Archive for abril, 2009

Elos da impunidade

Wilson Nogueira*

A impunidade é um tema batido, mas é necessário que se escreva sobre ele todos os dias. Não dá para acreditar que se trata de um mal incorporado, definitivamente, na rotina da coletividade. Por isso, cidadãos e cidadãs até se sentem esperançosos com o indiciamento, pela Polícia Federal, do banqueiro Daniel Dantas, acusado de praticar crimes financeiros, ou com a prisão (ainda que por algumas horas) de Raphael Souza, suposto matador e traficante de drogas, membro de uma família de políticos amazonenses.

A sensação da certeza da impunidade leva tanto o banqueiro quanto o filho do político, em grande medida, a agirem contra os interesses da sociedade. O mais escabroso dessa situação é que o estímulo ao crime, via não-punição exemplar dos delinqüentes, conta com a permissividade senão das estruturas de poder, mas de parte delas.

Daniel Dantas, preso pela Operação Santiagraha, por exemplo, arrancou, sintomaticamente, a indignação de membros do Judiciário e do Legislativo. “Não, ele não pode ser algemado! Não se trataria de um homem perigoso!”, justificaram. O “inofensivo” é suspeita de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, empréstimo vedado (não autorizado pela autoridade monetária) e lavagem de dinheiro. Tais crimes não poderiam ser executados por alguém que não fosse de alta periculosidade, que não oferecesse perigo à sociedade ou que não se relacionasse tão bem com o mundo dos negócios legais e ilegais.

A prisão de Raphael não ficou por menos. Muitos tentaram impedir que ele fosse algemado e encarcerado, inclusive os que detêm mandatos eletivos. Produziram-se, nesse episódio, cenas típicas do “mundo cão” televisivo. Assim como Dantas, Raphael aguarda em liberdade a investigação dos crimes que teria cometido por “não oferecer perigo à sociedade”. Essa justificativa só seria razoável se as armas e a munição apreendidas no quarto dele fossem mera ficção policial. Na mesma trama, estaria envolvido o deputado estadual Wallace Souza, pai de Raphael, acusado por um ex-policial PM de mandar executar pessoas ligadas ao tráfico de entorpecentes.

De imediato, a impressão que se tem é a de que casos como esses cairão, em breve, na vala comum da impunidade; e é isso mesmo o que acontece, na maioria das vezes. Acostumada a ver os de “colarinho branco” sem castigo, a população chega a se sentir satisfeita com as prisões-relâmpago de banqueiros e “filinhos de papai”. Essa atitude, por sinal, é que incentiva os malfeitores e seus cúmplices. Logo, a sociedade em vez de esmorecer diante dos momentos de injustiça, deve agir, sistematicamente, por mudanças nas estruturas de poder necrosadas.

Não são somente os ladrões de bugigangas que tiram o sono da sociedade. As cadeias estão abarrotadas de delinqüentes desse tipo, sem que a violência tenha encolhido. Enquanto isso, larápios do dinheiro público e quadrilhas do submundo do mercado ilegal agem com certa desenvoltura contra o interesse de todos, e estão sempre certos de que terão tratamento diferenciado perante a lei. Por isso, a sociedade não pode dar trégua à impunidade enquanto não quebrar todos os elos que a fortalecem.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Decisão corajosa

Ivânia Vieira*

Acertada e corajosa a decisão da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, em informar publicamente sobre o câncer do qual foi acometida.

A história recente no Brasil e no mundo envolvendo o estado de saúde de personalidades públicas expõe engendramentos para evitar que a sociedade tome conhecimento sobre figuras públicas acometidas de doenças graves. Tancredo Neves, eleito presidente do Brasil, pelo Colégio Eleitoral, é parte desse enredo. Até o comunicado oficial da sua morte, em 21 de abril de 1985, uma população aflita tentava obter informações enquanto os ‘muros de proteção’ em torno de Tancredo produziam mais desespero e incertezas entre os brasileiros.

Outro caso emblemático é o do Papa João Paulo II. Até a sua morte, em 2 de abril de 2005, o mundo, principalmente o católico, viu se arrastarem os esforços oficiais para apresentar o Papa em condições de conduzir o seu rebanho. Ele já não conseguia fazê-lo, vítima de várias doenças. Suas aparições silenciosas, em diferentes momentos, gritavam a agonia pessoal de João Paulo. Em outros tantos casos prevaleceu a lógica de interesses mais particulares ignorando a dimensão pública dessas pessoas.

Neste 2009, Dilma, pré-candidata à presidência da República, é surpreendida com um câncer. A decisão sobre qual atitude tomar envolve vários aspectos. Ao final da batalha, prevaleceu o bom senso: informar, sem alarde, e com respaldo científico, o seu problema.

No dia seguinte após anúncio, feito pela ministra, de que retirara um tumor maligno, alguns comentários: “Dilma, candidata, já era”; “acabou a candidatura Dilma”… É cedo para tais posições definitivas, mas é o momento de ver o saldo positivo nesse caso: um maior número de pessoas tem, hoje, mais informações sobre linfoma e recebeu reforço de alerta para a importância dos exames rotineiros. Essa conduta possibilitou à ministra saber sobre o gânglio e extirpá-lo em seu estágio inicial. Não menos diferente tem sido a postura do vice-presidente da República, José Alencar na briga contra o câncer, sem espetacularização.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Água no teto

A enchente atípica do rio Amazonas está perto de ultrpassar a cobertura das casas de apoio à criação de gado, perto da cidade de Parintins (AM). As pastagens foram tomadas pelas águas e as manadas foram transferidas às terras mais altas. Fotos: Wilson Nogueira.
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Palavras do cacique

Wilson Nogueira*

Zapeando, vi-me diante de um cacique xinguano ensinando que os fazendeiros que lhes roubavam as terras deveriam pensar nas gerações futuras (nos netos deles, por exemplo, antes de degradá-las pelo desmatamento). A câmera lhe pôs em ângulo que ressaltava um trecho sinuoso de rio contornado por mata virgem. A cena, exposta em segundos, legitima a fala do cacique.

E os fazendeiros, aprenderam a lição? Não. Claro que não! Pelo contrário, calaram e tentam calar os que lhes contrapõem no discurso e na prática, sejam eles índios, brancos, amarelos ou azuis. E poderia ser diferente? Não. Claro que não! Os fazendeiros também são banqueiros, especuladores, políticos, governantes, juízes e legisladores. ELES são da elite que manda e desmanda no País. O cacique, o grande cacique, prega para essa multidão (sociedade do consumo) que procura oportunidades de ganhar dinheiro para consumir, seja na Terra, na Lua ou em Marte.

Zapeando, clicando e navegando – fico nos hábitos mais comuns do cotidiano do usuário midiático – constata-se que a Amazônia, na qual o Xingu é um pontinho no mapa-mundi capitalista, perde suas florestas, terras e rios de forma avassaladora. Enquanto componho esse texto, milhares de árvores se vergam sob motosseras ou são arrancadas por tratores. Amanhã lerei os estragos nos jornais, na Internet e TV, e posso até ver, se assim eu preferir, o alargamento do deserto em tempo real, via satélite.

O cacique denuncia a insensatez do desflorestamento para a criação de gado, para a plantação de soja e de outras monoculturas, mas o deserto anda velozmente, o clima se desequilibra e as catástrofes tornam-se iminentes na Amazônia e muito longe dela. Falta de aviso não foi. Na Amazônia equatoriana, ouvi a sábia explicação de membros do povo Shuar de que os rios andam e voam. Logo, eles podem mudar de lugar; e se as árvores regulam as chuvas, como até a ciência atesta, nada mais correto do que mantê-las em pé. Rios e florestas se completam.

Não será o alerta de um cacique a deter a voracidade do lucro. Mas suas palavras e sua coragem se inscrevem na história dos povos que se orientam por uma ética duradoura e profunda, na qual há menos espaço para intolerância, arrogância, egoísmo, vaidade e injustiça. Trata-se uma ética praticada, vivida e reconhecida como importante não só para os seres humanos. Esse modo de ver e viver no mundo não interessa aos que caçam o lucro imediato legal ou ilegalmente.

Por isso, o deserto amazônico só vai parar e os rios andantes e voadores só sossegarão quando a floresta em pé gerar dinheiro, mas muito dinheiro mesmo! Dinheiro, para ELES. Ou então se o mundo vier a se refazer num novo processo histórico. Afinal, para que as utopias se mantenham vibrantes, é necessário que pensemos que um outro mundo sempre será possível. Penso que é a esse mundo ao qual o cacique xinguano se refere.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Repórter de sorte

Neuton Corrêa*

Ao desembarcar do 422, na estação da Matriz, fui recebido com uma afirmação que me deixou pávulo pelo resto do dia: “Ah repórter de sorte!”. Era o Louro. Começamos juntos no rádio. Éramos adversários na disputa por uma vaga na rádio Clube de Parintins, em outubro de 1988. Ele continua locutor. E eu, passageiro-repórter.

Naquele dia, havia ido ao Porto de Manaus pegar farinha a bordo do Aliança. Estava mal humorado por ter passado mais de trinta minutos esperando o ônibus. Mas o encontro com o Louro apagaria o sofrimento dominical de minha cabeça. Afinal, acabara de ouvir que sou perseguido pela sorte.

Empavulecido com aquilo, passei a examinar minha história de repórter. Em duas décadas de trabalho, consegui lembrar apenas dois episódios que poderiam confirmar a questão do Louro. Pouco para quem já passou horas olhando para o céu para ver se algum avião estava caindo.

Pensei que ele tivesse lembrado do assalto à agência do Banco do Brasil de Parintins. Foi no dia 20 de maio de 1994, às 12h45, pelo relógio do banco. Os bandidos renderam os funcionários, pegaram R$ 230 mil do cofre. Quando começavam a tomar o dinheiro dos clientes, um policial militar aparece na porta e estraga a gravação que eu estava fazendo na fila dos reféns com um gravador no bolso.

O tiroteio começa e saio em disparada para a rádio Alvorada para dar a notícia do primeiro assalto de Parintins. Um grande acontecimento! O maior de todos os fatos da crônica policial da Ilha.

Mas não era disso que o Louro estava falando, não. Continuei imaginando: será que ele está sabendo do naufrágio do Comandante Sales, aquele que matou mais de 50 pessoas em Manacapuru, no ano passado?

Não, leitores, eu não estava naquela viagem. Porém, não estava tão longe de lá. Por acaso, na madrugada do dia 4 de maio de 2008, dormi com a família e um grupo de amigos na beira do Solimões, a pouco mais de três quilômetros da tragédia.

Acordei por volta das 6h à procura de água, mas, assim que deixo a barraca, a rádio Palmeiras FM dava a primeira notícia: “Um barco acaba de naufragar em frente à cidade de Manacapuru. Mais de cem pessoas estavam a bordo”. A vontade de curar a sede e a dor de cabeça passou. Estava ali também na frente de Manacupuru. Na mesma hora acionei o jornal.

Essa sorte, senhores, nunca mais a quero ter. Não só pela quantidade de jovens que vi, um a um, sendo retirada do fundo. Mas pelo fato de o primeiro corpo resgatado ter sido de um rapaz que no dia anterior havíamos acabado de conhecer.

O Louro sequer saberia desses detalhes. Como poderia julgar-me como um repórter de sorte?

Naquele dia, assim que o vi agitado na estação tentei evitá-lo. Já ia na direção do porto quando gritou novamente:
- Ah repórter de sorte!
Olhei para o lado fingindo agir por reflexo e o vi, remando com a mão:
- Vem cá! Vem cá!

Voltei e ao me aproximar do amigo, ele aponta para a praça e diz:
- Tu tem muita sorte, cara. Olha lá! Acabaram de matar um ali. Vai lá que ele ainda está se mexendo.

Fui lá e ainda vi o homem agonizando com uma faca cravada em seu pescoço.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
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Sexo, livros e jornalismo

Gerson Severo Dantas*

Certa vez li uma crônica de Carlos Heitor Cony (foto) sobre um amigo dele que defendia a esdrúxula tese de que havia 10 ou 11 coisas melhores que sexo. Assunto instigante e conduzido com maestria pelo inefável e sempiterno escritor de Pessach e Tijolo de Segurança, além de grande jornalista.

Opondo-se, Carlos Heitor Cony foi eliminando as possíveis coisas melhores que sexo apostas pelo interlocutor amigo. Dinheiro, por exemplo, dá muito prazer, mas todos o buscam para comprar coisas que facilitem a conquista e o sexo com as maiores e melhores parceiras. Comer, também é bom, mas muitos são pegos pela barriga para depois fazer sexo. Ao fim e ao cabo, dizia o cronista, era impossível para ele pensar em algo melhor ou que não tenha como fim último comer – agora no sentido sexista – alguém por vias não-orais.

No entanto, para arrematar, pondera que se há algo melhor do que sexo, esse algo é a “possibilidade de fazer sexo”. É uma deferência àquele momento que antecede o beijo, o segundo anterior a penetração ou a tirada de roupa, enfim coisas desse tipo.

Trato desse assunto aqui a propósito de um tema que a cada dia mais me parece coisa do passado: Ler. Pouca coisa, apenas sexo e uma picanha selada feita pelo Grill Designer, me dão mais prazer que ler um bom livro. De preferência, fazendo uma analogia invertida a conclusão de Cony na crônica em tela, reler um livro para redescobrir significados, redefinir posições, abrir nova vereda de entendimento, enfim curtir e recurtir uma história. É de tal forma assim que já condenei, absolvi e voltei a condenar Capitu pelo adultério perpetrado contra Bentinho, no clássico “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

Livro algum, contudo, me deu tantas e tamanhas significações diferentes quanto “Quase Memória”, do supracitado Carlos Heitor Cony. É, como define Jânio de Freitas na orelha, “um livro delicioso”, mas que nos deixa na dúvida se é, na realidade, “a quase-biografia de Cony-Pai ou a quase-autobiografia de Cony-Filho”. No que me diz respeito, a releitura de Quase Memória me oferece novos significados à medida em que avanço no tempo e na profissão de jornalista.

Ambos os Cony são jornalistas e misturam nas tramas do livro o mister deles, vividos desde os anos 30 até meados dos anos 90, quando o romance fez a reestréia de Cony-Filho no gênero, com as relações paterno-infantis, quando em choque estão, de alguma forma, pai e filho. Sobretudo para quem tem filho, a relação de ambos é inspiradora, até já pensei em adotar com meu próprio filho as técnicas usadas por Cony-Pai.

Do ponto de vista profissional, há várias lições em jogo e a principal delas é saber que o momento de ir embora chegará e quem melhor fará a “Pessach” será aquele que tiver planos B, C e D. Quem se aferra por demais nas centenas de paixões geradas pelo tempo sempre quente do jornalismo diário certamente terá problemas, como o enfrentado por um amigo dos Conys e cuja história final, no penúltimo capítulo, leva qualquer um às lágrimas.

Reli Quase Memória ontem à noite e ao final me lembrei de outro ícone das letras brasileiras: João Cabral de Melo Neto. Lá pelos anos finais de sua vida severina, o poeta pernambucano, já acometido de uma cegueira “borgiana”, concedeu uma entrevista na qual ao ser perguntado o que havia lido ultimamente respondeu de chofre: “Os clássicos”. Argumentava o poeta que a vista falhava e restava-lhe pouco tempo de vida, daí que não poderia perder tempo lendo livros que não conhecia e que poderiam render-lhe decepções, usurpando, com isso, o prazer de uma boa releitura de um clássico.
Estou quase concordando com todos, sobretudo porque ler é a melhor coisa da vida.

Ops!!! Depois de sexo e picanha.

*Filósofo e jornalista.

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Nosso time em campo

Ivânia Vieira*

É uma delícia, em forma e conteúdo, acompanhar as rodadas do campeonato amazonense de futebol. Primeiro porque ficamos tanto tempo afastadas e afastados desse acontecimento ao ponto de ser algo estrangeiro, muito distante de nós. Fomos domesticadas e domesticados para saber mais sobre os estrangeiros (do Rio, de São Paulo, do Rio Grande do Sul… e dos estrangeiros mesmo). Aceitamos, com enorme facilidade, o discurso da não existência do futebol no Estado, mesmo depois das lembranças atualizadas do espetáculo de paixão de um ‘Rio-Nal’, das peripécias de um São Raimundo no ‘Brasileiro’.

Estamos tendo a chance de aprender de novo, ficar diante da tela ou ir ao estádio ou ao campo mais esburacado, não importa, para acompanhar o time do coração, da nossa cidade e brigar com o técnico como se um fôssemos. De alguma forma estamos nos descobrindo, engrossando agora as torcidas daqui além das de lá.

Bom demais ver a equipe de comentaristas com o nosso jeito, embora, é preciso reconhecer, o padrão siga o roteiro do nacional, avaliando os nossos jogadores, os técnicos e de olho nas manifestações da torcida, nas características do lugar onde o jogo é jogado. O parintinense Nelson Brilhante e o paulista Carlos Souza, na tela da TV A Crítica, nos proporcionam momentos culturais igualmente saborosos e dão uma ajuda e tanto para subvertemos o padrão, criando escapes a nossa identidade.

Outro dia, Brilhante traduziu a performance de um jogador como um sujeito “atirado” e, Souza, na última semana, mostrou que futebol e laranja (do Rio Preto da Eva, é claro) tem tudo a ver. O suco dessa mistura pode gerar uma porção mágica saudável ao povo do Amazonas. Basta superar vícios e enxergar a profissionalização com responsabilidade, contaminar todo esse interiorzão, essa juventude com a formação de times e ser muito “atirado”, não como trunfo político-eleitoral, mas porque o esporte, e futebol em particular, têm um lugar especial na vida das cidades, de um Estado, de um País. Participar é um direito por nós abandonados. Talvez, por isso o silêncio tenha sido tão prolongado.

Eduardo Monteiro de Paula, o Dudu, faz a sua profissão de fé e arrebanha aliados na sua antiga peleja. Kitó até virou notícia nacional, não dessa que constrange, e sim do tipo de estufar o peito e nos fazer gritar: valeu, caboco atirado!

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
Na foto cedida pelo jornal A CRÍTICA, à esquerda, o narrador Carlos Eduardo Souza ao lado do comentarista Antonio Piola.

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Charge do Myrria

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Meu louco desejo

Neuton Corrêa*

Assim que seo Flávio me mostrou a foto de sua filha senti o mesmo desejo que o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez sentiu aos 90 anos de idade: o de poder me dar de presente uma noite de louco amor com aquela linda morena. A imagem ainda espelhava o verniz da fotografia tirada diante do Muro de Berlim.

O local onde posou era tomado de pichações. Mas havia uma frase em destaque: “Berlin Wird MAUERFREI”. No verso, ela explicava à família: “Papai, essa frase significa ‘Berlim ficará livre do muro’”. A filha de seo Flávio vive na Europa desde os 17 anos de idade. Foi atrás de outra amiga que havia deixado a cidade meses antes.

Soube de tudo isso porque o seo Flávio me contou a história dele e de sua filha sem nenhuma cerimônia. Conheci ele a bordo do articulado 600 (Jorge Teixeira-Centro). Ele carregava uma sacola branca de alça, daquelas que se compra nas feiras. Usava uma camiseta do Milan e cobria a cabeça com um boné, com escudo escrito a palavra ENGLAND. Tão logo se sentou ao meu lado, ele perguntou, com um leve sorriso:

- O senhor vai para o Jorge Teixeira?
- Não, vou ficar no Aleixo.
Depois entrei na conversa:
- O senhor vem de onde?
- Do Centro.
Como notei que ele queria conversar, estiquei o diálogo:
- O senhor é de Manaus?
A resposta dele, para mim, foi uma aula.

Seo Flávio se criou no seringal Jaburu, no rio Purus, um lugar que pertencia ao Município de Canutama e hoje se chama Município de Tapauá. Nasceu em 1936, quando a borracha estava em crise e viveu a infância em pleno vigor do último surto do látex. Conta isso como se estivesse narrando um filme.

Seo Flávio catou lenha para vender aos navios a vapor. Aliás, não se reporta a eles como navios a vapor. Chama-os, ainda hoje, de navios de canos, em referência às enormes descargas que passavam por aqui, deixando a fumaça e a cultura européia e retornavam levando o sangue das seringueiras e o leite sugado dos seringueiros.

Passei alguns segundos pensando nas histórias, quanto ele insiste:
- O senhor é guarda-de-segurança?
Eu sorri, querendo identificar em mim o que me faz parecer um guarda, mas concordei com ele:
- Sim, sou segurança. E o senhor? Parece que tem viajado muito: está com camisa italiana e boné inglês!

- Não, minha filha que mandou da Europa, disse-me com um orgulho sem igual.

Foi aí que ele começou a me falar de sua filha. Antes, porém, mexeu na sacola que trazia. Ao revirá-la, observei que carregava ali vários pacotes de militos e algumas caixas de Trident. Encerrou a busca tirando uma fotografia e disse:

- Essa é minha filha!
Eu, sinceramente, não resisti e comentei: “É uma linda morena, seo Flávio!”

E era uma moça muito bonita, mesmo! Usava um quepe branco e segurava-o pelas pontas com a mão direita. Fez a foto com o olho esquerdo suavemente fechado e a boca num gesto de quem acabara de provar algo gostoso. Seus lábios negros estavam maquiados e contornados com um batom escuro e brilhoso. Vestia uma blusinha que deixava a barriga à mostra e os peitos transbordando. O short lhe exprimia a cintura. E uma bota de salto alto, com os canos até do joelho, deixava suas coxas ainda mais contornadas.

Foi só por isso que senti o louco desejo de tê-la de presente.

*Filósofo, estudante de jornalismo e mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
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Charge do Myrria

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