Archive for setembro, 2009

Os sem-biblioteca

Wilson Nogueira*

O ex-prefeito de Parintins Benedito Azedo contou-me que, certa vez, assombrou-se com a revelação de um também ex-prefeito do mesmo município sobre o hábito da leitura. “Benedito, meu caro, faz ao menos dez anos que eu não passo a vista num livro”. Azedo queria engatar uma conversa sobre o tema de um livro que acabara de ler. Ao ver que a prosa não correria nesse rumo, o leitor entusiasmado convidou o seu interlocutor para tomar um cafezinho numa birosca do mercado municipal, que se localiza em frente ao Palácio Cordovil, então sede da prefeitura. “Aceito o convite, meu caro, até porque, desde que assumi, nunca mais pisei no mercado”.

É isso mesmo! O que esperar de um governante que despreza o hábito de ler e de dar uma olhada nos prédios públicos e históricos da cidade que dirige. A distância entre o mercado e o gabinete do prefeito de Parintins, naquela época, não chegava a 100 metros. Azedo explica que de um governante com esse perfil pouco se pode esperar de melhoria nos setores da educação e da cultura. Em Parintins, por sinal, a ferrugem corrói as estruturas do que seria a Casa da Cultura, caso gestores corruptos não houvessem consumido o dinheiro destinado a sua construção. No papel, consta que o prédio até foi inaugurado.

É preciso cuidado para não generalizar, mas é possível afirmar que gestores que não tenham gosto por livros ou por outras manifestações artísticas venham a incentivá-lo por meio de políticas públicas. Será mais provável, no entanto, que as atividades culturais ganhem relevo se o governante entender que elas são tão importantes para ele quanto para os munícipes. Nesse contexto, o espanto de Azedo, que também poderia soar como piadinha de boteco cult, ganha relevância de crítica embasada na realidade, porque poucas prefeituras reconhecem os projetos culturais como meios de inclusão social.

No ranking das bibliotecas públicas do Anuário de Estatísticas Culturais de 2009, documento elaborado pelo Ministério da Cultura, o Amazonas aparece em ultimo lugar entre os demais estados. Apenas 59,68% dos municípios amazonenses têm pelo menos uma unidade em pleno funcionamento. Trata-se de um dado vergonhoso e preocupante, porque, sem biblioteca, sem acesso aos livros, não há como cobrar qualidade no ensino. Daí para frente se repete o circulo vicioso que impede a população pobre, principalmente, de ter cesso ao conhecimento, tão necessário para o presente e para o futuro.

Meu caro Benedito Azedo, ainda bem que, em nível nacional, os números do MinC são mais animadores. Entre 2005 e 2006 aumentou o número de municípios brasileiros que possuem museus (7%), bibliotecas públicas (4,8%) e teatro/salas de espetáculo (1,5%).

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Por uma ficha limpa

Ivânia Vieira*

A cidadania brasileira acaba de estabelecer um novo marco na sua caminhada. Ao colocar dentro do Congresso Nacional um projeto de iniciativa popular amparado por 1,3 milhão de assinaturas, provoca um espetacular efeito de reação muito além do campo político-eleitoral.

A campanha “ficha limpa”, sob responsabilidade do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), integra um projeto maior – “Combatendo a corrupção” – cujo embrião data de 1996. Há 13 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) identificou a compra de votos como um dos mais graves desvirtuamentos do exercício da democracia. A intervenção proposta à época estava amarrada a um compromisso batizado pelos idealizadores de ação de “mudança estratégica”. É o que está sendo feito, sem perder de vista obstáculos previstos e outros que surpreenderam.

A estrada longa e com muitos trechos desconhecidos provocou momentos de euforia e de desânimo entre os caminhantes. A lei nº 9.840 cujo aniversário de dez anos foi comemorado na segunda-feira (28) é fruto dessa histórica mobilização nacional. Chegar a um milhão de assinaturas foi muito duro. Mas o movimento conseguiu e, em 1º de outubro de 2000, um novo mecanismo legal de combate à corrupção eleitoral entrava em ação. Hoje, mais de 600 eleitos foram cassados por envolvimento em atos de corrupção.

A “mudança estratégica” permanece como bússola. A campanha ficha limpa é, a partir de agora, um projeto para ser votado pelo Congresso Nacional. Significa avanço, pois provoca um debate fundamental sobre quem são os candidatos que querem nos representar, qual é folha corrida deles, os expõem publicamente, obriga-os a prestar esclarecimentos e ajuda o eleitor a tomar decisão com mais liberdade. Crescemos juntos na limpeza do caminho.

Deixe sua marca
Quem não colocou o nome nessa primeira grande coleta ainda tem chance, é só buscar o endereço www.mcce.org.br. Também foi dada a largada a uma outra tarefa do movimento popular: pressionar os parlamentares para a tramitação imediata da proposta.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Um ano de Busão

Neuton Corrêa*

Hoje o Sol passou por aqui, acordou a passarinhada, beijou uma flor amarela de ipê do Parque Samaúma e saiu radiante, mais radiante do que costuma ser. Afinal, ele não encontrou mais o Marcos Victor perambulando, pedindo um pedaço de pão e um pouquinho de café da vizinhança.

Pensei que o Sol ficaria triste. Ele já estava acostumado com o Victor. Era o Victor quem o acordava. Em casa, chegavam quase juntos, ele e o Sol. Eu era o terceiro do encontro. Ia para frente de casa para pegar o jornal e lá estava meu pequeno vizinho com os primeiros fachos de luz no rosto. Depois que eu entrava, os dois saíam juntos sabe-se lá para onde.

Vocês talvez não estejam lembrados do Marcos Victor. Talvez também estas letras sejam as últimas que dedico a ele. Trata-se de meu vizinho, meu pequeno vizinho. Hoje, tem seis anos. Foi abandonado pela mãe em uma boca de fumo quando ainda estava no terceiro ano de vida. Aos cinco, mostrava conhecer todos os códigos da casa.

Contei a história dele pela primeira vez, aqui nesta coluna, no último dia 4 de abril. Não agüentava vê-lo sair casa a casa em busca de comida. Nem tinha mais coração para tanto susto em ver os carros freando perto de seu corpinho para não atropelá-lo. Não encontrou nenhum amparo, a não ser os bochichos dos vizinhos.

Quase três meses depois, na festa de São João da Mãe Emília, tive outra notícia do Victor. Ele estava internado. As primeiras notícias davam conta de que ele havia sido molestado por um adulto que frequentava a bocada. Contei novamente a história, publicada no último dia 27 de junho.

Sabe, aquele dia marcou em mim a história do busão. A ilustração do Myrria não me saía da cabeça. Toda vez que olhava para o menino lembrava da fogueira apagada e das bandeirinhas chorando a falta das peraltices dele na festa.

Essa história, senhores, chegou aos ouvidos das autoridades que cuidam dos Direitos da Infância e da Juventude. Por causa das providências que tomaram, amigos do busão, ele nunca mais teve que sair de madrugada para mendigar. Aliás, nem sei por onde ele anda. Mas tenho a certeza que está protegido, está estudando e finalmente começando a fazer amizades com pessoas de sua idade.

Sinto saudade dele porque não o encontro mais. O Sol, também, dele terá muitas lembranças dos encontros que tínhamos quase todas as manhãs, debaixo do jambeiro. Mas, certamente, estará muito feliz em ver seu amiguinho sonhando o sonho que nunca sonhou.

Hoje, que completamos um ano desse encontro de todos os sábados, e lá se vão 52 crônicas, compartilho, com esta prestação de conta, a alegria de poder me encontrar com vocês todas as semanas.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Myrria
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Pe. Rogério é um pouco de nós


Ivânia Vieira*

Na segunda-feira (21), em editorial, o jornal A Crítica chamava atenção das autoridades estaduais e municipais sobre o triunfo da violência em Manaus. Não é o assassinato de um padre a motivação única para a advertência feita, e sim mais uma morte violenta e, nesse caso, no assassinato de um sacerdote tem-se a tradução da extrema insegurança vivida pelas populações locais.

A morte do padre Rogério ganha repercussão internacional porque expõe uma pessoa cujas atividades têm dimensão pública de relevância. Nela configuram-se as mortes de outras pessoas anônimas tratadas mais como um número no mapeamento dos assassinatos, e encarna a denúncia da explosão dessa violência em âmbito local.

A ocorrência de invasões e de mortes de religiosos (sejam padres, pastores, freiras…) faz parte de um tempo de escuridão e de supressão da liberdade. Assiste-se na atualidade um retorno ao tempo de pavor. Contra ele, mulheres e homens reivindicam o fim da ‘lei do medo’, da ‘lei do horror’. Pedem o resgate do direito de ir e vir em segurança e a presença dessa segurança na cidade.

A morte de Rogério abriga a dor de tantas famílias vitimizadas pela violência no campo e na cidade e faz o grito por Justiça ecoar mais longe. As autoridades devem as respostas. Têm diante delas uma multidão angustiada e inquieta.

Lição de resistência
A jornalista Joaquina Marinho encerrou na terra a sua batalha. No domingo (20), fez a sua partida para, enfim, descansar. Não é para falar de Joaquina e da tristeza de saber que não mais vamos encontrá-la por aqui que uso esse espaço. E sim da lição silenciosa deixada por essa moça: a persistência, a esperança larga na qual embrulhava a sua vida e daqueles mais próximos dela. Em cinco anos de luta contra o câncer, apostou todos os dias em viver. Dizia sim quando a razão mandava dizer não. Fez-se sol em dias de nuvens carregadas. Fica dela essa imagem.

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Atitudes para salvar a Terra e outros planetas

Wilson Nogueira*

A crise mundial reduz a emissão de gases que causam efeito de estufa. Essa notícia era esperada, afinal, o consumo ainda está no freio de mão em muitos países. Mesmo assim, trata-se de um fato que aprofundará mudanças em políticas públicas, na produção e no consumo em escala mundial. O fim da crise não pode mais significar a retomada do crescimento econômico sem a garantia de sustentabilidade para o Planeta.

Especialistas explicavam ontem, antes mesmo da divulgação de dados oficiais, que a queda na taxa da emissão de poluentes na atmosfera seria bem inferior à ocorrida durante a crise do petróleo, no fim da década de 1970 e começo dos anos de 1980. Observavam, ainda, que o mais importante desse novo quadro é que esse fenômeno teria relação, também, com medidas ambientais tomadas pela Comunidade Européia, Estados Unidos e China.

É evidente que tais mudanças são resultados da pressão de imensa parcela da comunidade mundial sobre governos e empresas que se empenham pelo desenvolvimento a qualquer custo. Luta-se para despoluir e salvar a Terra de uma catástrofe dentro dos próximos 50 anos. A pressão que não pode parar. É muito cedo para avaliar até que ponto a produção será retomada em novas bases tecnológicas, ou até mesmo se o fim da crise não suscitará os velhos padrões de consumo. Que a bandeira melhoria da qualidade de vida continue içada.

A pífia participação dos brasileiros no dia mundial sem carro deve desanimar cidadãs e cidadãos envolvidos na causa do meio ambiente. Referi-me tanto aos militantes de carteirinha quanto aos que evitam o desperdício de água e energia elétrica em suas residências. Ainda não dá para deixar o carro na garagem sem que haja transporte público eficiente, principalmente nas capitais. Mas a data é simbólica. Tem função pedagógica. Sabe-se agora que há um esforço mundial para orientar o uso racional de veículos.

Que tal pressionar os governadores e os prefeitos dos Estados e cidades que abrigarão os jogos da Copa do Mundo de 2014, para que dirijam investimentos públicos e privados em ruas e equipamentos que incentivem o deslocamento da população em transporte de massa, em bicicleta e outros veículos de menor impacto ecológico. No Planeta saudável, chique é caminhar sem resmungar e andar de bicicleta. Bem que esse hábito poderia pegar no Amazonas, o lugar mais ecológico do Planeta, segundo certa propaganda governamental. Mas, pelo visto, o bom exemplo virá de Nova York, o lugar mais cosmopolita do mundo.

Ninguém pensa em pôr fim aos carros. Mas, por pura obviedade, a necessidade de usá-lo, adequadamente, é urgente. Não se trata mais de assunto apenas engenheiro de trânsito. Dia desses um motorista engarrafado no transito de São Paulo diagnosticou: “Todo dia entram milhares de carros no trânsito. Por isso, a qualquer dia ele tem que parar!”. Do mesmo modo, caso a emissão de gases poluentes continue encharcando a atmosfera, a qualquer dia a Terra pára. E se os humanos se mudarem para Marte com a mesma mentalidade, Marte também parará; e assim por diante…

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Dia de sorte do assaltante

Neuton Corrêa*

O desespero do assaltante era tanto que ele pedia socorro à polícia. Os gritos que se ouviam no 418 vinham do 352. Eram tão apavorantes que o motorista freou bruscamente o carro. Quem sentava à janela pôs a cabeça para fora. Outros se esticavam por trás para ver o que estava acontecendo. E eu saquei a caneta e puxei da mochila minha caderneta de anotações.

Tomando cotoveladas e dando empurrões, consegui descer do ônibus. A esta altura, o 352 já estava cercado de curiosos. De dentro, ouviam-se apelos: “Chamem a polícia, pelo amor de Deus! Ele vai matar o assaltante”. O medo dos passageiros era de um policial militar alto e bombado que arrastava para fora do ônibus um corpo raquítico pelo pescoço.

Já no chão, o PM pressionou ainda mais o pescoço do bandido com o braço direito e tentou sufocá-lo, apertando o nariz com a mão esquerda. Aquela cena tirava o ar até de quem assistia à violência. Mas a agonia só estava começando. A situação ficou ainda pior quando outro rapaz começou a chutar o assaltante.

Por um instante, vi que ele estava nos últimos momentos de sua vida. Dominado, à beira da rua, a vítima se debatia como um animal em sacrifício. Da boca, o sangue começava a escorrer; o rosto escurecia rapidamente; e olhos arregalados revelavam que ele estava para dar o último suspiro.

Populares começaram a se revoltar contra a brutalidade. As pessoas que antes apoiavam a agressão passaram a sair em defesa do ladrão. Mas era um apelo em vão, pois o policial imobilizava o rapaz como animal sobre sua presa.

Eu também não segurei a indignação. Pedi que o PM bombado parasse com a violência, mas fui intimidado pelo segundo agressor, que tentou tomar a caderneta e o telefone celular que eu usava como máquina fotográfica. Me impus dizendo que eu era o repórter do busão, mas foi pior.

A confusão se voltou contra mim, mas não aliviou a situação do assaltante. Ele continuava sendo massacrado, até que um cidadão, de cabelos brancos, interveio na brutalidade. O que eu tentei com várias palavras ele conseguiu apenas com duas perguntas ao policial:

- Quem é mais bandido aqui?
O PM respondeu:
- Ele estava batendo carteira dentro do ônibus.
O cidadão insistiu:
- Quem é mais bandido: ele que roubou ou você que tenta matá-lo?
O ladrão percebeu que as pessoas saíam em sua defesa e entrou na conversa:
- Quem disse que eu estava roubando? Prova que eu estava roubando!
O bombado se enfureceu e novamente o atracou, quando ele gritou: “Chama logo a polícia, chama! Chama que ele vai me matar”.

Seus pedidos foram atendidos. Tão logo fechou a boca, um ônibus da PM, cheio de policiais em uniforme de educação física, apareceu. Ao entrar na viatura, porém, ele volta a gritar: “Chamem a polícia, esse aqui é o Batalhão de Choque”.

Perto de mim, o homem de cabelos brancos comentou: “Ah, assaltante de sorte”.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Grave retrocesso

Ivânia Vieira*

Desde o dia 2 deste mês o padre Orlando Barbosa vive na condição de retirante. Pároco na Colonia Antonio Aleixo, Zona Leste, Orlando tinha participação ativa na organização e mobilização da comunidade e legitimou-se como um dos porta-vozes daquela população na luta para instituir a participação comunitária na tomada de decisão sobre o melhor lugar de construção do Porto das Lajes.

A escolha da área para abrigar o futuro porto – nas confluências do Encontro das Águas e de comunidades situadas no lago do Aleixo – instaurou um embate entre empresários, setores governamentais que os apoiam e comunitários contrários a obra nesse lugar. Esse ato de escolha é, de fato, uma imposição de uns poucos. Pe. Orlando tornou-se uma das vítimas da intolerância no local. A casa do sacerdote foi invadida no dia 26 de agosto e, ele, no dia 2 de setembro, forçado a sair do lugar do seu sacerdócio diante de ameaças feitas contra ele.

Isaque Dantas, eleito presidente da Associação dos Moradores da Colonia Antonio Aleixo, no mês de agosto, em entrevista ao blog do Núcleo de Cultura Política do Amazonas (NCPAM), fala das tentativas de intimidar os líderes comunitários. Promete que a luta para que o Porto das Lajes seja construído em outro lugar vai continuar.

As autoridades públicas sabem que há uma situação crescente de tensão. O noticiário expõe o cenário de conflitos. E mais, a comunidade do Antonio Aleixo e a sociedade aguardam informações sobre quem são os homens que invadiram a casa do Pe. Orlando Barbosa e a saquearam. Essa situação, comum em outros períodos da história do País, não pode mais ser admitida na atualidade. Mas, a falta de respostas esclarecedoras aponta na direção contrária e mancha a democracia conquistada e revela um grave retrocesso.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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As atentadas de 11 de setembro

Neuton Corrêa*

A velinha queria porque queria sentar no mesmo lugar onde se acomodava uma jovem passageira. A velha havia acabado de entrar no 611 (Japiim-Centro). Embarcou apoiando-se em uma sombrinha. Resmungou para o motorista assim que pisou na porta e, ao dobrar a cabeça, gritou com a moça. Ela reagiu! A confusão começou.

O bate boca parecia confirmar que aquele dia era mesmo o dia da intolerância. Eu havia acabado de assistir ao plantão de notícias da TV. De improviso, o jornalista Carlos Nascimento anunciava: “Um acidente aéreo em Nova York! Um avião chocou-se contra uma das torres gêmeas do World Trade Center”.

Na mesma hora, acesso um site de busca e escrevo: “World Trade Center”. Enquanto o computador buscava a informação, ouço o apresentador dizer: “Você está vendo novamente as imagens do acidente aéreo”. O jornalista acaba de falar e se assusta: “É outro avião!”. A procura na Internet concluiu: “World Trade Center é um complexo de sete prédios construídos na Baixa Manhattan, localizado no coração do centro financeiro da cidade de Nova York”.

Horas depois, o jornalista traz nova informação: “Mais um avião atinge outro prédio”. E logo em seguida: “Estamos recebendo informação de que outra aeronave foi abatida. Ela iria em direção ao Congresso Americano”. A TV mobiliza correspondentes no mundo inteiro. Todos parecem assustados.

Confesso, também fiquei apreensivo. Tanto que as notícias chegavam em minha cabeça como tintas de Picasso. Calma, senhores! Eu explico: Picasso pintou um quadro chamado Guernica, em que expressa os horrores dos ataques à cidade espanhola de Guernica que marcaram o início da Segunda Guerra Mundial.

Lembrei do quadro do famoso pintor porque tinha a convicção de que naquele dia deveria guardar alguma imagem importante para nunca mais esquecê-la. Hoje, oito anos depois, tento recordar a data, mas a imagem da passageira brigando com a outra insiste em me perseguir.

Pelos valores que sempre professei, de acreditar que a diferença de idade impõe respeito entre as pessoas, achei que a confusão seria logo resolvida. Afinal, a mulher tinha idade de ser tataravó da outra. Além disso, éramos apenas três passageiros a bordo: eu, que havia acabado de sair da Seduc; a moça, a segunda a entrar na viagem; e a velha, a terceira passageira.

Porém, amados do busão, a jovem bateu o pé:

- Eu não vou sair daqui, senhora. O ônibus está vazio!
A idosa não se intimidou e ameaçou:
- Então, eu vou te dar uma porrada.
A moça duvidou e virou o olhar para a janela, quando a velhinha levantou o guarda-chuva e disparou uma seqüência de cassetadas, dizendo:
- Esse lugar é pra velho! Esse lugar é pra velho! Esse lugar é pra velho!

Naquele ato, vi que o mundo, realmente, no dia 11 de setembro de 2001, amanheceu intolerante.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Abordagem desigual

Wilson Nogueira*

No Brasil e, provavelmente, no mundo, pouco se soube das circunstâncias em que foi aprovado, pelo Congresso colombiano, o plebiscito que dirá se o presidente Álvaro Uribe concorrerá a um terceiro mandato. Os conglomerados da mídia abordaram esse fato como algo do cotidiano da democracia. O artifício que pode manter Uribe no poder não valeria para Hugo Chávez nem para Lula. É isso que demonstram as revistas, os jornais, as TVs e os sites que agem contra quaisquer experiências fora ou mesmo nas bordas do velho liberalismo.

O silêncio dos conglomerados abre caminho para o provável terceiro mandato de Uribe, sem que os porquês desse apoio fiquem explícitos para opinião pública. Não medem esforços, entretanto, para impedir que líderes regionais mais à esquerda estiquem seus mandatos por voto popular. Motivo principal: esses representariam um perigo para a democracia, que, afinal de contas, se alimenta e se realimenta da alternância de poder. Mas por que essa preocupação dos conglomerados midiáticos não se estende a Uribe? Verifica-se, nesse tratamento desigual, o comprometimento dos oligopólios midiáticos com outros grupos econ?micos e políticos e não com os princípios da democracia.

Se a república bolivariana de Chávez é uma ameaça à democracia latino-americana, por que a continuidade de Uribe no poder não se constitui em ameaça a paz regional? Uribe é hoje o gestor militar dos Estados Unidos no continente sul-americano. O pretexto de combater guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes, permitem que o governo Uribe e os Estados Unidos transformem a Col?mbia em potencia bélica regional. Os norte-americanos pretendem mais nesse campo. Querem, neste momento, instalar uma base militar em território colombiano. Por isso, precisam de feitor confiável no poder como garantia aos seus investimentos.

Uma base militar dos Estados Unidos na Col?mbia não é bom sinal para a região. Os norte-americanos são useiros e vezeiros em invadir territórios alheios. Bastam-lhes alguns avisos de revolução social, ainda que ela ocorra nos limites da democracia capitalista, para enfurecer o Tio Sam. Por isso, é pertinente explicar que a progressiva militarização da Col?mbia atende a interesses camuflados na luta contra os cartéis de drogas e grupos armados. Os fatos dizem que o braço bélico norte-americano se configura em vigilância a supostas ameaças ao que resta da influência geopolítica dos Estados Unidos na região.

A movimentação militar colombiana instiga a caserna dos demais países. A Venezuela de Chávez tem se armado e realizado treinamento militar com os russos. O Brasil acaba de negociar tecnologias e armas militares com a França a pretexto de defender a Amaz?nia e as reservas de petróleo da camada pré-sal. É visível a reação militar dos vizinhos da Col?mbia. Sinal de que ninguém engole a justificativa simplória de Uribe para se manter no poder. Afinal, como disse Lula, os Estados Unidos bem que poderiam combater o narcotráfico dentro dos seus territórios. Mas esse é outro assunto inconveniente para os conglomerados. Preferem tratá-lo na superfície a explicá-lo em profundidade, assim como se referem a mais um mandato para Uribe.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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O outro grito

Ivânia Vieira*

A 15ª edição do ‘Grito dos Excluídos e das Excluídas’, realizada na segunda-feira (7) em várias cidades brasileiras, simboliza o retorno do movimento social à cena pública. Em um período de ressaca, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, as organizações de resistência retomam o caminho da rua, o lugar na praça e refazem a pauta de reivindicações.

Funcionando como uma espécie de guarda-chuva das insatisfações populares, o Grito fez da sua romaria, no 7 de Setembro, uma síntese das graves questões, cujo enfrentamento tem sido ignorado e/ou minimizado pelos órgãos e agentes públicos. O mosaico das reivindicações (vale à pena passear na Internet ou pelas fotografias dos protestos ocorridos em praticamente todas as capitais brasileiras) exibe o acumulado nesses anos, não como uma derrota. Ao contrário, é parte do aprendizado, da construção de um novo papel para essas organizações e da inclusão de novas necessidades impostas ao movimento.

Compreender a ‘cidadania ativa’ da qual fala o arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, é parte dessa exigência. Se antes o slogan era pelo direito de ter cidadania, hoje o embate é decifrar o que é ser cidadã e ser cidadão, qual é o grau de responsabilidade imposto a quem se posiciona nessa condição.

O movimento social recomeça a sua investida. Nele, os jovens exercem um papel preponderante, não apenas porque neles está depositada a parcela maior da esperança de construir mudanças, mas pela enorme dívida que esse modelo de mundo deixa à juventude. Em várias regiões do mundo, os jovens estão sem horizonte e os governos discutem uma outra demanda. Então, é neles e com eles que o grito se realiza e se prepara para ecoar mais longe, em cores, poesia e na alegria.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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