Archive for março, 2010

Novo diretor do ICHL reafirma compromisso por universidade pública e gratuita

O novo diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Professor Doutor Nelson Matos de Noronha, disse, na sua posse (6/03/10), que a Universidade pública brasileira se transformou, desde a década passada, em instituição operacional e prestadora de serviço, “equiparável a uma mercadoria avaliada pelo consumidor segundo a melhor oferta”. Noronha afirma que a transformação desse quadro depende da mobilização da comunidade universitária e da sociedade civil na defesa da universidade plural, pública e gratuita. “[...] esperamos criar as condições para que o ICHL possa vir a ser reconhecido como essencial não por conceder títulos de prestígio nem por formar mão de obra qualificada, nem pela prestação de serviços, mas por abrigar a reflexão e a poesia, a solenidade e a festa, o conceito, a teoria, a erudição e a vida”. No discurso, Noronha recitou um poema do padre Luiz Ruas, falecido em 2000, ex-professor da Ufam ativista político e cultural. Confira:

“Excelentíssimo Senhor, Professor Dr. Hedinaldo Narciso Lima, Vice-Reitor, representando a Professora Doutora Márcia Perales Mendes da Silva, Magnífica Reitora da Universidade Federal do Amazonas, Excelentíssimo Senhor Professor Dr. Ricardo Nogueira Batista, Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras, Excelentíssima Senhora Professora Doutora Márcia Eliane Alves de Souza e Mello, Senhores e Senhoras autoridades presentes, Professores, Estudantes, Servidores, amigos e familiares, peço-lhes um pouco de sua paciência, pois, devido às circunstâncias, muito se tem a dizer neste momento solene. Em deferência ao caráter cerimonial deste encontro, no entanto, vou falar menos do que seria necessário.

Em primeiro lugar, tenho de agradecer a todos vocês por terem depositado em mim e na Professora Dra. Márcia Mello a honrosa incumbência de assumir a Direção e a Vice-Direção do Instituto de Ciências Humanas e Letras durante um mandato de quatro anos. No ensejo, prestamos nossas homenagens aos Professores Dr. Sérgio Freire e Dra. Rosemara Staub pela oportunidade de termos dividido com eles cerca de três semanas de debates e conversas sobre os problemas, as dimensões e o papel acadêmico e político do ICHL na UFAM. Orgulhamos-nos de ter enfrentado, naquele certame que sem dúvida permanecerá por muito tempo na memória de todos nós, opositores tão leais e dignos.

Peço-lhes alguma indulgência pelo que vou lhes dizer em seguida. Não se trata de cabotinismo, mas da necessidade de lançar um apelo para que recuperemos a história de nosso Instituto. Se contarmos a partir da fundação da antiga Faculdade de Filosofia, fundada pelo Cônego Walter Nogueira, estaremos completando 51 anos de trabalho em 2010. Se contarmos a partir da criação do curso de filosofia, em 1961, poderemos nos reunir aos seus remanescentes para festejar 50 anos no próximo ano letivo. Essa data não poderá passar sem que prestemos as devidas homenagens aos nossos mestres e a todos os grandes homens e mulheres que contribuíram para consolidar uma instituição de que nossa cidade e nosso estado tanto se orgulham. Neste sentido, passo a lembrar saudosamente de meus professores no curso de licenciatura em Filosofia, no qual, durante os anos 80, recebi minha primeira formação universitária. Maria Mathilde Hosanah da Silva, Maria Hercília Tribuzzi de Magalhães Cordeiro, Geralda Guimarães Monteiro, Osvaldo Gomes Coelho, Amecy Gonçalves Bentes de Souza, João Bosco Araújo, Demósthenes Carminé, José Alves Araújo, Maria Enedina Hosanah da Silva, Waldir Nunes Pacheco, Vera Lúcia Soares de Lima, Paulo Pinto Monte, Rosendo Neto de Lima, Rosa Mendonça de Brito, Gedeão Timóteo do Amorim e José Alcimar de Oliveira. Deles recebemos o gosto pela liberdade e aprendemos que a atividade de pensar, por mais que exija rigor, não pode se desenvolver sem a ajuda das musas.

Talvez somente agora eu seja capaz de avaliar a relevância de seus ensinamentos. Tal consciência é o que me obriga a fazer este apelo aos pesquisadores para que mergulhem nos arquivos e reavivam a memória desta instituição. De alguns de meus antigos mestres, tive a honra de me tornar colega, a partir de julho de 1991, quando ingressei, como docente, na Universidade do Amazonas, hoje Universidade Federal do Amazonas. O tempo nos preparou para melhor julgar os atos daqueles mestres que conseguiram resistir às forças de repressão e censura que atingiram a vida universitária em nosso país; eles lograram manter vivo em nossa cidade o cultivo da filosofia, da crítica e da reflexão.

O desafio que agora abraçamos pode parecer menos duro, se o compararmos aqueles sobre os quais nossos mestres triunfaram. Contudo, a análise da história da universidade brasileira poderá mostrar que, a despeito da recente democratização de nosso país, novos obstáculos surgiram ameaçando o livre exercício do pensar e do poetizar. Mais uma vez, recorro à memória não somente dos mestres que me ensinaram em sala de aula, mas também, a daqueles mais antigos, que fundaram a Faculdade de Filosofia, a Escola de Serviço Social, o Instituto de Letras e Artes, dos quais o atual ICHL é remanescente. A partir de hoje, receberemos o legado de Cônego Walter Nogueira, João Chrysóstomo de Oliveira, André Vidal de Araújo, Otávio Hamilton Botelho Mourão, Raimundo Abdon Said, Felismino Francisco Soares, Freida de Souza Bittencourt, João Bosco Bezerra de Araújo, Maria Hercília Tribuzzi de Magalhães Cordeiro, José Lauro Thomé, Amecy Gonçalves Bentes de Souza, Gedeão Timóteo Amorim, José Enos Rodrigues, Antônio Paulo Batista Graça, Marcos Frederico Krüger Aleixo, Lígia Fonseca Heyer, Aloysio Nogueira, Maria Izabel de Medeiros Valle, Heloisa Helena Corrêa da Silva, José Ricardo Batista Nogueira, Auxiliomar Silva Ugarte e Sérgio Augusto Freire de Souza. Na iminência de vir a fazer parte deste rol, me sinto constrangido. Sentimento que experimento por notar a ausência, nos escritos oficiais de nossa UFAM, do registro da atuação do Professor Padre Luiz Ruas na lista dos ex-Diretores do ICHL, posto que, de fato, ele exerceu a Direção da antiga Faculdade de Filosofia nos anos 1963 e 1964.

Luiz Augusto de Lima Ruas nasceu em Manaus, a 28 de novembro de 1931 e aqui faleceu em 2000. Intelectual festejado em nossa cidade e em todo o país por sua atuação no movimento de renovação cultural da intelectualidade amazonense no final dos anos 50 e início dos anos 60 do século XX; autor do muito exaltado livro de poemas Aparição do clown, encarnou o espírito da liberdade durante os anos de chumbo da Ditadura Militar imposta ao Brasil a partir de 1964.

Embora eu não o tenha conhecido e nem sequer li suas obras, trago aqui o trecho autobiográfico de um de seus poemas como prova do que digo:

As noites dos assombros se gravaram
Nos olhos do menino, para sempre.
Cravou a rude fera suas ventosas
No plasma nuclear do qual rebenta

A vida. Não na crosta… Mas bem no âmago.
Na zona claro-escura onde se fundem
Os nervos, as artérias, alma e sangue;
Nas zonas onde a carne faz-se espírito,

Nas linhas onde o barro se faz homem.
Ah! Noites de fadigas e de prantos!
Ó luares dissolvidos no porvir!

Ó pássaros de assombros! Muito embora
Eu lute, cante, chore, não consigo
Tanger-vos dos meus olhos de menino!

[7]
És desejo, talvez, ou limpo canto
Que se põe como branca toalha sobre
A descampada e vaga solidão
Do vasto campo azul deste meu canto?

És a fuga, talvez, de fontes puras
Que se lançam, medrosas e perdidas,
Para o mar tenebroso, inavegável,
De onde chego no canto feito nave?

És a rosa? Ou quem sabe se és a sombra
Das estrelas morridas de não ser
Mais que luz, mais que brilhos solitários?

Ou te pões simplesmente como a nota
Que fugiu, para sempre, da sonata
Imatura que eu fiz de brilhos falsos?

[8]
O cais está deserto. A noite é vasta.
O vento sopra fino. As águas negras
Paradas se repousam das fadigas
De naves que partiram soluçantes.

As luzes tremeluzem cochilantes
Dos negros postes magros penduradas.
Do guarda, os passos lerdos, sonolentos,
Acordam surdos ecos nas distâncias.

E a sombra do seu corpo se projeta
No longo tombadilho do silêncio
Escura e densa como ponte armada

Do cais para o silêncio da água negra,
Do fim para o começo de outro dia
Do pranto de quem fica ao de quem parte.

[9]
E nós nos esquecemos dos matizes
Das cores penduradas nos baloiços,
Dos risos, das canções e das conversas
Que tínhamos sentados pelo chão.

Das formas e das casas, do equilíbrio
Das árvores dispostas no quintal,
Do córrego, da fonte limpa e fria,
Das pombas se catando nos umbrais,

De tudo quanto foi o que nós fomos,
De tudo que fizemos nos fazendo,
Dos mínimos detalhes que sonhamos

Compondo o que viria — o que seriamos —
Somente permanece a forma inculta,
Disforme, densamente nos cercando.

[10]
Estas aves vêm sempre, ao fim da tarde,
Descansar seus remígios agourentos
No pomar de onde colho doces frutos
Com que faço meus vinhos suculentos.

Elas vêm de bem longe. Me olham sempre
Com desdém. E nas asas trazem ventos
Que uma vez, já faz tempo, naufragaram
Minha nave que nautas desatentos

Dirigiam. E estas aves eu me espiam
Lá de cima das arvores crescidas
No pomar irrigado com águas verdes.

Bem conhecem meu fim. Vencido nauta
Pus-me, agora, a plantar frondosas copas
Que sugerem veleiros em meu canto.

Peço-lhes vênia para voltar a lhes falar das ameaças que ainda rondam a existência de uma faculdade dedicada ao cultivo das artes, da filosofia e das ciências humanas. Neste particular, sigo as lições de Francisco de Oliveira e Marilena Chauí. Após a breve passagem do Padre Ruas pela sua Direção, a Faculdade de Filosofia foi fechada. Veio a reforma universitária e o desmembramento da Faculdade surgindo daí o ICHL. Francisco de Oliveira e Marilena Chauí descrevem os eventos que se deram desde o golpe de 64 até 1996 como um processo marcado por três momentos, os quais caracterizaram o itinerário pelo qual se construiu o modelo de universidade que hoje está em vigor e no qual nossas áreas de conhecimento subsistem precariamente.

No primeiro momento, nos anos 70, a Reforma do Estado Brasileiro deu às Universidades um papel funcional caracterizado pela incumbência de conferir status social aos membros da classe média como compensação ideológica ao então recente seqüestro do poder pelos militares. No segundo momento, além de continuar alimentando o sonho da ascensão social, a universidade foi incumbida de produzir resultados para assegurar a formação de mão-de-obra qualificada para o mercado de trabalho. A partir dos anos 90, o aprofundamento da doutrina neoliberal transformou a Universidade em instituição operacional e prestadora de serviços, isto é, deu a ela a incumbência de captar os recursos necessários para a sua existência e funcionamento mediante a transformação do direito universal à educação em serviço equiparável a uma mercadoria avaliada pelo consumidor segundo a melhor oferta.

Já estamos às portas da segunda década do século XXI. O modelo neoliberal da universidade continua em vigor. No Congresso Nacional, está agendada para os próximos meses a votação de uma série de projetos de lei e emendas constitucionais que, se aprovados, agravarão mais ainda a característica mercadológica da ação e da identidade das Instituições de Ensino Superior. Cada vez mais nos aproximamos daquela cena do filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, quando, tendo ouvido falar que os alemães estavam recrutando prisioneiros dotados de habilidades essenciais para o serviço do novo Estado Nazista, um jovem judeu, na esperança de escapar das câmaras de gás, se dirige a um dos oficiais e lhe diz: “- Eu sei fazer algo essencial.” E o oficial retruca: “- O que você faz?” “- Ensino História e Literatura!”, responde o judeu. Dali mesmo o jovem professor é encaminhado para fila dos condenados. E ainda tem a ingenuidade de afirmar: “- Mas como pode uma civilização viver sem história e literatura?”

Mais ingênuo posso parecer ao trazer a vocês as lembranças dessas histórias em um momento onde os jornais estampam a testemunha da Secretária de Estado norte-americana de que a nossa democracia é sólida e clara. Mas basta lembrarmos episódio recente no qual nosso estimado colega, Professor Dr. Gilson Vieira Monteiro, foi violentamente espancado na frente de seus alunos, no exercício de sua atividade docente. O motivo alegado pelos autores da agressão: o professor fez comentários sobre notícias que circulam nos veículos de grande circulação no país, mas que não têm muito espaço na mídia local. Aqueles que acompanharam os eventos que se seguiram na UFAM sabem como foi dolorido ter de lutar para obter das autoridades constituídas uma manifestação que deveria ter sido feita espontaneamente em decorrência do dever moral inerente a todo homem de bem.

Digo estas coisas porque os cargos de que ora nos investem não nos pertencem. Eles constituem ferramentas da sociedade destinada a operacionalizar as relações entre os indivíduos, os grupos e o Estado. Relações marcadas por conflitos, disputas e interesses comuns. Os que neles são investidos recebem a tarefa de assegurar a transparência, a equidade, à justiça e a dignidade dos processos e das atividades acadêmicas e administrativas inerentes ao ensino, à pesquisa e a extensão.

Tais deveres se traduzem na obrigação de agir tão logo os fatos o exijam e na de proferir as palavras certas na hora certa. Perder o tempo certo da ação e da palavra pode ser a ruína daqueles que acreditam no diálogo e na participação comunitária como modalidades de resolução de conflitos. Para os que não acreditam nisso, no lugar de palavras, punições, inquéritos e admoestações são os instrumentos suficientes para assegurar a ordem. Mas os que assim pensam e agem desconhecem que a experiência de participar, a prática do debate e a publicidade das ações constituem a massa com a qual se ligam os tijolos de uma sociedade plural e democrática, são as condições necessárias para o desenvolvimento de relações de respeito e dignidade em todas as sociedades que para si reivindicam a condição humana.

O modelo de universidade que está em vigor não foi construído através do diálogo do Estado com a Sociedade. Imposições políticas e econômicas constrangeram os administradores de nossas instituições a aceitar as diretrizes que regeram as transformações que as IFES sofreram nos últimos 30 anos. No lugar da autonomia, instituiu-se a autogestão e o planejamento estratégico. Por isso, hoje, ao invés de nos dedicarmos aos grandes debates sobre as políticas educacionais do país ou sobre papel das universidades no desenvolvimento sociocultural da humanidade, gastamos nossas energias discutindo internamente como vamos atingir os índices de produtividade estabelecidos pelo MEC, pela CAPES e o CNPq.

E, como se estivéssemos na situação daquele professor de história e literatura no gueto polonês, aqui no ICHL, nos perguntamos inquietos: – qual é o lugar dos cursos de letras, artes, filosofia, serviço social, comunicação social, história, geografia, biblioteconomia, arquivologia, antropologia, sociologia na UFAM e na sociedade? Se examinarmos a coisa na esperança de que esses cursos dêem status social aos alunos, seremos imediatamente contestados pela evidente dissolução do saber como fonte de prestígio. Se a examinarmos pelo lado do oferecimento de mão de obra qualificada, as numerosas fundações que foram criadas especialmente para atender às demandas empresariais também não tardarão a nos desmentir. De fato, essas negativas têm empurrado muitos de nós a apostar na prestação de serviço como forma de justificar nossa existência.

Na verdade, nem a filosofia tem escapado. Já se dissemina em todo o Brasil uma doutrina que associa a leitura dos clássicos da filosofia ao atendimento clínico como uma prática terapêutica. Recentemente, um banco público abriu uma linha de crédito para financiar o pagamento das mensalidades dos cursos de especialização oferecidos pelas Instituições Públicas de Ensino Superior.

O que diria Heidegger, tão combatido por seus equívocos de juventude, diante de práticas e de discursos que sistematicamente contestam suas célebres afirmações:

O pensamento não traz conhecimento como as ciências.
O pensamento não traz sabedoria prática utilizável.
O pensamento não resolve os em enigmas do universo.
O pensamento não nos dota diretamente com o poder de agir.

Eliminar os empecilhos burocráticos para otimizar a realização dos verdadeiros fins das atividades universitárias. Esta tem sido uma diretriz constante nos discursos de planejamento e reforma modernizante da universidade brasileira. A idéia não é má. Todavia, sua operacionalização, nas condições de autogestão e autofinanciamento imposta às IFES do país, fragmenta as atividades desenvolvidas nos setores das artes, da filosofia e das ciências humanas, as isola em guetos e as submete ao regime de concorrência característico da dinâmica do mercado. Para não sucumbirmos, retomamos o velho discurso: “sabemos fazer algo de essencial…’.

O ICHL conta com 32 servidores para atender 11 Departamentos Acadêmicos, 17 cursos de graduação e 06 Programas de Pós-Graduação stricto sensu. Além disso, a unidade oferece regulamente cursos de especialização e apóia o Programa de Pós-Graduação em Antropologia pertencente ao Museu Amazônico. Está prevista a instalação de mais cursos de graduação em 2010 além da ampliação dos programas de pós-graduação.

Segundo informações atualizadas do DRH/PROCOMUM, o ICHL contava com 64 professores contratados em regime temporário, dos quais 14 tiveram seus contratos encerrados no final de fevereiro de 2010. No quadro permanente, contam-se 170 docentes em situação “ativa”. Dentre estes, 73 possuem o título de doutor; 59 possuem mestrado; 05 possuem especialização e 38 possuem somente a graduação.

No ano de 2007, o Boletim UFAM EM NÚMEROS registrou a matrícula de 3.522 discentes de graduação no 1º. Semestre e 3.251 no 2º. Semestre. Foram diplomados no 1º. Semestre de 2007, 116 graduandos. Estima-se que atualmente perto de 6.000 alunos estejam matriculados nos cursos de graduação e pós-graduação do ICHL.

Através do Programa REUNI, o MEC destinou cerca de R$1.290,221, 91 (hum milhão duzentos e noventa mil duzentos e vinte e hum reais e noventa e hum centavos) para a construção, em 2009, de um prédio de salas de aulas e laboratórios no ICHL, o qual até o momento ainda não foi objeto de licitação pública. Espera-se para este ano o início da construção de um bloco reservado ao projeto HUMANITAS aprovado junto à FINEP para atender aos programas de pós-graduação do ICHL, da FES e da FACED.

Ainda no âmbito do programa REUNI, há a seguinte previsão de abertura de vagas de discentes para cursos de graduação: até 2014, 899 novas vagas para 07 cursos a serem criados e 280 novas vagas para serem oferecidas pelos cursos já existentes no ICHL.

Tais projeções foram elaboradas a partir de diretrizes funcionais, visando resultados quantitativos a serem obtidos mediante a gestão estratégicas dos escassos recursos oferecidos pelo Estado. Para além delas, caberá, segundo o modelo de gestão em vigor, aos membros da comunidade acadêmica a tarefa de empreender ações cuja relevância será avaliada em termos numéricos pelos resultados obtidos.

Temos consciência de que é quase impossível frear o desenvolvimento desta tendência para a qual se encaminha a vida universitária brasileira. Não pretendemos vestir a indumentária de Dom Quixote. Não somos voluntaristas nem rebeldes sem causa. Proferir estas palavras constitui para nós um dever. Não se trata do dever daquela ave agourenta de que fala o poeta, mas do dever de resistir ao desaparecimento das condições necessárias à co-existência de pessoas que se dedicam ao cultivo da verdade, da justiça, da beleza, da memória, da liberdade, do corpo e do espírito. Sabemos que, para o mercado, para o prestígio e para o governo, essas atividades são dispensáveis, mas também sabemos que, para a existência da humanidade, elas permanecem essenciais.

Antes de finalizar, quero ainda homenagear alguns colegas com os quais tenho trabalhado e convivido em diversas instâncias da vida universitária. Chamo a vossa atenção para lhes pedir que não permitam repetirmos a injustiça que recentemente cometemos contra os nossos saudosos Bernadete Andrade e Narciso Júlio Freire Lobo, que desta instituição receberam tão poucas homenagens mesmo tendo a ela prestado numerosos serviços que a elevaram a tão altos patamares. Contamos entre nós com intelectuais do porte de Aloysio Nogueira, Ernesto Renan Freitas Pinto, Izabel Valle, Neide Gondim, Marilene Corrêa da Silva Freitas, Selda Vale da Costa, Nereide Santiago, Antônio José Vale da Costa, Mathilde Hosanah, Marco Frederico Krüger e Odenildo Sena cujas atuações na defesa da Universidade autônoma, gratuita, pública e de qualidade são exemplos que hoje (injustamente) são poucas vezes lembrados nas pautas de homenagens da UFAM.

Por fim, quero homenagear os servidores técnico-administrativos e os estudantes sem os quais o trabalho dos professores não poderia se realizar nem teria sentido. Ao longo de 2009, os servidores técnico-administrativos da UFAM provaram sua competência política e o valor de seu compromisso com a transformação da UFAM em uma instituição ainda mais respeitada por sua seriedade e pelos serviços prestados à cidadania. Eles alcançaram, por sua participação na vida política da universidade, postos de comando e decisão e aí passaram a atuar no sentido de moralizar os procedimentos administrativos e dar transparência ao uso dos recursos públicos. No ICHL, essa atitude tem se transformado em uma cultura cada vez mais disseminada entre os servidores técnicos e docentes. Da mesma forma, a politização e a participação dos estudantes tem crescido e contribuído para aprofundar e difundir a cultura democrática na UFAM. Além disso, a diversificação das atividades artísticas e culturais tem crescido graças à atuação dos centros acadêmicos e do trabalho organizados dos grupos de estudo ou simplesmente dos grupos de amizade que se formam no calor dos encontros.

Fortalecer essas iniciativas e promover a abertura de espaços e ocasiões para o debate público e a defesa da universidade plural, pública, gratuita e de qualidade é o compromisso que ora assumimos e com o qual esperamos criar as condições para que o ICHL possa vir a ser reconhecido como essencial não por conceder títulos de prestígio nem por formar mão de obra qualificada, nem pela prestação de serviços, mas por abrigar a reflexão e a poesia, a solenidade e a festa, o conceito, a teoria, a erudição e a vida.

Obrigado.”

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O resgate da Montanha

Neuton Corrêa*

Da janela do 300, vi um homem alto e forte, de calça branca e camisa vermelha, caminhando com um violão pendurado em suas costas na posição diagonal. A camisa desabotoada abanava-se para trás à medida que ele caminhava em direção a uma casa noturna da Cidade Nova. O andar o diferenciava das outras pessoas que estavam ao seu lado. Movia-se de um lado para o outro, como balanço de canoa desalagada.

Ainda coloquei a cabeça para fora para me certificar de que meus olhos não me enganavam, afinal, os sentidos costumam nos iludir. Mas, não! Era o Monta! Era ele mesmo! Sim, era o Monta porque os outros que o acompanhavam também carregavam instrumentos musicais. Um segurava pandeiro; outro, um cavaquinho; o terceiro, um surdo; e o último, uma caixinha.

Monta é músico. E dos bons. Conheço-o não faz muito tempo. Fui apresentado a ele em uma roda de toadas. Fiquei impressionado com uma habilidade que possui, cuja capacidade não imaginava que pudesse existir. Monta consegue imitar a si próprio. Muda de voz, faz trejeitos nas mãos e aponta a boca, como quem assovia, e isso para caçoar de si mesmo.

No dia que o conheci, em janeiro passado, Monta contou a história do dia em que foi resgatar o pai, que decidiu beber em frente à igreja São José Operário, em pleno dia de novena do padre Sérgio Lúcio. Por telefone, a família foi avisada que Montanha (pai de Monta) estava jogado ao chão. Tinha virado atração da garotada, que se divertia com as músicas que ele interpretava com sua voz de tenor.

Os irmãos de Monta não perderam tempo. Correram para a igreja. Era verdade. Seu Montanha estava ali, estragado. O filho mais novo pediu com carinho, a filha única suplicou-lhe, quase chorando, que fosse para casa. Mas nada. Tentaram carregá-lo. Impossível. O homem fazia jus ao nome. Pesava mais de 120 quilos, quiçá mais, como fazia questão de observar meu amigo músico.

Com a missão fracassada, sobrou para Monta. Era o filho mais velho, o único que estava casado e a quem o pai sempre costumava atender. Foi escalado para tirar o pai da calçada e a família do vexame. O problema é que Monta havia acabado de chegar de uma festa. Mesmo assim, convencido pelos argumentos dos irmãos, animou-se a levar Montanha para casa.

Nessa hora, quando começou a me falar do resgate, Monta balançou os ombros, fez um biquinho na boca e relatou o diálogo que trocou com o pai:

“- Papai, vamos para casa.
O velho respondeu:
- Não, meu filho, hoje eu quero ver o milagre de São José.
Aí, eu endureci a conversa (disse ele franzindo a testa):
- Pô, pai, olha a vergonha que o senhor está ‘fagendo’ para família! Vamos para ‘caja’. Vai, pai, ‘bora’ logo.
Mas o papai riu e falou:
- Agora, que tu tá bonito, que tu é famoso, que vem querer me dar lição de moral. Olha quem está falando. Nem parece que tu bebe!
Pô, cara, eu caí do cavalo e respondi:
- O que é ‘icho’ aí?
O papai respondeu:
- Corote.
E eu continuei:
E ‘icho’ aí?
- ‘Teperabá’.
Aí, eu falei para ele:
- Então, me dê uma dose. E ficamos lá até acabar a novena.”

Curioso para saber o fim da história, perguntei ao Monta o que aconteceu e ele respondeu:
- Ele me levou para casa, disse-me caindo na gargalhada.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Myrria.
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Como lamparinas

Ivânia Vieira*

Elas caminham loucamente determinadas. Seus corpos formam um gigantesco bailado, os passos são firmes e os olhos, ah, esse mundo de olhos, em todas as cores, parecem lamparinas de fogo forte que não apaga. O brilho é tamanho que nas noites mais escuras dessa marcha ele é a luz-guia nessa longa caminhada. No Brasil, a terceira Marcha Mundial de Mulheres saiu, no dia 8, de Campinas (SP), vai percorrer 18 cidades para, no dia 18, no centro de São Paulo, fazer o ato de encerramento.

O levante dessas mulheres começou bem antes nos lugares mais distantes quando cada uma dessas mulheres, como lamparina, deu vida à ideia da 3ª Marcha. Assim foi em todo o Brasil. Em Parintins, Fátima Guedes juntou-se a outras companheiras, fizeram barulho e atravessaram o rio Amazonas para chegar a Manaus, onde outras lamparinas, animadas pela Francy Guedes, ora com o fogo alto ora baixo, mas sem deixar cair a labareda da esperança de que as mulheres do Amazonas estariam na grande marcha deste ano.

Setenta era a meta, pelo menos 50 amazonenses estão nesse momento percorrendo as ruas do Estado de São Paulo como parte das 3 mil caminhantes. Uma ousadia e uma reconstrução da noção de solidariedade que de tanta paulada do individualismo sofreu seqüelas terríveis e quer, em gestos como esse, reinventar-se na sua melhor versão. As mulheres sabem o quanto a solidariedade é vital.

Em São Paulo, frio, chuva, calor, água na estrada, buraco na pista e contra todas as adversidades segue a multidão da resistência, da louvação, da cantoria, da semeadura. São corpo e alma completamente entregues a uma causa, ferozes na defesa dela, encantadoras no fetiche da liberdade. Pão e água fazem milagres, multiplicando-se entre as mãos, essa outra parte do corpo que encena um impressionante espetáculo em mil gestos.

A vida, nesse território, ganha fôlego novo para, na volta, em cada cidade deste País e, como lamparina de fogo grande, reunir mais mulheres na outra marcha, a do dia a dia, incomodando, questionando, instaurando conquistas honrando o compromisso de que “ seguiremos em marcha até que todas sejam livres”.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A foto do mendigo

Neuton Corrêa*

Não aguento mais o peso da imagem do mendigo. Fiz as fotografias na estação de ônibus da Matriz, na manhã do último dia 19 de fevereiro, uma sexta-feira. O que seria apenas um registro para satisfação da curiosidade, tornou-se em minhas mãos, e em minha cabeça, um peso que nenhuma força mecânica será capaz de sustentar.

Era uma boa oportunidade para mostrar como a humanidade trata os seus. Barbado, como típico padre estrangeiro, ele ainda dormia profundamente na calçada. Com os dedos entrelaçados contra o peito e as pernas cruzadas, nele repousava a mais absoluta indiferença ao vai-e-vem de gente e carros acelerados que cruzam o Centro de Manaus.

À primeira vista, quando ainda estava no 300, animado pela moda do Twitter, minha intenção era compartilhar as fotos pela Internet. De longe, a cena parecia engraçada. O homem, três dias depois do reinado de Momo, ainda se curvava à sua realeza, usando blusão rosa e calça verde, com rendas nas bainhas da calça, na gola e nas mangas da blusa.

Porém, ao selecionar o retrato que transmitiria, pus-me a refletir sobre aquele personagem, cujo nome sequer eu sabia. Pensei: o que me autoriza a expô-lo a um mundo ao qual certamente ele jamais terá acesso? O que me autoriza a invadir sua privacidade? O que me autoriza a entrar em sua casa? Nem procurei saber seu nome. Nem sei se ele seria capaz de responder a essas simples questões.
As respostas poderiam estar na evidência: um existente sem existência aos olhos das centenas de pessoas que por ali embarcam e desembarcam dos ônibus. A fantasia verde e rosa, no entanto, talvez fosse um grito para chamar atenção e dizer: “Eu existo”. E, se ele existe; logo, pensa. Esse é o ensinamento da filosofia moderna cartesiana.

Então, se o seu silêncio fala, dar-lhe-ei a voz do Mestre. Farei isso para tentar aliviar a carga que os três cliques da Matriz me trouxeram. Mestre (nunca soube seu nome verdadeiro, mas era conhecido assim por causa das frases que gostava de pronunciar) penitenciou-se a viver na rua, privado dos filhos e de qualquer companhia feminina, desde o dia que sua mulher partiu desta vida, jurando-lhe amor na eternidade.

Mestre sentia-se culpado pela perda. Ela estava animada com a gravidez do nono filho. Ele, pensando nas condições da família, sugeriu-lhe garrafadas abortivas. O feto resistiu ao ataque, mas a criança não pôde ver a luz deste mundo. Nem a menina nem a mãe. Culpando-se pela tragédia, por causa das garrafadas, Mestre, no pé da cova do corpo da esposa, julgou-se daquele dia em diante indigno para merecer a sombra de uma casa, o carinho dos filhos e o amor de uma mulher.

Pensando no drama do Mestre, revejo mais uma vez as fotos do mendigo do Centro. Procuro nelas uma palavra. Não encontro apenas uma, mas várias. Na verdade, um discurso. Um grito! Um apelo! O que no começo era engraçado revela-se trágico agora.

A foto fala por si. Ela retrata um ser que vai à festa, quando a festa termina; um ser que se fantasia enquanto as máscaras caem; um ser que descansa enquanto todos se cansam. Enfim, um ser que põe a saca de lixo debaixo da cabeça para dormir não quer deixar ninguém dormir.

Por isso, agora, para aliviar-me desta carga, apagarei a foto da máquina para que a imagem não se repita mais em minha frente.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.

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Sobre árvores e mulheres

Ivânia Vieira*

Tenho tentado ver as samaumeiras dos arredores de Manaus, mas elas estão cada vez mais escondidas, difíceis e distantes de nós. O bailado de galhos e folhas quando nos envolviam na dança das sementes desapareceu da cidade e nem as sementes voadeiras, aqueles flocos pequeninos e macios ora caindo sobre nós ora éramos nós correndo para alcançá-los, têm aparecido por aqui.

Talvez as samaumeiras não gostem dos edifícios e, entristecidas, enviaram suas sementes para dançar em outro lugar. Pior para nós! A cidade, escassa de árvores, está mais triste ainda e, sem as sementes, faz uma dança melancólica, quase fúnebre, já não sabe como recepcionar as sementes dançantes e elas deixaram de correr em nossa direção. Depois de tantas histórias vividas juntas, somos hoje estrangeiros arredios e nossa companheira mais fiel é a fumaça da morte.

Olho para o céu e para a terra. A fumaça está lá, entre as casas, os ônibus, os carros, ocupa a rua, se espalha velozmente, impede minha respiração e turva meu olhar. As lágrimas descem sem controle.

Sementes de samaumeiras não aceitam viver assim, precisam ser vistas, compreendidas e protegidas não porque são frágeis, não! Afinal são filhas e mães da samaumeira, mas sabem que a cidade, do jeito que está, é ameaça de morte, maltrata, produz seqüelas, asfixia até apagar completamente a luz da vida e tornar lei a proibição da dança da liberdade, essa feita pelas sementes voadeiras. Viver assim é aceitar morrer a cada dia, é deixar os outros morrerem também.

As samamumeiras, guerreiras gigantes, choram diante das irmãs perdidas na cidade e no interior, e choram pela humanidade escapulindo. Trazem nesse choro as sementes voadeiras, grávidas da esperança, elas insistem, por nós. Preparam nesse momento um grande vôo para enfrentar quilômetros de violência e vão cantando, gritando palavras de ordem, reunindo ao longo da marcha outras sementes. Vão dançando, multiplicadas e coloridas, fazendo da estrada um imenso canteiro.

Desta vez, nenhuma fumaça vai impedir de serem vistas. Retomam nesse gesto o ritual da dança pela vida de mulheres, árvores e sementes em todo o lugar. É uma declaração de amor a cada um de nós, para amanhã repousarmos na samaumeira salva. Ela, generosa, redistribuirá as sementes voadeiras para Manaus voltar a vê-las e, re-unidas, sejam árvore de resistência.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
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O poder do embuste

Wilson Nogueira*

O prefeito de Manaus, Amazonino Armando Mendes, disse, sem pestanejar, que o reajusta do preço da passagem de ônibus de R$ 2,00 para R$ 2,25, no ano passado, feito por ordem judicial, foi uma espécie de socorro às concessionárias em dificuldade financeira em razão da fraude na meia passagem, da falta de controle na circulação dos carros executivos e da precariedade das ruas. Anteontem, por determinação da Prefeitura, esse preço caiu para R$ 2,10, porque tais problemas estariam resolvidos. Essa justificativa só evidencia que os usuários foram obrigados tirar as empresas de uma suposta inadimplência.

A queda da tarifa de ônibus foi anunciada como se esse fato não possuísse causa passada nem efeito futuro. Algo para ser engolido goela abaixo e ser digerido imediatamente. Pronto! Reapareceu o prefeito que protege os pobres! Mas não é bem assim não. Para conquistar esse reconhecimento, o prefeito precisaria ter, no mínimo, recorrido da decisão da Justiça favorável ao reajuste reivindicado pelos empresários. Não o fez. Preferiu fazer caridade – agora confessada – com o dinheiro dos usuários de um serviço público caro e de péssima qualidade. As bravatas do prefeito, ditas na ocasião da tão publicizada medida, servem para denunciá-lo como omisso no desempenho da função que lhe obriga a proteger o cidadão de gatunos e gatunagens.

Os fatos anteriores e posteriores indicam que empresas e Prefeitura pactuaram um reajuste, com aparência legal e legitima, para subtrair as parcas economias dos que necessitam de ônibus para chegar ao trabalho. Não é justo que o usuário pague pela conta da fraude, nem pela bagunça no sistema de transporte coletivo, e muito menos pela falta de manutenção das ruas. A sociedade já paga as instituições da República – e paga um preço muito alto – para que elas evitem ou resolvam esses problemas. O prefeito tinha autoridade e orçamento para agir em favor dos cidadãos e cidadãs. Em vez disso, se fez de morto e deixou a população nas mãos de uma decisão judicial passiva de recurso.

Além de deixar os munícipes ao deus-dará, o prefeito ainda exigiu que os jornalistas não recorressem à memória do episódio. “Esquece tudo isso. Não confunda a cabeça das pessoas. Estou falando português, não estou falando alemão, nem grego. O que interessa é o preço da tarifa”, resmungou Mendes. Não se tem notícia de que o prefeito fale alemão ou grego. Porém, sabe-se da sua habilidade em mimetizar acontecimentos em português rococó, com a intenção de confundir a memória da população. O que lhe interessa é o aqui-agora, como se ele não tivesse nada a ver com o descontrole do setor, que não é de hoje. Logo ele, useiro e vezeiro no manejo dos cofres do município e do Estado .

De qualquer modo, o prefeito comunicou à população a versão que lhe interessava, graças, também, ao comportamento assertivo da imprensa e à condição contemplativa da maioria dos vereadores. Mais uma vez, prevaleceu o embuste sobre a realidade nua e crua de uma cidade que clama por cidadania plena.

*Escritor, sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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A noiva da Cidade Nova

Neuton Corrêa*

Descobri que não sou o único a espiar a calcinha da passageira. Ela usa peças douradas e prateadas. Por isso, mas não apenas por isso, precipitadamente, chego à conclusão: terei que cantá-la para que seja também a minha noiva, a noiva da Cidade Nova.

Esperei a verdade do tempo para contar o resultado de minhas observações. Não, senhores e senhoras, amigos e amigas do busão, não ando brechando ninguém. E para que não haja dúvida acerca dos relatos que farei agora devo deixá-los cientes: juro, tudo aconteceu por acaso, embora o acaso tenha se repetido.

A primeira vez que a vi com a calcinha brilhosa foi no Carnaval do ano passado. Nos primeiros instantes, achei que minha racionalidade tivesse perdido mais uma luta contra a libidinagem de minha cabeça. Não poderia ser outra coisa a não ser o instinto traindo os olhos. Tentei não olhar. Impossível! O reflexo batia em meu rosto. A luz que saltava em minhas pupilas era tanta que ofuscou o objeto mirado.

No entanto, não era ilusão de ótica nem fantasia de Carnaval. Semanas depois, encontrei-a novamente com a infracobertura reluzente. Foi na Semana Santa! Diferente da primeira ocasião, quando cobria as intimidades com uma roupinha dourada, dessa vez ela usava algo prateado. Mesmo assim, por muito tempo, ainda continuei achando que a primeira espiada havia contaminado minha percepção sobre ela.

Sei que deves estar imaginando como posso saber de tão preciosos e precisos detalhes. Então, começo a me explicar pela geografia física onde esses acidentes acontecem, frequentemente. É em uma parada de ônibus da rua Timbiras, entre os núcleos 2 e 3 da Cidade Nova 2. Para quem vem pelo Parque das Laranjeiras, é o segundo ponto do busão da Timbiras, mais precisamente na primeira parada depois do semáforo do Cruzeiro.

Pois bem, essa parada foi construída a 65 metros de casa. Na verdade, não é somente um ponto de embarque e desembarque de passageiros. É um abrigo coberto com telhas de barro e mobiliado com dois bancos de cimento. Fica de frente para a rua 12, da quadra 99. E é justamente esta localização, de cara para a rua, que permite a qualquer desavisado, despido de qualquer maledicência, perceber a distração dela.

Talvez nem seja distração. Acho até que o banco dificulta sua acomodação, pois suas longas pernas ultrapassam o assento abrindo a fresta entre suas coxas e a microssaia. Percebo que ela se esforça para não se expor, porque aperta coxa com coxa como pode. Acontece que a reluzência da roupinha se projeta e fica ainda mais atrativa quando o Sol para ali e faz das suas saliências.

Esta semana, para acabar com as minhas dúvidas, a mulher da calcinha brilhosa exagerou. Estava à vontade demais. Distraia-se a pentear os negros e longos cabelos e a retocar a maquiagem, mirando-se com um pequeno espelho preto na mão esquerda. E, enquanto cuidava do rosto, abanava as penas de um lado para o outro.

E fiquei mais aliviado de minhas inquietações ao saber que não sou o único a olhar para sua janela. Tive certeza disso porque, assim que ela embarcou no busão, outro passageiro comentou ao meu lado: “Essa mulher só usa calcinha brilhosa”.

Então, senhores, como prometi, vou cantá-la: “Ai, como essa moça é distraída/ Sabe lá se está vestida/ Ou se dorme transparente/ Ela sabe muito bem que quando adormece/ Está roubando/ O sono de outra gente/ Ai, quanta maldade há nessa moça/ E, que aqui ninguém nos ouça/ Ela sabe enfeitiçar/ Pois todo marmanjo da cidade/ Quer entrar/ Nos sonhos que ela gosta de sonhar/ E ser um Tutu-Marambá” (“A noiva da cidade”, Francis Hime e Chico Buarque).

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

Ilustração: Myrria.
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A farinha criava…

Massilon de Medeiros Cursino*

Por muito tempo foi comum no médio e baixo rio Amazonas ouvir como solução à criação de uma família numerosa, o chavão “a farinha cria”.

Na mesa do caboclo amazonense pode faltar tudo, menos a farinha. Ela vai do chibé, do mingau da caridade às culinárias mais chiques. O tamanho do bago é inversamente proporcional à classe consumidora, ou seja, o pobre consome a do tipo baguda, a classe média, a mediana, e os mais abastados saboreiam a fina, que se presume ser a mais saborosa, numa escala que varia de brita a pó. As provenientes do Estado do Pará recebem um agrado nada convencional, farinha “espoca bode”.

Outra forma de identificar a mais agradável ao paladar é a cor, quanto mais amarelada mais gostosa é a farinha. Lembro das histórias que contavam do saudoso “Barbeirão”, que tinha banca no Mercado Municipal de Parintins. Diziam que o feirante levava lanterna para clarear a cor do produto derivado da mandioca. Tudo para atrair e persuadir o consumidor, visto que naquela época apelava-se mais para a criatividade que para o corante.

A mandioca foi, quem sabe, a maior herança da civilização indígena. A fabricação da farinha, a partir do tubérculo da planta se constitui um mistério. Até lendas povoam o imaginário popular.

“A farinha cria”: foi justamente isso que ouvi depois de tanto tempo. Na cabeça veio logo a imagem de meus pais ainda jovens com a responsabilidade de criar uma prole numerosa. Quantas vezes meu dileto pai não usou o termo para encorajá-lo a enfrentar o desafio de chefe da família? Em seguida veio a retificação ao clichê, a farinha criava, já que ao preço que ultimamente chegou, está difícil associar a farinha a um produto barato e acessível. Já presenciei lugares em que seu preço está superior ao feijão…

Se a culpa para curumim ficar barrigudo era da farinha, é melhor que se encontre outro bode expiatório, pois na atual conjuntura a farinha está mais para artigo de luxo que para enchimento de barriga de pobre!

*Economista, Bacharel em Direito e Membro da Academia Parintinense de Letras.

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