Archive for julho, 2009

Um professor, um companheiro

Ivânia Vieira*

Anos 80, o Brasil era um caldeirão. Eu estudava Jornalismo. Nas horas inventadas entre o estudo e o trabalho, seguíamos professores, militantes da Igreja Católica nas ações do Cimi Norte I, da Pastoral Operária, da Pastoral da Juventude, do Grupo Kukuro… A sala de aula tinha um pé na rua, nas noites longas no porão da Arquidiocese de Manaus, produzindo jornalzinho, no mimeógrafo para, em seguida, em estado de êxtase, colocar os impressos na rua.

Nessa mistura apaixonada pelo aprendizado, tínhamos a utopia de provocar mudanças, pelo menos provocávamos muita raiva nos acomodados e no poder instituído. As caminhadas missionárias eram um acontecimento. Nessa época nascia uma relação com uma turma que marcaria minha vida para sempre. Dela fazia parte Narciso Lobo (foto), o jovem professor da UA que nunca me perdeu de vista e não se aquietou até eu retornar à Ufam, em 2001, como aprendiz de educadora. Dividimos a mesma sala, até o dia 23 de julho, quando Narciso disse adeus às coisas terrenas, deixando projetos e sonhos em busca de aliados para provocar novas inquietações.

Hoje, diante de uma extrema dificuldade em lidar com as palavras, recordo o Narciso solidário. Sem ignorar os momentos de impaciência, é essa solidariedade firme, amadurecida, capaz de rever posições e dizer “eu errei”, uma das heranças deixadas pelo professor para nós. Como pesquisador, não fez reserva de mercado, ao contrário, socializava livros, artigos e suas pesquisas. Recordo a sua batalha por uma universidade mais perto da comunidade, por um jornalismo crítico, pelo exercício do debate e do confronto das ideias. Combateu o apego exagerado às técnicas na formação do jornalista, condenou os métodos fechados porque, dizia, são engessadores da arte de pesquisar, insistiu, como um sacerdócio, na importância da leitura e na formação humanística dos profissionais da área. Ultimamente, contava o tempo para se aposentar ao mesmo tempo que se declarava “tão animado” com a turma do primeiro período.

Ouvi, no dia 24 de julho, quando nos despedíamos dele, Luzarina Varela, uma ex-metalúrgica, afirmar, com emoção: “Narciso aproximou a academia dos trabalhadores”.

Que esta inquieta vida seja oxigênio quando o comodismo e as alianças perigosas ameaçarem justificar nossa existência.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.

No Comments

Diante do teste

Ivânia Vieira*

O que dizer sobre a dor da perda? E como falar dela quando chega em três versões? É como vendaval inesperado. Arrasta quase tudo para longe, abre buracos enormes. Ficamos pequeninos, sem saber sobre o próximo passo a ser dado, sobre qual palavra escrever. Ainda é de agonia o momento vivido com essa viagem veloz e não anunciada, do Vando, do Marcos Figueira e do Narciso Lobo. O primeiro se foi um dia antes e os outros dois no mesmo dia desse mês de julho.

As lentes estão embaçadas, parecem anunciar o não-encontro enquanto nas ruas os detalhes de cada um deles se multiplicam nas pessoas, colocando em dúvida se os três realmente não estão mais entre nós. Nossa! Ainda vejo, dois anos depois, tantos Ivomar revividos nos cabelos grandes, presos, nas sandálias ‘franciscanas’, no sorriso aberto, bonito, na conversa despojada que tanto sucesso fazia. Os três juntam-se a essa sensação como desculpa para aliviar a tristeza ou, quem sabe, descobrir nas semelhanças até então ignoradas um sinal da eterna permanência deles entre nós.

Tento recolher os fragmentos deixados por esse vendaval. Sem jeito, procuro reuni-los e, assim, perceber, com a reconstrução, outras vidas nascidas dessas existências. É nessa colheita, feita de lembranças e da saudade irracionalmente doída, que a vida vivida por eles desfila teimosamente.

Vando, com os irmãos, ocupou, desde menino, parte dos natais e dos dias das crianças da minha vida, nos fazendo realizar peripécias em nome da fantasia coletiva. Vivia, agora, a fase da descoberta dos desafios de ser um jovem pai, sem desgrudar dos irmãos, sorrindo para todos nós, o mesmo sorriso que só a mãe deles sabia sorrir.

Marcos espalhou em nosso mundo a música e seu amor pelo rádio, pela cultura, pelos livros, somou de corpo e alma com a comunicação popular e, perturbadoramente, voou para viver todas as suas paixões tentando conjugar em novos tempos de cantoria o verbo liberdade.

Narciso abraçou a ousadia, desde o tempo do jornalismo de resistência, na poesia-denúncia ou apenas na condição de amante, em meio a livros, artigos, alunos e, mais recentemente, no blog, Como professor, insistiu na importância da formação humanística, na construção de um curso de Jornalismo competente e solidário porque entendia ser esse o outro papel da academia. Vivia o melhor momento de pesquisador e reunia projetos, em forma de sonho, para o qual não parava de convocar os estudantes e as organizações populares.

O que dizer? Se a compreensão sobre a morte insiste em não acontecer. Ana Célia Ossame diz que o cristal quebrado é a vida, tão bonita, em pedaços no chão. Então, emocionalmente desorganizada, tento espalhar esses cristais que passaram por nossas vidas.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas.

No Comments

Diário de bordo

Wilson Nogueira*

Domingo, 26/07/2009. O Zenzão partiu do lago do Tarumã por volta das 11h, com destino a qualquer lugar tranquilão, ali pertinho, no rio Negro. Não há uma hora estimada para o retorno. Talvez lá pelo pôr-do-sol. “Se precisar, esticaremos pela noite”, avisa o comandante. Afinal, navegar é preciso. Já era assim na época do poeta Fernando Pessoa. Imagine agora, com GPS, telefone celular e rádio sintonizado na frequência de navegação da Marinha. A luz que bate no espelho d’água emite uma profusão de raios. É tão intensa que embaça a visão.

Encantado com as águas, heim? Isso mesmo! Não só pelas águas. Há vários trechos de igapó do Tarumã que ainda não foram derrubados. Outros abrigam marinas que guardam barcos de luxo ou são portos de outros empreendimentos. Na margem direita, perto do Negro, destaca-se uma torre de concreto e, perto dela, um enorme guindaste. A idéia que se tem é a de que esse monstrengo foi abandonado às pressas. Consta que ali funcionaria um hotel-cassino dos Maksoud, financiado pelo contribuinte brasileiro. A carcaça de ferro e cimento tornou-se mais um dos sinais da corrupção por ali.

O monstrengo fica para a popa do Zenzão, que agora sulca as águas negras em marcha de cruzeiro. O calor é arrefecido por lufadas de vento que entram pela proa. Zenzão conhece os banzeiros, as curvas, os portos e as praias das proximidades de Manaus. Ele mantém uma relação de respeito com a natureza. De tudo que ela lhe oferece, Zenzão só quer um lugar sossegado para os seus passageiros. Um ambiente onde todos possam contemplar e amar a natureza. Taí, pertinho de nós.

Amarramos o cabo na copa de uma árvore, na boca do Tarumazinho. Nesse local, as águas lambem as copas do igapó. Largados no piscinão, encontramos sob os nossos pés, aqui e acolá, copas de árvores. Assim, dá para conferir o quanto os rios amazônicos encheram neste ano. Os passageiros dos aviões que sobem e descem do e no aeroporto brigadeiro Eduardo Gomes extasiam-se com a visão impar dos rios e da floresta. Mal suspeitam da floresta de igapó debaixo d’água.

Dá gosto banhar-se no rio, longe das margens, protegido pelos equipamentos de bordo do Zenzão. Veio-me à cabeça, entre as braçadas, o espanto do repórter Otávio Ribeiro, o legendário Pena Branca, quando se deparou com o rio Negro. “Pô, cara, isso aqui é um piscinão, o maior do mundo”, repetia em carioquês. Pena Branca participou da equipe que fez a edição histórica da revista Realidade sobre a Amazônia, em 1972. Um feito de desbravadores. Um alerta para a necessidade de preservação da Amazônia.

O Zenzão retornou quando o sol se escondia por trás da floresta. Na despedida, acompanhados por violão sem uma das cordas, cantamos, juntamente, com alguns moradores da comunidade Livramento, a música Amazonas, de Chico da Silva: “Eu amo esses rios da selva / Nas suas restingas meus olhos passeiam/ O sangue nasce nas suas entranhas / E nos seus mistérios meus sonhos vagueiam…” Quem toca e puxa o canto é o próprio Chico, que, também, tem colocado o seu talento na defesa da Amazônia, para que outras gerações possam tomar banho na copa das árvores.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

No Comments

O perdão e a farinha

Neuton Corrêa*

A bombonzeira consegue associar o perdão à farinha. Isso me fez lembrar do amigo Wilson, que sempre diz: “Tem gente para tudo neste mundo e ainda sobra um para brincar debaixo do boi”. A vendedora de bombons, por exemplo, acha que quem come farinha, como a gente, não pode perdoar.

Essa conversa religiosa ocorreu há poucos dias, em um ponto de ônibus da rua Pará, na luxuosa área do Vieiralves. Nesse dia, atrevi-me, ali, a esperar o 122. É a única linha que passa por lá. Talvez por causa desse monopólio, passa a hora que bem entende. Mas eu não estava com pressa e resolvi enfrentar a espera.

Vi a vendedora de longe. Ela estava sentada ao lado de uma barraquinha metálica, montada ao lado da parada de ônibus. Cruzava as pernas, sobre as quais descansava um livro grosso. Parecia tão concentrada na leitura que ao vergar a coluna e baixar a cabeça em direção às letras seu corpo formava um “C”.

Assim que me aproximei, ela me perguntou: “O senhor acha que quem come farinha pode perdoar?”. Sem entender a questão, apenas sorri. Afinal, não consegui ligar uma coisa à outra. Para mim, farinha tem sentido de peixe. Essas duas coisas, sim, peixe e farinha, aqui na Amazônia, não se separam.

Lembro quando cheguei por aqui, pela capital, o dito Wilson ria das montanhas que fazia no meu prato. E, eu, comigo, resistia: “Isso é porque ele não conhece meu compadre Juveco”. Esse é um grande comedor de farinha. Um pedaço de peixe para ele significa meio litro da fofa.

Nunca notei, porém, que o Juveco fosse piedoso ou impiedoso por causa disso. Na verdade, a farinha o fazia mais engraçado. Tanto que virou humorista. E dos bons.

A pergunta da bombonzeira induzia à certeza de que o comedor de farinha não perdoa. Para tentar compreendê-la, cheguei ainda mais perto. Percebi que o livro que segurava em suas coxas reunia vários cantos de igreja. Ela revirava as folhas para frente e para trás e corria o olhar sobre as letras com a ponta de um lápis.

Peguei três caixinhas de Chiclets e lhe dei R$ 1. Antes que levantasse de seu banquinho para passar o troco, resolvi perguntar-lhe:

-Por que a senhora acha que quem come farinha não pode dar o perdão?
E ela começou:
- Meu pai conhecia a Palavra. Eu me criei com ele e desde pequena, graças a Deus, nesses meus 60 anos, sou temente a Deus.

Continuei sem entender a ligação do perdão com a farinha e ela continuou:
- Olha, tem muita gente por aí que toma o Santo Nome em vão.
- Sim, respondi. E ela:
- Isso é o Mandamento.
- É verdade, disse-lhe, e o Segundo Mandamento.
E finalmente ela falou:
- Pois é, eu fui na igreja esses dias e falei dos meus pecados para o pastor. Ele disse que iria me libertar. Eu fiquei alegre, mas depois ele olhou para mim e disse: “A senhora só vai ter que me pagar”.

- O que o senhor acha? Um comedor de farinha desses tem condições de tirar meus pecados? Claro que não, respondeu a bombonzeira.

Rindo, concordei com ela.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Homahs
No Comments

O filho curubento


Neuton Corrêa*

Pela janela do 541, passei a acompanhar a mulher que caminhava na calçada, ao lado do ônibus. Tomei-a como referência para ver se ela ou a fila de carros se deslocaria mais rápido. Ora a mulher ultrapassava o ônibus, ora era ultrapassada. E assim tentei gastar o tempo enquanto o trânsito da avenida André Araújo estava travado.

A mulher que porfiava com os carros entra numa rua à direita. Perco a distração. Logo, porém, surge outra: uma moto com uma caixa de som. Trazia a voz de Zé Ramalho com a música “Admirável gado novo”. Era o tema perfeito para comparar o rebanho de carros enfileirados, tocados sabe-se lá para onde.

A moto passa. Já não tenho mais nada para enganar minha cuíra. Quando o suor começa a molhar meu pescoço, escuto, atrás de mim, uma conversa entretida. Eram duas vozes adultas. Uma delas parecia ser de uma idosa. Fiquei tentado a virar o pescoço, mas me contive para não incomodá-las.

Peguei a conversa pela metade. Elas chamavam uma para outra de vizinha. Ao me concentrar no diálogo, a voz mais velha indagava:

- Vizinha, o que a senhora está usando?
A outra responde:
- Sebo de Holanda.
- Ah! Então, a senhora vai ficar boa.
Mas a amiga discorda.
- Estou passando há dois dias e não melhorei nada.
- Não, a senhora vai ficar boa, vizinha. A senhora está emplastando bem?
- Tô!
A vizinha não se convence e insiste:
- Esse sebo que a senhora está usando é o da caixa verde? Olha, sebo bom é o sebo da caixa verde.
- É desse mesmo que eu estou usando.

A conversa continua. A vizinha mais velha faz outras recomendações, mas nada anima a parceira. Alguns dos remédios que ela receitava me fizeram lembrar o quintal de minha avó Felizbela que era cheio de planta para dor de tudo.

Lembrei, por exemplo, do mastruz, que plantava perto do banheiro, no fundo do quintal. Lembrei do rinchão, que ela cuidava numa bacia velha, perto da cozinha. Lembrei do capitiú e da árvore de sacaca, perseguidos pelos vizinhos que usavam as folhas para dar banho em curumim brabo.

Enquanto me ocupava a lembrar do quintal da vovó, ouvi a vizinha-médica buscar outra solução:
- A senhora já usou iodo?
A outra questiona:
- Iodo?
- É, iodo é bom para tudo.
A vizinha mostra interesse:
- Onde eu encontro?
- Tem no sal. Mas ninguém sabe se eles põem. Então, é melhor ir na farmácia.
Notei, pela voz, que a mais nova estava mesmo disposta a usar o produto, principalmente quando ela perguntou:

- Como eu uso isso?
- Basta colocar um pingo na água e tomar.

Ela ainda pede mais informações, mas a interlocutora dá um exemplo da própria casa.
- Olha, meu filho tomou e foi bater e ver.
- E o que ele tinha?, indaga a mais nova.
A conselheira baixou o tom da voz e sussurrou:
- Ele estava cheio de curuba, pano-branco e impinge. Tá bonzinho! Sumiu tudo!
Imaginando a pele do curubento, cheguei rápido em minha parada. Elas continuaram a conversa e a viagem. E eu desembarquei.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

No Comments

Lucas e Daiane


Neuton Corrêa*

O anúncio de Lucas me fez lembrar Daiane, que não conheci.

Lembrei de Daiane, porque o anúncio de Lucas tem me acompanhado nas últimas semanas. Em qualquer ônibus que entro, lá está, no vidro da cabine do motorista, o cartaz grudado. Ao centro, a foto dele; abaixo, vários números de telefones; acima, em letras graúdas, a palavra “DESAPARECIDO”.

Desde Daiane, havia prometido a mim mesmo que nunca mais escreveria casos desse tipo. Afinal, nos anos que se passaram, até onde acompanhei a história dela, não consigo vê-la de volta com os pães na mão, como um dia sonhei.

Mas, perseguido pelas buscas a Lucas, não resisti e, como quem tira a sorte, escolhi um daqueles números do anúncio e anotei em um pedaço de papel, com a intenção de perdê-lo, porém foi em vão.

Ontem, no entanto, ao revirar minhas coisas, encontrei o papel e não perdi tempo. No primeiro toque, alguém atendeu à chamada. Pergunto quem estava falando e a pessoa diz: “É mãe do Lucas”. A resposta e a presteza diziam tudo.

Dona Lindinalva, há quatro meses, aguarda o filho voltar para casa suado, queimado do sol e com o papagaio de papel pendurado nos dedos. Era isso que o rapaz de 17 anos fazia quando foi visto pela última vez na tarde do dia 1º de março de 2009, no Boulevard Álvaro Maio. “Ele era meu companheiro, meu amigo. Me ajude! Por favor, estou sofrendo!”

O apelo da mãe de Lucas fez rodar em minha cabeça o drama de Daiane, que nunca se apagará de minhas lembranças. Daiane saiu meio-dia para comprar pão para o almoço e não voltou mais para casa. Nem se despediu dos três irmãos pequenos dos quais tomava conta. Estava adolescente, mas a inseparável boneca e o corpo miúdo ainda a faziam criança.

Conheci sua a história por acaso. Subia para a redação, quando fui abordado por um homem baixinho e franzino na portaria do jornal onde trabalhava. Ele queria anunciar nos classificados o desaparecimento de sua filha. Disse a ele, porém, que o assunto despertava interesse jornalístico e me prontifiquei a sugerir a pauta e a fazer a matéria. E assim aconteceu.

Além do sumiço da filha, outra coisa angustiava o pai: a pergunta que passou a ouvir do filho de cinco anos todo dia. “Papai, cadê a mana?”, contou-me ele, com os olhos embaçados nos raros momentos em que deixava escapar a dor de sua alma.

Na busca por Daiane, refiz com ele o caminho que passou a percorrer de sol a sol desde que a menina desapareceu. Estava tão conhecido que por onde passava as pessoas gritavam: “E aí, encontrou?”. Ele sempre respondia: “Vou encontrar”. E foi assim nas cinco horas que acompanhei sua busca solitária.

Depois disso, retornei à casa dele para conhecer onde Daiane vivia, no bairro Nova Floresta. Tão logo escalamos o barranco onde moravam, um menino correu em nossa direção e choramingou: “Cadê a mana, pai. O senhor achou? Ela vai voltar?”. A resposta veio com desespero e lágrimas. Ninguém se conteve. E eu, até hoje, cinco anos depois, não consigo esquecer Daiane, que nem foto tinha.

PS: Quem tiver alguma informação do Lucas Nogueira, de 17 anos de idade, pode ligar para o telefone 3232-3224.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.

Ilustração: Heli.
No Comments

O vendedor de filtro

Neuton Corrêa*

A fila do 300 se agitava como uma sucuri pronta para o ataque. Já estava grande, mas aos poucos crescia ainda mais. Eram passageiros apressados esticando o rabo da cobra grande, que aparece todo dia no Terminal da Cidade Nova (T3). Eu estava a 30 metros da cabeça da grande serpente.

Nada, porém, destoava do cenário comum do começo do dia naquele terminal. O incomum foi a presença de uma Kombi velha. Ela não estava no T3. Ficou do lado de fora. Tão logo chegou, o motorista ligou um equipamento de som montado no capô do carro e o testou, com alguns toques de dedo sobre o microfone.

Assim que vi o palco montado, sai da fila. Percebi que não fui o único. Um cidadão que carregava uma pasta preta também esperou o show. Era um rapaz que calçava sapatos bico fino, vestia calça e camisa de mangas compridas e engasgava o pescoço com uma gravata listrada.

Alguns minutos depois, mais dois veículos se juntaram à Kombi. Eram dois carros de luxo. A curiosidade aumentou. Do primeiro, desceu um homem de terno e gravata. Levantou o cós da calça, tomou o microfone, testou o equipamento, olhou para a fila do 300 e fez sinal de positivo na direção do terceiro veículo.

A esta altura, amigos do busão, eu também já estava agoniado para saber que tipo de espetáculo sairia de lá, quando, finalmente, surge a estrela da festa. Reconheci na hora.
Era um vereador: pele clara, louro e óculos fundo de garrafa. Sua fala nem parecia discurso político. Comunicava-se como se estivesse fazendo uma homília.

Lembro-me, ainda muito bem, do primeiro tema da pregação daquele vereador. Começou atacando o transporte coletivo de Manaus. Repetiu várias vezes que era preciso quebrar a caixa preta da planilha. E, olhando para os ônibus que saíram superlotados, dizia que aquilo era uma humilhação.

Ao tocar em outro assunto, o problema da falta d’água na Zona Norte da cidade, notei que os olhos do meu parceiro de terminal que segurava a pasta, brilharam. Tudo que o vereador falava, ele concordava. Tanto que o flagrei, várias vezes, erguendo o braço para socar o ar, em gesto de protesto.

O parlamentar também ficou animado com a empolgação do rapaz. Ao terminar seu pronunciamento, dirigiu-se ao público e fez uma provocação: “Quem quiser fazer uso da palavra, poder vir que o microfone é democrático”. Mal fechou a boca, o moço da pasta levantou o braço e gritou: “Eu quero falar”.

Esperei para ver. Afinal, há décadas a Zona Norte sofre com falta d’água. Assim que tomou a palavra, discursou: “É verdade, o vereador tem razão. Temos que resolver o problema da água e eu tenho a solução”.

Em seguida, ele pediu ao vereador que segurasse o microfone. Nessa hora, a plateia estava curiosa. De repente, ele abre a pasta, tira um objeto branco, levanta-o e diz: “Esta é a solução. É o Multi 1.500. Mais do que um filtro. É um processador de água. Vou atender aqui mesmo no terminal, na fila do 300”.

Desapontado, o parlamentar desmontou o palanque.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.
Ilustração: Homahs

No Comments

Quem se importa?

Ivânia Vieira*

O Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), divulgado ontem, em Brasília, expõe uma das maiores tragédias brasileiras: a morte como herança deixada a centenas de adolescentes e jovens.

Se olharmos, de forma mais cuidadosa, os jornais de hoje, é possível perceber nas matérias e/ou nas fotografias o retrato, em 3×4, desse infortúnio. Separada por editorias, a tragédia se realiza voraz e silenciosamente, como se uma notícia em ‘Política’ não tivesse elo com a de ‘Cidades/Polícia’, lugar onde essas informações circulam.

É um recorte dessa terrível história brasileira que ora está sendo apresentado por esse estudo feito por meio do programa Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens. A existência do instrumento, hoje, talvez seja a notícia boa, pois permite à sociedade ter em mãos uma amostra de um drama nacional. Eles são 33 mil adolescentes que, de acordo com o IHA, serão assassinados entre 2006 a 2012, se não mudarem as condições de vida nas cidades em que vivem. O trabalho coordenado pelo Observatório de Favelas é fruto de uma iniciativa conjunta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-Uerj).

Integram a sondagem 267 municípios com mais de 100 mil habitantes. No Norte do País, Marabá, no Pará, aparece em pior situação. O IHA da cidade é de 5,2 vidas perdidas tendo como motivação a violência. Manaus, Boa Vista, Rio Branco e Belém apresentam níveis intermediários de um a três adolescentes assassinados em cada grupo de 1.000. Não há política pública para essa população. Há um atentado, diariamente realizado. A omissão é quase generalizada.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

No Comments

O mundão da telinha

Wilson Nogueira*

Zapeando, vê-se de tudo um pouco. A TV é show. É dez! É espetáculo por excelência. Não importa se a imagem é de um velório ou de um clip de Michael Jackson. O choro feliz ou desgraçado é um show. Zapear significa andar meio sem rumo nesse espetáculo formidável. Zapeando, encontrei o prefeito Amazonino Mendes despedindo-se do ex-governador Gilberto Mestrinho. A frase boiou meio embargada: “Foi-se embora um pedaço de mim!”. A telinha faz a gratidão se transformar em espetáculo. O charme dela atrai até ingratos. Dá pra vê-los e ouvi-los a todo instante. Que o Boto tenha o eterno descanso!

Zapeando, deparei-me com um sujeito boa-pinta que foi preso porque queria aparecer na TV. Genial! Um parêntese, por favor? Concedido o parêntese: (É atribuída a Amazonino uma frase maldosa sobre a função da TV: “A televisão é uma máquina de enganar trouxa!). Fechado o parêntese. Continuemos no caso assaltante boa-pinta. O sujeito foi preso no Centro de São Paulo suspeito de tentar assaltar pedestres com uma arma de brinquedo. Ao delegado, ele confessou que fez um assalto inútil: o assaltado lhe entregou carteira vazia.

Feita a ocorrência, o cara foi solto. Na saída, deu de peito com uma equipe de TV. Queria por que queria ser entrevistado. Outro parêntese, por favor. Concedido o parêntese: (Lembrei que um amigo de Manuel Bandeira, o pesquisador Edson Nery da Fonseca, disse, na Feira Literária de Parati (Flip), que o poeta costumava repetir que não se importava de ser traduzido, lido, publicado e fotografado). Parêntese fechado. Continuemos com o sujeito boa-pinta. Ele não conseguiu a entrevista, mas acabou entrando no noticiário como o ladrão que só queria aparecer na TV.

Zapeando, dei de cara com um pregador cristão de altos decibéis. Penso: será que ele acha que o telespectador é surdo? Justiça seja feita: na hora de colher a oferta eletrônica, o pregador troca o tom agudo e estridente por sussurrar mavioso. A TV é um ambiente mágico – e de mágica também. Vou para outro canal. Sarney, sem tremer uma ruga da testa, dita lições sobre a economia mundial. “Leio mal em inglês, por isso acompanho a crise mundial pelos jornais europeus. Tá sabendo que os remédios da economia clássica ainda não produziram bons resultados”. Análise perfeita. E a crise do Senado?

Rodei o botão dos canais e o soltei aleatoriamente. Olha só: lá está a imagem do boa-pinta, em câmera lenta, sorrindo. A peripécia dele é motivo de um debate entre especialista em comportamento humano. Não, essa não! Mudei novamente de canal. Barco naufraga, na Amazônia, com 180 pessoas a bordo. Uma morreu. Milagre! Sorte! Fatalidade! Azar!. Isso mesmo: desta vez, no rio Negro, bem pertinho do porto de Manaus. A primeira informação é de que o barco estava superlotado. Quantos mais naufragarão, hein?

Um parêntese, por favor? Concedido o parêntese: (A TV é show e, talvez, até máquina de enganar trouxa. É verdade. Mas é verdade, também, que ela presta enorme serviço à população. São frequentes as reportagens, muitas delas em nível nacional, sobre a insegurança da navegação nos rios da Amazônia. O alerta, entretanto, não comove os que lucram colocando em risco a vida alheia).

Não há mais clima para zapear.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

No Comments

107 leituras!

Michelle Portela*

Prenez soin de vous (Cuide de vós) foi o título da carta de rompimento de um namoro de sete anos que Grégoire Boullier escreveu para Sophie Calle, aquela que fez valer a máxima de que pior do que uma mulher ressentida, só um homem humilhado. E foram 107 vezes que essa humilhação ocupou a cabeça do escritor. Desiludida, a artista conceitual francesa mais importante da atualidade pediu que diversas mulheres interpretassem a tal carta do seu namorado escritor para uma exposição, revelada na Bienal de Veneza de 2003. A rigor, transformou o título da carta em tema de obra de arte.

Advogada, médica, atriz, cantora, pianista, bailarina, cozinha, palhaça, profissionais outras somaram-se até fechar o círculo em torno da carta. Algumas dóceis, outras bravas, sempre brutais. “107 terríveis vezes”, reclamou Grégoire durante o reencontro público com a ex-namorada na Festa Literária de Paraty (Flip), com quem dividiu uma mesa de discussão só para maiores.

Ela, a bela artista. Ele, mais uma vez “O convidado surpresa”, título do livro que lançou quase ao mesmo tempo em que a exposição alcançou o ápice do sucesso na França. Surpresa mesmo foi encontrar esse escritor inúmeras vezes caminhando em ruas feitas para mim, com um sorriso cortado por um cigarro nos lábios, com leves sinais de embriaguez.

Descobrir Grégoire denuncia porque Sophie quis vingar-se. “O convidado surpresa”narra os acontecimentos em torno do primeiro encontro com Sophie. Como ritual, a artista realizava uma festa de aniversário em que convidava o número exato de pessoas correspondente à sua idade, mais uma que representaria o ano que estaria por vir. Cada linha sem parágrafos do livro que se lê em poucos fôlegos não mostram nada do cenário, mas encadeiam os pensamentos e sentimentos tidos e vividos naqueles momentos.

A partir dele, me perguntei a respeito da exploração da intimidade com finalidades artísticas para perceber que meu questionamento pouco importava, já que a arte nunca é sobre o público ou o privado. A arte é sempre sobre a interioridade de um sujeito. Por isso mesmo, entre a arte e a vida, escolheria a segunda. Nem ele, muito menos Sophie são vítimas de seus trabalhos.

Amante, escritor, jornalista, andarilho. Grégoire é um sujeito que entrou para a minha vida como um indivíduo capaz, inclusive, de reconhecer-se a si próprio como alguém. Ao ler a carta, comoveu-me como ele admitia amar três outras pessoas além de Sophie, sendo, por isso, incapaz de oferecer fidelidade. Coloquei-me a pensar se seria capaz do mesmo: reconhecer e admitir tal circunstância. Já sei, porém, que ele tem muito a me ensinar.

“Não importa quem, somos personagens do romance de nossa própria existência.”
Grégoire Boullier

*Jornalista, mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia.

No Comments