Archive for janeiro, 2010

Os cacoetes da madame

Neuton Corrêa*
Assim que o ônibus freou ao lado do carro (era um carro de luxo), a mulher dobrou a cabeça na direção do 505. Como uma flecha, o olhar dela atravessou o vazio de alguns centímetros que separavam os dois veículos e atingiu minha atenção. Eram olhos mais azuis do que o azul dos olhos da deputada Vanessa impressos em cartazes em tempo de campanha política.

O vidro baixo da porta da motorista permitiu observá-la até onde o limite de minha curiosidade pôde alcançar. De cima, foi impossível não notar a saliência que empurrava a camisa branca desabotoada até a altura do peito. Nem deixar de imaginar a barriguinha sarada que repousava sob o fino tecido que escorria até as pernas, escondidas por uma calça marrom.

Mas não foi apenas a beleza do corpo da jovem senhora que me prendeu atenção. A lentidão do trânsito da rua Paraíba fez a mulher ficar à vontade em seu carro. Primeiro, balançou a cabeça e começou a fazer movimentos com a boca como se estivesse acompanhando uma canção. Depois, passou a brincar suavemente com os longos e soltos cabelos loiros.

Aquilo tudo me fez perceber que todo mundo tem um cacoete, porém, vício é coisa que só se pode perceber no outro. Mas tem cacoete que aparece mais. Conheço doze irmãos e cada um possui um cacoete diferente, sendo que o último conseguiu um feito incrível. Por conta disso, passou a ser chamado de “Síntese”. O apelido não é por acaso. O cacoete dele é repetir os trejeitos dos onze irmãos.

O mais velho dos Froes (já falecido) mexia a cabeça como um boi bumbá em evolução. Aliás, pouco antes de morrer, acrescentou outra marmota ao movimento que fazia desde a adolescência. Ele estalava a cabeça com um movimento brusco para o lado e a sacudia para trás com cinco ou seis movimentos repetidos rapidamente. Depois disso, vinha a última agonia: uma esfregadela no nariz.

O segundo irmão treme a perna direita. É como se entrasse em transe. Para tudo o que está fazendo, mesmo se estiver conversando, estica a perna direita e dá chutes ao ar como se estivesse fazendo embaixadinhas. O terceiro dos Froes treme os dentes como se estivesse com frio, batendo o queixo. Aliás, ele era o único que não tinha vícios corporais. Contraiu o cacoete depois que passou a usar dentadura, isso depois dos 50 anos de idade.

Síntese, por sua vez, é tudo isso e mais alguns cacoetes próprios. Ele começa o ritual tremendo os dentes, depois balança a cabeça, em seguida as pernas, faz outros movimentos e acrescenta os seus trejeitos, que finalizam com a mão direita no sovaco e depois a retira lentamente para levá-la ao nariz.

A madame também fazia e desfazia em sua cabeça: ela iniciava os movimentos puxando, em feixes, os fios dourados dos cabelos, jogava-os sobre o ombro esquerdo para em seguida espaná-los com a mão direita. E repetiu o ritual enquanto o engarrafamento nos prendia ali.

Ri da mulher dos olhos azuis, do modo como ela encerrava o cacoete. Lembrava, e muito, o Síntese. Assim que terminava de espanar os cabelos, levava as unhas para a cabeça, aplicava umas coçadinhas no couro e, desconfiada, olhava de um lado para o outro, e, finalmente, conduzia as pontas dos dedos ao nariz.

Eu, sem poder comentar com ninguém e viciado em observar os outros, pensei: deve ser uma cabeça muito cheirosa.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Myrria
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Catedral de Quito

Monumento está localizado na Praça da Independência, zona colonial da capital equatoriana. Foto: Wilson Nogueira
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Farinhada

Preparação da farinha de mandioca, alimento típico da Amazônia. Foto feita no rio Andirá, município de Barreirinha (AM), por Wilson Nogueira.

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Energia das árvores

Interior da fornalha de uma usina produtora de energia elétrica movida com a queima de restos de madeira, no interior da Amazônia. Foto: Wilson Nogueira
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Alagadas

Cena da várzea amazônica no período da subida das águas. Foto: Wilson Nogueira
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Vida nos rios

As pequenas embarcações são o principal meio de locomoção dos moradores das margens dos rios amazônicos. Foto: Wilson Nogueira
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O bilhete afrodisíaco

Neuton Corrêa*

O lencinho de mesa de lanchonete ainda estava nas mãos do Julinho. Ele o guardava, bem guardado, em uma caderneta de anotações. Poderia ser apenas um pedaço de papel para qualquer pessoa, menos para ele. Era a faísca que tacou fogo em sua esperança. Após 45 anos, quatro décadas e meia, finalmente, teria ao seu lado uma pessoa interessada por ele, sem precisar pagar pelos serviços.

Levou uma semana pensando que talvez aquela fosse a primeira e única chance de ter a companhia de uma mulher para sempre. Até imaginou uma casa. Ele e ela juntos, juntos e sós nos primeiros anos e nos anos seguintes um lar cheio de crianças chorando por todo lado. A imaginação era tanta que até pensava no nome do primeiro filho: chamaria-se Júnior, Júlio Júnior.

Todo esse festival de ideias se sucedeu depois do bilhete que recebeu quando fazia um lanche no Shopping São José. O papel apareceu do nada em sua mesa. Foi ao banheiro e ao voltar à cadeira ele já estava ali aberto em sua direção. Olhou para um lado e para o outro tentando captar uma biscadela feminina, mas não conseguiu nada. Chamou a garçonete. Ela também nada sabia.

Mas o Júlio não desanimou. Tentava esconder a felicidade, tentava reprimir o sorriso que se abria euforicamente, mas não conseguia. Se pudesse (Júlio tem problemas nas pernas e dificuldade para mexer o braço direito e fechar a mão esquerda), ele sairia de lá pulando e chutando de alegria tudo o que visse pela frente. Deve ter feito isso na imaginação.

Era tudo o que o Julinho queria. Sonhou tanto com isso que chegou a alugar um quitinete sobre uma casa noturna, na avenida Grande Circular, na Zona Leste, a alguns metros do shopping onde faz suas refeições. Disse-me, certa vez, que nunca assistiu a um show de streep tease ali porque sempre foi visitado por suas vizinhas nos dias em que recebe seu benefício da Previdência.

A reviravolta em sua vida estava escrita naquele lencinho. Era pouca coisa. Apenas três vírgulas, um dois pontos, duas aspas, uma abrindo e outra fechando, oito números e onze letras, dizendo: “Oi, Júlio, se você “ainda” se interessar por mim, me liga: 911x-789x”.

“Cara, assim que li o bilhete, meu fogo atiçou como nunca”, disse-me o Julinho ontem, quando embarcou no mesmo ônibus no qual retornava do trabalho para casa. Meu colega de trabalho ficou mais excitado porque o bilhete trazia número do telefone e nome dele. Mas ficou embaraçado com o “ainda”. Quem poderia ser? Não lembrava de ninguém que tivesse se interessado por ele e ainda mais naquele mundo onde mora.

Julinho não hesitou. Tão logo voltou do trabalho, passou no mesmo shopping, comprou um celular, foi para o quartinho, leu o bilhete pela enésima vez, excitou-se pela enésima vez e estreou o aparelho com uma ligação para número do bilhete. “A voz dela era mais afrodisíaca do que o bilhete”, relatou-me, dizendo que combinaram um encontro para uma semana depois.

E assim aconteceu:

Uma semana depois, no horário combinado, ele ligou para ela, porém, do outro lado da linha, a voz da mulher do bilhete afrodisíaco, atendeu com palavras melosas:
- Pôxa, você é pontual. Chegou dez minutos antes.
Julinho, que ainda estava perfumando o corpo, estranhou:
- Mas eu ainda estou em casa.
E ela respondeu mudando o tom da voz.
- Então não é você que eu quero. O Júlio que eu quero acabou de passar na minha frente, na lanchonete.

Lamentei a frustração do amigo e ele me fez um apelo: “Você pode contar isso no busão?”.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Romahs.

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Pandeiro de pastorinha

Instrumento é tocado na Pastorinha de Parintins(AM), dança dramática do período natalino. Foto: Wilson Nogueira.
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Pôr-do-sol amazônico

Fenômeno fotografado do porto da Vila Amazônia, na boca do Paraná do Ramos, no Médio Amazonas. Foto: Wilson Nogueira
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Pedaços da natureza

Vista parcial da Praia do Jacu, no rio Uaicurapá, no baixo Amazonas. Foto: Wilson Nogueira
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