Archive for novembro, 2009

Cultura & violência

Ivânia Vieira*

Artistas populares têm sido acionados, com frequência, para animar festas no interior do Brasil e dar uma mãozinha a pré-candidatos a cargos eletivos. Prefeituras dos municípios amazonenses entraram nessa ‘moda’. Até aí nenhuma novidade. Afinal, é essa a cartilha que uma leva de administradores públicos em todo o País segue. Eleitores e simpatizantes batem palmas e dançam miúdo, quase felizes, sob o ritmo dos contratados.

A questão é: quem paga a conta? A verba pública tem sido fartamente usada para quitar dívidas contraídas com artistas na rubrica da cultura sem a devida transparência. Alguns artistas que aparecem na mídia nacional, como beneméritos, cobram alto para fazer festa na periferia do Brasil. Muitas prefeituras aceitam pagar o cachê e cumprir uma lista de exigências num ato de desrespeito ao contribuinte e à população.

Artistas não estão imunes à cobrança da transparência. Pela estreita relação que têm com o público são convocados cada vez mais a uma conduta cidadã. Ou seja devem zelar para não fazer parte do saque ao dinheiro do contribuinte. Essa história de ser boa gente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia… e arrancar o dinheiro dos pobres da periferia brasileira tem que ser exposta e confrontada. Há um ralo nessa área que exige maior atenção para conter o derrame da verba pública em nome de ‘investimento em cultura’.

‘Nosso corpo’
Hoje, em mais de cem países, feministas organizam manifestações pelo fim da violência contra mulher. O 25 de Novembro é uma data símbolo nessa luta. Em Manaus, as mulheres reúnem-se em frente do Tribunal de Justiça, de 9h às 11h, para reivindicar o cumprimento da ‘Lei Maria da Penha’. Às 12h, na Ponta Negra, um ato vai recordar as mulheres assassinadas na cidade. Este ano, o slogan do movimento é ‘nosso corpo, nosso território, pela liberdade das mulheres e pelo fim da violência’. Nesta cidade, são 800 registros mensais feitos na Delegacia da Mulher.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O filho da machuda

Neuton Corrêa*

Ele estava na praça, em frente à igreja, debaixo de um pé de benjaminzeiro. Com um livro na mão direita, erguido acima de sua cabeça, socava o ar e apontava o olhar para o céu, como quem a Deus suplica. Às vezes, passava o livro para a outra mão e colocava o dedo em riste na direção dos carros que passavam por ele.

Houve um momento em que ele virou balanço: colocava um pé na frente e outro atrás e ficava nesse vaivém até girar no próprio eixo para retornar novamente o balanço. Quando, enfim resolveu parar, colocou os joelhos na calçada e abraçou o livro ternamente em seu peito.

De longe, logo que eu desci do ônibus, achei que estivesse fazendo uma pregação, mas, ao me aproximar dele, percebi que de sua boca não saía nenhuma palavra. Seus lábios produziam apenas gestos. Parei para assisti-lo e não sei por quanto tempo ele permaneceu ali em seu ritual.

Não percebi o tempo passar porque minha memória não me permitiu. Ela insistia em lembrar das duas outras vezes que o tinha visto. Isso não faz muito tempo, não. Menos de cinco anos. A primeira delas foi no estacionamento do Vivaldão. Lá, ele era flanelinha, o mais vistoso de todos os guardadores de carros.

Naquele dia, ele calçava um coturno, vestia uma calça rajada do Exército (era uma calça bem maior do que o corpo dele), bombachas armadas nas pernas e por baixo do rajado usava uma camiseta branca. Parecia um militar em trajes de serviço administrativo. Aquela marmota me fez parar para conversar com ele.

Ele ainda era muito moço nesta época. Tão moço que as bolhas infeccionadas de seu rosto ainda começavam a sair.

Na segunda vez que o encontrei, ele estava a bordo do 125, o ônibus da Ufam (agora já sei que ele mora aqui perto do jornal). Nesse dia, embarquei perto do Hospital Getúlio Vargas, no Boulevard. Ele já estava na viagem, mas não o notei. Estava a dois assentos de mim. Entre mim e ele havia dois rapazes, que gastavam o tempo a se gabar de suas aventuras sexuais.

Ah, antes de começar a falar das namoradas, eles explicavam um para o outro a razão de estarem ali de ônibus. “Meu pai quer me dar um carro… eu é que não quero”. O outro concorda e acrescenta: “Meu pai também quis me dar um, mas eu disse para ele: ‘pai, eu quero ter as coisas com o meu dinheiro’”. E assim foram.

Depois de mostrarem suas posses, começaram a falar das aventuras amorosas:
- Tu sabes a fulana (não conseguir compreender o nome que ele pronunciou)?
O outro respondeu:
- Sei!
- Eu saí com ela.
- E aí, rolou?
- Rolou, não.
Surpreso, o amigo perguntou:
- Por que, cara? Ela é boa paca!
Em seguida, ele explica:
- Eu levei ela, mas na hora ela impôs uma condição…
- Qual?
- Disse que só ficaria comigo se a namorada dela fosse também.
Foi aí que vi o flanelinha. Ele se levantou da cadeira à frente e disse para os dois, timidamente:
- Ei, cara, isso não tem problema, não. Minha mãe é machuda.
E o silêncio se estabeleceu até a universidade.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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Testando a vontade

Ivânia Vieira*

Na segunda-feira (23), às 8h30, a Assembleia Legislativa do Estado abriga um encontro singular: a discussão e adesão ao Pacto Nacional de Política para as Mulheres. O Amazonas terá a oportunidade de abrir a porta para tornar real e visível a convenção em torno de uma política para as mulheres desse lugar.

O Estado tem andado lentamente quando assunto é Política para as mulheres. Arrasta o passo, retarda a tomada de decisão, coloca o tema em segundo plano e, ao fazer isso, torna-se cúmplice e parte dos atos de violência dos quais as mulheres são vítimas. O Brasil já vive a segunda fase do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres enquanto o Amazonas ainda olha o déficit em relação ao primeiro.

A mobilização que ora ocorre faz desse encontro de segunda-feira um teste do tamanho da determinação política dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário quanto à execução do PNPM em sua versão estadual. De um lado, ela é fruto da pressão das organizações do movimento feminista e, de outro, da sensibilização das parlamentares estaduais e de uns poucos deputados em fazer da pauta da rua uma pauta da Casa e para a Casa.

A situação da mulher no Amazonas exige ser vista com lente ampliada pelos indicadores graves que ela representa em vários aspectos. Não há uma política efetiva para gerar emprego e renda e ampliar as oportunidades a um grande número de mulheres. A falta de creches públicas produz um efeito desestabilizador para aquelas que têm filhos e estão sozinhas na tarefa de cuidar deles. No setor de saúde, é preciso ampliar os espaços e garantir atenção humanizada.

Em meio aos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher – que tem no 25de novembro a data referência – é fundamental vigiar para impedir que a retórica prevaleça. A condição de existência negada a centenas de mulheres nesse Amazonas exige escrever um outro capítulo na nossa história, aquele que provoca mudança.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Jornalismo: Diploma pra quê?

Massilon de Medeiros Cursino*

Antes de definir a minha primeira graduação, uma certeza já tinha em mente, Comunicação Social não faria jamais! Jornalismo seria a última opção que visualizava. A minha timidez e a falta de uma boa dicção me afastavam qualquer possibilidade de enveredar por esse curso das Ciências Humanas.

Em quase toda minha vida estudantil, pelos mesmos motivos, sempre pedia para ser eximido de fazer apresentação oral em seminários, debates e outras tarefas do tipo. Para compensar era indicado para escrever as sínteses dos trabalhos, atribuição que me rendeu inicialmente redigir os pleitos do Centro Acadêmico, depois a redação de artigos no jornal da faculdade, chegando à mensagem e ao agradecimento incluso no convite de formatura.

Nas duas oportunidades seguintes de graduação, nem de longe conjeturei pelo jornalismo, não obstante no contexto já ter sido identificado o meu apego à redação de textos e artigos.

Hoje, já são 221 artigos, crônicas e editoriais publicados em jornais locais, jornal e revista do sindicato da minha categoria profissional, sites, blog e outros. O destino silenciosamente me fez descobrir que quanto mais eu buscava a fuga, mais me tornava presa do que temia por discrição. Entretanto, sinto que aquilo que presentemente exercito com extremo diletantismo poderia ser mais apurado se tivesse recebido as técnicas de jornalismo, oferecidas na academia. Apesar do esforço, reconheço falhas elementares, que dificilmente conseguirei superar por diligência pessoal de autodidata da área. Mesmo com mais de duas centenas de publicações, confesso que não me sentiria confortável em um dia ser chamado de Jornalista. Isso seria como uma espécie de “apropriação indébita”, um estelionato profissional.

Infelizmente, os ministros do Supremo Tribunal Federal, o Pretório Excelsior da Justiça brasileira, não entenderam assim quando decidiram que o diploma de Jornalismo não se faz obrigatório para o exercício da profissão. Quiçá, o entendimento dos ministros tenha sido embasado na analogia, uma vez que para ser ministro do Supremo, o artigo 101 do mandamento constitucional pátrio não obriga a formação acadêmica em um Curso de Direito, contudo, estabelece como requisito, que o candidato à vaga seja dotado de “notável saber jurídico”.

A pergunta que fica é, como se ter saliente saber da ciência jurídica sem se ter passado por uma formação acadêmica de Direito? Nessa esteira, só espero que futuramente charlatões e curandeiros não requeiram que para o exercício da Medicina, o diploma de médico seja prescindível!

*Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.

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Teste para cego

Neuton Corrêa*

Meu tio se tornou famoso na medicina (popular) desde o dia em que curou a crônica dor de cabeça da mulher de um amigo. Bastou um galho de vassourinha na mão direita, a mão esquerda na cabeça dela, cinco Creio em Deus Pai, três Salve Rainha, três Ave Maria e três Pai Nosso, para que a amiga voltasse à vida.

Até o amigo se convenceu dos poderes de meu tio. Pudera! Assim que começou a benzer a cabeça da mulher, pediu um copo d’água e mudou de voz; com o galho de vassourinha, aspergia o corpo da paciente da cabeça aos pés; ao terminar o ritual, suado, balançou a cabeça, recuperou a voz natural, perguntou para onde o Sol se punha e nessa direção atirou o ramo, que já estava murcho.

Titio foi tão convincente que, no início da noite, ao ligar para o amigo em busca de informação da esposa, ouviu: “Rapaz, ela está tão bem que acabou de ir para a igreja agradecer o milagre que você fez”. Ele também se achou. Tanto que sempre que pode faz questão de lembrar do caso.

O que eu não sabia sobre o meu tio é que ele tivesse o poder de curar cegueira. Tenho certeza que o método usado por ele nunca foi aplicado pela Oftalmologia. E isso não faz muito tempo, no máximo dois meses.

Esse tio é o mais ilustre irmão de meu pai. Lucinor Barros é o nome dele, o mais novo de uma família de sete irmãos. Está com 65 anos e agora, aposentado, passou a viver como turista, sempre acompanhado da esposa, Lisa (Lisamar). Tenho por eles um carinho muito grande, afinal, meu primeiro presente (um carrinho de ferro) foram eles que me deram. Isso foi no Natal de 1977, quando eu estava com sete anos.

Lucinor tem importância histórica para o Brasil. Uma de suas criações ainda será objeto de muitos estudos. Aos 22 anos de idade, fundou a maior manifestação popular da Amazônia, o Festival Folclórico de Parintins. Lamenta o fato de nunca ter recebido um convite para assistir à festa que criou, mas não se perturba com isso.

Não se perturba porque sempre está bem humorado. Agora, por exemplo, que está de volta ao Amazonas, após longos anos em Boa Vista, soube que o irmão Sabino havia sido acometido de um derrame (Acidente Vascular Cerebral). Procurou-o em Manaus e não o encontrou.

Lucinor, porém, não desistiu. Descobriu que o tio Sabino estava morando na cidade de Presidente Figueiredo e para lá se tacou. Esta semana, encontrei o titio a bordo do 422. Ele embarcou na parada do condomínio São Judas Tadeu. Na viagem, ele me contou como foi o encontro com o irmão:

“Menino (ele sempre começa a falar assim), eu olhei pro Sabino e estranhei:
- Como é que tu tivestes um AVC e não tem uma sequela? Aí, ele respondeu:
- Eu só perdi a vista. Perdi um lado do olho. Só consigo enxergar do direito. Do olho esquerdo não enxergo nada. Nada!
Menino, eu desconfiei daquilo. Aí, resolvi aplicar um teste:
- Faz o seguinte, Sabino, fecha o teu olho bom. Tapa ele com a mão.
- Assim?
- Isso, deixa só o olho cego aberto.
E perguntei: Tu ta vendo alguma coisa? Aí, ele respondeu:
- Não! Não enxergo nada.
Menino, aí eu peguei e fiz assim (ele armou dois cotocos bem firmes nos dedos) e botei na cara dele. Na hora, o Sabino caiu na risada. E eu disse para ele:
- Tá doido, Sabino, pensa que sou leso?”
Ri de meu tio e fiquei imaginando o teste para cego.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia;Ufam.

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O vestido da intolerância

Ivânia Vieira*

Em artigo em que discute a intolerância, o professor Antonio Ozaí da Silva, da Universidade Estadual de Maringá (PR), adverte: “a construção de uma sociedade fundada em valores que fortaleçam a tolerância mútua exige o estudo das formas de intolerância e das suas manifestações concretas, aliado à denúncia e combate a todos os tipos de intolerância”.

O pesquisador chama atenção para o fato de que a “tolerância pressupõe a intransigência diante das formas de intolerância e fundamenta-se numa concepção que não restringe o problema da tolerância/intolerância ao âmbito do indivíduo; esta é também uma questão social, econômica, política e de classe.”

O vestido de Geisy, a estudante quase banida da Universidade Bandeirante, atualiza as questões enfocadas pelo professor Ozaí. A universitária provocou seus pares ao ir à faculdade usando vestimenta que agrediu a uma parcela de estudantes. Estes reagiram agredindo-a, constrangendo-a, encurralando-a.

A direção da Uniban avança na postura de intransigência ao decidir pela expulsão da estudante. Recua após constatar a repercussão do caso e o tamanho do estrago feito inclusive para os negócios da escola.

O episódio não se encerra com o recuo da direção da faculdade. Não houve bom senso. Ao contrário, houve, sim, a negação desse preceito por todos os protagonistas – a garota, seus colegas, a reitoria da universidade.

A onda provocada por esse caso espirra seu veneno em todos nós. Mostra como a morada da intolerância é larga, disfarçada, cínica, tem esteios ainda muito bem fincados. Por meio dela, diariamente, lá e cá, são realizados e justificados atos de intransigência nos locais de trabalho, nas ruas, em casa. Diminui as pessoas. Está escondida, até em um microvestido e se revela mortal.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O feio

Neuton Corrêa*

Não via o Bitinho havia muito tempo, desde o dia em que a mãe dele, com uma criança no colo, e seus irmãos saíram correndo na rua, desesperados, pedindo socorro. Bito, como também era conhecido, foi o único a ficar na casa. Fechou a janela e a porta da frente e até hoje nunca mais pôs os pés de volta ali.

Bitinho era o primeiro filho do Bitoca, o terceiro comerciante a se instalar na rua de casa. Isso ainda no fim da década de 1970. Era um visionário. Enquanto o mundo desconhecia segmentação de mercado, Bitoca já possuía um comércio especializado. Só vendia cachaça. Preferia vendê-la em dose. Ganhava mais.

Bitinho nasceu e se criou ali. Parecia imitar o pai em tudo. Passava horas sentado atrás do balcão à espera dos clientes de sempre. Ah, antes de seguir na história, convém um parêntese. Bitoca também inovou no nome do empreendimento. Era um comércio com nome e sobrenome: “Quiosque do Bitoca São Jorge: ponto dos amigos 100% todos nós”.

Bitoca morreu, e Bitinho tomou a frente do negócio. Ainda era adolescente quando herdou o “Ponto dos Amigos”. Tocou o quiosque até onde pôde. Sem conseguir enfrentar a concorrência, migrou o investimento para o setor de frutas e verduras e ajudou a mãe e irmãos mais novos.

Por trás do balcão do quiosque, porém, Bito não escondia apenas o corpo. Acalentava ali também uma decepção. Estava com 25 anos de idade e nenhuma garota havia se interessado por ele. Além disso, nunca foi correspondido em suas investidas.

Bitinho fazia de tudo para chamar a atenção das meninas. Estava à frente da moda. À noite, quando deixava o Ponto dos Amigos, sempre aparecia com novidades. Lembro-me da calça-balão e da camisa branca de mangas cumpridas que vestiu para ir ao Palmeiras Clube. Não tinha como não chamar a atenção para si. Mesmo assim, não arranjava nada.

Nem as bicicletas novas que comprava lhe ajudavam. Nem as que mandava enfeitar: colocava retrovisor no guidão, brilhava os raios e até estofado colocava na garupa. Mas nada disso o ajudava. Apenas aumentava seu sofrimento.

Sua angústia chegou ao extremo quando começou a perceber que toda a garotada de seu tempo já estava casada. Passou então a se achar o rapaz mais feio do mundo. Perturbado com isso, tentou dar fim à própria vida por várias vezes. E todas as vezes foi salvo.

O drama do Bitinho não parou por aí. Pelo contrário, aumentou. Aumentou no dia em que soube que o Claudemir, com quem partilhava as angústias, havia casado. Claudemir era seu grande amigo. Bitinho o julgava mais feio do que ele.

O casamento do amigo era a senha. Estava na hora. Mas achou que sua família inteira também deveria morrer. Ofereceu-se então para fazer o almoço. Era um caldo de tambaqui. Sem remorso algum, Bito adicionou veneno para rato e chamou a mãe e os irmãos para comer.

Foi nesse dia que sua mãe, com a criança no colo, e seus irmãos saíram correndo para a rua. Na hora em que o seu irmão mais novo colocou a colher no prato, Bitinho se arrependeu e falou do tempero que havia usado. Com o histórico suicida dele, ninguém pensou duas vezes. Lembro-me ainda hoje dos gritos de sua mãe depois que ele fechou a janela e a porta: “Meu filho, não vai comer isso! Você é o meu filho lindo!”.

Desde esse dia, Bitinho sumiu da rua. Encontrei-o esta semana. Estava a bordo do 301. Levantei para falar com ele, mas, ao me aproximar da cadeira onde sentava, vi o Bitinho, concentrado, de mãos dadas com uma jovem muito simpática.

*Filósofo, mestrando do programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.

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Desemprego feminino

Ivânia Vieira*

Números divulgados por organismos internacionais nos últimos dias de outubro mostram um quadro extremamente difícil para mulheres e crianças em todo o mundo.

Na América Latina e Caribe o desemprego urbano atingiu 8,5% no segundo trimestre deste ano. Os dados são da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que não projetam mudança de cenário até o final de 2009.

São mais 2,5 milhões de pessoas desempregadas nos países da América Latina e no Caribe. O número total dos sem emprego na parte urbana dessa região somaria 8,4 milhões, informa o boletim conjunto dos dois organismos intitulado ‘Conjuntura laboral na América Latina e Caribe: Crise nos mercados laborais e respostas contracíclicas’. No ano passado essa taxa ficou em 7,5%.

Mulheres e crianças são as mais afetadas pela expansão do desemprego. Representantes da OIT falam da necessidade de “aumentar a igualdade de acesso e as oportunidades em relação ao desenvolvimento de competências laborais”.

Há coincidência de dados na abordagem desse tema. Publicada de cinco em cinco anos, a Pesquisa Mundial sobre o Papel da Mulher no Desenvolvimento, sob responsabilidade do Departamento de Assuntos Econômicos e sociais das Nações Unidas (ONU), identificou que os salários para as mulheres são 16,5% inferiores aos dos homens. O estudo aponta que na América Latina, mais da metade das pessoas sem renda (entre 20 e 24 anos de idade), executam trabalho doméstico não remunerado. Nesse segmento, é alta a presença das mulheres cuidando de crianças, doentes, idosos e outros membros da família.

A pesquisa coloca como questão de urgência repensar estratégias de crescimento e de capacitação econômica das mulheres como um posicionamento firme diante dos efeitos da crise econômica. Em Manaus, durante o 1º Encontro de Mulheres da Floresta (Emflor), nos dias 19, 20 e 21 de outubro, essa foi uma das reivindicações feitas. Falta a resposta governamental.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O bêbado tricolor

Neuton Corrêa*

Tudo foi muito rápido. O professor aterrissou no asfalto no mesmo instante em que o ônibus fazia a curva. Sua cabeça ficou posta na direção das rodas. Ele ainda tentou se levantar, mas suas pernas o empurraram um pouco mais para frente. Para não ver a cena, vedei os dedos e levei as mãos aos olhos, que já estavam fechados.

Impotente, testemunhava tudo da parada de ônibus da Escola Estadual Santana, a poucos metros do jornal. Antes do pouso forçado, o professor olhava para frente, queria andar para frente, mas suas pernas não obedeciam. Mirava para um rumo e ia para outro. O máximo que conseguia era caminhar como caranguejo: apenas para os lados. Na verdade, apenas para o lado esquerdo. Para o direito, não dava. O muro o impedia.

Como não conseguia andar pela calçada, tentou a estratégia da aranha: andar seguro à parede. Encostou o peito nas grades de proteção da sede do Serviço Geológico do Brasil, perto da Susam, e começou a se deslocar. Deu alguns passos, mas desistiu. Ora as mãos não acertavam o ferro, ora eram as pernas que não lhe suportavam.

Depois disso, virou de costas para os ferros e escorregou. Desceu lentamente pelo gradil, sentando-se ao chão. Com a cabeça cambaleando, passou as mãos na calçada, como quem prepara a cama para dormir, mas imediatamente deu um súbito salto, frustrado com uma queda. Mas ele não desistiu.

O professor tentou novamente ficar de pé, porém, descobriu que, naquela hora, andar como os humanos era uma coisa impossível para ele. Tanto que, obstinado a chegar em casa, dobrou os joelhos na calçada, inclinou o peito para o chão, pôs as mãos na frente e, como um quadrúpede, continuou a caminhada. Mas caiu outra vez.

A cena me fez lembrar a dupla Manelito e Roberto Carlos. Eram dois carregadores do mercado central de Parintins que não se desgrudavam. Manelito era o mais velho. Andava com a cabeça baixa por causa da corcunda, que ficava ainda mais saliente com um nó que tinha no meio da costa. Roberto Carlos era famoso por atacar mulheres e sempre apanhar de suas vítimas.

Manelito e Roberto Carlos passavam de madrugada para o trabalho e só retornavam para casa no início da noite, geralmente, costurando a rua. Um dia protagonizaram um episódio que sempre me lembro quando vejo um bêbado enrascado.

Os dois retornavam do trabalho. Com dificuldade, conseguiram chegar no longo muro do cemitério, pela rua Clarindo Chaves. Roberto Carlos se encostou ao muro. Manelito ajoelhou e andou de quatro. Perto do fim do muro, Roberto Carlos começou a rir, dizendo para o colega, com a voz travada:

– Manelito, tu não vai chegar em casa. Teu joelho não vai agüentar.
Manelito, porém, reagiu:
– Eu vou chegar. Tu é que não vai. Quero ver o que tu vai fazer quando o muro acabar.

Enquanto lembrava de Manelito e Roberto Carlos, o professor continuava seu esforço. Até então nem sabia quem era ele. Aliás, nem sei se é professor. Chamo-o assim, porque um dia, antes de descer para a Ladeira do Forró (clube que funciona ao lado do jornal, às quintas-feiras), ele passou por lá e se apresentou como tal: professor de Matemática.

Pois bem, naquele dia em que ele estava embriagado, meu susto só passou depois que o ônibus cruzou o ponto onde eu estava. O professor continuava estendido no asfalto e se debatendo. Corri o mais depressa possível, porque, logo atrás, uma carreata de flamenguista estava se aproximando. O risco era maior porque o professor vestia uma camisa do Fluminense, contra o qual o Flamengo havia acabado de jogar.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Romahs

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A sucumbência de um soldado da malária

Massilon de Medeiros Cursino*

Moribundo, com a tez cianosada e pálida, inerte a tudo como quem está viajando em seus pensamentos. Mais um soldado se despede dos seus. Desta vez não mais retornará para contar as estórias e bravatas de quem combateu com coragem o exército inimigo.

Sem o seu fardamento cáqui, sem seu par de botas pretas, sem sequer seu boné que ostentava sobre o quepe o mapa do Brasil. Diferentemente de outrora, também não estava mais armado com sua bomba de burrifo em que sempre carregava a mistura à base de Dicloro Difenil Tricloroetano, o DDT.

Como membro da fileira de um exército, tinha que enfrentar, além da saudade dos familiares, o rio, a mata fechada e as intempéries da densa floresta tropical. Ia ao encontro hostil para afrontar um combatente minúsculo, porém de uma agressividade funesta. O opositor era um pequeno inseto, culicídeo do gênero anópheles que se agigantava por ser o transmissor de uma doença parasitária de evolução crônica, a malária ou maleita. A doença que se tornara a mais expressiva das endemias tinha que ser combatida com o rigor de um exército preparado para uma verdadeira guerra.

A maior altivez do soldado da malária era poder dizer que não havia uma residência, por mais longínqua que fosse, sem registro da sigla de sua campanha e a respectiva numeração de controle.

O DDT utilizado para chacinar o anopheles que transmitia o impaludismo era o veneno amigo, pois já havia evitado milhões de mortes e inspirado até um Prêmio Nobel. No entanto, como também ocorre em outras guerras, o companheiro pode vir a se tornar o próprio algoz. Assim se procedeu com o DDT, que acabou por exteriorizar sua outra face.

O tempo se encarregou de promover um novo desafio ao combatente. O soldado, não mais com sua juventude e força, teve pela frente mais uma contenda, muito mais forte que aquele minúsculo inseto, além de que apresentava uma feracidade capaz de sobrepujar rapidamente seu contendor. Desta forma, o soldado se fez traído por aquele que sempre julgou ser seu maior aliado, através de uma detração irreparável.

O soldado Zé Assis foi mais uma vítima. Partiu ao encontro de seus companheiros de luta. São todos heróis anônimos, Homens que sacrificaram suas vidas na defesa da vida de seu povo. Eles singraram os rios, embrenharam-se nas matas e venceram uma longa guerra, todavia, saíram feridos de morte pelos furúnculos e sarcomas.

Diante de uma cena que se torna cada vez mais comum, na qualidade de órfão de um soldado da malária, que sentiu na pele a mesma dor que ora vivem os familiares do senhor Zé Assis, imploro providências ao poder público, ao Ministério da Saúde, a reparação das seqüelas que essa guerra causou a seus combatentes. Isso é o mínimo a exigir, em nome de quem com muita altanaria sacrificou a própria vida para cumprir um fiel dever de Estado!

*Economista e bacharel em Direito.

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