das turmas. Ela nos obrigava a ler Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, entre outros. Com isso ajudou aos interessados, a conhecer e amar literatura e a buscar escrever corretamente. Tínhamos medo dela e odiávamos isso.

Mas foi bom ter passado pela sua rigorosa caneta e cara de brava. Tive oportunidade de dizer isso a ela em uma entrevista que fiz publicada no Jornal A Crítica, quando a ouvi criticar a falta de interesse dos estudantes para o aprendizado da língua e da leitura. Nely já morreu, mas as lições dadas por ela não. Sou grata ter lido os clássicos da literatura brasileira. E ter sido aprovada por ela.

Era tanta exigência que acabávamos decorando o início dos livros. Nunca esqueço e acho que os colegas da época também, do início do romance de Iracema, quando José Alencar descrevia a “virgem dos lábios de mel e os olhos mais negros que a asa da graúna” ou Machado de Assis, em Dom Casmurro, quando ele se referia a um rapaz que “conhecia de vista e de chapéu…”

Lembro também da bonita e elegante professora Ana Maria Botinelly Cunha e Silva, que nos dava aulas de Moral e Cívica, olhem só! Naquela época, a Ditadura Militar nos fazia estudar as leis do civismo e da pátria e gostar disso. Nunca mais soube dela, marcante no seu jeito de ser.

Com um espaço interessante à disposição, sempre encontrávamos tempo para ir à Praça da Polícia, nome popular daquele local. Lembro também de quando conseguíamos uns trocados íamos ao Cine Guarany e ao Veneza para assistirmos aos filmes da moda. Na verdade, no Guarany só costumava passar filme pornográfico e, como ainda não tínhamos 18 anos, era mais difícil entrar. Mas nunca esqueço ter assistido ao filme chocante daquela época, Império dos Sentidos, exibido no Veneza, onde só entramos porque um colega conhecia o porteiro.

Estudei no Colégio Estadual de 1976 a 1980. Durante aquele tempo aquela praça foi dos estudantes. Não fumávamos nada de droga e nem mesmo cigarro comum. Nem pensávamos nisso. Nosso tempo era gasto falando mal dos professores, que é a melhor coisa que aluno pode fazer, além de estudar, claro. E ponto. Era um lugar seguro, tranquilo, agradável, mas deixou de ser isso durante longos anos, ocupada por cheira-colas, hippies e mendigos, completamente abandonada pelo poder público.

Mas desde a semana passada voltou a ser um espaço da coletividade a partir da reinauguração promovida pelo Governo do Estado, sob a batuta do secretário de Cultura, Robério Braga. Não sei o que vai acontecer com os hippies que costumavam abrigar-se ali. Espero que somem. E que não sumam.
Fico feliz em saber que a praça voltou a ser um espaço para o encantamento, acrescida de beleza e a simplicidade do cuidado que permite as lembranças e, quem sabe, como antigamente, inspirar os poetas do Clube da Madrugada e os outros.
Viajar no tempo, nesses tempos em que tudo é imediato e breve, é significativo. Ver a praça voltar a ser do povo é mais significativo ainda. Só faço um reparo: Se não faltou gente com queixo caído diante da dança das águas dos chafarizes, faltou quem combinasse o horário de fechamento do Palácio Provincial, onde funciona o museu. Muita gente bateu com a cara na porta. No sábado e domingo, o horário de visita não pode ser estendido após às 19h?

É importante dizer que a obra é bela e está à altura do hoje Colégio Amazonense do Pedro 2º, nome que substituiu o do Estadual. E está ao alcance do público, que parece ter reaprendido o caminho, pois compareceu em massa.

Uma praça serve para isso. Para os passarinhos fazerem seus cantos e seus caminhos e para o povo, em pleno uso da cidadania, sonhar e gastar minutos do seu tempo tão precioso para ver a dança das águas. Isso, como diz a propaganda de um certo cartão de crédito, não tem preço. E não pode ter mesmo.

* Jornalista e pós-graduada em Marketing pela FGV.

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A parábola do macaco

Neuton Corrêa*

Vi meu ex-professor de Metodologia e, de novo, voltei a sentir pena do macaco-da-noite. Encontrei o velho filósofo dentro do “cata-corno”, como é conhecida a rota Integração que circula dentro da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Famoso por dar adeus com a mão fechada, ele deixava seu carro no minicampus para não gastar gasolina nos oito quilômetros de ida e volta ao campus.

Mas não era isso o que me fazia lembrá-lo. Gostava do método com que ministrava suas aulas. Era tão didático que às vezes parecia mais um pregador de parábolas do que um professor universitário. Quanto mais complicado era o assunto, mais simples era a explicação.

Em setembro de 2006, por exemplo, ele apareceu com um texto chamado “Ecologia dos saberes”, que está no livro “A gramática do tempo”, do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que naquele mês havia lançado seu livro em Manaus, em uma palestra na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Distribuiu o assunto e pediu que a turma desse especial atenção às dezessete teses que o autor propunha e aos itens “Pluralidade externa”, “Pluralidade interna das práticas científicas” e “As condições da diversidade epistemológica do mundo”.

Bem… Deu um nó também na cabeça da gente. O mestre passou uma aula inteira para tentar mostrar o que o autor queria dizer. Primeiro, explicou o assunto de maneira abrangente. Depois, passo a passo. Mas não conseguiu dizer, claramente, que Boaventura estava fazendo uma crítica à importância que o mundo dá ao saber científico, discriminando as crenças e os saberes populares.

No meio da aula, ele percebeu que a turma ainda estava insegura. Foi quando apresentou a parábola do macaco-da-noite:

“Vou contar uma história para vocês:
Um pesquisador do Inpa passou 20 anos estudando o macaco-da-noite. Descobriu tudo sobre ele: quantos anos vive, quantos elementos fazem parte do grupo, quantas fêmeas o líder possui, seus hábitos alimentares, seus costumes… Enfim, sabia tudo sobre o macaco-da-noite.

Mas o estudo apresentava um problema. Não conseguia explicar um mistério: por que o macaco-da-noite, em um período do ano, faz um barulho no tronco da árvore e depois grita e chora desesperadamente.

Para tentar achar uma resposta ao mistério, o Inpa promoveu um encontro com os mais famosos estudiosos de primatas do mundo. Passaram um dia inteiro discutindo o assunto. E nada!

Pois, nesse encontro, tinha um caboco que estava arrumando o auditório. Ouviu toda a conversa e a conclusão do evento: os pesquisadores não sabiam por que numa determinada época do ano o macaco-da-noite gritava com dor.

Esse caboco chamou um pesquisador e falou: “Eu sei!”. O pesquisador se espantou!, reagindo: “Sabe nada”. Aí, ele começou a explicar para o cientista:
- O senhor já percebeu que ele geralmente grita por volta de dezembro, janeiro e fevereiro?
E o pesquisador concordou:
- É verdade. É nesse período.
- O senhor não percebeu que antes de gritar ele desce da árvore e depois volta?
- É verdade?
- Pois é, disse o caboco: É porque nessa época está caindo ouriço de castanha.
Aí, o pesquisador ficou curioso:
- E o que tem a ver isso?
- É porque, quando o ouriço cai, o macaco desce da árvore, pega a castanha, enrola no rabo e volta para árvore.
O pesquisador concorda:
- Sim.
Aí, aquele homem simples deu a reposta ao mistério que a ciência não conseguiu descobrir:

- Pois bem. Depois que ele sobe, ele tenta quebrar o ouriço. Senta no galho da árvore e começa a bater o ouriço no meio da perna. Bate, bate, bate, mas, às vezes, ao invés de acertar o galho, acerta o ovo dele e aí, mano, ele entra em desespero”.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Augusto Myrria.

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O risco de bonificar a incompetência

Massilon de Medeiros Cursino*

Recebi um email que traçava um comparativo da situação entre pessoas que estavam em face de adquirir um emprego público.

A circunstância fática consistia em apresentar um candidato que, apesar de possuir uma pífia qualificação, era farto de amigos e padrinhos políticos influentes, por conta disso tinha a oportunidade de ganhar alto salário na sinecura, sem sequer ter a obrigação de cumprir expediente, com direito a recesso e, por cima, com a possibilidade de receber horas extras no período de folga.

Por outro lado, para ganhar um salário bem mais módico, havia outro candidato, querendo seguir os caminhos legais, buscando a aprovação em concurso público de provas e títulos. Além do extenso conteúdo do edital, para tal se exigia também conhecimento em mais de um idioma, titulações, teste de aptidão, oito horas diárias e etc.

Diante de situações como essa, é frustrante, após uma vida ouvindo que a fórmula para o sucesso é estudar e trabalhar com afinco, saber que a realidade infelizmente não é bem assim. Os atalhos, as promoções e as bonificações aos incompetentes são cânceres que ainda não conseguiram ser extirpados.

Isso não é exclusividade de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Não é coisa que acontece unicamente abaixo da linha do Equador, bastando analisar as causas da famigerada crise mundial que hoje assusta o mundo.

A princípio elegeu-se a clientela subprime como bode expiatório e hoje já se reviu os culpados, descobrindo que os bônus pagos pela seguradora americana AIG a seus executivos extrapolou os 218 milhões de dólares e foi o nascedouro do colapso econômico. Ao invés de punir os irresponsáveis e incompetentes, o governo americano repassou à empresa cerca de 170 bilhões de dólares, a fim de evitar que a gigante do ramo de seguros entrasse em concordata.

Já vimos história parecida no Brasil, quando o governo federal auxiliou os bancos e os banqueiros na iminência de uma quebradeira. A justificativa foi e é sempre a mesma, para evitar o desemprego dos cidadãos.

Até quando o bolso do contribuinte terá que ser sacrificado para acudir e premiar os incompetentes? Até quando vamos ter que pagar a benesse de quem não quer trabalhar?

A seguradora AIG bonificou os seus executivos que quase a levaram a bancarrota, por sua vez o governo americano socorreu o caixa da AIG, e o mundo está aturdido com a crise que vem em cascata.

Pelo visto não é somente a crise que é mundial, o vício de contemplar os incompetentes também é!

* Economista, bacharel em Direito e membro da Academia Parintinense de Letras (APL).

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Mudanças em andamento

Wilson Nogueira*

O principal desafio do Brasil em relação à Amazônia é compreendê-la na sua biodiversidade e sociodiversidade. A superação desse problema depende de mudanças radicais na política, na economia e na própria concepção de ciência que se pratica há quatro séculos. Ainda nos ocupamos, infelizmente, da busca de soluções para problemas complexos imaginando uma região hegemônica na natureza e na cultura. Por isso, a decisão da Justiça favorável à demarcação da Raposa Serra do Sol em terras contínuas e a imediata retirada dos arrozeiros, por pressão da sociedade, pode ser considerada como um avanço.

Na Amazônica brasileira vivem 25 milhões de pessoas dispersas em cidades de vários portes, lugares e lugarejos; entre essas populações, formadas por citadinos, caboclos, seringueiros e descendentes de escravos, destacam-se 180 etnias índias que falam cerca de 150 línguas. Geógrafos, ecólogos, biólogos, climatólogos etc., por sua vez, ainda não chegaram a um consenso sobre a quantidade de ecossistemas que os seus mais de 5 milhões de quilômetros quadrados abrigam, da mesma forma que ainda não se conhece a totalidade das espécies animais e vegetais neles existentes.

Há outros fatores desconhecidos ou menos conhecidos a considerar. Atenho-me, a título de exemplo, aos serviços climáticos que as florestas prestam ao Planeta por meio do sequestro de gases que causam o efeito de estufa e da distribuição das chuvas aos continentes. Nesse campo, muitas perguntas ainda estão sem respostas e outras ainda hão de ser feitas. Isso não significa que o avanço científico será capaz, sozinho, de proteger a Amazônia da voracidade do capital de terra arrasada. Mas ciência é um dos fatores importantes nessa articulação.

Nada ou de pouco adiantará, também, se a ciência, a política, a economia e/ou outros meios e modos de tentar compreender e sistematizar o uso dos recursos naturais e as ações humanas agirem arbitrária e arrogantemente em relação aos saberes e aos direitos das populações tradicionais locais. Em termos de Amazônia, o pensamento e o conhecimento empírico dos índios e caboclos, por exemplo, é fundamental para se entender o funcionamento da (s) Amazônia (s) como resultado de múltiplos entrelaçamentos que movem seres humanos e a natureza.

Ou seja: a qualidade das políticas públicas para Amazônia depende do entendimento sobre a complexidade que ela apresenta e representa. Ao Estado brasileiro é razoável reconhecer os equívocos e erros do passado (lembremo-nos daqueles que incentivaram e patrocinaram a derrubada de grande parte floresta amazônica e exterminaram índios) para não repeti-los. À sociedade, fortalecida nos princípios da democracia, cabe o debate renhido contra todas as formas de negação da pluralidade social e de pensamento, para que as políticas públicas de Estado atendam o país real e não aquele imaginado por segmentos das elites dirigentes.

Essa questão fica mais clara quando as elites e agregados questionam o direito imemorial dos índios sobre suas “imensas” terras e se acham natural o direito cartorial dos latifundiários sobre as suas imensas reservas especulativas. Outra perspectiva é coisa rara como esse recente olhar às etnias que vivem na Raposa Serra do Sol.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Entre o tempo e o lago

Ivânia Vieira*

A Colonia Antonio Aleixo, Zona Leste, realiza hoje um ato singular: exercícios de leitura entre os seus moradores. Os escritores Marcio Souza e Tenório Telles são os convidados para esses exercícios. A partir das 14h, os dois estarão no Centro Educacional e Social do Lago do Aleixo (Cesela) numa conversa com os comunitários.

O Cesela tem mais de 5 mil títulos e acaba de ser reformado, sem grande requinte, mas com enorme pretensão. Quer comemorar com seu povo esse momento novo. E tem motivações suficientes para isso.

Nos anos 70 até a metade dos anos 80 do século passado, a Colonia era o lugar remoto de depósito de pessoas. A segregação à qual foram submetidos os hansenianos em todo o País tem no Antonio Aleixo um desses endereços históricos.

Se, no passado, a região abrigou um dos mais controversos modelos de tratamento da doença, também dos guetos da agonia surgiram manifestações de solidariedade, de compaixão, de amor. O isolamento teve um outro aspecto, o de garantir a conservação do lugar. As colonias foram desativadas e gradativamente forjou-se o bairro.

O Antonio Aleixo conservado se constituiu em área cobiçada. Hoje é cenário de destruição. Os impactos provocados pela ocupação, por indústrias e pelos exploradores dos recursos naturais criaram um rastro de morte.

Os exercícios de leitura, retomados a partir de hoje, e o grande seminário sobre a revitalização do lago, no dia 27, são a celebração da vida. O conselho gestor da comunidade aliou-se a várias instituições para debater, durante todo o dia, propostas que sejam vida nova para o lago, a floresta e as pessoas. Há um vento forte soprando do Antonio Aleixo.

UM TEMPO VELOZ
Tem um tempo em que o tempo passa tão rápido. É veloz como onda. Dia e noite se embolam, travam embates terríveis. Então, o descuido, numa esquina qualquer, a surpresa que atropela e põe um fim com várias interpretações. Talvez até de um outro começo. Ernesto Coelho, Paulo José e Sebastião Reis, sem combinar, cada um com seu jeitão, como uma onda nos surpreenderam numa esquina dessa passagem por aqui. Agora, o tempo nos espreita e diz que é este o momento de ser. Depois não há mais tempo.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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“A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder”

A Professora Doutora Maria Lúcia Montes, antropóloga do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), dedica-se à pesquisa histórica por meio do resgate da memória. Os resultados de uma das suas pesquisas serão publicados pela Editora Valer (Manaus, Amazonas) em maio, com o título “Fragmentos de uma outra história: memória negra submersa na metrópole paulistana”. Trata-se de um estudo sobre a memória dos negros na cidade de São Paulo.

Em outubro do ano passado, ela fez conferência em Manaus, no 2.º Seminário Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Cidades (15, 16 e 17), promovido pelo Departamento de Antropologia da Ufam, sob a coordenação do Professor Doutor Sérgio Ivan Gil Braga. Maria Lúcia explica que a história não tem como recurso apenas documentos e que diversas sociedades, principalmente as tradicionais, se utilizam da memória, da dança e do canto para elaborar a sua história.

Nas sociedades ditas modernas, a prática de se transmitir a tradição por meio da oralidade fica mais difícil em razão da enxurrada de informações dos meios de comunicação. É nesse ambiente que, segundo ela, não só os brasileiros, mas o mundo, fica cada vez mais com a memória curta. Confira a entrevista que ela concedeu ao jornalista Wilson Nogueira.

Há diferença entre o conceito de memória e historia?
A noção de história tradicional que a gente tem (que eu questiono em função do meu campo de trabalho) lida com memória negra. Eu estava dizendo (ela se refere à palestra que ministrou) que o documento não é a única coisa que legitima a memória, porque o documento é o lado escrito. Ele é, como diz o africano, a fotografia da coisa; o saber é outra coisa. Isto é: estou falando em nome de uma concepção de história, que é tradicional na África: a história que é contada pelo criô. Quer dizer: são sociedades sem escrita, onde a memória é a história.

Portanto, você utiliza todos os recursos mnemônicos possíveis. Então, você conta a história do teu povo acompanhada de música, de dança. A história é quase como se você quisesse fazer um rememorar permanente da narrativa da história feita no contato face a face. Então o que está em jogo, realmente, é uma recuperação de um tempo passado, mas que te inscreve no presente como parte dele.

No fim das contas, o que eu estava tentando questionar era a nossa versão de história como um relato do tempo passado, que você tem métodos científicos para documentar, e aí você analisa em função de várias questões teóricas etc. Isso não é a experiência de história de outros povos. O que está presente nesse país é a liderança africana desse universo do qual eu estou trabalhando.

Portanto, eu estava dizendo: a construção dessa memória, o resgate deste patrimônio imaterial dessa memória é a construção de outra história, que é uma história subalterna, uma história invisível. Na maior metrópole brasileira, vou descobrir uma historia do negro que só posso alcançar através do estranhamento da memória.

Como trabalhar, metodologicamente, com a memória?
Acho que é o olhar. Não é a metodologia. É olhar com o qual você trabalha com qualquer que seja o suporte da memória. É isso que ocorre em Memória do Jongo (livro-CD de autoria dos pesquisadores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco sobre as gravações históricas de Stanley J. Stein, feitas em Vassouras-MG, em 1949), que registrou cantos de jongo.

As pessoas achavam que haviam perdido esses registros, mas elas os recuperaram. Aí, uma série de pessoas foi estudar o que é o jongo como tradição de cultura africana nessa região do café, no Vale do Paraíba, em Minas Gerais e São Paulo, na região do Sudeste.
O que os professores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco fizerem é uma coisa maluca, porque ele vai pegar referências das cosmologias da África Central; palavras que são usadas, elas têm fragmentos, coisinhas mínimas que você vai encontrar, sei lá, a grande palavra, a cumba; jongueiros são as grandes cumba.

O que é que é cumba? Ele vai inventariar nas culturas africanas as multiplicidades de referências a essa palavra, que vai ter a ver até com macumba. Quer dizer: você começa a falar o jongo, que vai dar numa forma de religiosidade que surgiu muito depois, que você diz que já foi misturado. Quer dizer: é o olhar dele que vai dizer onde tem essa memória. Ela tem fragmentos o tempo inteiro, ou então ela está na rítmica, por exemplo.

Por isso é que eu estava dizendo que tem uma história escrita no corpo desse universo africano. Você tem uma forma de preservação da memória no mundo onde memória está tudo junto, que é mnemônico. Isso é ritmo e é canto tudo junto. É palavra. É todo o resto. A questão como você identifica a memória? É o cuidado de você olhar cultura, em cima de qualquer coisa que você tenha na mão: seja o registro sonoro seja o documento escrito.

Quando trabalhei essas historinhas que uso os desenhos, peguei uma literatura de memorialistas. É o sujeito que está falando na primeira pessoa. Pra mim, não interessa se ele está romanciando ou não. O meu olhar está vendo lá dentro o que ele está me contanto sobre o ethos da cultura em que foi produzido esse relato. Do meu ponto de vista, é isso que me interessava especificamente quando eu estava lidando com essa coisa da memória.

Qual a sua posição nesse debate sobre a patrimonialização da memória?
A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder. Quando você é capaz de dar, via políticas públicas, instrumentos para os grupos subalternos disputarem melhor no campo simbólico de poder espaços que sejam próprios, eu digo: bendito seja Deus, tá! Veja o exemplo da Bahia: por que a Bahia é o grande Estado negro do Brasil? Porque simplesmente tem recursos de reconhecimento.

Não é o fato de o Ipham (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ir lá tombar as coisas, tá certo? Mas se legitimou de tal modo essa imagem da Bahia Negra que os grupos negros têm hoje como exercer um papel, um lugar dentro da sociedade baiana que você não vê em outro lugar do Brasil. Ou seja: é a legitimação que abre espaço para a conquista de mais espaço. Sou, absolutamente, favorável nesse sentido, não no sentido de congelar o bem, o valor etc. Esse caminho é o caminho de poder… Aí se tem condição de jogar melhor.

“São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito
indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!”

Como está o indígena nesse contexto da escavação da memória no Brasil?
Não sou etnóloga, mas acho que, na verdade, você tem um lado que está extremamente avançado e outro que está extremamente atrasado. Avançado no sentido do que você tem de pesquisa acadêmica seríssima, pesquisa de etnohistória.

A professora Manuela Carneiro da Cunha, por exemplo, estuda longamente toda essa região Norte, na história dos grupos indígenas daqui. O que eu acho importante é a capacidade dos próprios grupos indígenas estarem se organizando em função de uma história que é deles, da reivindicação de um lugar para a sua memória, para a sua cultura e para sua presença na vida social. Por esse lado, acho que está, aqui, muito bem obrigado. São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!

Agora, ao mesmo tempo, quando você pega uma questão como Raposa Serra do Sol, o Brasil não tem a menor noção, você tem os piores grupos de direita acusando índios de serem imperialistas, de ser um risco para a segurança nacional. É aquela coisa retrograda do discurso militar dos anos de 1970 que está na boca do presidente do Supremo Tribunal Federal. Isso aqui me dá pavor total.

Então, na verdade, acho que está muito bom no sentido de se ter uma matéria-prima de resgate de reafirmação de memória, de história, de lugar político, de reivindicação etc. Mas, meu Deus, tem que lutar com uma oligarquia local das piores possíveis! Para mim, Roraima é só um exemplo do que é isso. Rondônia é parecido, o Acre eu não conheço muito bem. Em termos locais já é duro.

Agora em termos nacionais é uma tragédia, porque aí você tem assim: a imprensa, a opinião pública formando a visão que vocês aqui não tem como inventar que índio é uma coisa totalmente estratosférica ou extraterrestre, porque ele está do outro lado da rua. Agora lá, em São Paulo, você chegar e dizer: escuta, os grupos indígenas do Brasil são uma riqueza absoluta do patrimônio cultural desse país, da diversidade cultural desse país.

Você diz isso e os caras olham como se você fosse louca. Porque, eu acho que tem isso: tem um lado que vai muito bem, o outro lado eu acho que é uma tragédia, porque esse país continua ignorando as existências dos povos indígenas e, no momento, se tem uma ofensiva de direita das mais danosas, que, se puder, ferra com Raposa Serra do Sol; e a partir daí vai começar a rever todos os processos de demarcação de terras indígenas. Vai criar problemas para as terras de quilombo.

O momento político é o dos mais dramáticos para a questão indígena, inclusive para a questão quilombola em termos de propriedade. Agora, em termos de organização, bendito seja São Gabriel da Cachoeira, onde uma população é capaz de estar lá dizendo: eu sou cidadão tempo integral, totalmente indígena brasileiro a ponto de eleger o meu prefeito! Isso é uma situação contraditória intensa.

A senhora coloca a imprensa também na sua relação de elite, de poder?
No momento, onde eu moro, há um jornalista polêmico, o Paulo Henrique Amorim, que chama todos os veículos de comunicação de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Não acredite no PIG, leia blog, porque senão você está perdido. Quer dizer: você tem, no eixo Rio-São Paulo, um agente de tal conservadorismo que é um problema sério. Jornalista virou empregado do dono do jornal. E aí editorial e “jornalismo investigativo” são coisas feitas segundo os interesses econômicos e políticos.

Se você está naquele eixo Rio-São Paulo, você tem a imprensa mais absolutamente reacionária, por uma razão muito simples: esse país está mudando. Há uma política nacional em que hoje o Norte conta, o Nordeste conta, o Centro-Oeste não é terra de ninguém. São Paulo está perdendo loucamente o poder. Então vamos batalhar para 2010! O problema é a gente garantir que o Serra estará lá retomando o poder de São Paulo no governo central! A imprensa inteira funciona para isso. Criam-se crises institucionais.

Essa história do grampo no Gilmar é a coisa mais dantesca que eu já vi na minha vida: uma coisa criada pela Veja, repercutida pelos jornais. Uma baita crise institucional em favor de quem? Em favor de seis arrozeiros que vão ferrar com a Raposa Serra do Sol e, que vão abrir espaços para revisar todas as demarcações, todas as conquistas indígenas e quilombolas desse país.

Eu te diria: a imprensa hoje em dia não dá para você passar por perto. O único consolo é que, graças a Deus, cada vez mais a Internet está se tornando um meio alternativo de informação.

Agora quem pauta a cabeça pelo Jornal Nacional? Tem a situação dramática que estamos vivendo em São Paulo, onde a eleição para prefeito pode ser ganha pelo PFL, atualmente DEM. São Paulo é o único lugar onde o PFL conseguiu sobreviver. Ele foi varrido da Bahia, o neto do Antônio Carlos Magalhães nem para o segundo turno passou. Em São Paulo, ele (o DEM) conseguiu ser eleito. O Jornal da Globo, oh, o PIG, pode fazer a cabeça do eleitor, e eu vou ter que agüentar, aturar o DEM sendo prefeito da minha cidade, eu quero morrer, eu quero vir para Manaus, eu quero pedir asilo político para vocês aqui.

Por que se diz que o brasileiro tem memória curta?
Como todas as coisas do senso comum, isso tem um pedaço de verdade e um pedaço de mentira. O porquê do pedaço de mentira eu tentei mostrar na minha comunicação. Tem memória mais persistente para coisas essenciais do que essa memória negra que eu tentei escavar em São Paulo. Não é verdade que tem memória curta. Por outro lado, com os meios de informação que você dispõe, e com um globinho lá para ajudar.

Na verdade, eu acho que é assim: o mundo tem memória curta, tem uma quantidade de informação e uma hegemonização falsa, coisas irrelevante ao lado de coisas importantes, que tudo passa batido.

Nesse sentido tem memória curta porque aconteceu tal coisa; tá, mas o que isso tem a ver comigo? Se não tem uma educação formal, se você não tem consciência de cidadão, por que você haverá de achar que o diabo do Cassabe ser do DEM te importa? Porque o DEM acabou? O DEM foi algo que passou. Então você mudou o nome e já faz de conta que é outra coisa e não precisa mais lembrar.

Agora tem que ver assim: historicamente com essa coisa de barrar o acesso à educação e não se preocupar de jeito nenhum com a cidadania. Hoje, acho que de um modo geral, tudo, na verdade, foi feito para se ter uma informação de consumo rapidíssimo. Aí eu não acho que é só o brasileiro. O mundo tem memória curta hoje em dia. Mas se eu lembrar que tenho o vídeo, o livro e essa memória que eu tentei te mostrar, acho que ela está lá fincada na longa duração da história.

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CONTROL (Inglaterra 2007)

Yusseff Abrahim*

Depressivo, autodestrutivo e epilético. A combinação presente no talento musical que o mundo conheceu como Ian Curtis – voz e alma da revolucionária banda Joy Division – é apresentada no início de Control por meio de um mosaico de situações que vai destilando o comportamento e as percepções do jovem que cresceu na culturalmente insossa cidade de Macclesfield, nos arredores de Manchester, Inglaterra.

Sem lugar para expandir o seu potencial criativo, Ian (Sam Riley) foi se tornando um jovem introspectivo, indiferente diante do grito de crianças para que devolvesse a bola que escapou da brincadeira e passava próxima aos seus pés, assim como o “bom dia” diário do pai a cada retorno do colégio. Fazia do quarto o refúgio da vida sem cores que julgava levar, dialogando com as folhas de papel onde escrevia poesias, ou local para ouvir LPs de ídolos como David Bowie e Iggy Pop. Finalizado em preto e branco, o filme traduz a melancolia do protagonista mesmo depois sua entrada na banda Warsaw (Varsóvia), rebatizada para Joy Division (Divisão da Alegria) e sua rápida decolagem para o sucesso.

O cultivo do contexto histórico-musical da época transporta o espectador ao clima dos shows que ferviam a cena londrina, a exemplo da banda punk, Sex Pistols, expoente maior de uma época onde a atitude subjugava a qualidade musical, e do performático David Bowie & Spiders Mars, que representava a ruptura ao estilo punk-rock que abastecia o imaginário de Ian Curtis e uma legião de admiradores ávidos por outras experimentações sonoras. Tudo isso em curtos momentos servindo de cenários que testemunharam a convergência entre os futuros membros da banda e o empresário Rob Gretton.

Os últimos anos de Ian Curtis retratados no filme, mostram a vida de um ídolo que não suportou conviver com a bomba-relógio da epilepsia instalada dentro de si e que detonava o sentido de renascimento de cada fato que promovia reviravoltas positivas ou não da sua vida. A construção linear deixa a sensação de uma história rápida, assim como os quatro anos de existência da Joy Division, embora aditivada com algumas sequências longas expondo introspecção e as angústias vividas pelo vocalista que se tornou símbolo da angústia coletiva de uma geração.

Músicas de compasso insistente temperadas com guitarras, baixo e vocal sombrios. A trilha sonora evidencia o legado de uma banda que se tornou ícone da transição do rock com a fusão de texturas eletrônicas e a criatividade no uso de efeitos semi-artesanais como o chiado de sprays e sons de vidros estilhaçando (este último não colocado no filme).

Após a morte precoce de Ian Curtis, em 1980, os demais integrantes da banda fundaram o grupo New Order (Nova Ordem) que se consolidou como sucesso mundial nos anos 80 e 90. O filme é uma oportunidade para conhecer mais sobre a banda que influenciou uma geração seguinte de músicos bem sucedidos como Nine Inch Nails, Radiohead, Smashing Punpking, She Wants Revenge, Franz Ferdinand e The Killers. No Brasil, nada menos que a Legião Urbana, aliás, qualquer semelhança entre a performance de palco de Ian Curtis com Renato Russo não merece o rótulo de injustiça.

FRASES MARCANTES

“Eu vivo da melhor forma possível, o futuro agora faz parte do meu passado”.

“Você é minha, irrecuperavelmente minha”.

“Pensei que ataque epilético fosse coisa de tantã”.

“Você foi incrível, Ian! Arrebentou, mas me diga quem ganhou a luta dessa vez, o Ian ou o Ian”?

“Quando eu estou lá em cima do palco eles não entendem o quanto eu me dou e o quanto isso me afeta”.

EM CARTAZ EM SESSÕES DIÁRIAS. Horário único de 15h10. Sala 8 do Cinemark, no Studio 5.

*Visite o blog do autor ESPREMEDOR DE CINEMA

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Os cabelos do Zé

Neuton Corrêa*

Desci do ônibus curioso para saber quantos fios de cabelos têm na cabeça. Não perdi tempo. Fiz a pergunta ao Google e lá me veio a resultado da busca: “Caro amigo repórter, as pessoas têm entre 90 mil e 150 mil fios de cabelo na cabeça”.

O assunto me interessou porque, naquele dia, havia encontrado o Zé. Ele era o operador de áudio da primeira empresa que trabalhei. Não o via há exatamente 20 anos. A maior mudança nele foi a do cabelo. Talvez de tanto olhar sua cabeça tenha esquecido de notar outras alterações que ocorreram nessas duas décadas.

Ele embarcou no ônibus na parada do Colégio Militar, no Centro. Fiquei impressionado com a memória de meu ex-colega de trabalho. Apesar dos 20 anos passados, ele me reconheceu e imediatamente foi logo provocando: “Olha quem está por aqui, o feio! Tá morando aqui em Manaus, feio?”. Reagi à provocação fazendo brincadeira com seus cabelos.

Assim que entrou no 505 e que eu olhei seus cabelos lembrei-me das palavras de meu professor de redação de texto literário. O mestre Tenório condenava com furor quem usava chavões, frases prontas, mas sempre se traía, quando advertia a turma: “Aqui se faz aqui se paga!”. Para enriquecer a máxima, o professor dizia que essa frase é uma variação popular da “Lei do eterno retorno”.

Preciso explicar. Essa lei é encontrada no livro “A Gaia Ciência” (1882), do filósofo Friedrich Nietzsche, que fala: “E se um demônio te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda inúmeras vezes: cada dor e cada prazer e tudo o que há de pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem”.

Pois bem: Quando comecei a trabalhar naquela empresa, em novembro de 1988, o Zé foi o primeiro a me aplicar o apelido de feio. Fez com tanta competência que até hoje não consigo fugir do agrado. Naquela época eu estava com 18 anos e ele era alguns anos mais velho. Gabava-se de ser namorador, mas era famoso, mesmo, por tomar dinheiro emprestado e nunca honrar o compromisso com o credor.

Mas eu não era a única vítima do Zé. O alvo preferencial dele era o Raimundinho, que trabalhava com rádio-escuta e operador de Telex. O Raimundinho começou a trocar a cor dos cabelos muito cedo. Com pouco mais de 30 anos de idade, os fios pretos cediam lugar ao branco.

O Zé, que dava apelido para todo mundo, não perdeu tempo em fazer gozações com a cabeça do Raimundo. Toda vez que entrava na empresa, ia na salinha do Rai e alertava-o pegando na cabeça do colega:
- Tu sabe o que é isso, Raimundo?
Ele mesmo respondia:
- É chifre. Toda vez que o cara pega um chifre aparece um cabelo branco.
Enquanto eu lembrava dessa história, fixava o olhar para o Zé. Hoje, na cabeça dele, difícil é encontrar um fio de cabelo preto. O branco tomou conta dela.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Augusto Myrria.

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Natureza morta!

Michelle Portela*

Lembro bem do dia em que ela partiu. Acordei cedinho, na famosa hora azul, entre 5h e 6h da matina, para matutinos, ou madrugada, para aqueles (as) que não lavam roupa ou enfrentam jornadas triplas. O casamento dos meus amigos não estava bem. A decisão pela separação diante da proposta de emprego nos Estados Unidos parecia uma boa opção para minha amiga engenheira da computação. Ela tomou uma sábia decisão; pensei à época.

No dia da viagem, no aeroporto, chorei dando beijinhos na Lucy. Amava aquela menina como a poucas pessoas em minha vida. Sonhava com minha filhinha a partir dela. Admirava meus amigos por ter uma filha de personalidade tão amorosa, tranqüila e sensível. E era verdade.

Foi impossível não lembrar quando ela nasceu, ganhou seu nome e passou a reconhecer Beatles. Mais ainda, quando fez o sinal comum aos metaleiros: o polegar e o indicador estendidos enquanto os outros estão dobrados. Clássico do metal! Lucy reconhecia o heavy metal do Iron Maiden aos três aninhos! Ótimo! Boa menina!

Ela se foi. Os anos se passaram. Num dia, Anderson não atendia ao celular. Há cinco anos Lucy estava nos states e eu andava curiosa para saber dela. Encontrei Guilherme, grande amigo nosso que, por acaso, pensava o mesmo. Ao chegar ao apartamento, o odor era dos piores. Há uma semana, meu amigo querido não tomava banho, retirava o lixo ou coisa qualquer. Mais ainda, havia disparado o gatilho duas vezes. Em nenhuma delas, a arma, que prefiro não saber a marca, disparou. No terceiro tiro, funcionou. Como foi na parede, disparou um desespero profundo em meu amigo, a ponto de sequer conseguir se movimentar.

Lucy havia morrido em um acidente de carro. A mãe dela dirigia a partir da Califórnia quando foi atingido por um caminhão que desviava de uma árvore caída. Ele só soube dias depois. Nem foi ao enterro porque a família dela pensava que não seria necessário. Minha menina morreu! Ele só soube por que foi buscar informações.

Ao falar com ele, disse pouco. Nosso gesto de carinho foi dar banho no amigo. Uma comidinha também foi bem-vinda. Dormiu! No dia seguinte, disse que borboletas haviam entrado no quarto pela janela. Amarela e preta. Amar ela e preta. Amar ela, minha filha.

De coração partido, parti! Não sabia o que fazer. Não sei o que fazer. Ando pensando em ter filhos. Um ato de amor!

*Jornalista, mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Infância violada

Ivânia Vieira*

Amontoam-se, a cada dia, os relatos e registros oficiais de meninas e meninos violados. Cresce, no âmbito público, o número de casos de meninas grávidas por atos de estupros praticados por seus pais, padrastos, tios, avôs, vizinhos. Enfim, crianças violentadas por pessoas tão próximas cuja posição projetada era a da proteção e do abrigo mais seguro.

Esses terríveis acontecimentos revelam uma outra realidade – o perigo mora em casa e na rua mais próxima. Todavia, a notícia da tragédia das crianças não consegue sensibilizar. Não tem força para produzir um eco maior na sociedade nem mobilizar as instituições. Todas elas.

Há uma indignação acomodada, só esboçada em locais fechados e gestos muito pequenos. Talvez, nesse silêncio se expresse por consequência a aceitação dessa violência naturalizando-a como uma das marcas da sociedade contemporânea.

É recente, na história da humanidade, o lugar da criança como pessoa portadora de direito. A série de abusos aos quais a infância está sendo submetida nega essa inserção e expõe, na sua versão mais bruta, a ameaça às conquistas realizadas na área da infância e da adolescência.

Que espécie de gente é essa capaz de violar a infância? Que sociedade é essa contemplativa diante dos números da violação? O que esperar das instituições (governos, judiciário, legislativo, escolas) insensíveis ao drama das crianças ultrajadas contado diariamente em forma de notícia?

Não acordamos para o fato de que nenhuma criança está a salvo. Nem as crianças da nossa casa, nem as crianças da casa do vizinho. Todas elas são alvo fácil da violação e das sentenças lançadas sobre elas. O horror exercitado contra meninas e meninos denuncia a própria condição dessa humanidade diante de um dos seus mais cruéis comportamento.

*Jornalista e Professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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