Archive for agosto, 2009

O último combatente

Neuton Corrêa*

Com uma envergadura enorme, o Combatente 1481 (lê-se quatorze oitenta e um) entra em forma na primeira fila da primeira coluna do pelotão. Esforçava-se para obedecer às ordens de direita e esquerda volver com os mais vívidos movimentos do corpo. Afinal, estava a alguns minutos de realizar o sonho de empunhar o fuzil e carregar o cantil na cintura para combater alemães e italianos na Segunda Guerra Mundial.

Naquele dia, em frente onde hoje é o Colégio Militar, no Centro, o Exército realizava a formatura de despedida dos pracinhas amazonenses que embarcariam para a Europa. O navio que os levaria estava no porto. À espera da jovem tropa, nem deixou esfriar os vapores. Mães, filhos, amigos e namoradas choravam. Pois a única certeza da partida para uma guerra é a incerteza do retorno.

O Combatente 1481 estava ali, no vigor de seus 20 anos de idade, imaginando-se ao lado dos aliados. Tudo estava certo. Passou meses no quartel em treinamento. A boina na cabeça e a mochila verde-oliva nas costas eram mais do que a certeza de que iria para o front. A certeza era tanta que já se imaginava de volta para a casa, sendo recebido com honras e medalhas.

Meus pensamentos reconstituíram todas essas cenas depois que li, em nota de jornal, a morte do penúltimo pracinha de Manaus que foi para a guerra. Ele também sonhava com as honras militares no dia de seu enterro. O fim de sua vida veio na semana passada, mas as honras, não. A família, segundo a nota, chegou a comunicar o Exército, que não quis saber desse herói do passado.

Depois de ler a notícia, imaginei: será que foi assim o fim do Combatente 1481? (Nem sei se ele ainda está vivo.) Considero-me um sujeito de sorte por tê-lo conhecido. Foi em agosto de 1999. Eu estava de saída do Jornal do Commercio, no Japiim. E ele estava em uma parada de ônibus, ali perto.

Assim que me aproximei do banco de concreto e fiz menção de que iria sentar, pulando, ele se levantou rapidamente. Tomei um susto! Mas, no mesmo instante, percebi que ele havia erguido corpo, estufado o peito, grudado a mão esquerda na coxa esquerda e levado a mão direita à altura da testa, como se estivesse batendo continência para mim.

Achando que aqueles gestos eram brincadeira, resolvi entrar no espírito militar que lhe tomava conta e interpretei uma voz de comando: “Fique à vontade, guerreiro!”. No mesmo instante, ele desarmou a continência e eu lhe perguntei: “O senhor é militar?”. E ele, prontamente: “Sou o Combatente 1481. É só que o posso lhe dizer, senhor”.

Ri da brincadeira, mas ele instituiu. “Eu estou em missão desde a Segunda Guerra Mundial”. Foi aí que pedi que me contasse sua entrada no combate. Depois de ouvi-la, fiquei curioso para tentar saber o que se passou nos momentos finais do embarque no navio. Só então conheci sua história.

Na marcha até o porto de Manaus, o Combatente 1481 liderava o pelotão. Estava suado. Seria o primeiro a subir a rampa da embarcação. Antes, porém, de escalar o navio, o comando ordenara: “Grupamento, atenção! Temos um último comunicado: Pensamos em tudo, pensamos no front, na vanguarda, pensamos nas armas. Só nos esquecemos de cuidar da retaguarda”, relatou meu parceiro de parada que, naquela época, em 1999, tinha 72 anos.

Depois disso, com um olhar penetrante, ele continuou: “O comandante me olhou e me disse: ‘Combatente 1481, pela rara habilidade que você possui, será mais útil na retaguarda. Você vai ficar aqui para confortar a família de seus companheiros. Sua missão será levar as notícias da guerra sobre os seus amigos. Até hoje, da minha turma, sou o único que continua em missão’”.

Meia hora depois, o 009 Japiim-Hiléia passou e continuamos a conversa.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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‘Para que fique perene…’

Ivânia Vieira*

A motivação, no início do dia, era falar da volta às ruas do movimento popular. Saudar a turma que foi ontem ao centrão de Manaus – na Praça da Matriz – para uma primeira mostra pública do déficit da cidadania local. Era também discutir e tentar compreender, nesse manifesto, a batalha para vencer um longo período de indignação dispersa e traduzir o sinal dos ativistas em direção à construção da rearticulação e do re-conhecimento de seus pares em meio a multidão. Mas, uma notícia na TV interrompe o almoço apressado e mais uma vez faz a gente sentir um aperto danado no peito: o poeta Aníbal Beça morreu.

A TV fez desfilar algumas cenas desse sujeito de cara boa, do tipo que faz da conversa improvisada um grande encontro. Um homem menino nos comovendo com seus antídotos em forma de poesias despretensiosamente disponíveis em nossos endereços eletrônicos.

Em tantos dias difíceis, foram esses presentes a porção mágica para abrir o sorriso e seguir em frente. Quem fará isso agora? Imagino Aníbal num outro encontro, com uma turma que, certamente, fará festa graúda. Afinal, assim costumava acontecer, por aqui, quando se encontravam. Juntos, eles nem sentirão falta do pato no tucupi, do peixe frito ou assado… Nós sim sentiremos uma falta danada desses encontros e da possibilidade de fazê-lo real. Já não é mais possível agendar.

Quem sabe no percurso dessa outra viagem, Aníbal Beça já esteja compondo a utopia da resistência numa praça central dessa cidade imensamente amada por ele.

Então, diante do poder da criação, peço licença para recortar o “Anúncio” de Aníbal e repetir, para todos nós, sem ele, que:

“É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.

Experimentar o gesto no corpo da amada (do amado).

Imprimir no toque a tatuagem serena para que fique
perene quando for saudade:

A vida se amplia num flash de coisas pequeninas, e o
que ficar são ecos de melodia transitória”.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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"O povo era eu"

Neuton Corrêa*

Amados de todos os sábados, peço-lhes desculpas pela crônica passada, aquela do “Deputado Pirarara”, que durante um comício engoliu um eleitor e a mãe do eleitor. Nela, citei o nome do personagem Marupá, mas não escrevi uma linha sobre ele. O leitor José Augusto mandou uma carta me esculhambando por causa disso.

Pois bem, Zé, Marupá é o Euler. Profissão: carregador de candidato. Isso mesmo, carregador de político em tempo campanha. Hoje, com 20 anos de atividade, desenvolveu uma impressionante força e resistência para o exercício da profissão, que o Ministério do Trabalho ainda não reconheceu.

Tem outra qualidade, da qual costuma gabar-se, a de perceber quando um político está bem ou está mal em relação ao eleitorado. É só olhar com quem ele anda. Nunca está longe do poder. Quando sente que a situação não está boa, corre para as bandas daquele que está melhor. E, assim, nunca perdeu uma eleição.

Em 2004, por exemplo, servia ao prefeito Sorriso de Jesus, filho de tradicional família de políticos de Parintins que ocupou todos os cargos eletivos que bem quis. Naquele ano, porém, Euler passou a observar que a força do grupo ao qual servia estava se definhando, após 40 anos de poder.

Notou o enfraquecimento quando Sorriso de Jesus passou a conversar em códigos com o pai. Certa vez, disse Marupá, o prefeito havia acabado de deixar o porto de uma de suas cinco ilhotas, no derredor da cidade, quando o patriarca viu o adversário passar com um helicóptero e o advertiu: “Meu filho, o negócio está difícil: nós aqui por baixo e eles lá por cima”.

Depois de ouvir essa e outras comparações, em plena campanha, Marupá trocou de candidato. E não se envergonha de contar isso. Aliás, conta detalhes do tempo em que serviu aos antigos coronéis da Ilha Tupinambarana.

Em uma rodada na última festa da padroeira da cidade, contou que viveu um drama no último comício da eleição do pai de Sorriso a deputado estadual. O evento foi precedido de uma caminhada, que levaria o candidato ao palanque. Marupá caminhou mais de cinco quilômetros preparando-se para carregá-lo a qualquer momento.

Quanto mais a caminhada se aproximava do local da festa, mais o candidato se empolgava. O apresentador do comício, Carlos Augusto dos Gelos (hoje vereador Tambaqui), não cansava de falar das qualidades do político e a anunciar: “Ele está vindo aí, ele está chegando, carregado nos braços do povo”. Aquilo deixava Marupá em êxtase.

A festa foi crescendo. A quinhentos metros do local, Euler recebe a tão esperada ordem: “Vai, entra embaixo”. Marupá não perdeu tempo. Foi por trás do candidato, meteu o cangote no meio das pernas do velho político, pôs o candidato no ombro e o conduziu até palanque.

Dessa chegada festiva, Marupá contou alguns detalhes: “Quando o velho já estava agasalhado em cima de mim, senti aquele negócio estranho lambando minha cara. Pensei em soltar minha mão da perna dele, para jogar aquele grão para trás, mas, se eu tirasse, ele poderia cair. A situação ficaria pior. Eu tinha que aguentar. E agüentei! Afinal, o povo carregando o deputado era eu!”.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Homahs
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Entre a placa e a cartolina

Ivânia Vieira*

No ritmo incerto das obras na cidade, a população de Manaus sofre. Paga um preço alto demais pela omissão dos poderes quanto ao dever de fazer funcionar serviços fundamentais como o abastecimento de água, de energia elétrica e de telefonia.

As grandes placas coloridas carregando slogans das administrações parecem provocar o povo que come poeira, enfrenta um dos piores períodos de alta temperatura, confusão no trânsito e falta de saídas alternativas para essa situação caótica.

Há uma parcela de gente que não pode sequer tomar um segundo banho, pois a água voltou a ser escassa. Na outra ponta, a insegurança pública completa esse enredo. Mulheres, crianças e adolescentes continuam levantando suas cartolinas para pedir socorro e para pedir que as autoridades públicas cumpram com suas responsabilidades.

Em meio ao grande tormento que é ir e vir na cidade, que é chegar em casa e não ter acesso à água e à luz, começam a aparecer os salvadores da pátria ocasionais. Usam velhos recursos de manipulação pois têm certeza de que ainda é possível fazer o mesmo discurso e obter mandatos. As viciadas palavras de ordem estão nas emissoras de rádio e nos programas de televisão, retomadas ‘despretensiosamente’ por figuras que se anunciam um pouco antes da campanha eleitoral de 2010 como preocupadas com “a crítica situação do povo”.

As cartolinas, no embate com as placas, podem fazer a diferença. Quem as levanta como bandeira denunciando as mazelas da população tem a tarefa de caminhar para além do imediato e criar base mais sólida. Tem a missão de se posicionar contra aqueles que usam o povo como massa de manobra, de questionar o preço das refeições e dos serviços oferecidos “gratuitamente” nessa época pré-eleitoral. Esse é um bom momento de aprender para ver mais longe e tomar decisão em favor da sua própria existência com mais qualidade, mais dignidade e respeito a sua condição de gente.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Deputado Pirarara

Neuton Corrêa*

O homem que revirava a lixeira na parada do 422 me fez lembrar o ex-deputado Pirarara. Era um cidadão de braços potentes, cabelos grisalhos e pele branca. O que me fazia associá-lo ao ex-parlamentar eram os detalhes do rosto avermelhado, lábios descascados como escamas de cobra e a boca desnudada.

A última vez que vi o Peixe, em Parintins, ele estava na fila de um mutirão da Prefeitura para experimentar uma dentadura. Naquele dia, balançando a cabeça para cima e para baixo, Marupá comentou perto de mim: “Quem diria! Nem parece que esse homem já foi deputado. E um quase secretário de Estado!”.

Sim, Pirarara já foi um homem poderoso, tanto na política quanto no gado. Era dono de muitas terras, muito gado, muitos barcos. Mas sua fama não veio do mandato nem dos bois que criava. Popularizou-se pelo gênio forte, pelos discursos e pelas tiradas que dava para se livrar dos eleitores incômodos de época de campanha.

Testemunhei uma dessas tiradas em outubro de 1992, quando ele se lançou a prefeito de Parintins. Eram quatro candidatos ao cargo. Fui designado a cobrir a reta final de sua campanha. Nesses dias, ele fazia jus ao nome. Estava mais escorregadio do que peixe liso.

Sem se importar com as condições, um eleitor se aproxima dele e diz: “Sêo Pirarara, eu queria uma ajuda sua. É que o meu filho morreu e eu preciso de um caixão…” Antes que o homem concluísse os argumentos, Peixe respondeu, quase cantando: “Pareeennte, eu não mexo com isso. Quem mexe com isso é o Irío (À época, dono da primeira e única funerária de Parintins). Ele é que sabe fazer caixão. Vá lá com ele”, recomendou.

Com a resposta, o homem encarou o candidato e fez outro pedido: “Então me ajuda a voltar para comunidade”. Pirara mostra interesse em atendê-lo e pergunta: “E como posso lhe ajudar?” O cidadão responde: “Me arranja aí um litro de gasolina”. O candidato lhe diz: “Poxa, parente, eu também não mexo com isso. Quem mexe com isso é o Dodó Carvalho (Dono de uma rede de postos de gasolina). Ele é que mexe com isso”.

Mas a história que mais marcou a campanha dele, naquele ano, foi a do discurso que fez em sua terra natal, uma comunidade ribeirinha do rio Amazonas. Lá, ele subiu num palanque improvisado e começou a fazer promessas de eleição:

“Povo da Costa do Boto, se eleito eu for, vou aqui mandar construir uma escola. Não será uma escola de madeira, não. Vai ser uma escola em alvenaria”. Do meio do mato, porém, ouviu-se uma voz de oposição que gritava: “É mentira dele.”

Pirarara não se abateu e continuou: “Não é mentira, não. Vou construir não apenas uma escola. Aqui também vou mandar fazer uma estrada para escoar a produção de vocês”. Do meio do mato, de novo, a voz cavernosa continuava: “É mentira dele”.

Pirarara mostrou-se ainda mais irritado e aumentou a promessa: “Não é mentira, não, minha gente, povo da terra onde nasci. Não vou construir somente a escola e a estrada. Quando eu chegar no ‘puder’, vou construir a escola, a estrada e um barco, pra levar a produção daqui para a cidade”. A voz do meio do mato gritou: “É mentira dele. Pirarara come gente”.

Pirarara perdeu de vez a paciência e concordou com a oposição: “Come, filho da p… Come gente, mesmo. Come a tua mãe também. Aparece aqui, vem aqui na minha frente que eu vou te comer também”.

O 422 apareceu, olhei novamente para o homem da lixeira e embarquei rindo das lembranças do Peixe.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Riachão

Lúcia Carla Gama*

Acho que só agora a ficha caiu: o Riachão está à venda. Não sei o preço cobrado nem sei se aquilo ali tem valor que o dinheiro possa pagar. Mas o fato é que está à venda. Tá bom que esta é outra época, meninos adultos, virando pais, outras relações estabelecidas, adultos ficando velhos e a “civilização” tomando conta do que era no meio do mato.

Localizado num braço de igarapé do banho que um dia foi a Ponte da Bolívia, guardo do Riachão deliciosas lembranças. Antes e primeiro de tudo da água farta e escura, que certamente lhe rendeu o nome de batismo. Havia uma época do ano em que o rio particular ficava tão cheio que inundava uma ilha bem no meio do sítio, encostando na ponte de madeira que dava acesso à dita ilha. Nadar ali, naquelas condições, era uma aventura. E tanto assim que comecei a freqüentar o local, com uns sete, oito anos. Também era aventura descer, levada pela força das águas, até o tronco que dividia o Riachão do sítio vizinho e depois subir de volta, literalmente, contra a correnteza.

Lugar de areias brancas e escuras, o Riachão fica onde hoje é o bairro Nova Vitória. Ali, nas redondezas, há uns 25 anos, havia enormes reservas de areia que Alex, André, Lulinha e eu explorávamos algumas vezes a pé, sol fritando os miolos. Eram tão grandes os montes que nos divertíamos escorregando sobre papelões e, àquela altura, imaginando estar nas dunas nordestinas. Também arriscamos ali o primeiro contato com o volante num Fusca branco que não convém contar a origem. Era uma aventura dirigir na estrada arenosa, esburacada e alagada em tempos de inverno amazônico, quando chove num dia e no outro também, mas nós nos divertíamos a não mais poder.

Aliás, foi numa época dessas, de inverno, que voltando do Riachão para casa, papai achou que podia transformar, por um momento, o AM-5990 num barco e passou com o Fusca no meio de uma enorme poça d’água. Foi entrar e o carro alagar completamente. O que restou foram as sandálias flutuando e o vô Petrônio voltando no dia seguinte para resolver o caso. Nós pegamos carona naquele final de dia.

Domingos eram os dias de Riachão. Num tempo em que a fiscalização de trânsito não era das mais rigorosas, nós íamos apertados em carros pequenos ou, um tempo depois, quando as coisas melhoraram, íamos de caminhonete, atrás, na carroceria. Tinha cantoria e piadas no caminho.

Chegando lá, havia churrasco, quase sempre coordenado pelo Joãozinho, botafoguense desses chatos mas gente boa, que já não está mais entre nós. Havia também um vôlei disputado a ferro e fogo sobretudo pelo Alex e André. Lembro direitinho do tamanho do bico de um e da expressão de raiva do outro quando a vitória nas partidas de brincadeira não vinha.

Havia a turma do baralho, sentada à mesa, um olho nas cartas, outro no ambiente e as línguas – afiadíssimas – trabalhando sem parar.

E, havia, ainda e claro, muita, mas muita mesmo, conversa fiada. E gaiatice como as que reproduziam antigos “reclames”, inventados ou verdadeiros: “Não existe mulher frouxa, seu pau que é fino. Se seu pau é fino, tome Engrossolino. Engrossolino é da Bayer, e se é da Bayer é bom!” e “Cagar todo mundo caga, mas cagar com elegância só nos penicos da Casa Bragança, de Pixita e Cia”. Nunca mais esqueci estas pérolas, que acabei usando recentemente, devidamente adaptados, na apresentação de um trabalho em equipe na pós-graduação.

Rodeado de areia por todos os lados, o Riachão produzia muito jambo. Nos tempos desta fruta amazônica os pés das árvores ficavam atolados da frutinha vermelha, tinha tanto que, de verdade, fazia lama. Também tinha caju, mas em quantidade infinitamente menor.

E foi no campo deste Riachão que assisti a uma das maiores manipulações de resultado de um jogo de futebol, num tempo em que a cartolagem e a compra de árbitros eram coisas muito bem escondidas. Alex e André fazem aniversário com três dias de diferença e, claro, a festa era uma só. Num ano qualquer, o tema da festa era futebol, com uma disputa entre Flamengo e Vasco. Os primos compunham os times de cada um. Nem lembro quem era Flamengo e quem era Vasco, mas o certo é que o jogo teria que terminar empate. De qualquer jeito, sem nem ser levados em conta o talento e a disposição de jogar de cada atleta. E assim foi: com pênalti arranjado, batido e repetido e o fim do jogo antes do tempo, o placar foi de um a um.

Tempos depois, com eles já maiores, houve uma disputa de vôlei para comemorar os aniversários, mas àquela altura já não dava mais para enganá-los com tanta facilidade e o time do Alex acabou vencendo para desespero do André e seu bico de meio metro.

Além dessas, são muitas as lembranças do Riachão. As festas juninas, os jogos da Seleção assistidos ali, as músicas ouvidas, a alegria pelo encontro, as crianças – hoje homens e mulheres – correndo e fazendo barulho, a mesa de ping-pong, as histórias da dona Idá, a fofoca que não falta em lugar nenhum do mundo, os cafés da manhã, as noites estreladas que Lulinha, André, Alex e eu curtíamos do alto da caixa d’água e nas nossas filosofias juvenis falávamos da imensidão do mundo, da vida, dos mistérios e da expectativa de uma noite ver um disco voador pousando no antigo campo de futebol.

Pode ser que o tal disco pouse, um dia, ainda, e, que pena, nós não estaremos mais lá para ver. Pela caixa d’água no lugar de água farta no meio da imensidão de areia nós já passamos, como o tempo, que faz com que nada do que foi seja de novo do jeito que já foi um dia.

*Jornalista.

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Roberto

Lúcia Carla Gama*

A notícia chegou cortando o ar gelado desta São Paulo imortalizada como Sampa por Caetano Veloso: mataram o Roberto, filho do Gaudêncio! Como assim!? É isso mesmo, ele levou uns tiros ao reagir a um assalto na lan house e morreu. A respiração parou, o coração disparou e a mente seguiu para junto dos pais daquele filho único, jovem de 30 anos.

Lembro do Roberto pequeno ainda, correndo na rua em frente à casa da avó que era vizinha da minha avó, lá pelo que já foi um dia o Boulevard Amazonas. O nome foi dado pelo pai, Gaudêncio, vascaíno fanático, que resolveu homenagear um dos grandes ídolos da torcida alvinegra.

Não era dos piores meninos em danação, mas dava o que falar quando estava na área. Enquanto os pais, Gaudêncio e Raimunda, conversavam na calçada em frente à casa da vó Maria, num hábito cada dia mais incomum, Roberto corria de um lado pra outro da rua com meus primos pequenos. E eles faziam o barulho devido, chamando atenção dos adultos que os recomendavam cuidado com os carros.

Nos Natais também era comum o encontro. Gaudêncio, Raimunda e Roberto iam sempre ao Boulevard desejar boas festas, saúde e sucesso. E, assim, fui vendo Roberto crescer até perder de vez o contato, quando as vidas foram tomando rumos diferentes e minha avó, por questão de saúde, teve que deixar a casa de sobrado do Boulevard. As notícias sobre a vizinhança de então são dadas por telefone ou em encontros festivos em comemoração a mais um ano de vida.

Até que mais recentemente minha tia e primos passaram a ter maior convivência com Gaudêncio e Raimunda por conta da compra de uma drogaria. Era o casal se desfazendo do bem que lhes garantiu o sustento para chegar à aposentadoria. Não, Roberto não queria tocar aquele negócio. Tinha o seu próprio, que num primeiro momento não recebia o apoio dos pais. Então, a drogaria foi vendida e uma turma jovem está levando adiante um ponto com mais de 20 anos de tradição.

Num dia qualquer, de passagem pela drogaria, vendo computadores sobre os balcões, Roberto comentou que finalmente a modernidade estava chegando ali, pois na época do seu pai era tudo controlado manualmente. Eram os bons ventos soprando. Os mesmos bons ventos que faziam a lan house crescer, que desfizeram a sociedade de Roberto com um outro rapaz e garantiram o apoio dos pais àquele negócio escolhido por ele.

Estava tudo certo: jovem, boa gente, negócio em alta, o cavaquinho, companheiro de rodas de música, cada vez mais dominado, os pais aposentados e apoiando a iniciativa, até que os assaltantes armados entraram na lan house. Forte, Roberto achou que se garantia e reagiu. Defendia seu patrimônio. Acabou pagando com a vida.

E todos nós ficamos assim, mudos, embasbacados, mãos amarradas, corações pequeninos, temerosos, totalmente paralisados.

* A autora é jornalista.

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Na rede de Pe. Claudio

Ivânia Vieira*

O auditório do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (Sares) estava cheio no sábado (8). Durante todo o dia, mulheres e homens, de diferentes faixas etárias, fizeram do espaço uma arena de debates e ensaios de tomada de decisão.

Nesse mesmo sábado completava um ano da morte de Pe. Claudio Perani. A homenagem a esse sacerdote que conjugou o verbo amar em plenitude e o fez principalmente para os brasileiros mais periféricos, aconteceu do jeito que ele mais gostava de viver, nos encontros, promovendo reflexões, discussões, ouvindo sempre com atenção, falando pouco e de jeito tão brilhante.

O tema escolhido para o seminário do grande encontro foi “ Novos processos políticos na Amazônia”. Em torno desse enredo, militantes do movimento social, pesquisadores, professores, religiosos protagonizaram um rico debate sobre as experiências populares no interior da Amazônia. Reconheceram-se e reencontraram-se nos fios das lutas travadas nos anos 70, 80, 90 e tentaram formular estratégias para inaugurar um outro protagonismo no redesenho da intervenção social nesse começo de século 21.

Pe. Claudio fez da sua existência uma ponte teimosa, determinada, incansável. Olhando agora, também é uma rede larga abrigando nossas diferenças, forjando nos nós do trançado a unidade reinvindicada para que o movimento se renove e siga em frente. É terra fértil. Mobilizada em sua intenção, a militância re-uniu-se, atualizou a agenda dos compromissos e, embalada pelo ritmo do carimbó, descobriu-se mais fortalecida para voltar às ruas.

Aliás, Claudio Perani costumava lembrar que “o lugar do movimento social é na rua, fazendo pressão”. O auditório do Sares desde aquele sábado tem o nome dele e também o seu sorriso que enche a nossa alma e atiça a esperança de construir mudanças nessa Amazônia.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Pela barra pesada*

Wilson Nogueira**

Cansado de lidar com a turma do 171 [colarinho branco], resolvi dar uma volta na [zona] da barra pesada. A idéia era fazer uma reportagem sobre um comerciante da Baixada (coisa da cobertura policial) da Colônia Oliveira Machado que atende os seus cliente armado até os dentes: dois revólveres na cintura e mais uma espingarda de reserva, num canto de fácil acesso.

Como nunca havia estado no lugar, arrumei um guia, um cambista do jogo do bicho muito identificado com a turma dita da pesada. Acertamos tudo. Eu e o repórter-fotográfico João Araújo, também conhecido como Pedro Careca, esperamos o cambista perto da bocada, como é conhecido local no meio policial.

No horário acertado, lá aparece o cara numa motocicleta. “Vamos de moto ou de carro?” Que nada, meu, lá a gente só desce de jacina (helicóptero) ou a pé, respondeu-me o guia. No topo do barranco, João Araújo desistiu. “Fiz muitas fotos desses bichos entrando em cana. Eles podem me agarrar agora. O guia concordou com ele. A máquina dele foi colocada na minha bolsa, para ser usada apenas na entrevista com o comerciante. “Pode fazer você mesmo o serviço”, sugeriu o fotógrafo.

Descemos. O guia, como era de se esperar, é bastante cumprimentado. “Há quanto tempo fora daqui, hein? Em gíria rasgada, o guia concordava, trocava cordialidades e abria caminho: “O cara aqui é gente fina. Veio conhecer o pedaço e fazer uma reportagem com o seu Aldenor”. “Reportagem!”, reclamam todos. Olha lá, cara, não vai colocar o nome da gente no jornal. Aqui não tem malandro, não. Aqui, todo mundo é documentado”, argumenta um deles, o mais agitado, olhando-me firmemente.

Em seguida, um alívio, um pouco mais de confiança entre o pessoal da comunidade e o guia. O rapaz que faz o interrogatório oferece ao guia uma pé-de-borracha (pneu de carro) número 14. Toda essa conversa acontece durante a caminhada até ao bar do sêo Aldenor. Na Baixada não há ruas. As palafitas são interligadas por pontes de madeira. O lamaçal emite um cheiro insuportável.

O bar do sêo Alfredó localiza-se numa língua de terra. É um caixote de alvenaria a partir do qual se espalha uma puxada coberta de zinco. É frequentado por gente cheia de ginga. O sêo Aldenor é um acreano de 56 anos, ex-cabo da Polícia Militar do Amazonas, sujeito de fala mansa. No bar, o guia é encarado com desconfiança novamente. “Qual é a tua, cara. Te explica logo!”. Isso é dito quase em coro. O guia responde: Qualé, tá pensando que eu sou sujeira? O bicho aqui é jornalista. Veio falar com o sêo Aldenor”. O dono do bar está por trás das grades que o separam dos clientes. Na área coberta pela puxada, há duas mesas de bilhar ocupadas por jogadores, que se divertem, também, tomando pinga e fumando maconha à vontade.

Na fachada do bar está escrito, com letras garrafais: “É proibido o uso de tóxicos aqui neste recinto”.

Sou apresentado ao sêo Aldenor. Ele fala pouco, mas o suficiente para justificar a sua preocupação com os problemas da comunidade. A falta de segurança vem em primeiro lugar. “Isso aqui é um lugar perigoso. A gente tem que trabalhar assim: armado até os dentes. Aqui corre muita maconha, mas no meu bar ninguém faz uso dela. A ordem, aqui, está em primeiro lugar”.

O tempo fecha novamente. Os clientes não concordam com o sêo Aldenor. Um deles se manifestou de forma veemente: “Isso [o problema da segurança] é papo do sêo Aldenor. Isto aqui [a comunidade] é a maior limpeza, a maior tranquilidade. Em seguida, fala baixinho no meu ouvido: “Isso é arretamento desse velho!”. Depois, em tom mais alto, pergunta: “Como é que os outros comerciantes daqui trabalham desarmados?”. Com ar de ofendido, sêo Aldenor responde: “Problema deles! Só que aqui tem ordem. Aqui [no bar dele] ninguém fuma maconha!”.

Lembrei-me então das fotografias. Ensaiei tirar a máquina fotográfica da bolsa, mas os clientes começaram a discutir rispidamente. Imaginei que dali, para uma confusão generalizada, seria um pulo. Nesse momento, dei por encerrada a empreitada que mal havia começado. Fui até a mesa de bilhar onde estava o guia e o convidei a deixar o lugar. “Já tirou as fotos?”. Respondi-lhe: “Não, mas não fica preocupado, não. Isso aqui, do jeito que está, vai desandar para outra reportagem”.

O clima permaneceu quente. Um grupo colocou-me sob interrogatório. Repeti, por dezena de vezes, que não era um tira. De nada adiantou. Os rapazes diziam, simplesmente, que não havia diferença entre tiras e repórteres que frequentam as delegacias. Quanto a isso, não estiquei a conversa, fiquei em silêncio. Fui obrigado, pelas circunstâncias, a tomar quatro dozes de cachaça. Ainda deixei duas garrafas pagas.

Apesar do susto, foi uma ótima experiência profissional. De feras acuadas numa delegacia, a turma da barra pesada torna-se destemida no seu território.

Fui convidado a voltar em um dia qualquer na Baixada da Colônia Oliveira Machado. Ao contrário da turma do 171, que faz suas armações à luz do dia e que fecha o bico para a Justiça, corrompendo gregos e troianos, a turma da barra pesada enfia-se nos guetos, teme a Polícia e age mais durante a noite. O jogo é diferente mesmo! Quem [do gueto] cai nas malhas da lei pega porrada e ainda é mandado para o xadrez, sem que tenham acesso aos mesmos recursos da Justiça assegurados aos criminosos do colarinho branco.

*Nota do autor:
Esse texto foi publicado em 24 de agosto de 1986, no Jornal do Comércio, editado em Manaus, Amazonas.

Há algumas semanas passei de carro pela Colônia Oliveira Machado. Observei que a antiga Baixada está toda urbanizada. Lembrei-me que, por muito tempo, essa área frequentou o noticiário policial por conta, principalmente, das bocas de fumo da Rua 13 de Maio. Não havia – como ainda não há até hoje – espaço razoável à disposição do pessoal do bem, que é a grande maioria. O certo é que a Baixada da Colônia era um lugar estigmatizado como violento e dominado pelo tráfico de drogas.

Isso não significa que os traficantes e seus cúmplices não exercessem certo domínio na área. Afinal, esse tipo de gente só prospera no lugar onde o Poder Público é ausente. Urbanização também é sinal de cidadania.

**Sociólogo, jornalista e escritor.

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Mingau de Manga


Neuton Corrêa*

Mingau de Manga é o apelido do Everaldo. Recebeu a alcunha após uma briga de rua. Mas isso foi quando ainda era criança. Naquela época, era chamado por alguns de “E ele morre” e por outros, de “Né, mamãe?”. Na verdade, esses dois agrados foram variações da antonomásia original “E ele morre, né, mamãe?”.

Não recebia os apelidos por acaso. Cada um tinha uma história. O “E ele morre”, por exemplo, foi por causa de um cachorro que caiu num buraco de rua em frente à casa dele. Era um buraco tão grande que o animal, coitado, debatia-se e não conseguia sair. O esforço do cão virou atração da molecada, que passou a atirar pedra no vira-lata.

Penalizado com a tortura, Everaldo fez apelos em favor do cachorro. Ameaçou atirar água gelada na turma, mas ninguém o atendeu. Mingau de Manga se enfureceu. Correu para dentro de casa, pegou uma panela com água e jogou na garotada. Em resposta, colocaram ele para fazer companhia com o pirento.

Mingau de Manga não se intimidou. Enfrentou a turma. Lembro-me ainda hoje dessa briga. Naquele tempo, Bruce Lee era o artista da moda. Não por acaso. Os filmes dele passavam quase todo dia no Cine Oriental. Pois bem, Everaldo ficou em posição de kung fu, deu uns golpes no ar com as mãos e os pés, mas acabou sendo dominado pelo bando.

Assim que percebeu que sua arte marcial não lhe ajudava, Mingau de Manga começou a chorar. E chorou ainda mais quando sua mãe apareceu no meio da confusão com um pedaço de ripa na mão. Foi aí que ele olhou para ela e para o cachorro e falou chorando, com pena do animal: “E ele morre, né, mamãe?”.

Lembrei-me das histórias dele esta semana, durante um engarrafamento na Zona Leste. Eu estava no ônibus, quando ouvi uma voz vinda de um alto-falante montado em um carro velho cheio de frutas: “Fala, Bodó! Fala, Bodó”. Ao ouvir isso, lembrei que aquele era meu apelido. (Preciso explicar: Bodó: peixe feio, porém gostoso).

Assim que olhei para a sucata ambulante, ele repetiu: “Fala, Bodó! Aqui é o Mingau de Manga”. Fazia mais de 20 anos que não o via, mas ainda guardava na memória os traços de sua fisionomia. Pus a cabeça para fora do busão e troquei algumas palavras com meu amigo de infância. Mas, enquanto eu conversava, meus pensamentos viajaram no tempo para recordar a briga que lhe rendeu o apelido.

À época, Everaldo era famoso por se envolver em confusão. Há muito queria brigar com o “Té Pégo”. Té Pégo era um garoto recém-chegado do interior e que arrastava muito o sotaque rural. Cerca com cerca, foi ser vizinho do “E ele morre”. Everaldo passou meses, talvez um ano, querendo medir força com “Té Pégo”, que sempre se acovardou.

Mas um dia perdeu a paciência e disse: “Tó qué? Vem cá!”. Mingau, que naquela época era apenas o Everaldo, se armou para o combate. Colocou o pé esquerdo na frente e o outro atrás. Esticou a mão esquerda quase no rosto do vizinho e a direita posicionou como uma garra de águia à altura do peito. E começou a gritar como Bruce Lee.

Sem estilo, Té Pégo fechou as mãos, endureceu o punho e esperou o ataque. De repente, os dois se embolaram. Té Pégo atracou Everaldo e o atirou no chão com a habilidade de um vaqueiro. E começou a sessão de socos.

Everaldo ainda tentou reagir, mas não conseguiu. Debaixo do rival, então, passou a gritar. “Bate, pode bater que tu vai te ver comigo. Bate, que tu vai te lascar pro resto da vida. Bate, que eu vou dizer pra todo mundo como é o teu apelido, seu Mingau de Manga! Mingau de Manga! Esse é teu apelido. Pensa que eu não sei. Vou espalhar pra todo mundo, seu Mingau de Manga.”

Os gritos de Everaldo viraram gozação na hora e, por caprichoso do destino, o apelido se voltou contra ele para o resto da vida.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Homahs.

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