Archive for maio, 2009

A origem das coisas

Neuton Corrêa*

Dei um jeito de ficar mais perto da conversa. Queria ouvir a resposta da pergunta que seria respondida pelo próprio inquiridor: “Vocês sabem do que se faz um político?” Bisbilhoteiro, orelhudo e ávido por conversas, pensei: “Essa eu não perco nem que tenha que passar da minha parada”.

Estava disposto mesmo a saber de que matéria-prima se faz o político. Afinal, não era uma pergunta qualquer. Era a pura filosofia. Civilizações e civilizações passaram milênios investigando a origem das coisas e não descobriram nada. E eu, ali, no aperto do 414, prestes a descobrir a origem das coisas.

Na verdade, não que as civilizações não tenham descoberto nada. Elas matutaram, mas cada uma encontrou uma explicação diferente. Os gregos, por exemplo, achavam que a origem de todas as coisas era a água; depois imaginaram que fosse o ar; pensaram no fogo… E não pararam por aí.

Houve até quem dissesse que as coisas eram só matemática. Já pensou? Mas explicava-se. “Tudo é número”. De fato, sim. Tenho um amigo que corre todos os dias para cima para baixo para perder alguns números de sua massa corpórea.

Aqui, perto de nós, no começo desse rio que passa à frente de Manaus, na cabeceira do Negro, os Dessana empreenderam tamanho esforço para explicar de onde vieram e de que as coisas surgiram. Tinham uma certeza: “Antes o mundo não existia” e o que existe hoje, pensaram, surgiu quando apareceu a “Avó do mundo”.

Naquela hora que me aproximei da falação do ônibus, lembrei até do catecismo. Lá também, debaixo da mangueira do barbudo “Acaba-rancho” da Catedral, já ouvia as primeiras explicações para a origem das coisas. Lembram dessa frase: “No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne”? Era explicação semelhante que esperava naquela viagem.

Mas, amigos do busão, tive a infelicidade de ouvir a explicação. Veio do menor da turma. Um sujeito que entrou à altura da Torquato Tapajós, perto da Philips. Vestia calça jeans, um paletó preto, uma camisa azul e uma gravata que ainda não estava lhe engasgando.

Depois que conseguiu chamar atenção dos companheiros de viagem, começou a dar a resposta:
“Parente, um político passava na praça, vê um artesão fazendo uma escultura. Ele para e diz:
- Quero ver se você faz um político.

Prontamente, ele caminhou para trás de um muro e voltou com um barro que ninguém suportava o mau cheiro. Misturou com um resto de areia, amassou e mostrou para o cidadão:
- Está aqui.

O político não gostou da forma, mas fez outra provocação. Quero ver agora você fazer um vereador.

O artesão voltou para o muro, pegou uma quantidade maior de barro insuportável, amassou a terra com os pés e, com as mãos, deu forma ao vereador. Criou um boneco, colocou olho, boca e vestiu a escultura com um paletó. Aí, o artesão mostrou para ele:
- Está aqui.

Parente, o político ficou todo animado. Nem se importava com o cheiro da massa. E fez nova encomenda.

- Quero ver agora você fazer um deputado.

Aí, parentizinho, o artesão correu para trás do muro, olhou, coçou a cabeça e disse, lamentando:
- Olha, o barro que eu tenho aqui é pouco, não dá para fazer um deputado”.

Depois disso, perto da Assembleia Legislativa, o homem desembarcou.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura/Ufam.
Ilustração: Myrrya

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Wilson Nogueira e a Amazônia

Tenório Telles*

O cientista Djalma Batista entendia a Amazônia como uma esfinge a ser decifrada – tarefa que só seria vencida com a elaboração de um saber adequado às especificidades regionais. Defendia, nos anos 70 do século passado, a necessidade de se promover ações educativas capazes de proporcionar o preparo técnico e científico que permitiria o aproveitamento sustentável de sua biodiversidade.

Nesse empreendimento de decifração do universo amazônico, os estudos sobre os processos culturais na região têm ajudado a desvelar a complexidade das manifestações artísticas e o simbolismo da festas populares como fatores fundamentais da constituição da identidade regional. Prova disso são as reflexões de pesquisadores como João de Jesus Paes Loureiro, Benedito Nunes, Márcio Souza, Renan Freitas Pinto, Marilene Corrêa, Edinea Mascarenhas Dias, Neide Gondim.

O livro “Festas amazônicas”, de Wilson Nogueira, é tributário dessa nova realidade reflexiva sobre a Amazônia, em que o debate sobre a identidade, a cultura e as questões socioeconômicas tem ocupado o foco de estudiosos de diversas áreas do conhecimento. A visão expressa pelo autor desta obra não se encerra na análise unilateral do tema enfocado, mas amplia-se para uma perspectiva que engloba o regional e os desdobramentos do globalismo: “A Amazônia hoje, como natureza, sociedade e cultura, é, também, o resultado do processo histórico de expansão do modo de produção capitalista e das suas formas de intervenção: mercantilismo, colonialismo, imperialismo, internacionalismo e globalismo”.

Wilson Nogueira suscita elementos novos em suas reflexões sobre o processo cultural amazônico, problematizando as festas regionais em suas vinculações com as demandas econômicas, ao mesmo tempo em que “verifica as relações das festas populares com o mercado capitalista na Amazônia”, fundamentando seus argumentos “na confluência da história, da economia, da sociologia, da antropologia e da comunicação social”, associando-os à sua sensibilidade e olhar de “pesquisador participante”.

A pretexto de estudar as manifestações populares mais expressivas da Amazônia, o escritor, na verdade, empreende uma acurada reflexão sobre a complexidade e as contradições decorrentes do choque das demandas impostas pelo capitalismo e o universo simbólico das populações amazônicas, fato que não passou despercebido ao olhar da professora Marilene Corrêa que, ao comentar o trabalho, enfatiza o fato de o autor ter escolhido “olhar a Amazônia por meio de suas festas populares”.

O livro de Wilson Nogueira é revelador sobre os processos socioculturais em curso no espaço regional, que ajudam a revelar a esfinge, decifrando-lhe os segredos, enigmas e perspectivas de futuro. Pela seriedade e rigor de seu trabalho reflexivo, com foco na realidade regional, Nogueira constrói sólida reputação intelectual e se destaca como pesquisador comprometido com os problemas e o futuro da Amazônia.

*Escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.

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Por uma nova conquista

Wilson Nogueira*

Quem não se imagina em um mundo estável? O conforto é bem melhor. Não há dúvida sobre isso. O problema é que o mundo se tece nas contradições e, por isso, os lugares e momentos de conforto tornam-se raros, principalmente para os que vivem muito aquém das ilhas de riqueza ao redor do Planeta. Os ciclos das crises no capitalismo desnudam essa realidade que se esconde nas épocas de pseudo-estabilidade. Pronto! O mundo está em crise novamente, e o que fazer agora?

Nunca os governos mundiais agiram tão sincronizados e imediatamente para reanimar a circulação de dinheiro no mercado e retomar a produção. Os resultados dessa ação tendem a evitar que o mundo vá até ao fundo do poço, como nas crises anteriores. Lembremo-nos, por favor, dos dois filhotes da crise de 1929: o nazismo e o fascismo, cuja ambição de controle global desaguou na segunda guerra mundial. É possível observar por esse ângulo que as crises no capitalismo não dizem respeito apenas à paralisia do dinheiro.

A provável solução para a crise atual, portanto, não se encerra com a desobstrução do mercado financeiro. Há, nesse momento, uma questão maior a considerar: o que fazer para evitar o colapso do Planeta em razão da exaustão que lhe impõe o modo de produção vigente? O mundo tem hoje 6,6 bilhões de pessoas. Todas – ou praticamente todas – estimuladas para o consumo sem controle. Afinal, é dessa lógica que sobrevive o capitalismo.

Impõe-se necessária e urgente uma nova realidade para o mundo fora do capitalismo que se conhece hoje. A crise, além de expor facetas do capitalismo, precisa agitar a inteligência na busca de novos padrões de sobrevivência, de convivência e de conhecimento. Há pouca margem para se pensar em ajustes duradouros para um sistema que, historicamente, degrada a vida e reduz os recursos naturais em escala planetária. Cálculos matemáticos simples demonstram que o mundo estará insuportável daqui a 20 anos em razão dos impactos do aquecimento global. Os cenários vislumbrados, a partir daí, são cada vez mais apocalípticos: conflitos generalizados pela disputa de água e alimentos.

A amortização desses impactos depende da redução do consumo de energia gerada por combustíveis fósseis, das novas descobertas e do uso ampliado das atuais fontes renováveis de energia, e, sobretudo, da renúncia ao consumismo. Para se livrar da catástrofe, a sociedade mundial terá que se assentar em um novo padrão de vida e convivência ainda não experimentado plenamente. Não é difícil imaginarmos uma sociedade na qual a compra de objetos e produtos materiais e culturais se destinem, unicamente, à qualidade da vida material e espiritual. Difícil será construí-la.

Essa tarefa não pode mais ser protelada. Nunca o planejamento das micro e macro estruturas esteve dependente de um futuro tão visível. Por isso, planejar e administrar sem levar em consideração a situação em que viverá a humanidade nos próximo 50 anos é um crime. Nesse sentido, há governos, empresas e muita gente cometendo crimes por aí, apressando o desconforto das novas gerações. Assim, fica difícil sonharmos com um mudo melhor, mais confortável.

* Sociólogo, jornalista e escritor.

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Tarefa de eleitor

Ivânia Vieira*

A sessão especial no Senado pela passagem do primeiro ano de morte do senador Jefferson Péres (completado no dia 19 deste mês) tinha muitas cadeiras vazias. Esse tipo de acontecimento, lá e cá, cada vez mais perde relevância e é consificado. Do evento de Brasília vale anotar pelo menos uma das tantas frases ditas sob a inspiração da atuação política de Péres, a do senador por Roraima, Mozarildo Cavalcanti. Em seu discurso, o parlamentar devolveu ao eleitor a tarefa de impedir que maus políticos sejam eleitos e de mandar de voltar para casa os eleitos cujos mandatos desonraram.

Cassar um parlamentar por falta de decoro é uma briga grande e difícil. O grito dos eleitores não costuma ser ouvido e, com alguma freqüência, prevalecem composições de outros interesses muito distantes do bem coletivo. Ainda assim e, talvez por ironia da história, Mozarildo presta um favor enorme à sociedade brasileira ao lembrar do quanto ela pode fazer se estiver organizada e melhor informada. Muitos bandidos com cara de ‘mocinhos’ e/ou candidatos ao título começam a aparecer e a reaparecer na orquestração em torno das eleições de 2010.

Vale começar hoje a espiar essas figuras, a fazer um reality show da/na política. Nenhum de nós vai ganhar R$ 1 milhão ou ter participação especial nos programas de entretenimento da TV, mas seguramente impediremos que muitos milhões de reais sejam desviados, usados por grupos privados usurpadores dos bens públicos cuja mão se estende por toda a estrutura do poder, com as suas grandes famílias entranhadas e vorazes.

Várias parafernálias tentam amansar a indignação, desmantelar a base de formação de uma consciência crítica. É gigantesca a estrutura erguida em nome da cultura da frivolidade e do assujeitamento coletivo, ainda assim os Luiz Odilo caminham firmes e ensinam sobre liberdade. O sistema de auto-proteção aos maus políticos e aos maus administradores não se sustenta diante de cidadãos e cidadãs indignados. Por isso tanto investimento feito para maquilar realidades e premiar com mandatos grandes corruptores.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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O controle do imaginário segundo Luís da Costa Lima

Wilson Nogueira

O imaginário sempre esteve sob controle. Essa afirmativa conduziu o Professor Doutor Luís da Costa Lima, do Departamento de Literatura da PUC-RJ, a uma complexa e demorada pesquisa sobre a relação do ato criativo humano, principalmente nas artes e na literatura, com o poder, segmentos de poder e com o mercado. Dos estudos e reflexões sobre o tema resultou a elaboração da teoria do controle do imaginário, assunto que, segundo o próprio pesquisador, exige cada vez mais energia intelectual aprimorada. Luís Costa Lima participou, em Manaus (AM), nos dias 12, 13 e 14 de maio, do “Colóquio nacional poética do imaginário: literatura, história e memória”, promovido pela Cátedra Amazonense de Estudos Literários e pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em entrevista ao TEXTOBR, ele também falou sobre outros assuntos, como crítica literária e profissionalização do escritor no Brasil. Confira:

Professor, qual o eixo orientador da teoria do imaginário?
A idéia é simples, mas, ao mesmo tempo, exigiria uma equipe de pesquisadores para explicá-la, porque eu, sozinho, nunca darei conta da extensão do problema. O que se entende por controle do imaginário? Muito sumariamente, sabemos que não existe sociedade sem que haja um conjunto de regras, e próprio de uma regra é proibir alguma coisa ou admitir outras. Nesse sentido, toda sociedade já tem consigo naturalmente um controle. Não é sobre esse controle natural, derivado do ordenamento de regras, que me refiro quando falo em controle do imaginário.

Controle do imaginário supõe, sim, que tal sociedade não é um corpo homogêneo, como um núcleo, mas que apresenta certos setores ou classes com valores diferenciados. Então, o setor com classe dominante tem conjuntos de valores que procura defendê-los antes mesmo de eles serem atacados. Por controle, entende-se, portanto, essa espécie de Espada de Dâmocles que pesa sobre a cabeça do produtor, do artista. Por que do artista? Porque a obra de arte é, por excelência, obra do imaginário. E é a espada de Damocles que, a qualquer instante, pode desabar.
Isso supõe potencialmente que tal obra contém práticas ou contestação de valores que são os valores da classe dominante, classe ou setor dominante. Fundamentalmente é isso que é controlo do imaginário.

O mercado então seria um mecanismo de controle?
Eu tenho estudado o controle basicamente do Século 16 para cá. Nos séculos anteriores aos momentos da globalização, a partir da década 1980, o controle tinha um caráter dominantemente ético-religioso ou um caráter científico. Desde que ciência se tornou discurso principal, ela se tornou, também, um instrumento de controle da obra de arte. Com a globalização, em vez de o controle se basear em valores éticos ou científicos, observa-se o que eu chamaria de uma neutralização estética – o controle a partir de uma neutralização estética. Isso quer dizer: uma determinada obra ou ação pode ser contrária a valores dominantes, entretanto, os manipuladores do mercado verificam que, mesmo agressiva, porque é contrária, isso vende. Então essa obra não é só vendida, mas estimulada exatamente porque ela é contrária aos valores dominantes. Como isso é possível? Ora, através de uma neutralização do estético. Não se considera a obra pelo seu valor estético, mas pelo seu valor de mercado.

Qual seria o melhor exemplo para essa situação?
Parece-me que o exemplo é menos freqüente em literatura do que na pintura. Situação típica seria a do gerente de um banco que tem atrás de si uma obra de pintura abstrata. Ele não entende absolutamente aquilo, está se lixando para aquilo, entretanto, sabe que aquilo tem um grande valor de mercado.

“O que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade”

Na opinião do senhor, qual é o gênero literário dominante no Brasil hoje?
Eu verificaria duas tendências. Uma que eu acredito dominante – ela mantém uma tendência nossa que é o documentário, o realismo. A idéia da obra como espelho – com ou sem aspas – da realidade. Essa tendência atravessa o Século 19 e vem para o Século 20, o que vem dá em regionalismo, realismo e toda essa série cujo termo correto seria imbecilidade. Isso impõe um controle do ficcional. Esse controle do ficcional, parece-me, continua dominante entre nós. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo surgir um movimento contrário. Vejo com muita esperança uma tendência contrária. A tendência que começar a romper com a obrigatoriedade de a obra ter consigo índices de brasilidade evidentes – esse exemplo estaria na obra de Bernardo Carvalho –, e a tendência da substituição da idéia de regional e regionalista pela idéia de reflexão. Ou seja: reflexão da memória, da herança, sobretudo, de migrantes – isso corresponderia, fundamentalmente, à obra de Milton Hauton. Essas seriam as duas tendências.

Observei, no colóquio, que o senhor se insurgiu contra o reconhecimento da carta como obra literária. É isso mesmo?
A consideração a ser feita é que não se leva em contra, normalmente, a grande mudança que a idéia de literatura tem a partir de 1960 a 1970, o auge da reflexão teórica contemporânea, que modifica completamente a idéia de literatura que se desenvolve a partir das histórias literárias do Século 19. Essa idéia suponha a literatura como um conceito de metahistória, vindo lá de Homero, atravessando os gregos, passando pelos romanos, quando se sabe que, historicamente, a idéia de literatura como um discurso autônomo, diversificado, próprio, vem apenas do final do Século 18. Vem do chamado primeiro romantismo alemão. Isso degenera rapidamente a literatura como expressão de um eu, da individualidade, eu quem falo, enquanto o cientista observa – essas besteiras.

Leva-se em conta, portanto, que toda essa revisão do conceito de literatura põe em cena uma coisa que a gente não deveria esquecer, que é a literatura como nós a entendemos, ou seja, que é a literatura com discurso ficcional, próprio, distinto do texto historiográfico ou do discurso das ciências sociais. Essa acepção, repito, é recente, do final do Século 18. É nesse sentido que vem a minha oposição à carta como elemento literário.

Quando Cícero se retira para a sua propriedade, para escrever as suas cartas, ele não está pensado carta como nos entendemos. Quer dizer, como nos entendemos: eu lhe escrevo uma carta (… se para tanto eu me retiro não sei para onde para que essa carta seja mais elegante etc). Você ao recebê-la, pode ser que ela seja muito bonita, pode ser que ela seja à la Rui Barbosa, mas carta não é.

Carta, para nós, supõe um documento auxiliar da história. A carta antiga não é isso, não é um acessório da história, e tão pouco a obra antiga é uma obra ficcional. Em princípio, tomar a carta como um gênero literário, supõe entender, como o expositor fazia, literatura como expressão refinada ou exploração de situações universais… Confesso, sinceramente que isso é o antiquarismo a toda a prova.

Como o senhor observa o Brasil como lugar de cenas e cenários para a literatura. Aliás, nesse aspecto, o Brasil é um lugar explorado?
Acho que pensar a literatura brasileira é chamar a atenção para um fenômeno que me parece mais inexplicável até hoje. O fenômeno Machado de Assis. Machado é cercado por todos os lados por realismos, controles, explorações da natureza, nacionalidade, todos os princípios estranhos à idéia de literatura, mas Machado consegue driblar tudo isso com uma simplicidade genial. Não consigo entender como é que aquele mulato consegue essa genialidade toda. Obviamente, que não pelo fato de ele ser mulato, mas pelo fato de ser brasileiro cercado por aquele ambiente.

Nesse sentido, na medida em que Machado é uma grande exceção, e na medida em que as tendências antimachadianas… Tomo o ensaio de Machado sobre instinto e nacionalidade, quando ele vai dizer: olha, a nacionalidade é um instinto, no sentido de que o fato de eu nascer aqui ou ali me faz criar, automaticamente, uma série de valores, atitudes e reações que são como que instintivas. Então, explorar [isso na literatura] como tal é uma imbecilidade. O fato de ser machado uma exceção entre nós significa dizer que somos hoje uma exploração muito pobre, muito controladora da dita realidade nacional. Falar em realidade nacional em termos de literatura já é controlar a expressão literária.

Quais são as possibilidades de profissionalização do autor no Brasil?Praticamente nulas. Há dentro do mundo capitalista – e no mundo inteiro hoje só existe o sistema capitalista – uma larga voracidade de lucro. Isso é redundância. Falar em capitalismo é falar, obviamente, em voracidade. Mas o mercado editorial apresenta, como algumas poucas exceções, uma voracidade muito específica.

Como é que se traduz essa voracidade editorial entre nós? No favorecimento indiscriminado daquilo tudo que é livro de autoajuda ou é livro de diluição, ou é livro com possibilidade de ser best seller. O grande inimigo de uma fecundação literária brasileira está nos editores, em primeiro lugar; em segundo lugar, no fato da conivência entre a academia e esses preceitos reais. Você tem na última década uma possibilidade de simpósios e encontros de literatura como nunca houve nesse País, mas em que simpósio, em que encontro essas questões são levantadas? Não são levantadas. É isso é que eu chamo da perduração do que o Sérgio [Sérgio Buarque de Holanda] designava como cordialidade. A dita cordialidade. Ou seja: confundir crítica intelectual com crítica pessoal. A dita cordialidade é responsável pelo fato de que essas grandes questões sejam sabidas mas não sejam discutidas.

“A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade”.

Qual a sua opinião sobre a crítica literária brasileira como orientadora do leitor? Como orientadora eu não diria. Diria como mediadora no sentido de facilitar o leitor a reconhecer bem ou mal diferentes direções e novidades. Nesse sentido, a crítica como mediadora praticamente desapareceu com o desaparecimento dos suplementos, e o fato de que o que se chama de jornalismo cultural inexistir entre nós. Isso é um grande vazio. A ausência da crítica mediadora representa um grande vazio.

No interior da academia, no interior da universidade, vejo alguma coisa que não é muito simpática nesse sentido, mas que precisa ser dita – eu não faço questão nenhuma de ser simpático. A academia brasileira é extremamente irregular. Você encontra em meia dúzia de universidades algumas figuras de qualidade efetiva cercados por grandes continentes de mediocridade. Claro, isso não é exclusividade brasileira, a qualidade não é bem uma propriedade humana. Mas entre nós essa divergência se acentua. Você tem uma margem de mediocridade muito grande, uma maioria de medíocres em relação a umas poucas figuras excepcionais. Parece-me que isso, também, não é exclusividade do campo da literatura, mas estamos falando de literatura…

Qual é a lição que o senhor toma desse encontro de Manaus?
O meu maior medo a respeito de Manaus era o calor. Esse medo não se cumpriu. Acredito mesmo que foi uma excepcionalidade, uma sorte. Mas a coisa que mais me impressionou no Amazonas foi… Uma coisa é saber que somos um país continental. Outra coisa é verificar essa continentalidade. Foi a vinda a Manaus que me fez perceber essa coisa extraordinária que eu não sei como explicar. Como é que nós conseguimos essa unidade nacional, onde se tem diferenças de sotaques, mas são apenas de sotaques. Você fala português de ponta a ponta do Brasil. Em Manaus, eu tive a sensação de que falo mais português do que no Rio Grande…

Qual a sua avaliação sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa? A ausência de um trema para mim é um sofrimento, como suponho que tenha sido um sofrimento no começo do século do século passado, como o desaparecimento do y e do w.

Obras de Luís Costa Lima
Dispersa Demanda (1981)
O Livro do Seminário (1983)
O Controle do Imaginário (1984)
Sociedade e o Discurso Ficcional (1986)
O Fingidor e o Censor: no Ancien Régime, no Iluminismo e Hoje (1988)
A Aguarrás do Tempo: Estudos sobre a Narrativa (1989)
Pensamentos nos Trópicos (1991)
Limites da Voz: Montaigne, Schlegel (1993)
Limites da Voz: Kafka (1993)
Vida e Mimesis (1995)
Terra Ignota (1997)
Mimesis: Desafio ao Pensamento (2000)
Euclides da Cunha: Contrastes e Confrontos do Brasil (2000).

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O responsável


Neuton Corrêa*

O primeiro ônibus aparece na rua. Sentando no concreto do banco, ele põe as mãos sobre as coxas, inclina o corpo para frente, dobra o pescoço, lê o destino da linha, volta para a posição anterior e informa ao irmão mais novo: “Não é o nosso”. O 351 serviria para mim, mas preferi continuar observando-os.

Passa o 350. Ele nem olha, mas volta a sussurrar ao pequeno. O menor passava o tempo a chupar a ponta do colarinho de sua camisa, rondando o ambiente com um olhar murcho. A mochila que usava sobrava-lhe na costa. Como um jabuti, encolhia o pescoço e a cabeça, tentando se esconder em si mesmo.

O terceiro ônibus passa. Grudadinho ao outro, o maior apenas olha para o irmão, ri e o engasga carinhosamente, deixando seu parceirinho ainda mais acanhado. Depois, continua a embalar as penas e a chutar o vento, fazendo um barulhinho com a boca, como se estivesse lançando bola em uma partida de futebol.

Achei até que ele estava mesmo em uma partida de futebol ali por perto. Talvez estivesse lembrando o que fizera alguns minutos antes. Seu rosto empoeirado estava empoado como jaraqui pronto para ser levado à banha. O suor que escorria de sua testa formava trilhas sinuosas que desciam até o queixo.

Os pés dele poderiam ser a confirmação que, de fato, havia saído da sala de aula direto para o campo de chão batido da escola. A calça também. A bainha enrolada havia sofrido bastante. O que antes era branco estava preto. Ele havia aproveitado bem o ponto mais alto do sol da manhã.

Mais um ônibus aparece. Já não sabia quantos haviam passado por aquele ponto. Sabia apenas que o tempo não me permitia mais aguardar para saber em que linha aquelas duas crianças embarcariam. Mas, a curiosidade me concedia mais um tempo para vê-los retornar da pré-escola para casa.

Estava ali a observá-los há mais de quarenta minutos. O entra e sai de pais e mães na escolinha para deixar os filhos na aula da tarde começava a enfraquecer e os dois ainda permaneciam ali, sentadinhos. Pelas minhas contas, todas as linhas já haviam descido. Isso já me fazia preocupado com eles.

Estava prestes a lhes oferecer ajuda, mas eu não era o único a observá-los. Do outro lado da rua, da frente da escola, atravessa uma moça baixinha, rolicinha e de cabelos tingidos de amarelo e pergunta aos dois:

- Por que vocês ainda não foram para casa?
E eles nada responderam.
A moça continua:
- Vocês moram onde?
O mais velho diz:
- No Parque das Garças.

A mulher faz um verdadeiro interrogatório até soltar a pergunta que mais me chamou a atenção:
- Cadê o responsável de vocês?

Assim que ela fechou a boca o ônibus 043 apareceu. Os dois pularam do banco e, animados, erguendo os dois braços fizeram a parada do carro e saíram em disparada para entrar na viagem. A mulher ficou falando desconcertada, mas não sem resposta, pois, gritando pela janela do coletivo, o maior respondeu:
- Eu sou o responsável dele!

A loura olhou para mim, abriu um leve sorriso e atravessou a rua, enquanto eu falava para mim mesmo: “Ai que saudade da infância!”.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Tragédias anunciadas


Wilson Nogueira*

Em 2005, a seca foi implacável com a Amazônia. Um cenário de queimadas incontroláveis, rios, lagos e lagoas entupidos de peixes mortos, e muitos quilômetros quadros de terras ressequidas. Agora é a vez da cheia. Os mananciais das áreas mais baixas transbordam e formam um imenso mundo de águas. Ambos os fenômenos condenam milhares de pessoas ao flagelo. O poder público e a sociedade precisam agir para enfrentar problemas desse porte com mais eficácia, afinal, tratam-se de situações comuns do provável aquecimento global.

Não há, ao menos por aqui, cidades que suportem demandas sociais urgentes. Deficitárias em infraestrutura, serviços e equipamentos públicos, a tendência é que elas acumulem mais problemas. Há situações em que as próprias cidades ficam debaixo d’água até em chuvas um pouco mais longas. A água em excesso mata as plantações, impede a criação de animais, espalha os peixes e dissemina doenças. Vilas e vilarejos ribeirinhos são os mais prejudicados. Os efeitos da estiagem não são menos desastrosos. Viver num desses cenários é muito mais perigoso. Para a imensa maioria, a única saída é migrar para “mudar de vida” nas cidades.

Os retirantes somam-se, então, aos demais que disputam a sobrevivência na indigência, no subemprego e no emprego assalariado. Muitos não retornam mais à vida rural. Os ciclos se repetem a cada ano, embora sejam mais intensos nos períodos das grandes enchentes e das grandes estiagens. Os relatórios das instituições multilaterais que monitoram o aquecimento global sugerem que as mudanças climáticas serão cada vez mais fora dos padrões aos quais estamos acostumados.

Os especialistas sustentam, também, que a floresta amazônica controla parte do clima mundial e também é influenciada por ele. É possível, portanto, que a seca de 2005 e a cheia deste ano na Amazônia sejam as consequências de um problema global do qual a região participa com as queimadas e derrubadas de árvores.

A floresta em pé sequestra gases emitidos pela queima de combustíveis fósseis que causam o efeito de estufa. Mas, em vez disso, as árvores somem nas queimadas para criação de gado e monoculturas, como a da soja, e na ação da indústria madeireira ilegal. Mais de 17% da floresta amazônica foram derrubados, e 74% do que o Brasil emite de dióxido de carbono decorrem das queimadas. Os efeitos da seca e da cheia, como se vê, são apenas a ponta de um problema que precisa de melhor e mais ampla compreensão para ser resolvido.

Não haveria melhor solução senão a da mudança no estilo de vida da população mundial. Isso implicaria em uma nova ética, na qual produtores e consumidores agiriam para reduzir a queima de combustíveis fósseis e para criar opções energéticas renováveis. Mas isso só será possível com o reconhecimento de que a terra tem recursos finitos. No momento, há mais divergência que convergência para um juízo favorável à salvação do Planeta.

Enquanto isso, o Poder Público e a sociedade necessitam de mecanismos permanentes de monitoramento dos impactos das mudanças climáticas em escalas local e global, para que as soluções se antecipem aos problemas anunciados. Não dá mais para justificar a negligência ao sofrimento alheio. E o mundo sabe disso: os pobres são os que mais sofrem e os que mais sofrerão com as catástrofes climáticas.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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A denúncia das águas

Ivânia Vieira*

As águas avassaladoras, dos rios e das chuvas, não apenas transformam radicalmente os cenários. Carregam na sua força a tragédia de milhares de famílias e a denúncia crua do preço pago pelas vítimas e pelo contribuinte pela omissão continuada dos gestores públicos, pelo pacto de morte firmado entre representantes da Justiça, do Legislativo, do Executivo e grupos sociais.

Em nome de uma Justiça de curto alcance, de um Executivo e um Legislativo atrofiados, as ações de prevenção são transformadas em outras práticas igualmente tortas e viciadas na política rasteira. Que lição a população e os integrantes do Judiciário, do Executivo e do Legislativo aprenderam com a enchente de 1953? É um acontecimento historicamente recente e com ensaios posteriores, como uma advertência clara a todos.

As condições de monitoramento avançaram, a produção de conhecimento nesse campo cresceu e vem sendo qualificada, uma série de órgãos e sistemas altamente sofisticados foi criada com a finalidade de reunir, antecipadamente, indicadores tecnicamente confiáveis para a tomada de decisão. O que está sendo feito efetivamente com o conhecimento produzido? De que forma o governo estadual o utiliza? Ou ele é ignorado, mantido na prateleira?

Da parte da imprensa, temos falado do número dos mortos, dos desabrigados, da produção perdida, com um depoimento aqui e outro acolá das vítimas. O que é importante mostrar. Mas falta inquietação para saber quais as respostas que a estrutura de ciência montada, por exemplo, no Estado do Amazonas, pode oferecer e como os governos do Estado e dos Municípios e as organizações sociais a utilizam.

Em Manaus, a TV e as fotografias estampadas nos jornais mostram a urgência de trabalhar em meio a esse drama a formação de sujeitos com novas atitudes. A água agora ocupando o primeiro assoalho das casas leva ao público todo o lixo lançado naturalmente, todos os dias, para o lado de fora, no igarapé, no esgoto, no rio… Colchões, restos de fogões, garrafas plásticas, absorventes, fraldas descartáveis, pedaços de isopor estão lá cobrando co-responsabilidade.

O pacto pode permanecer em vigência repetindo-se por anos seguidos ou ser rompido, se houver determinação política, e assim, ser inscrita uma outra página na nossa história.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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Confidente Ultrapassado

Massilon de Medeiros Cursino*

Ainda me lembro do dia que te levei para meu apartamento. Parece que foi ontem, todavia, já se passaram treze anos. Eu ainda era solteiro e não tinha filhos. Tu já estavas a conviver e a dormir comigo, a sussurrar em meus ouvidos e embalar meus sonhos…

Resolvi escrever estas linhas sobre ti após ouvir de um especialista que estás ultrapassado, que devo substituir-te por um mais novo e mais potente. No entanto, ainda não vou te descartar, não! Esforçarei-me para conseguir que tenhas uma sobrevida. Seria muita ingratidão minha baldar-te assim.

Tu, que sempre estivestes ao meu lado nos bons e maus momentos. Na melancolia de ficar órfão de pai, quantas vezes chorei próximo a ti, enquanto me refrescavas. Na vida de solteiro, fostes meu grande confidente, e continuas a ser. Foste tu que literalmente criastes o clima para gerar meus filhos. Estás ali a todo momento, mas que bom que és surdo, cego e mudo. Nem tanto mudo, porém, pra minha sorte, és surdo e cego.

Mudei de cidade, de domicílio, tu vieste junto. Realizei o sonho de ter minha casa própria, depois de longos anos de serviço público, e não esqueci de ti. Já na construção da nova moradia, teu lugarzinho já havia sido reservado, afinal minha esposa e meus filhos te adoram.

Treze anos se passaram, muita coisa mudou e hoje me vem o veredicto de que estás velho e ultrapassado. Pudera, são treze anos de trabalho diuturno e nunca me cobrastes hora-extra ou adicional noturno, nem vais colocar-me na Justiça do Trabalho por isso.

Depois de tanta declaração, reconhecimento e agradecimento por tudo, sem falar da tua frescura, espero que o leitor não venha desconfiar de coisas feias, pensar besteiras. Também espero que não pensem ser um caso de aliciamento de menor, por teres apenas treze anos, embora já te taxem de velho.

Estranho, mas resolvi te homenagear meu condicionador de ar, que neste momento continua a me acompanhar e refrescar minha mente, enquanto produzo mais um artigo.

Não quero ser ingrato depois de tantos momentos, inclusive íntimos. Enquanto não chega o Split, mais moderno, silencioso, potente, e provavelmente mais econômico, é contigo que continuo a contar.

Não me resta dúvida, caro leitor, que seu ar-condicionado também é seu grande confidente. Lembre-se disso quando ele já estiver bastante depreciado e obsoleto!

*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.

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Valentão


Neuton Corrêa*

Valentão perdeu uma perna. Nem gosto de lembrar do tempo em que tinha as duas. Só em pensar nisso me apavoro. Aquilo sim é que era papel de embrulhar prego, grosso, mais grosso que costa de cururu e casca de castanheira. Ninguém ousava contrariá-lo, apenas os desavisados, entre os quais acabei me incluindo.

Fui alvo dele na primeira vez que tive a infelicidade de embarcar no mesmo ônibus em que subiu, paradas depois. Implicou por causa de troco. Aos gritos, na catraca, dizia que queria pagar a passagem. Com a voz trêmula, a cobradora respondia que estava sem troco. Eu, tentando ajudar, disse que ele tinha direito a descer sem pagar. De olhos arregalados em minha direção, porém, ele respondeu: “E quem te perguntou?”.

Nesse dia, quis desaparecer. Só me lembrava da dona Maria, do tempo do CB (antigo supermercado de Manaus). Dona Maria se incomodava com tudo. Um dia, no CB, viu uma mulher escondendo bolachas debaixo da saia. Correu para dedurá-la. Ao sair da loja, minha velha amiga levou uma mãozada e foi advertida: “Isso aqui é para você nunca mais se meter nas coisas dos outros”.

Bem que eu poderia ter recordado desse conselho na hora que levei o carão daquele passageiro. Mas, como lembrar? A expressão dele parecia mais um cartaz com aquela caveira e os dois ossos cruzados, avisando: “Perigo de morte!”. A partir daí, intimamente, é evidente, passei a chamá-lo de Valentão.

A outra vez que aprontou foi a bordo do 422. Quando entrou na viagem, o ônibus já estava lotado. Ou melhor: superlotado! Foi o último a subir na parada do São Judas Tadeu. Restou-lhe ficar pendurado pelo corrimão da porta. De repente, começa o tumultuo. Era ele tentando passar para frente, mas não conseguia se mover.

Licença era uma palavra desconhecida para ele. Naquele dia, Valentão gritava: “passa, passa, passa”. Mas ninguém saía. Para piorar a situação, alguém gritou perto de mim: “Pega um táxi!”. Pra quê! Cutucaram o touro. Pois o brabo respondeu: “Quem é que é corno?”.

A confusão se instaurou. Valentão sai à caça de seu acusador. O bigode dele já estava molhado da baba que sua fúria produzia. Encarou os passageiros, um a um. Perto de mim, pisou no pé de uma garota que se contorceu de dor com a unha amputada. Com medo do Valentão, a moçota se conteve a fazer barulho com a boca, como quem chupa cana.

Naquele momento, o ônibus todo se revoltou contra ele. Para todo lado se ouvia: “Fala, corno”. Foi a viagem toda ouvindo provocação e respondendo com ameaças, até descer no Parque Dez, carregando uma caixa de ferramentas.

Passado quase oito anos daquele ataque de fúria, voltei a encontrá-lo. Foi numa viagem do 213. O bigode está mais crescido. Por onde passava as pessoas apertavam o nariz. Assim que subiu na viagem, deu bom dia a todo mundo. A um metro de mim, abriu dócil sorriso e entregou um papel que dizia assim:

“Queridos amigos, gostaria de contar com a ajuda de vocês. Moro alugado com a família e vivo vendendo jujuba para pagar o aluguel. A caixa custa seis reais e é dela que sobrevivo. Imploro a piedade de vocês porque há três anos perdi a perna em um acidente de trabalho e não posso mais fazer o que eu fazia antes”.
Quando, de volta, passou por mim, pedi o papel e depois fiquei imaginando que, de fato, Valentão não poderá mais fazer o que fazia antes.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustraçao: Myrria

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