Archive for outubro, 2009

Lei para fotos

Wilson Nogueira*

Legisladores franceses e ingleses querem regulamentar o uso de fotografias adulteradas em material publicitário, editorial e artístico. A medida deve ser seguida por outros países, porque se trata de um fenômeno de escala planetária. Poucos anônimos e celebres resistem ao uso do Fotoshop, o programa mais utilizado para retocar e modificar fotografias, para melhorar a imagem. Os produtos e informações não estão fora dessa modalidade de fraude. Os dois países querem se prevenir, acima de tudo, contra a indução à bulimia e à compulsão por cirurgias plásticas.

A autora da lei francesa, Valérie Boyer, propõe que a fotografia fotoshopada esteja acompanhada do seguinte esclarecimento: “Essa fotografia foi retocada para modificar a aparência física de uma pessoa”. É bem provável, caso a proposta vire lei, que todas as capas de revistas masculinas venham a circular com esse carimbo. Na Inglaterra, estão em debate possíveis restrições ao retoque de imagens de campanhas publicitárias dirigidas a menores de 16 anos. Está em curso uma ofensiva contra a correção das imperfeições da imagem, para atender a certo padrão estético, cuja função é excitar o consumo de alto padrão.

Ao ler essa matéria na Veja (edição 2135), lembrei-me dos santinhos dos candidatos em campanha eleitoral. Há casos em que a fotografia impressa no panfleto é apenas uma vaga lembrança da imagem física do candidato. Por isso, a fotografia, que deveria representar a realidade, transforma-se numa obra de ficção. Assim, muitos eleitores escolhem seus candidatos pela falsa aparência. Compram gato por lebre e, por isso mesmo, correm o risco de ser representados por pessoas inescrupulosas.

No meio editorial, os exemplos estão nas bancas de revistas e jornais da esquina, no outdoor e na tela do computador. Modelos femininos e masculinos perfeitos. Magérrimos! É dessa forma que se movimenta o mercado editorial, publicitário e artístico. Se o Brasil viesse a adotar uma lei idêntica à pretendida pelos franceses, faltaria tinta para carimbar tanta advertência a leitores e demais usuários dos meios de comunicação.

Enquanto uma regulamentação específica sobre esse tema não chega por aqui, vale a pena dar uma espiada no Código de Defesa do Consumidor, que ganhou a fama de ser o mais completo do mundo, para verificar se há algum artigo que possa enquadrar, penalmente, aqueles que adulteram imagens para enganar e obter lucros. Em termos de mercado editorial, o correto mesmo é falar em muitíssimo lucro!

Aliás, é bom lembrar que ninguém está impedido de ganhar dinheiro com obras de ficção, desde que elas se apresentem como tal.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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Crianças e sustentabilidade

Ivânia Vieira*

Nesses dias, algumas questões têm acelerado minhas inquietações quanto ao presente de centenas de crianças e o futuro incerto de tantos adultos. São, hoje, as crianças sem escola do Parque São Pedro, da Praia Dourada e da comunidade Tambor, para falar apenas de algumas dezenas delas. Criança fora da escola não é fato isolado. Ao contrário, expõe uma situação ampliada de abandono. Ao mesmo tempo, o Amazonas se apresenta ao mundo com um dos mais arrojados discursos em defesa da sustentabilidade. Não combina uma situação com a outra. São antagônicas.

O tempo sem escola é uma agressão à trajetória de vida desse universo de crianças. Junta-se a ela, a condição inóspita em que vivem. Não é a pobreza do Estado a geradora dessa realidade, mas a ausência de vontade política dos governos, a maioria deles mergulhada em escândalos de desvio de recursos públicos. Há também uma cultura de conveniência co-alimentada pelos demais poderes pouco incomodados pela nossa frágil cidadania.

DESABRIGADOS
No próximo ano, o mundo terá aproximadamente 50 milhões de ‘desabrigados ambientais’. A denominação, dada pela Organização das Nações Unidas (ONU), engloba as vítimas de tempestades, da degradação da terra, das queimadas, da redução da quantidade e da qualidade da água. Mulheres e crianças formam a grande massa de desabrigados, informa a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

A Organização Mundial da Saúde (OMS), chama atenção para os 4 milhões de crianças, com idade abaixo de cinco anos, que morrem anualmente em consequência dos desequilíbrios ou acidentes ambientais. As causas citadas pela OMS são as mais diversas, dentre as quais a poluição do ar e da água, exposição a substâncias químicas, furacões e enchentes, que provocam envenenamento, diarréia, cólera e malária, infecções respiratórias e outras doenças. Esse é um quadro do mundo e está muito perto de nós, basta olhar as margens dos hospitais públicos, as ruas e a periferia desta cidade.

*Jornalista de A Crítica e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A caminhada ideal

Massilon de Medeiros Cursino*

Havia escolhido meu Bairro para ser minha pista de caminhada. Sairia de casa, no final do “Palmares”, e iria até o sinal do cruzamento das ruas Paraíba e Rio Branco. Já havia antecipadamente marcado no hodômetro de minha motocicleta que aquela distância era equivalente a um quilômetro. Um de ida e um de volta. Faria 2 quilômetros diários, ideal para iniciante.

O ziguezague entre a rua e a calçada acresce a distância, algo em torno de 100 metros. As calçadas foram invadidas por casas, umas confundem passeio com o pátio e o morador, com o espírito de propriedade, chega a se ofender caso o pedestre use aquilo que presume ser seu.

O que seria só uma caminhada se transforma em alternância de andar e correr, diante das ameaças dos cachorros criados na rua, sob o olhar do dono que só se manifesta quando a carrocinha pega alguns deles. De acordo com meu amigo soldador “Pimenta”, só na curvinha, perto da escola, há 4.542 cachorros. É claro que isso é um exagero, pois são muitos os cachorros, mas não tantos assim!

O pior é que na minha Rua tem um vizinho criando um pit bull. Por conta disso, meus filhos deixaram de fazer as compras no comércio da esquina e tudo sobrou pra mim. Uma caixa de fósforos que falte e lá vou eu!

Contudo, o que é interessante é que o vizinho que resolveu criar um pit bull não é tão fortão ou “forçoso”, já que geralmente os donos de pit bull são do tipo bombados, isso já foi provado cientificamente. Há estudiosos da psicologia que levantaram teses de mestrado e doutoramento sobre o assunto: “ele é um cão que se molda ao seu dono”. No caso de meu vizinho, ele é uma exceção à regra, porém tirou o lazer de meus filhos passearem de bicicleta pela rua e até de fazerem pequenos mandados.

Retorno da caminhada indicada para o stress, para o condicionamento físico e para o coração, mormente mais estressado do que saí. Pior ainda foi avistar o portão da minha residência escancarado e minha cachorra dálmata “Pandora” na rua. E ela já assustou uns três transeuntes que passaram pelo local.

Para não acharem que estou ficando cafona ou chato, o jeito vai ser eu reduzir ainda mais o meu espaço: Vou limitar a fazer minha caminhada dentro de meu terreno e em volta da minha casa!

*Economista, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Gestão Pública, membro da Academia Parintinense de Letras.

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Manaus: a cidade-criança

Neuton Corrêa*
Manaus completa hoje 340 anos de idade. Nem parece. Ainda é uma criança, aos olhos de sêo Amaral, o vendedor de merenda da parada de ônibus do Inpa, onde costumo tomar cafezinho antes de entrar no jornal.

Conheço sêo Amaral desde o tempo em que o empreendimento dele era apenas um tabuleiro de madeira com divisórias para separar os bombons das gomas de mascar de todas as marcas. A garrafa de café que ele levava, e a mantinha escondida debaixo da mesa, só aparecia em momentos raros, quando ele oferecia cafezinho aos clientes mais chegados.

Recentemente, ele ampliou o empreendimento. A mesinha improvisada deu lugar a uma armação metálica coberta com uma lona azul, onde mantém as caixas de bombons, montou uma vitrine de vidros para salgadinhos e tem um freezer com água, refrigerantes e sucos.

Lembrei-me dele hoje por causa da resposta que me deu, num dia em que lhe perguntei o que achava da cidade. E ele, com a tranquilidade e a sabedoria de seus setenta e poucos anos, respondeu: “Manaus é como uma criança: só faz crescer”.

Não sei sob qual perspectiva ele falava. Nem dava para aprofundar a conversa. A brevidade do encontro e o movimento da clientela do meio-dia impediam. Só não dava para deixar de perceber que a frase se traduzia na mais profunda definição que já ouvi sobre o lugar que escolhi para morar há dez anos.

Talvez estivesse falando apenas do crescimento que testemunhou em mais de sete décadas. A Manaus de hoje não é mais a mesma do tempo que cheguei por aqui. Muito menos semelhante a que seus olhos viram crescer desde a infância.

Sinceramente, poderia imaginar mil coisas sobre sua frase, mas não conseguiria penetrar o sentimento que o movia para comparar uma cidade de mais de três séculos com uma criança. Porém, isso não me impede de perceber o poder de imaginação que ela produz.

Desde o dia em que sêo Amaral me disse que Manaus era uma criança, por exemplo, imaginei a cidade como uma menina peralta, feliz, mas ao mesmo tempo desprezada, abandonada, órfã.

Mil coisas me ocorreram desde aquela conversa. Até pensar que todo dia, no fim de tarde, a cidade-criança convida para brincar. Quer que eu fique mais tempo com ela na rua. Mas toda vez estou cansado, estressado, sem tempo. Além do mais, não vejo graça nenhuma em brincar de engarrafamento.

Talvez não seja um convite, mas um apelo, um grito. Afinal, a criança quando não é ouvida, chora. Quem sabe não seja isso que sêo Amaral tenha falado: Manaus é uma criança e precisa de 1,6 milhão de pais.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

Ilustração: Myrria.
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Travessia feminista*

Ivânia Vieira**

O movimento das águas traduz, em parte, pensamentos e decisões da maioria das mulheres reunidas em Manaus, no 1° Encontro de Mulheres da Floresta, cujo encerramento ocorrerá no final da tarde de hoje, no ICHL/Ufam. Nos dois primeiros dias de conversação, um dado comum na fala das mulheres do interior amazônico são os efeitos da enchente e da seca na vida delas e das famílias desses lugares.

Em pouco tempo, viram casas e pequenas plantações invadidas pelas águas, destruindo anos de trabalho, a pequena base de sobrevivência construída e sonhos desenhados. As marcas da enchente estão lá, ainda fortes, e a seca já instala outros sinais, impondo mais perdas. No lugar do lago tem a terra rachada, a plantação de quintal sucumbe, os animais estão morrendo e acesso à água exige, hoje, percorrer muitos quilômetros.

A venda de doces, das frutas, de pé-de-moleque, dos bombons, produzidos pelas mulheres (que são um importante suporte na renda familiar), tornou-se mais difícil. Para muitas delas, impossível, com relataram as moradoras da Ilha do Baixio (AM), na tarde da última segunda-feira.

O efeito desses fenômenos somado a inexistência de um plano que inclua de fato as famílias por eles atingidas é devastador. Recai nas costas dessas mulheres um fardo enorme. São elas que juntam a terra partida, a água escassa e as raízes ressecadas para apostar no dia seguinte como um campo capaz de produzir vida.

Nesses dias de Emflor muitas pautas envolvendo mulheres, crianças, água, pesca, sustentabilidade estão postas para os meios de comunicação e aos pesquisadores. Quais são, por exemplo, os impactos da enchente e da seca na agricultura familiar do Amazonas? Em que nível e circunstância se dá a presença governamental? Sobre os grandes e médios projetos/programas os números das perdas são apresentados, o prejuízo é fartamente visibilizado e influenciam nos acordos para reduzir perdas. No caso dos pequenos agricultores a invisibilidade demarca a existência deles.

O encontro de mulheres da floresta será concluído com algumas decisões em defesa de políticas públicas, reposicionando-se para fazer valer o documento final, mas acima de tudo, assegurar voz e vez a essas mulheres protagonistas de uma história ainda não revelada.

*Publicado na quarta-feira, dia 21, no jornal A Crítica.
**Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
Ilustração: Arte-Gusmão-Jornal A Crítica.

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As lágrimas da pedinte

Neuton Corrêa *

A presença da pedinte no 215 me deixou intrigado. Assim que embarcou, na primeira parada da avenida Djalma Batista, ela passou a abordar os passageiros em conversas de pé-de-ouvido. Minha reação se dividia entre o desejo de não ser importunado e o de tentar saber o que ela estava falando.

Eu a conhecia de velhos tempos e tinha quase certeza de que ela se lembraria de mim. Mas não me reconheceu, ou não quis me reconhecer, pois logo que se colocou ao meu lado, sequer levantou os olhos. Manteve a cabeça baixa o tempo todo.

Mesmo assim, ainda consegui observar a mudança que o tempo lhe deu. As rugas do rosto e os ralos cabelos, agora brancos, não lhe tiravam os traços daquela senhora que vi desesperada chorando a morte do filho há quase 20 anos. A conversa dela também continuava a mesma. Não diminuiu nem acrescentou uma palavra. Era como se tivesse feito uma gravação e posto para rodar novamente. Fez apenas algumas adaptações na trama.

Quando ouvi a história pela primeira vez, em 1991, confesso que fiquei extremente sensibilizado. Tanto que usei o programa que participava na rádio Alvorada de Parintins para mobilizar uma campanha e ajudá-la. O que ela contava havia acontecido. Era verdadeiro. Passou pelos meus olhos. Como repórter, cobri o drama que se abateu sobre sua família há 18 anos.

Foi em uma tarde quente de domingo do verão daquele ano. Eu era plantonista do fim de semana. A notícia se espalhou como o fogo que destruiu a casa dessa senhora, na testeira de uma ladeira do bairro Santa Rita de Cássia, à época, um loteamento com casebres de palha, entre os quais o dela, que foi devorado pelas chamas.

Ao chegar no local do acidente, o desespero tomava conta dos voluntários que ajudaram a apagar o fogo. O drama não era para menos. Embrulhado por uma rede em cinzas, perto de um pote de barro que permanecia em pé, estava ali o corpo do filho dela, de dois anos de idade, como um pedaço de carvão.

Lembro que após aquele momento um grupo de pessoas se reuniu para reconstruir a casa. Ergueram uma bem melhor. E ela, então, passou a percorrer casa a casa, geralmente, pedindo comida e dinheiro. Quando bateu em minha porta, imediatamente lembrei da aflição dela ao lado do corpo do pequeno Geter.

Fiz o que pude e o que não deveria ter feito por ela: até emprestar-lhe minha Monark, pela qual nutria grande ciúme. Mas dei um basta nisso, quando, em 1995, descobri o outro capítulo de sua história. Talvez o primeiro capítulo do livro que se possa escrever sobre isso.

Dois anos antes do incêndio em sua casa, ela já era pedinte. Aplicava a mesma conversa que passou a usar depois da tragédia da morte de seu filho. Dizia que precisava de qualquer ajuda porque sua casa, na zona rural, havia sido queimada com seu filho dentro.

Quem me contou isso foi a Neia: “O incêndio na casa dela dava para ser visto da minha. Corri para ver e fiquei nervosa porque a mulher que estava chorando a perda do filho era a mesma que há muito tinha procurado a loja (Neia era dona de um supermercado), contando uma história que se parecia com aquela que estava acontecendo naquele momento”, relatou minha amiga, tremendo e apontando para os pelos arrepiados dos braços.

Esta semana, quando a pedinte sentou ao meu lado, tive o impulso de tentar fazê-la lembrar de mim, mas preferi ouvi-la. Só que desta vez ela não falava da morte de um filho. As novidades na história dela eram a morte da neta, carbonizada no incêndio de uma vila no bairro Praça 14, e as lágrimas que rolavam em seu rosto.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia-Ufam.
Ilustração: Romahs

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Terra de crianças e mulheres


Ivânia Vieira*

Perto de completar seis anos de existência, desde a ocupação de dezembro de 2003, o Parque Residencial São Pedro embala uma história de resistência. E aqui a expressão resistência é sinônimo de reação à força opressora traduzida na ação dos políticos de várias matizes, habituados a tratar os pobres como depósitos de migalhas oferecidas por eles em troca de votos e na omissão dos representantes do Executivo estadual e municipal naquilo que é estritamente de responsabilidade desse poder.

No bairro, moram aproximadamente 6 mil famílias (perto de 30 mil pessoas). As crianças são a fartura e a denúncia viva do descaso oficial. A maioria delas estuda em locais absurdamente abafados e de estrutura brutalizada. Alguns locais-escolas são chamados de ‘presidiozinhos’. Algumas dezenas de crianças estão fora da escola.

Na área da Saúde, não há estrutura de atendimento. A prevenção é feita apenas por meio de mutirões. O hospital mais próximo está a 15km do bairro.

A resistência se realiza na luta dos moradores, a cada passo dado nessa difícil caminhada da comunidade para fazer valer a justiça e a paz em um universo minado. Várias famílias rejeitam as negociatas dos compradores de votos e têm a coragem de construir uma outra estrada, rejeitando o papel de miseráveis agradecidos pelo sopão ou porque fizeram, por alguns minutos, parte de uma atormentada plateia de TV. Elas brigam por mudanças de fato.

Uma das conquistas do São Pedro, do Jesus Me Deus, do Riachuelo, é o Movimento Nacional de Luta pela Educação (Monale). Nascido naquele território do abandono, promove vidas e avançou para outras cidades brasileiras.

Ontem, durante conversa com estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em visita à comunidade, Antônio Fonseca, um dos coordenadores do Monale e dos fundadores do bairro, declarou, como lembrança providencial para a história: “Essa é uma terra conquistada pelas crianças e as mulheres”.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Para além das entrelinhas

Wilson Nogueira*

O ritual da prisão do ex-deputado Wallace Souza e seus desdobramentos devem ser lidos muito além das entrelinhas. O relato dos acontecimentos em si é superficial, não dá conta do que subjaz nas decisões, nos gestos, nos cenários e nas cenas que envolvem esse rumoroso caso. Da condição de político paparicado pelo establesment, consagrado pelas urnas e influente no jogo do poder, Wallace tornou-se, de repente, um marginal perigoso.

Cabe à Justiça julgá-lo culpado ou inocente das acusações que lhe pesam sobre os ombros. Política e moralmente ele já foi condenado. O que a sociedade exige, a partir de agora, é que a Justiça aja conforme o melhor direito e a consciência mais acurada. Quanto ao que está posto na imprensa, o ex-deputado teria poucas chances de se livrar de uma punição a longos anos de cadeia. Ele poderia estar envolvido ao menos em 17 assassinatos, com a formação de quadrilha e com o narcotráfico. As evidências de que se trata de uma pessoa má são robustas.

O que impressiona é que esse cidadão, dono desse perfil aterrador, tenha transitado com tanta desenvoltura, por longos anos, nas instâncias do poder local sem que sua conduta perversa fosse notada e questionada. É improvável que aqueles que lhe deram guarida até dias atrás – inclusive os de setores da imprensa – sejam todos ingênuos e não cúmplices dessa suposta mente malfeitora. Escuta telefônica da Polícia Federal indicam, por exemplo, que Wallace era tratado como chefe por policiais graduados. Aliás, foi um ex-policial que o dedurou, supostamente para se livrar de uma execução.

O aperto policial a Wallace veio após a eleição de 2008, depois que ele e seus Irmãos Coragem – um deles, Carlos Souza, é vice-prefeito de Manaus – ajudaram Amazonino Mendes a se eleger prefeito. Ancorados na popularidade do programa de TV Canal Livre, estilo mundo-cão, eles derrotaram o atual vice-governador Omar Aziz, apoiado pelo governador Eduardo Braga, e o ex-prefeito Serafim Corrêa, candidatos à eleição e à reeleição à Prefeitura de Manaus. Insuflado eleitoralmente, Wallace queria ir além do poder que já exercia na política estadual, segundo a própria Polícia. O racha com ex-aliados seria um sinal manifesto da intenção de ampliar poder para si e para o seu grupo.

Um dos negociadores da recepção do ex-deputado na Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania (Sejus) e posterior entrega à Polícia foi o vice-governador Omar Aziz. Preso, Wallace percorreu bairros em viatura policial em marcha fúnebre, esteve em celas para bandidos de alta periculosidade, para ouvir a voz rouca dos manos, e agora aguarda julgamento na carceragem de um quartel da PM. O primeiro dos Irmãos Coragem a visitá-lo foi Carlos Souza, que estava prefeito (em exercício) de Manaus.

O Caso Wallace envolve outros fatores e personagens – visíveis e invisíveis – que estão além das notícias da política e da polícia. Não será possível compreendê-lo sem compreender o jeito rasteiro e irresponsável de se fazer comunicação social e política no Brasil.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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O bêbado e a boca-de-lobo

Neuton Correa*

Bêbado todo mundo conhece ou já viu um. Muitos até experimentaram os efeitos etílicos no coro. Outros experimentam sempre. E uns de vez em quando. O problema é a boca-de-lobo. Poucos sabem do que se trata, até porque ela designa muitas coisas. Então, antes de começar a história julgo necessário esclarecer as dúvidas sobre isso.

É importante explicar, porque a idéia que a palavra traz é a da boca de um animal. Assim imaginei quando a ouvi pela primeira vez, ainda garoto, trabalhando com meu pai, que era carpinteiro. Ele pediu que fosse à casa do vizinho emprestar a dita boca-de-lobo. Saí de lá pensando numa cabeça de cachorro. Mas não era isso.

A boca-de-lobo que ele queria era outra coisa. Também não era aquele nó que se dá em punho da rede de dormir para deixá-la mais alta. Muito menos era um bueiro, como diz o Dicionário de Aurélio, que consultei para ver o significado formal da palavra composta por dois substantivos e uma preposição.

Bem, a boca-de-lobo é uma ferramenta, que também chamam de draga. É feita de duas lâminas de ferro em forma de concha. Cada uma delas tem mais ou menos trinta centímetros e se ajustam uma na outra por intermédio de um eixo, que permite o movimento semelhante ao da boca, que abre e fecha.

A outra parte desta ferramenta são os cabos de madeira, que se acoplam às lâminas. São do tamanho do cabo de vassoura, porém mais grossos.

Pois bem, feito esse intróito, vamos à história do bêbado. Ela aconteceu a bordo do 430, há uma semana, na AM-010 (Manaus-Itacoatiara). Era um cidadão que arrastava uma das penas. Entrou pela porta da frente sem pagar passagem. Na chegada, exigiu o assento reservado para deficientes e conseguiu. Afinal, além da perna atrofiada, ele ainda estava às quedas.

Assim que se acomodou, começou a falar só e a importunar quem estava perto dele. Mexia com quem entrava e saía do ônibus. E foi num desses movimentos de embarque e desembarque que subiu uma pessoa segurando a tal boca-de-lobo. A ferramenta estava com as lâminas embrulhadas por um pedaço de pano e os cabos amarrados com cordas de nylon.

O bêbado, com a cabeça balançando e os olhos quase fechados, assim que percebeu o cidadão se equilibrando com as tralhas que levava, saltou de sua cadeira e gritou: “Ei, cara, senta aqui no meu lugar. Esse lugar é para nós. Aqui só senta quem é especial!” Ninguém agüentou, afinal, não é todo dia que se encontra um bêbado educado. Ainda mais cedendo um lugar a outro, numa viagem de sábado à tarde, superlotada e em uma linha que passa uma hora sim e duas, não.

Com a cordialidade do porre, o homem que carregava a boca-de-lobo não perdeu tempo. Pegou a draga, uma saca que levava com algumas mudas de coco e prontamente se sentou no lugar onde estava o alcoólatra. A gentileza dele deixou todo mundo sem entender a razão. Pensei até que fossem velhos amigos, mas não eram.

Só descobri a intenção do gesto do bêbado quando, alguns minutos depois, ele voltou a gritar: “Pode sair daí. Tu não é deficiente coisa nenhuma. Nem isso aqui é uma muleta. É uma boca-de-lobo. Pode me devolver o lugar”.

A confusão e as gargalhadas continuaram até o fim da linha.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Para andar de bicicleta

Wilson Nogueira*

Professores e alunos Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) pretendem pautar, para a sociedade, um debate sobre a importância do uso da bicicleta como opção de locomoção da população. Ao menos é isso o que sugerem ao anunciar que irão verificar, na Avenida Djalma Batista, a provável conveniência da implantação de ciclovias em corredores estratégicos da cidade. A atitude é relevante, embora sem o tratamento merecido dos chamados meios de comunicação social. Li essa notícia numa coluna de leitura rápida de um jornal local.

Uma das tarefas dos acadêmicos será medir a duração do percurso através de carro na extensão da avenida, em vários momentos, para compará-la com o tempo despendido no deslocamento com bicicleta. É obvio que, nos horários de congestionamento, leva-se até menos tempo caminhando, principalmente nos pequenos trajetos, do que viajando em automóvel. Testes idênticos já foram aplicados em outras cidades e os resultados são mais que favoráveis às bicicletas. Há, no entanto, outros fatores sujeitos à verificação, afinal pedalar é uma opção de deslocamento e não o remédio infalível para salvar tráfego das grandes cidades.

Mais importante que o resultado da pesquisa é a oportunidade que ela suscita à busca da solução a um problema que aflige a todos nós. Os carros, em enxurrada, tornaram-se um problema de saúde publica. De Tóquio a Manaus, ninguém mais suporta os transtornos do trânsito. O Planeta, por sua vez, entope-se dióxido de carbono e reage, desfavoravelmente, à qualidade de vida de todos os seres. O carro é hoje um contra-senso, e o será até que se adéque a padrões ecológicos necessários ao bom funcionamento do planeta. Enquanto permanecer esse quadro, melhor mesmo é usá-lo com certa parcimônia, em combinação e em colaboração com outros meios de locomoção.

A bicicleta é o símbolo da insatisfação das megalópoles e metrópoles contra o estresse no trânsito e envenenamento do ar. Pedalar é saudável! Multidões tem ido às ruas reivindicar ciclovias. No Brasil, os ciclistas de São Paulo são um bom exemplo desse movimento que estimula o Poder Público a reinventar o transporte urbano. Governantes atentos e responsáveis sabem que o aperfeiçoamento do tráfego urbano depende de equipamentos, leis, serviços e da mudança de hábitos das gerações que se acostumaram a usar o carro até para comprar pão quente na esquina. Sabem, também, que o diálogo com a sociedade é caminho mais fácil para consegui-los. A boa ação, nesse caso, exige apenas vontade política.

O pessoal da Ulbra, a meu ver, cria o fato para que se estabeleça um debate sobre a qualidade do trânsito em Manaus. Mas é bem provável que essa idéia seja ignorada pelos gestores da cidade, porque não se trata de nada faraônico, de milhões de dólares. Além do mais, contraria o interesse dos vendedores de carros e dos construtores de viadutos. Resta, então, esperar que o tema seja compreendido e encapado pela sociedade. A experiência de outros países demonstra que o uso da bicicleta em grandes cidades é viável e faz bem ao trânsito e à saúde.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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