Archive for dezembro, 2009

A chegada das crianças

Ivânia Vieira*

Um ano de muitas perdas. Dessas impossíveis de se repor. Assim é, para mim, uma das faces de 2009. A cada dia um passo miúdo para lidar com a não-presença, com a impossibilidade da conversa, do confronto de ideias e do encontro. Uma espécie de estrada longa, sem ter um ponto final. Apenas saudade.

E nessa caminhada algumas revelações sobre a arte na renovação da vida. Tantas crianças chegaram, obrigando-nos a ter novos hábitos, relembrar antigas maneiras, reorganizar espaços e fazer festa para traduzir a alegria de tê-las entre nós.

Essas crianças são como uma corrente, pois com elas chegam mães, tias de fato e aquelas emprestadas, avós… Enfim, elas enredam a vida dos jovens, dos adultos, dos idosos em torno desse começo de existência.

Há, nessa véspera de 2010, um novo significado e muitas razões para celebrar a vida. Sim, tem a saudade doída por aqueles e aquelas que não mais estarão conosco e, nesses momentos, seus rostos e gestos serão recordados. Com uma descoberta: as crianças estão aqui, barulhando em nome da existência.

Criança é símbolo magnífico. Residem nela o significado, o sentido e a abundância de viver, de proteger, de lutar por um mundo onde elas tenham espaço melhor e mais saudável. O caminho percorrido entre perdas abriu trilhas para enxergar tantas criaturinhas reatando elos.

Compreender os movimentos que tecem essa rede é um desafio enorme porque nos exige parar, refletir e tentar ampliar a lente do olhar para além de nós mesmos e da dimensão material da vida.

Nos olhos tão brilhantes dessas crianças – chegadas como um novo presente – tem um universo encantador nos convidando a mergulhar nele e experimentar a alegria de poder superar e comemorar uma outra etapa, de conquistas, de passos miúdos como os das crianças que estão aprendendo a andar, levantar após as quedas e sorrir porque um novo passo está sendo dado.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A morte de Paulão

Neuton Corrêa*

Cegueré foi o encarregado da notícia: Paulão estava morto! Não fez alarde. Percorreu a vizinhança tímida e lentamente. Saiu casa a casa anunciando a morte do irmão. Em poucos minutos, a sala-quarto onde estava ficou cercada. Cabeças e mais cabeças se amontoavam pela janela para olhar o corpo.

As vizinhas mais velhas foram as primeiras a chegar para ver o féretro. Dona Maura Garapeira chegou com duas estearinas e mandou comprar mais uma vela “Sete dias e sete noites”. Dona Preta, assim que foi avisada pelo Cegueré, meteu a mão num galho de papoula com flores vermelhas, juntou o feixe a cinco talos de espada de São Jorge, e fez o primeiro arranjo para colocar sobre o falecido.

Os mais jovens chegaram depois. Marquinho foi o primeiro. Ele morava na frente da casa do Paulão. Chegou assustado! Afinal, era parceiro do extinto. Saía com ele não somente pela companhia, mas, principalmente, porque se divertia com as surpreendentes ideias que o Paulo tirava de vez em quando. Aliás, naquele ano, Paulão tinha tido várias ideias que ele próprio duvidava.

Pois bem, a notícia se espalhou rapidamente. Correu como folha na correnteza, talvez não pela morte, mas pela tragédia que se abatia sobre sua família. Pudera, em junho fora o pai que morrera de um fulminante ataque cardíaco. Em julho, deprimido com a perda, foi próprio Paulo que tentou se matar com uma corda no pescoço. Depois, dizia: “Não, eu só queria saber como é que o cara fica quando está na forca.”

Foi justamente esse episódio que provocou sua morte naquele dia. Depois da tentativa de suicídio, Paulão passou a ser chamado de Tiradentes. Passou a ser chamado assim por causa da marca da corda que passou muito tempo para sumir de seu pescoço. Pois não é que ele gostou do apelido. Tanto o é que fazia questão ser chamado como tal.

Ele não ficou satisfeito apenas em ser chamado pelo nome do herói nacional. Queria ser o próprio. Deixou crescer o cabelo, a barba e o bigode e uma corda pendurada ao seu pescoço passou a ser seu cordão. A barba não ficou como ele queria, porque apenas uns fiapos cresceram em seu queixo e o bigode não passou de uns taloszinhos.

Mesmo assim não desistiu. Queria ter a popularidade de Tiradentes. Mas, como saber? Foi aí que chamou dois irmãos para falar sobre sua morte. Bené, o mais velho, não topou. Cegueré (Antonio é o nome dele) concordou com Paulão. Antonio não tinha nenhum problema na vista. Pelo contrário, enxergava. E muito bem. Cegueré foi o apelido que trouxe da infância por conta de um terçol que o acompanhava sempre.

Foi ele, Antonio, quem organizou o velório. Colocou o corpo numa mesa; colocou as mãos do irmão sobre o peito, entrelaçou os dedos na posição de defunto; colocou algodão nos orifícios do nariz e dos ouvidos de Paulo; cobriu o corpo com um lençol branco; cercou o corpo de velas. Mas impôs uma condição: ninguém podia entrar no quarto. Ninguém! Era o único dentro do quarto e apenas levantava e baixava rapidamente o lençol.

No início da noite, quando a casa dele já estava tomada de curiosos, Bené, o irmão mais velho que trabalhava no IML, chegou e quis saber. Informado, replicou. “Esse, mesmo, não está morto. Se tivesse morrido, teria passado por mim”. Ele, então, entrou no quarto, suspendeu a cobertura e sentou a mão no peito do irmão, que se levantou gritando: “Porra, Bené, eu só queria ver se as pessoas gostavam de mim!”

- Tu precisava ver, macho, a correria das velhinhas, quando o Paulão se levantou, contou esta semana meu amigo Romário, durante uma viagem no 350.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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A surra no povo

Ivânia Vieira*

A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal de Manaus acabam de repetir um exercício antigo e, não raro, com efeito indigesto de longa duração para a sociedade. Demonstram um alto grau de dependência ao Executivo e pouca importância aos eleitores e à sociedade.

Ontem, as duas Casas deram uma surra no povo. Ao concordarem em votar apressadamente matérias de relevância às vésperas de um recesso, expõem a estreita democracia cultuada pelo Executivo e o Legislativo do Amazonas. A agilidade na análise dessas matérias não corresponde à desenvoltura, é ressignificada como postura servil de um poder, de alinhamento absoluto, pois a oposição – uma exigência do jogo democrático – não oferece riscos, não ameaça o já estabelecido e tem minguado.

Na pauta da Assembleia Legislativa, estavam a autorização para o Governo do Estado emprestar mais R$ 200 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o pacote de obras da Ponte sobre o rio Negro, e R$ 142 milhões da Caixa Econômica destinados a obras da versão estadual do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na da Câmara Municipal, propostas de alteração na cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e do Sistema de Limpeza Urbana, nome dado pela prefeitura para o já batizado projeto da taxa de lixo. Todas as matérias foram aprovadas, com larga vantagem e muita opacidade. Prevaleceram os interesses dos governos estadual e municipal. Foi negado à população o direito de conhecer as propostas e discuti-las. Afinal, é na vida dela que se dará o efeito das decisões tomadas por deputados e vereadores.

A tática de aguardar o apagar das luzes para aprovar propostas polêmicas nas quais repousam muitos pontos obscuros está entronizada. Se para alguns eleitores a chicotada dói, é momento, de novo, de eliminar os analgésicos, anotar nomes e condutas e preparar-se mais para as eleições de 2010. Se a indignação é do tipo resignada, então eles estão certos.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.

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CMM realiza tribuna sobre o livro Entre Linhas

A Câmara Municipal de Manaus (CMM) realizou hoje uma tribuna popular para tratar sobre o livro “Entre Linhas”, do escritor Neuton Corrêa, membro deste TEXTOBR. Confira a matéria sobre o evento, produzida pela assessoria de comunicação da CMM.
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Nelson Benzinho

Neuton Corrêa*

Acordei hoje sonhando em escrever uma carta para Deus. Até esbocei algumas palavras. Risquei e rasguei não sei quantas folhas de papel. Queria ter com Ele uma conversa franca de filho para Pai. Depois de tanto pensar no que dizer, cheguei a escrever essas palavras:

“Querido Pai do Céu,

Ando preocupado demais. Não ficava assim quando eu era pequeno. Mas só agora percebo o motivo. Só agora descubro porque as meninas não gostavam de formar par para dançar quadrilha comigo. Também só agora descubro porque sempre ficava sem ninguém durante as festas.

O que fiz para merecer? Se contraí essa feição depois de ter nascido, não deveria estar Lhe questionando. Mas, se nasci assim, que mal teria feito eu antes de existir? Mereço ser punido sem direito à ampla defesa? Também não entendo: por que fazes uns bonitos e outros feios?

Desesperado,
passageiro-repórter.”

Fiquei a pensar nisso desde o dia em que voltei a ser chamado de feio. Já até disse aqui que me considero feio. Mas faço uma ressalva: feio, porém, gostoso. Ando assim desde a semana passada, quando o Nelson Benzinho, meu ex-colega de trabalho, na Avenida Djalma Batista, em pleno engarrafamento, passou na parada de ônibus onde eu estava e zombou de mim: “Fala, feio!”

A parada estava lotada. Poderia negar que falara comigo, mas não tinha jeito. Pensei em sair de lá de fininho, mas chamaria atenção. Olhei para um lado e para o outro e tentei disfarçar, no entanto, o único, exclusivo, magnificamente diferente, ali, era eu.

Além disso, não poderia discordar do Nelson. Afinal, Nelson Benzinho é um profundo conhecedor da beleza masculina. Afirmo isso não só porque ele consegue me classificar esteticamente. Julga até aqueles que não conhece. Chamo ele e mais dois colegas como testemunhas de um episódio que o envolveu.

Foi durante uma festa de praia. Ele levou dois amigos. Sua envergadura de quase um metro e noventa de altura o ressaltava sobre os demais toquinhos que o acompanhavam. Ficava mais visível na multidão com a sunga verde-limão que usava. Não deu outra, logo foi notado pela mulherada.

Nelson se interessou por uma delas e a conquistou. Estava animado. A moça, porém, à certa altura do baile, passou, com grande freqüência, a pedir para ir ao banheiro. A saída foi tanta que os amigos de Benzinho o advertiram: “Ela está te enganando! Vai atrás!” Ele não perdeu tempo.

Ao retornar, Nelson voltou triste. Sentou-se e não se sabe por quanto tempo ficou imóvel, com a mão no queixo. Só quebrou o silêncio, quando um dos baixinhos lhe perguntou:

- E, aí, ela estava com outro?
Constrangido, Nelson respondeu:
- Estava.
O amigo insiste:
- E ele pelo menos era bonito?

E Nelson, prontamente, cruzou as pernas, balançou os ombros e depois de arregalar os olhos e mexer a cabeça, retrucou:
- Boniiiiito!? O homem era Maravilhooooooso!

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Festa em terminal de ônibus para o lançamento do livro "Entre Linhas"

O escritor Neuton Corrêa lançou hoje, no maior Terminal de Integração de Ônibus de Manaus, o terminal da Cidade Nova (T3), o seu livro “Entre Linhas”. A festa movimentou a manhã dos passageiros da Zona Norte.
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É mais sério

Ivânia Vieira*

Há uma precarização das instituições no Amazonas. Talvez, alguns se apressem a alegar ser esta uma condição real em todo o País. Têm razão. Mas vale, aqui, o recorte para o Estado e a lembrança necessária sobre os mais recentes episódios envolvendo a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e o Tribunal Regional Eleitoral.

Em tornos desses órgãos vêm sendo feitas denúncias graves. Estranhamente, após o efeito explosivo dessas falas, há uma acomodação no mínimo esquisita porque não elimina de forma transparente a suspeição lançada. Ao contrário, o silenciamento ou, no máximo a defesa pela metade, reforça a sensação do descrédito e da fragilidade a qual essas organizações vêm sendo submetidas.

Hoje, a opinião pública assiste a procedimentos que deveriam provocar ações rigorosas e imediatas de investigação a fim de não permitir o enraizamento da suspeição. Mas a conduta tem sido outra.

Em julho deste ano, o deputado estadual e ex-prefeito Wilson Lisboa afirmou que o Tribunal Eleitoral do Amazonas faz leilão de decisões, disse também que a Justiça do Estado está “entre as mais corruptas do Brasil”. E deixou uma questão: “Quanto custa cada decisão é uma incógnita”.

Na segunda-feira (14), um outro deputado, Liberman Moreno, declarou: “há uma ligeira sintonia entre quem manda e o que o MP faz”. Para Moreno, o órgão age por encomenda.

Ontem, o deputado Ângelus Figueira, em discurso na Assembleia Legislativa, disse “para mim, este juiz (Ari Moutinho, presidente do TRE-AM) não é ético. Como permanecer ali sem se julgar suspeito? O vínculo da família com o governador é antigo”, depois de aponta uma “relação político-partidária promíscua e nociva” entre o presidente dessa Corte e o governador do Estado.

O material produzido pelos parlamentares é farto. Atinge duramente tais instituições. A responsabilidade nessa conduta é clara, afinal, são servidores públicos, detentores de um mandato popular, os protagonistas das denúncias. Apostar no ‘esquecimento’ pode resolver questões de uns poucos, mas atenta contra as instituições e os interesses da sociedade com os quais todas elas têm compromisso constitucional.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A poesia do Homem Cavalo


Neuton Corrêa*

Enquanto aguardava o 676, detive-me a observar o vaivém de pessoas empurrando carrinhos de rolimã. Umas traziam baldes, panelas, latas e garrafas PET. Outras, além das vasilhas, um passageiro. Geralmente uma criança transportando outra e se divertindo com o drama da falta d’água no bairro Jorge Teixeira.

Um desses motoristas me chamou atenção. As batatas de suas pernas e as veias tufadas de seus braços mostravam o esforço que fazia para vencer a ladeira. O carrinho dele estava carregado. Agasalhou mais de três dezenas de PETs. Organizou as garrafas em dois andares e ainda pendurou algumas na direção do rolimã.

Fiquei tão concentrado na cena que não o vi vencer a subida. O carrinho de madeira transportou meus pensamentos para a vida de seu Vicente. Seu Vicente é um agricultor que conheci em um assentamento do Incra. Logo no começo, quando não sabia seu nome, chamava-o de “O Homem Cavalo”.

Tratava-o assim (de mim para mim) desde a primeira vez que o encontrei na estrada do assentamento. Ele trançava um pano em sua cabeça e cordas o amarravam pelos braços e pela cintura. Tudo isso para puxar uma carroça carregada de galhos de árvores e toras de madeira. Isso faz seis anos.

Tentei falar com ele naquele dia mesmo, mas o motorista do pau-de-arara não ouviu meus apelos. Assim que cheguei em casa, peguei a bicicleta de meu pai e voltei à estrada, mas não o localizei. Ainda saí perguntando se alguém o tinha visto, mas só ouvi respostas negativas. Parecia que havia se tornado invisível.

No ano seguinte, voltei a ver seu Vicente. Ele estava no mesmo lugar e puxando a mesma carroça de lenha. Tão logo o pau-de-arara parou, corri para falar com ele, porém outra vez sumiu. De novo, saí perguntando, mas ninguém o via. Cheguei até a pensar que essa vida de passageiro-repórter estava me fazendo ver coisas.

Disposto a provar minha sanidade mental para mim mesmo, montei uma espera para o Homem Cavalo. Passei dois dias, manhã e tarde, e, finalmente, o encontrei. Ele surgiu na hora em que o Sol começava a mergulhar nas águas do rio Amazonas.

Achava que encontraria um homem brutalizado, mas a primeira coisa que seu Vicente me falou foi da poesia que compôs. Fez música! Até disputou festival da canção. Cantou uma delas para mim. E mostrou-me os últimos poemas que escrevera. Palavras, amigos do busão, que sangram a alma para falar de saudades. Seu Vicente espremeu gotas de meus olhos, que embaçaram com a pureza de suas rimas angustiadas.

Tentei por várias vezes fazê-lo falar da carroça, mas aquele não era o maior peso que carregava. Percebi isso quando o indaguei sobre seus filhos: “Tenho cinco filhos”, respondeu ele, contando nos dedos. Citou a mais nova, com três semanas de vida, e incluiu o mais velho, um adolescente de 15 anos de idade: “A gente está esperando ele. Ele vai chegar! Tenho certeza que ele vai chegar!”

Pedi que explicasse a razão de tanta expectativa e foi aí que descobri o sentido da poesia saudosa do Homem Cavalo. Seu Vicente perdeu o filho em uma manhã de domingo. O menino estava com cinco anos de idade. Era seu companheiro de trabalho e de viagem. Naquele dia, à beira do rio, ele combinou com a criança: “Fica aqui, que eu vou vender esse carvão e volto já”.

Ao retornar para a canoa, porém, seu Vicente não encontrou mais o filho. Passou dois anos, dia e noite, retornando ao mesmo local à espera da criança que virou poesia.

Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria

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Cúpula incandescente

Cúpula do Teatro Amazonas, em Manaus, na noite do dia 6 de dezembro, na festa de abertura do Natal de 2009. (Foto: Wilson Nogueira)
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Teto de Tocantins

Foto (Wilson Nogueira) capturada de aeronave a 18 mil pés de altitude, no teto do Estado de Tocantins, na boca da noite do dia 1º. de dezembro.

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