Archive for junho, 2009

A triste noite de São João


Neuton Corrêa*

O terreiro de Mãe Emília estava trançado de bandeirinhas. O cheiro da pipoca atravessava a rua para convidar quem ainda estava em casa. Quatro barraquinhas serviam tacacá, mingau, banana e milho cozido. Ao centro, a fogueira ardia. Ao lado da labareda, homens vestidos de branco e mulheres saiúdas batiam palminhas para brincar com o boizinho.

O Zé Carlos carregava sua última cria, enquanto seus outros três filhos se penduravam na bainha de sua bermuda. A Célia se arrastava com bengala, mas sempre rindo e dançando. Dona Pata estava amuada. Foi proibida de tomar quentão. Os filhos do Paulo estavam por ali atirando peido de velha para assustar as meninas sassariqueiras.

A noite de São João estava completa, porém comportada demais para o grande número de crianças que brincava ali. Ao chegar à festa, circulei o quintal com meu olhar. Vi a Mariana abraçar o tio. Tupi, Kaique, Diegão e o Segundinho, meu filho, estavam sentados, dando mostra de que a infância por eles já passou. Tudo normal.

Notei, então, que a calma tinha uma razão: meu pequeno vizinho não estava ali.

Mas não demorou muito para eu ser avisado pelo Nenca: “Tu sabes o que aconteceu com o Victor?” Balancei a cabeça, respondendo que não, mas meu pensamento se apressou em sentenciar: “Não pode ter sido coisa boa”.

Victor é o Marcus Victor. Tem cinco anos. Escrevi uma crônica sobre ele, com o título “Meu pequeno vizinho”. Faz pouco mais de dois meses. Lembram? Victor foi abandonado pela mãe assim que o pai foi preso. Naquela época tinha três anos idade. Desde então passou a viver com a tia. Esta, viciada, para alimentar a dependência, transformou sua casa em um “fumódromo”, onde se reúne todo tipo de gente.

Por causa desse ambiente, Victor aprendeu a se virar só. Depois que contei aquelas histórias de que ele conhece droga, que sai na vizinhança pedindo comida, que escapou várias vezes de ser atropelado, fiquei sabendo outra. Seu quarto foi invadido por viciados em plena madrugada. Para continuar o sono, pegou a prima (mais nova do que ele) e se agasalhou debaixo do ônibus do “Pam-Pam”.

“Num dia eu acordei, coloquei o motor do ônibus para aquecer e quando engatei a ré, vi, pelo retrovisor, o Victor saindo debaixo do carro”, relatou-me Pam-Pam depois que leu a crônica sobre o menino. Foram essas histórias que me fizeram, a partir daí, olhar com mais atenção o Victor.

Nessa noite de São João, o Nenca não foi o único a falar do Victor. Dona Meire me chamou reservado e me cochichou. “Vizinho, sabe o que aconteceu com o Victor?” Ela contou a história com pouco detalhe, mas suficiente para me deixar chocado, revoltado e penalizado com a situação.

Neste momento, para mim, a festa de São João já não fazia sentido. Ainda queria tomar mais uma cuia de tacacá, quando a vizinha que socorreu o Marcus Victor apareceu e eu me apressei a saber mais sobre a história.

Ela começou com o rodeio e mea-culpa:
- Tu sabes que a gente já tinha avisado o Conselho Tutelar?
- Sim, concordei.
- Eles não vieram.

Ela baixou a cabeça, fez um silêncio e continuou:

- Pois é, disse ela, com lágrimas escorrendo no rosto: O Victor está no pronto-socorro. Foi violentado pelo Paracundera.

A vizinha não conseguiu terminar o relato e eu não esperei a fogueira apagar e deixei o folguedo.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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"O papel do diploma vai ser modificado"

O jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Bernardo Kucinski, 71, considera uma anomalia a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista e disse que a decisão do STF foi acertada. Em uma breve passagem por Manaus, onde participou, como membro, da banda de defesa de dissertação de mestrado da jornalista Michele Portela, o professor autor de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” conversou com os jornalistas Valmir Lima e Wilson Nogueira, sobre diploma, ética e crise do jornalismo. A conversa ocorreu em um dos auditórios do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Universidade Federal do Amazonas, na manhã de segunda-feira, 22. A seguir, a entrevista.

É inevitável que a gente comece essa entrevista falando da questão do diploma de jornalista. Como o senhor avalia a decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no dia 17?

Eu não vou avaliar a decisão do Supremo, os termos em que foi redigido, os argumentos, nada. Eu vou entrar no assunto direto do diploma. Eu achei que foi correto abolir a obrigatoriedade porque era uma anomalia. Nós éramos um dos poucos países onde se exigia isso, e também era uma anomalia porque era uma exigência extremamente radical. Você faz um curso de Sociologia, de História, de Economia ou de Antropologia e você não pode ser jornalista. E são cursos que, na verdade, preparam as pessoas para entender a sociedade humana muito melhor do que qualquer curso de jornalismo. Portanto, era uma anomalia e um equívoco.

Além do mais, no decorrer do tempo, foi se mostrando um instrumento que se voltou contra nós, porque a idéia de que um diploma de jornalismo oferece uma reserva de mercado levou à criação de uma indústria de diplomas. Então você tem hoje no Brasil 400 escolas de comunicação com habilitação em jornalismo. Você tem cidades, aqui mesmo em Manaus, tem cinco cursos de jornalismo. Você multiplica por 20. São colocados no mercado por ano 100 novos jornalistas. Não tem como absorver esse pessoal. Aquilo que era para proteger as relações de trabalho virou-se contra, porque vendemos uma ilusão.

Há outros motivos também, mas os dois principais motivos da minha posição é que eu acho que o jornalismo pode ser praticado por pessoas que tenham talento para o jornalismo, independente da sua educação formal, e a lei vedava o acesso a essas pessoas – eu sou um exemplo vivo disse tipo de pessoa, eu, o Ricardo Kotscho, o Fernando Moraes e muitos outros jornalistas de renome no Brasil não seriam jornalistas se a lei estivesse em vigor quando nós começamos. E o segundo motivo é de ordem da importância que o jornalismo tem para a democracia. Poder se expressar sobre a forma jornalística é um direito que deve ser de todos, desde que tenham talento para isso. Então, com essa decisão, começa-se agora, do zero, uma nova discussão.

O senhor acha que ainda faz sentido manter cursos de jornalismo?

Faz, faz. Não vejo nenhum problema. O que eu acho que vai acontecer é que o papel do diploma vai ser modificado. As empresas, provavelmente – como vivemos num mundo de muita competição e um excedente de mão-de-obra – vão usar o diploma como um dos critérios de contratação ou de seleção. Por exemplo: a rede McDonald só contrata essas meninas e esses rapazes que tenham concluído o ensino médio. Não é que precise do curso médio para vender sanduíche, mas isso facilita a contratação, porque sabe que o sujeito frequentou uma escola, sabe ler e escrever, sabe fazer conta. Eu acho que o diploma vai ser um critério de contratação, mas sem excluir pessoas que não o tenham. Não vai acontecer nada de dramático. Algumas escolas que se criaram só para vender a ilusão do diploma vão fechar, mas as escolas são importantes.

Do ponto de vista da disciplina, isso pode abrir um campo maior de reflexão nos cursos de jornalismo?

Aí, nós temos um problema mais complexo. Eu penso assim: sempre foi muito complicado se saber o que ensinar para se formar um jornalista. Por isso, quando o curso era de habilitação, se tornava uma tarefa quase impossível. O que você vai ensinar para habilitar o cara a ser jornalista? No fim, ele saía de lá com uma colagem de disciplinas e uma não tinha nada a ver com a outra. Algumas, inclusive, eram disciplinas de crítica ao jornalismo, que são importantes, mas que acabavam até negando o jornalismo.

Todas essas disciplinas da Escola de Frankfourt, que fica dizendo que é tudo embromação, manipulação, um simulacro… O cara entra lá para ser jornalista e não se oferecia a ele um caminho para superar isso. No outro extremo, você tem esses cursos que são meramente técnicos, como mexer nos programas, como editar… Então, é uma confusão muito grande, e nunca se soube direito o que ensinar.

Agora, eu acho que não sendo uma habilitação com reserva de mercado, os cursos ficam mais livres para escolherem diferentes vocações de ensino. Por exemplo, a ECA/USP tinha uma vocação, devido à qualidade dos alunos que entravam e ao ambiente da universidade, de formar quadros dirigentes da imprensa. Muitos alunos meus saíam e depois de dois anos já estavam sendo chefes. Tem escolas que formam alunos mais para a televisão. Então, a solução para o ensino do jornalismo é que floresçam mil flores, conforme a região, conforme a necessidade do mercado local…

Agora, aí tem uma discussão que eu acho que seja qual for a receita daquele curso, ele nunca pode esquecer que é a única vez na vida que o jovem vai passar pela universidade naquela idade. Então, o curso tem que ser importante na vida daquele jovem. A proposta não pode ser rebaixada, mas ela pode assumir várias formas. Vai ficar mais fácil você compor esses currículos. Você pode compor um belo currículo de sociologia e meter lá três ou quatro disciplinas sobre ética jornalísticas e o que é matéria jornalística e pronto, o cara está formado, o resto vem depois.

Essa questão da ética jornalística o senhor trabalha com muita propriedade no seu livro ‘A síndrome da antena parabólica’. A minha preocupação em relação a esse tema é que não se aprende a ser ético na universidade. O indivíduo aprende a ser ético ou não ao longo da vida. O senhor concorda com esse pensamento?

Eu acho que são planos diferentes, porque a expressão designa várias coisas. O caráter da pessoa se forma, dizem os especialistas, até os 3 ou 4 anos de idade, os traços essenciais do caráter. Os valores ele vai adquirindo um pouco depois. Agora a ética, ou o ensino da ética é importante, porque você precisa sobrepor sobre os valores individuais, familiares, as diferenças de caráter, você precisa impor um conjunto de regras de conduta, que seja compartilhado por todos, independentemente do seu caráter. E elas são importantes justamente porque as pessoas têm o caráter diferente. Por exemplo: se todo mundo tivesse uma formação de caráter alérgica à mentira, você não precisaria ter no código de ética do jornalista que ele tem que procurar a verdade. Justamente você precisa impor a conduta porque ela não é natural em algumas pessoas.

A ética que deve se ensinar nas escolas de jornalismo é uma ética, como campo da Filosofia, das diferentes escolas filosóficas, e depois, você tem que ensinar a ética aplicada àquela atividade, que é o jornalismo: os conflitos, os valores principais dessa ética, os preceitos, o proibido e o estimulado, os conflitos entre o caráter público que deve ter a informação e o problema da preservação da vida privada dos protagonistas, o conflito de você sair na frente com um furo ou deixar para o dia seguinte para checar um pouco melhor… São todos conflitos de ordem ética.

Se você não estuda isso na escola, você perde uma das maneiras de o jovem entender a demarcação do jornalismo. Ele tem uma demarcação que é principalmente ética, que é o que vai distingui-lo do assessor de imprensa. Nesse livro que você citou tem uma frase: “O jornalismo se define como uma ética, não como uma técnica”.

Considerando que não é possível e seria um erro generalizar o jornalismo brasileiro, como o senhor avalia o jornalismo que se pratica hoje no Brasil? Vamos ficar com os jornais de circulação nacional, como Folha de S. Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo?

O que eu chamo de jornalões. Esses jornalões assumiram nos últimos anos uma função muito exacerbada ideológica, que acaba sendo o objetivo principal dessa fatia da imprensa. Nesse processo, mas eu acho que por outros motivos também como o excesso de competição, a má formação dos jovens, nesses jornalões, lamentavelmente, eu acho que hoje – não digo sempre em todos eles e em todas as editorias – é muito comum você encontrar uma certa ética da malandragem.

O bom repórter é aquele que conseguiu aprontar uma armadilha para o entrevistado, é o cara que fez o sujeito dizer uma coisa que na verdade ele não estava pensando, é o cara que consegue gravar escondido uma entrevista sem o sujeito perceber. Tudo truques que vão contra um dos princípios fundamentais da ética jornalística americana, que é o que eles chamam de fair play (jogo limpo). O jornalista precisa sempre fazer jogo limpo com as fontes, com o leitor. Aqui, o tempo todo é um jogo sujo. É a manipulação do título, é publicação só de metade que o cara falou.

Daí, surge uma novidade com a criação do blog da Petrobras (Fatos e Dados). Ele surge como resposta às manipulações que a imprensa faz. Esses jornalões perderam o foco na preocupação de informar corretamente, adequadamente, contextualizadamente e colocaram o foco na tarefa de fazer luta ideológica e política, desgastar certas pessoas, desgastar certos governos para proteger outros. O tempo todo você vê esse jogo. É uma coisa triste, e ficou sendo a cultura dominante nas redações ou, pelo menos, em algumas equipes de redações.

O senhor falou, ainda há pouco, da ética como um ente compartilhado. Como é que o senhor vê a sociedade brasileira hoje, principalmente, os leitores nesse compartilhamento? Os leitores têm algum poder?

É importante você perguntar isso, porque eu havia esquecido de falar, e é uma coisa que me motivou a uma intervenção em um congresso de professores, que depois virou um texto de um livro meu, que eu acho interessante. O livro chama-se ‘O jornalismo no tempo virtual e o colapso da razão ética’, em que justamente eu parti da minha experiência em classe, que tem a ver com a tua pergunta.

Eu fiz um exercício de ética: uma situação de sequestro, a Rede Globo noticiou e os outros fizeram um pacto de silêncio e não noticiaram, para proteger a vítima. E eu coloquei em discussão: do ponto de vista jornalístico, qual é a atitude correta? Eu percebi que a classe não tinha condição de aceitar uma diretiva compartilhada por todos. Eles sequer entendiam que era possível haver uma ética aplicada comum a todos os jornalistas, porque cada um tinha a sua consciência. Aí eu percebi que nós vivemos uma era, que alguns chamam de pós-moderna em que você não tem mais os valores dominantes: você pode ter a opção sexual que quiser, pode ser mãe solteira, pode ser desquitada, separada, viúva, pode se vestir do jeito que quiser…

Então, o valor dominante na nossa era é um antivalor, é um valor tolerância. Tudo é tolerável. Como tudo é tolerável,você não consegue discutir com uma classe a possibilidade de haver uma ética um comportamento único naquela situação específica. Não há mais possibilidade de haver ética aplicada. Na verdade, eu acho que deve haver, mas a cultura de hoje torna difícil.

Isso exigiria mais uma capacidade de diálogo ou mais uma capacidade a partir da formação do indivíduo na sociedade?

Não é falta de diálogo. Eu acho que é uma alergia a qualquer forma de autoritarismo, de enquadramento, de que tem que ser assim e não pode ser assado. Realmente, é uma cultura de que o valor dominante é o antivalor. Qual é o valor dominante? Que tudo é permitido.

Na sua avaliação, essa é uma boa atitude da sociedade?

Não, eu acho que no jornalismo, no caso da ética aplicada, leva a um equívoco fundamental, porque você acaba não estudando o que é o jornalismo. A essência do jornalismo é difundir a verdade de interesse público. Na hora que ele começa a condicionar essa função a outros fatores, o jornalista começa a negar a sua profissão. Ele começa a entrar numa zona de perigo. Ele começa a julgar se deve ou não divulgar aquele sequestro, começa a assumir coisas que não estão sob o domínio dele, e amanhã começa a julgar outras: isso aqui também eu não vou publicar porque vai fazer mal.

Então, o jornalista começa a ser um sensor dele mesmo. É socialmente importante? É de interesse público? Então, tem que publicar. Isso você estuda quando está estudante ética. O Kant, por exemplo, diz que verdade e mentira são coisas que não estão no mesmo plano. O jornalista que diz a verdade e depois acontece uma desgraça por causa do que ele disse, ele não é responsável pela desgraça; mas se ele diz uma mentira e acontece uma desgraça, ele é responsável.

Como o jornalista pode lidar com essas questões quando elas partem dos donos da empresa jornalística?

É por isso que a formação é importante, porque é só na escola que você pode incutir no futuro jornalista padrões de conduto que depois o mercado vai tentar desarticular, desarmar. Mas a escola é o lugar onde ele vai adquirir o padrão. Eu comparo, embora seja uma comparação forçada, com a Medicina. O aluno de uma faculdade de medicina vai, com o orientador, aquele médico famoso, com quatro ou cinco alunos, ficam ao redor da cama do doente, discutindo os sintomas, vão adquirindo um padrão, gastam um tempo ali. Agora, depois que o médico se forma, vai trabalhar no mercado, numa seguradora, dá cinco minutos para cada diagnóstico. É o mercado, mas ele teve condições de adquirir um padrão. Só na escola você pode fazer isso.

Por isso a escola é importante? Aí, volta aquela tua pergunta: curso de jornalismo é importante? Sim. Eu por exemplo, sou contra essas escolas que pedem um jornal laboratorial e já chamam ele de copião, rascunho, já chamam ele de coisa mal acabada. Eu acho que na escola tinha que ter um padrão para publicar mais rigoroso do que no mercado. Essa matéria você vai reescrever. Manda reescrever três vezes, depois publica, quando tiver perfeita, para o aluno perceber também que só pode publicar uma coisa perfeita.

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O papel da Corte

Ivânia Vieira*

A ideia inicial era falar de um assunto que ganhou dimensão pública – o fim da exigência do diploma para o exercício do Jornalismo, por decisão quase unânime do Supremo Tribunal Federal, no dia 17 último. Falar da melancolia experimentada pela forma como os ministros do Supremo trataram o assunto e, particularmente, o presidente do STF, Gilmar Mendes.

Um tema de relevância a uma parcela expressiva dos 80 mil profissionais dessa categoria e outras tantas centenas de estudantes das escolas de Jornalismo espalhadas pelo País, aos familiares desse contingente de pessoas. De um Supremo exige-se, por dever de ofício, e pelos ótimos salários e fantásticas vantagens que garantimos a seus integrantes, atitudes de uma alta corte. Gilmar Mendes fez o caminho contrário, comparações no mínimo indevidas.

Queria falar aos estudantes, principalmente aqueles que querem ser jornalistas, muito além do show do momento, que invistam na sua formação hoje. Qualifiquem-se e avancem nos seus conhecimentos. Queria falar do particular, lembrando das ladeiras que venci até concluir o meu curso de Jornalismo e, na contramão de outros depoimentos, dizer publicamente, o quanto sou grata por ter feito Jornalismo, por cada professor e professora que passaram pela minha vida de estudante. E por que hoje continuo tendo fome de aprender para tentar responder, com responsabilidade, aos novos desafios dessa profissão, ora desmantelada por um ato da forma que foi executado, equivocado.

Mas, o presidente do STF continua a soltar frases numa atitude nada suprema. Parece tripudiar e provocar. O único mérito na postura de Gilmar Mendes é o de repetir, nos últimos dias, que outras profissões vão cair. Então, profissionais ameaçados, mobilizem-se!

O STF tem um papel que parece esquecido, quando cria tumultos dessa ordem, e seu presidente sai por ai dando recados, promovendo a instabilidade. É algo mais ou menos assim: uma bomba vai explodir a qualquer momento e vocês, potenciais vítimas, não terão como se proteger dela. É uma inversão da Suprema Corte.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social/Ufam.

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Falta combinar com a Natureza


Wilson Nogueira*

A cheia atípica amazônica se aproxima do fim, mas os problemas que ela causou e causará se prolongarão por mais alguns meses. Cidades inteiras foram tomadas pelas águas. Milhares de pessoas se deslocaram para lugares supostamente mais seguros. Outras permaneceram expostas à insalubridade e às suas conseqüências. Ambas as situações exprimem degradação da vida. Outras vezes os rios se encherão com maior intensidade e trarão desconforto às populações ribeirinhas. Essa tragédia pode se repetir, caso não haja esforço para impedi-la.

Cheia idêntica à atual ocorreu em 1953, quando a região possuía outro cenário de ocupação humana. As cidades eram menos populosas e as famílias rurais migravam entre áreas de várzea e de terra firme. Hoje são raras as famílias que possuem propriedades nos dois ambientes. As terras mais altas estão sob domínio das fazendas de criação de gado, das monoculturas ou da especulação imobiliária. Também não há mais fartura de alimentos nas florestas e nos rios.

As populações que antes conviviam com os ciclos das águas transformam-se em flagelados constantemente. Há três anos, leitos de rios e lagos emergiram tórridos. A Pátria das Águas virou um deserto infernal. Milhares de toneladas de peixes apodreceram nos lagos. Florestas pegaram fogo. A propósito, o planeta nunca esteve livre dos períodos longos de cheias ou de estiagem. A novidade é que, de agora em diante, a tendência é de que fenômenos desse tipo ocorram com mais freqüência e sob impacto da atividade humana.

Chuvas ácidas, buracos negros e efeito de estufa não saíram da ordem do dia nas três últimas décadas. Boa parte da saliva e da massa cinzenta humanidade foi gasta com insultos entre os que defendem o desenvolvimento econômico a qualquer custo e ecologistas de matizes ideológicas diversas. Não há vencedor nessa competição típica dos seres humanos. Sem meta comum para reduzir os estragos do estilo de vida vigente perderemos todos. Os cientistas avisam: as mudanças climáticas causadas por envenenamento da atmosfera varrerão a vida na Terra.

O alarme foi acionado. Restam as providências para que se evite a grande tragédia. Mesmo que a atual cheia não venha do aquecimento global, ela é recorrente em intensidade. Sobram motivos para o Poder Público agir preventivamente em defesa das populações ribeirinhas. Manter cidades em terras vulneráveis a alagações, como Barreirinha e Anamã – ou a implantação e proliferação de bairros nas margens de rios e igarapés – constitui-se negligência. A sociedade paga muito caro pela falta de planejamento das cidades.

Faz tempo que o gestor público – desde o plantonista ao efetivado pela burocracia – tem meios e informações seguras disponíveis para se prevenir contra tragédias sociais e naturais. Mas são raros os que agem para evitá-las. A grande maioria se encanta pelos resultados imediatos da politicagem, do assistencialismo e do clientelismo, permissividade compartilhada por outros setores sociais. O correto seria combinar, antecipadamente, as ações humanas com a Natureza. Sem esse acerto, os riscos de flagelo por conta de mudanças no comportamento do Planeta serão cada vez maiores.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Gilmar Mendes, seus capangas e nós. Nada podia dar certo

Gerson Severo Dantas*

Jornalista e professor de Jornalismo, recebi com naturalidade a decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar inconstitucional a exigência do diploma de nível superior em Comunicação Social para o exercício da atividade jornalística. Os argumentos do ministro Gilmar, relator do processo, e dos ministros que o seguiram, são razoáveis, embora cause uma tsunami na categoria, que há 40 anos se organiza a partir da premissa expressa no decreto-lei 282. Mas por que a decisão era natural? Vamos aos fatos, dos mais distantes aos mais recentes:

Em primeiro lugar, a decisão era natural pela própria conformação da nossa mais auta corte de Justiça. O auta, aí, não é erro. O que uma categoria que reúne alguns milhares de profissionais (alguns sem diplomas) poderia esperar da corte que referendou a expulsão da brasileira Olga Benário Prestes, grávida de uma brasileira, esposa de um capitão do Exército brasileiro, pela Ditadura do Estado Novo, que enviou a líder comunista para morrer nos fornos crematórios do Terceiro Reich? Resposta: Nada!

O que jornalistas poderiam esperar de uma corte que, por longos anos, considerou constitucional a subordinação feminina aos seus maridos, como tão bem está expressa, por exemplo, no Código Penal? Resposta: Nada!

O que nós, jornalistas por formação, poderíamos esperar de uma corte que em sucessivos regimes referendou leis autoritárias e, portanto, coonestou com atos de arbítrio, por exemplo, ao longo dos 21 anos da ditadura militar iniciada em 1964? Resposta: Nada!

O que nós, jornalistas qualificados, poderíamos esperar de uma corte que em mais de cem anos nunca condenou um político? Resposta: Nada!

O que nós, jornalistas militantes de causas impossíveis, poderíamos esperar de uma corte, que, ao arrepio das fartas provas, absolveu um ex-presidente da República envolvido com um sem números de irregularidades? Resposta: Nada!

Acrescente-se que foi esse nihil obstat dado pela mais auta corte do País que possibilitou o retorno a vida pública do mal-afamado Fernando Collor de Melo. E não adianta reclamar.

Mas o que esperavam nós, jornalistas umbilicalmente ligados aos movimentos sociais, do relator do processo, ministro e presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, Gilmar Mendes? Resposta: Apenas o que ele fez: considerou a exigência inconstitucional e influenciou a decisão dos outros magistrados.

Mas quem é esse Gilmar? Esse Gilmar é o mesmo ministro que tirou da cadeia duas vezes o magnata Daniel Dantas em menos de 24 horas. É o mesmo ministro que atropelou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) para dar as duas decisões que beneficiaram Dantas e que por isso enfrentou a revolta de centenas de juízes federais, que não foram devidamente punidos porque a causa que abraçaram era justa.

Gilmar Mendes, o pior, é patrão de capangas no Mato Grosso, onde têm fazendas denunciadas pela Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica. Quem disse que Gilmar têm capangas? O ministro Joaquim Barbosa, em rede nacional de televisão, e que até hoje não foi contestado ou processado por Gilmar. Ou seja, Gilmar calou diante das verdades ditas por Joaquim Barbosa. O que esperar dele? Nada!

Bem, da mais auta corte não poderíamos esperar nada diferente mesmo. Mas nós, jornalistas diplomados e supostamente organizados em nossas entidades, também não estamos inocentes e livres de imputação no desenlace desse processo. Novamente recorramos aos fatos, dos mais antigos para os mais recentes.

Escudar-se ao longo desse período numa legislação produzida durante a ditadura militar foi um erro fatal, deu margens enormes para a contestação. Nossa categoria, tão absoluta e senhora de seus poderes, desdenhou do potencial da argumentação patronal, defendeu que o decreto-lei foi recepcionado pela Constituição de 88, quando as controvérsias sobre isso eram flagrantes, além de antipáticas.

Mas nosso pior pecado foi deflagrar uma luta fratricida com outras categorias afins, como a dos Relações Públicas, dos Arquivistas, na criação do Conselho Federal de Jornalismo. Essa batalha atraiu para nós, enquanto categoria profissional, a ira dos nossos e dos outros, culminando com a decisão do ministro Gilmar. A categoria também, escudada no decreto-lei, comprou brigas dentro das próprias redações, com colunistas sociais e comentaristas de futebol para TV. Foram brigas que fizeram mais mal do que bem.

Por fim, nosso maior erro nesse tempo foi a divisão flagrante dos profissionais. Médicos, de um modo geral, detestam-se, detonam uns aos outros, mas quando o assunto envolve bens coletivos, todos estão juntos e são amigos desde os bancos da Faculdade. Jornalistas não. São, parodiando um colega, “uma agremiação de amigos formada só por inimigos”. Poucos se gostam, a maioria se detesta e como é mister da profissão não guarda isso só para as disputas internas, faz questão de espalhar a divergência – e muitas vezes a maledicência – a todos os públicos possíveis.

Uma última observação: A decisão do STF rebaixou-nos, jornalistas por formação, de categoria, vai precarizar nossas relações de trabalho, mas, pelo que vejo nos comentários nos devidos fóruns, o que mais incomodou mesmo foi a comparação com os chefes-de-cozinha, que são igualmente profissionais merecedores de respeito. Nada podia dar certo mesmo!

*Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Segredo de vizinhos

Neuton Corrêa*

O rapaz desembarcou do 713 e foi recebido com um revólver apontado em sua direção. O disparo era uma questão de tempo. Em frações de segundos eu viraria testemunha de um crime ou quem sabe seria a outra vítima do projétil daquela arma. A cena acontecia a dois metros de mim.

A violência que se anunciava me transformava em pedra. Pensei em ver se o que escorria entre minhas coxas era suor, mas até o pensamento congelava. Nessa hora, me peguei com todos os santos e santas, deuses e deusas e até com os caboclos da minha vizinha, Mãe Emília.

Do ônibus ouviam-se gritos, que aos poucos desapareciam à medida que o busão se deslocava lentamente. Até onde pude ver, alguns ainda colocaram a cabeça pela janela, mas não viram nada. Do meu lado, ninguém esperou para ver. O banco da parada se esvaziou num piscar de olhos.

A situação começou a piorar. O homem da arma, um cidadão de mais ou menos cinqüenta anos de idade, obriga o rapaz a se ajoelhar. Acho que a vítima não deveria ter mais do que 22 anos de idade. Ele se ajoelhou e depois foi ordenado a colocar as mãos na cabeça.

O rapaz esboçou algumas palavras, mas a fúria do homem era tanta que nada o faria mudar a ideia de eliminá-lo. O garotão queria saber o que estava acontecendo e homem dizia: “Cala tua boca seu f.d.p., que tu sabe muito bem o que está acontecendo. Tu e aquela f.d.p., que vai me pagar também”.

Minha nossa, pensei, vai ser um duplo homicídio.

O primeiro crime estava decretado. O cidadão, enquanto esteve na parada, passou o tempo olhando para os ônibus que passavam. Levantava e sentava num vai-e-vem inquietante. E nas últimas vezes que se levantou colocava as mãos na cintura e balançava a cabeça, primeiro em negação, depois em positivo.

Agora dá até para traduzir o que ele falava com ele mesmo. Talvez fosse assim: “Não, não tem jeito: será hoje”.

Enquanto eu pensava milhares de coisas, ele apontou a arma para cabeça do rapaz. Mas nessa hora, do outro lado da rua, alguém grita, com a autoridade suave de uma voz feminina: “Não faça isso. Você vai acabar com sua vida. Ele vai morrer e você vai ficar sofrendo”.

Parecia que eram essas palavras que ele estava esperando, pois, assim que escutou o conselho começou a chorar e a falar: “Esse filho da mãe acabou com a minha vida”.

Depois disso, começou a falar com sua presa, ali, ajoelhada:
- Por que você fez isso com ela?

O garoto nada respondia. Os passageiros começaram a voltar para a parada. O cidadão baixou a arma. Naquele momento, todo mundo queria saber de que ele estava falando. E ele mais uma vez indaga, agora com um tom de quem acabara de tirar uma tonelada de sua cabeça:
- Por que você fez isso comigo? Você se criou em casa…

Meu medo nessa hora já tinha dado lugar à curiosidade. A reação daquele homem, as palavras dele, frente àquele menino, eram típicas reações de pai que implica com o envolvimento da filha com a pessoa que não lhe agrada.

Então, pensei, matar o menino só por isso? Não seria melhor ajeitar as coisas? Mas, amigos do ônibus, vocês nem imaginam o que ele disse. O teor não vou tirar nem pôr a mais:

- O que você fez com minha mulher? Ela nunca me deu isso. Nem eu nunca tive coragem de fazer isso com ela nos meus 30 anos de casamento. E tu, cara, estragou tudo!

Todos na parada ficaram se entreolhando e rindo. E meu ônibus apareceu logo.

PS: Sugestão enviada pelo leitor André Viana.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Romahs
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O terrorismo de Alan Garcia


Wilson Nogueira*

O presidente do Peru, Alan Garcia, segue à risca a mofenta cartilha do clã Bush. Ele quer que a sociedade peruana e a comunidade internacional acreditem na versão de que o Estado peruano massacrou terroristas em vez de índios em campanha pela demarcação das terras em que vivem há milênios. Caso dependesse de Garcia, a região de Bagua, na selva amazônica, seria incluída no “eixo do mal”. Na tragédia, ocorrida no último dia 5, morreram dezenas de índios e policiais.

Em termos de perigo planetário, Bagua teria, para Garcia, o mesmo status da Coreia do Norte e do Irã, países que possuem instalações nucleares sem fiscalização da Organização das Nações Unidas (ONU). Observa-se que quem faz terrorismo é o próprio presidente, que joga os povos indígenas contra os demais segmentos sociais peruanos. Ao injetar medo na sociedade, Garcia visa, também, esconder os interesses das medidas desastrosas que resultaram no massacre.

A imprensa revela que o governo peruano não fez a demarcação plena das terras indígenas porque elas são cobiçadas por companhias multinacionais de petróleo, de produção de energia elétrica e de outros minérios. Tais multis se sentem donas da selva por conta do Tratado de Livre Comércio (TCL) entre o Peru e os Estados Unidos. É de domínio público que Garcia agiu de má-fé ou foi imprudente e irresponsável ao mobilizar tropas militares para Bagua sem a mínima experiência em tensão social envolvendo povos indígenas. O diálogo, pelo visto, não interessava ao governo de Alan Garcia.

Lembrou-me uma leitora que a violência contra índios e camponeses é da índole desse político quando está no controle do poder. “Até hoje no Peru são desenterrados centenas de corpos de camponeses assassinados pelo exército durante o primeiro período do governo de Alan García (1985-90). Faz-se o mesmo com os nossos irmãos falecidos da Amazônia. Precisamos de observadores internacionais para não esconder a realidade do que aconteceu”, comentou.

Muito bem lembrado. É importante que a comunidade internacional não faça vista grossa a esse massacre. Cabe-lhe, por meio de ongs, governos e instituições multilaterais, pressionar o Estado peruano para que assegure uma investigação isenta e eficaz sobre o caso, com o acompanhamento das organizações de defesa dos direitos humanos e da causa indígena. Um procedimento dessa envergadura poderá apontar os responsáveis pelo crime, para que sejam julgados e punidos exemplarmente, conforme exigem a democracia e a justiça.

A impunidade só fortalece as ações e a retórica terrorista do presidente Alan Garcia, que faz o jogo do capitalismo de terra arrasada. Está em curso hoje, como resistência e alternativa à globalização antiecológica e causadora do aquecimento global, uma nova compreensão de desenvolvimento, na qual se inclui a experiência dos índios e demais povos amazônicos que manejam os recursos naturais com ínfima agressão ambiental. É dessa experiência que o Planeta necessita. É dela que Garcia quer se livrar.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Sarney, a crise e nós

Ivânia Vieira*

O presidente do Senado, José Sarney, usou, ontem, 33 minutos, segundo agências de notícia, para livrar-se, perante a opinião pública, de responsabilidades. Devolveu ao Senado a crise vivida na/pela Casa, tentando descolar-se dela, como se isso fosse possível. Sarney tem raízes profundas no Senado, está encrustrado nas paredes e é um dos articuladores da cultura ali vigente. Não pode negar a sua história.

Acerta ao chamar os seus pares a partilhar a crise de agora, afinal os atos por ele patrocinados são parte de um poder realizado mediante um pacto maior envolvendo parcela expressiva dos 81 senadores e com braços longos no Executivo. Nessa partilha da crise conseguiu ter respostas mansas, inclusive da oposição. Mas, erra quando sua fala tem um reduzido enunciado.

Para quem falou Sarney? Qual é o efeito dessa fala? Esperávamos decisões firmes. Até por sobrevivência, a Casa deveria nessa terça-feira ter mudado o seu script tradicional, assumindo compromissos, datados, com a sociedade. Não o fez. Preferiu o caminho do passado, cheio de vícios, de alianças indigestas e com um alto custo para o bolso do brasileiro.

O Senado se distancia da condição de alto conselho e faz a opção em ser pequeno. A sucessão de escândalos, provocada pelos próprios senadores, não pode ser esquecida ou minimizada com a admissão pública de que a “crise é do Senado”. Todos já sabemos disso. Falta saber quantos senadores estão, de fato, determinados a mexer em interesses de grupos e traçar um plano de valorização da instituição.

Ontem era um dia bom para aplicar a primeira dose do remédio. O que se viu, ao contrário, foi uma encenação sem reação maior. Nesse ritmo, logo a crise ética da Casa será de responsabilidade exclusiva dos eleitores. Os senadores serão vítimas e a sociedade algoz.

*Jornalista, professora de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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O apelo de Silvinha

Neuton Corrêa*

Embarquei e assim que passei pela catraca ouvi um grito: “Repórter do ônibus, por favor, me ajude!”. A primeira reação que tive foi descer imediatamente da viagem. Afinal, alguém ali acabara de revelar minha identidade secreta de passageiro-repórter. No entanto, o clamor ficou mais sério, e eu ainda mais preocupado.

Resolvo olhar na direção de onde saía o apelo, mas as lâmpadas do 045 estavam apagadas. Tento identificar a pessoa. Não consigo. Olho outra vez. E nada. Fecho um pouco os olhos como quem mira alguma coisa, vejo uma mulher se levantar e ouço de novo: “Repórter do ônibus!”.

Perto de mim, ao abrir a boca pela terceira vez, senti a pele reagir como num frio de malária. Não dava para controlar o tremor que a voz me provocava. Era uma voz fina e desafinava e entrecortada por um soluço penetrante. Mais penetrante foi quando vi seus olhos transbordando água por várzea e terra firme.

A um palmo de mim a reconheci. Mas não pude lhe dizer nada, pois assim que se aproximou ela me deu abraço forte e suspirou no meu ouvido: “Ainda bem que você apareceu aqui”. Encabulado diante dos outros passageiros, perguntei o porquê e ela respondeu: “Acabei de ser assaltada duas vezes”.

Não poderia deixar de achar que aquilo era um exagero. Mas exagero não combinava com sua história, com a história da Silvinha que conheci no beco Paris, perto da usina de energia elétrica, e com quem estudei vários anos.

A Silvinha, nas primeiras séries, não abria a boca para nada. Entrava no corredor do Ryota Yoama se arrastando de costa na parede. Chegava assim na sala e ficava as quatro horas da manhã imóvel em sua carteira. A menina do primário não era diferente da que voltei a encontrar no magistério anos mais tarde.

Quando a reencontrei, porém, no segundo grau, em 1991, ela já era mãe pela terceira vez. Teve a primeira criança com 15 anos; a segunda, com 17; e a caçula aos 20 anos de idade. A terceira menina ainda vi crescer na barriga da Sílvia. O pai… Bem… O pai era um homem casado que veio assumir a segunda família só recentemente.

Havia pelo menos 15 anos que não via a Silvinha. Em Manaus, há cinco anos virou cobradora de ônibus. A última lembrança que tinha dela era do tempo em que era magrinha. Passeava de bicicleta com a filha em uma cadeirinha de ferro trançada de macarrão de borracha. Hoje, a menina está com 18 anos e no primeiro período do Curso de Pedagogia mantido pela mãe.

Pois era a universidade que mais fazia a Silvinha chorar naquela noite. Depois que me abraçou foi isso que repetiu não sei quantas vezes: “E agora, como vou pagar a faculdade da minha filha?”. Insistia no assunto sem se importar com os ferimentos que trazia no braço, até lhe perguntar o que era aquilo. E ela respondeu:

- Acabei de ser assaltada. E sei que vou ser assaltada de novo.
Sinceramente, fiquei sem entender e indaguei:
- Como assim?
- O ladrão entrou no ônibus, pediu toda a renda da viagem. Aí eu disse que não ia dar nada e olha o que ele me fez. (Relatou mostrando ferimentos no braço direito e à altura do ombro esquerdo).

- Você correu risco de vida, disse-lhe.
- É, mas eu não tenho mais dinheiro para ser assaltada. No início do ano, os ladrões entraram no ônibus e levaram mais de R$ 100 da minha viagem. Semana passada, mais R$ 50.

Depois disso, pedi que ela comparasse o valor do dinheiro com o valor de sua vida. E ela devolveu o problema:
- E a faculdade da minha filha, como fica?
A conversa, para mim, ficou sem rumo. Pedi que explicasse. Ela engoliu o soluço, enxugou os olhos e falou:

- Toda vez que acontece um assalto no ônibus somos assaltadas duas vez. Primeiro pelo ladrão, depois pelas empresas, que tiram o valor do assalto do nosso salário. Como não tenho mais dinheiro, resolvi enfrentar a sorte.

O ônibus parou onde desceria e desci, prometendo-lhe escrever alguma coisa sobre o assunto.

*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.
Ilustração: Carlos Myrria.

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Turnê pelos igarapés de Manaus

Wilson Nogueira*

Sugiro que a Prefeitura promova uma turnê com industriais, empresários da construção civil, comerciantes e consumidores pelos igarapés de Manaus antes da vazante. Constatarão o óbvio: a morte das águas por asfixia provocada por lixo industrial e doméstico. Será impossível não perceber que somente um compromisso de não agressão à natureza entre os diversos segmentos sociais evitará a agonia dos igarapés e dos seres que dependem deles, como peixes, répteis, aves, plantas e gente. No final, em solenidade transmitida pela televisão, todos assinariam um termo de ajuste de conduta em defesa da vida.

Os gestores públicos, fabricantes de embalagens plásticas, de pneus, de latarias e empresários da construção civil preferem culpar os pobres pela sujeira a reconhecer que também participam da destruição à natureza. É mais cômodo argumentar contra os subempregados e desempregados que ocupam as margens dos igarapés. Eles chegaram – devagarzinho ou em levas –, montaram suas palafitas e fincaram raízes. Mal educados, atiram na rua e nas águas o plástico e a lataria que embalam alimentos. O mesmo destino tem os dejetos e a água servida que produzem.

Essa história empurra ainda mais o pobre para o subterrâneo social. Que destino cruel é esse: além de pobres, ainda são imundos! A é retratada no inchaço demográfico que se acentuou a partir da década de 1970, com a implantação da Zona Franca de Manaus. Milhares de pessoas migraram para Manaus em busca de emprego. Umas se acomodaram nas margens dos igarapés. Outras derrubaram a floresta do entorno urbano e criaram novos bairros de barracos improvisados. O exército de reserva de trabalhadores, necessário ao empreendimento industrial, formou-se, sem as mínimas condições de saneamento básico, nas bordas das ilhas de riqueza.

No item qualidade de vida, Manaus também é uma cidade do “sem”: sem rede de esgoto, sem coleta e sem tratamento adequado do lixo, sem transporte coletivo decente, sem parques e praças com equipamentos de uso público, sem planejamento público… É evidente que esse quadro perverso e doentio nega a existência da própria cidade como um lugar da cidadania. Os pobres sofrem a maior consequência da ausência da cidade. Sobre eles caem todas as culpas pela insalubridade e insanidade do espaço público degenerado. Impõe-se sobre os ombros dos que se alojam no arremedo de cidade o maior peso de preconceito e negligência com a qualidade da vida urbana. Essa postura é abominável, pois o bem-estar coletivo é resultado de compromissos sociais compartilhados.

Onde andavam os gestores da cidade que não evitaram a invasão dos igarapés? Responderão os que estão de plantão: as palafitas são heranças malditas do passado. Ouve-se, de modo recorrente, essa desculpa esfarrapada. A necessidade de corrigir o incorrigível chegou ao cúmulo de a transformação dos igarapés em córrego ser a melhor solução para limpar a imagem do centro da cidade. Na periferia, a derrubada de árvores e a ocupação dos igarapés se multiplicam a cada eleição a espera dos Prosamins, condutos de entrada e saída de dinheiro de bancos interessados em financiar ações simpáticas ao meio ambiente.

As fábricas também não param de produzir pneus, vasilhames PETs, baterias para carros, sacos plásticos e outras embalagens e produtos que entulham os igarapés e rios dentro e no entorno da cidade. A Prefeitura até gaba-se de retirar milhares de toneladas de lixo das águas. Entremeadas nas águas turvas descem outras toneladas de metais pesados, dejetos e águas domésticas e comerciais sem tratamento. Sintomaticamente, há dezenas de torres de apartamento e indústrias próximas aos igarapés. O habite-se desses estabelecimentos é emitido pelo poder público. Nota-se que a degradação do meio ambiente é um ato de cúmplices que tem início entre os que detêm poder econômico-político.

Essa é uma conversa que cairia bem em uma turnê pelos igarapés de Manaus que ainda não foram aterrados nem ocupados totalmente por palafitas. Reconheço que a proposta é absurda, porém, está longe de ser do tamanho do contra-senso que aponta os pobres como únicos responsáveis pelo lixo que entope os esgotos e os igarapés. Não dá para eximir a indústria, a construção civil, o comércio e os gestores públicos da responsabilidade pelo destino do lixo que produzem. Não dá mais para vê-los fingir que não fazem parte desse problema.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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