Archive for junho, 2010

Leitura para jovens

Wilson Nogueira*

O gosto pela leitura, independentemente das classes sociais, é sempre latente. Ele se manifesta na primeira oportunidade, que, para a grande maioria dos que lêem, surge na escola. O problema é que os primeiros contatos com os livros podem acabar entre as paredes da sala de aula. Não por falta de interesse do leitor iniciante, mas, pela ausência de políticas públicas de incentivo à leitura dentro e fora dos muros escolares. É, portanto, injusto exigir leitura de quem não tem acesso aos livros.

Por isso, iniciativas como o Leitura para a Juventude, lançado hoje pelo Governo do Amazonas, merecem voto de confiança, porque que colocará nas mãos dos alunos do Ensino Médio clássicos da Literatura Brasileira, escolhidos por gênero e escolas literárias. Os professores farão cursos de aperfeiçoamento em leitura e literatura para aplicar, com o melhor eficácia, as diretrizes do projeto. Cada escola receberá uma cesta como títulos de autores – entre os quais livros de Castro Alves, José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego e Mário de Andrade –, mais obras de escritores contemporâneos, entre os quais Márcio Souza e Milton Houtun, destinados à leitura complementar.

Dá-se, com essa medida, um passo importante na direção do amadurecimento de uma provável política de estado de estímulo à leitura no Amazonas. Não será uma única ação, por mais eficiente que venha a ser, capaz de pôr fim ao déficit de leitura e do conhecimento literário nas escolas amazonenses. Mas, decerto, faz surgir um pontinho de luz no fim do túnel da democratização dos livros e de outros meios de acesso ao conhecimento. A luz se expandirá na medida em que governos e sociedade assumirem compromissos de ampliar as medidas que visam alcançar todo o potencial de leitura disponível no País.

Leitura para a Juventude é mais uma semente nesse terreno latente da leitura. No ranking de 52 países, ha uma década, cada brasileiro lia apenas 1,8 livro por ano, em média; no ano passado, um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) atestou que a média de leitura do País subiu para quatro livros por ano, mas ainda ocupa a 47ª posição dessa lista. Em países desenvolvidos, segundo a Unesco, uma pessoa lê ao menos dez livros por ano.

Seria muito feio ver o Brasil, daqui a dez anos, no ranking dos países mais desenvolvidos do Planeta, porém, com um nível de leitura lá embaixo. Isso se configuraria em negligência do poder público e da sociedade com a inclusão social dos brasileiros por meio do conhecimento. Nada mais providencial do que o incentivo à leitura na escola, funcionamento correto bibliotecas e criação de novos espaços públicos de leitura, com equipamentos e pessoal adequados e qualificados.

O Amazonas, por sinal, conforme recente pesquisa do IBGE, é um dos Estados com menor número de bibliotecas em pleno funcionamento. Se a escola é o lugar da leitura principiante, a biblioteca pública é o equipamento que possibilita a democratização do acesso aos livros. Ainda há tempo para corrigir os erros e os equívocos do passado, afinal, o gosto pela leitura continua latente. A sociedade, por sua vez, precisa ficar atenta para que uma ação dessa importância resista às disputas e aos conflitos mesquinhos da política e do poder.

*O autor é jornalista e escritor

No Comments

De olho nos farsantes

Wilson Nogueira*

Os políticos não medem esforços de convencer o eleitor, por meio de ideias e propostas, de que são importantes e úteis para a sociedade. Nada mais justo: a arte de convencer é o principal instrumento do fazer ou do agir democrático. O problema é que desse jogo participam personagens que se filiam à política para fins alheios aos objetivos da democracia. Não são poucos e muitos deles conseguem enganar a boa-fé do eleitor – e não raras vezes por muito tempo.

O exemplo bem próximo é o do ex-deputado Wallace Souza, que, certo dia, caiu em desgraça porque, segundo a Polícia estadual, comandaria um esquadrão da morte em Manaus. Por muitos anos, Wallace apresentou um programa de TV no estilo mundo cão, por intermédio do qual não escondia a sua condição de potencial justiceiro. Nunca foi incomodado pelos políticos que se revezam no plantão do poder. Ele – e seus irmãos coragem – transitavam com desenvoltura entre nos salões do poder. É difícil aceitar que autoridades graúdas desconheciam seus movimentos, até porque o seu programa de TV agiria em conluio com setores da Polícia.

Os irmãos coragem só caíram em desgraça, coincidentemente, após a eleição em que contrariaram ex-aliados, com o propósito de marcar posição de poder político lastreado pelos eleitores. Mas, a essa altura, a barbaridade já estava feita, com um número ainda não fechado de pessoas executadas pelos pistoleiros do ex-deputado, conforme apontam as investigações sobre o caso. Não são poucos os que culpam os eleitores de conivência com os longos anos de impunidade do ex-deputado. Esses argumentam que, se os pobres soubessem votar, elegeriam políticos verdadeiros e não seus simulacros. Mas o problema não é tão simples assim.

Está evidente que Wallace tinha a seu favor e serviço instituições com muita visibilidade e credibilidade social. Afora o fato de ser comensal dos poderosos, de contar a ajuda de aparato policial para invadir casas, prender, bater e matar os selecionados como marginais, ele mantinha no ar um programa de TV. O ex-deputado simulava dar – e não somente ele – a segurança almejada pela população, mas negligenciada pelo Estado. Em tese, nenhum dono de TV ofereceria guarida a um suposto marginal, ainda mais como um apresentador de horário nobre. As evidências apontam, portanto, que é mais fácil acreditar na boa-fé dos eleitores do que numa eventual ingenuidade de certas autoridades e de certos donos de TV.

O caso Wallace demonstra, por outro lado, que quando as instituições querem ou são pressionadas pela população elas cumprem com suas funções de proteger a sociedade dos malfeitores. Com as revelações sobre como funciona o sensacionalismo televisivo, o eleitor, de algum modo, ficará mais atento aos bem-feitores de ocasião, aquelas figuras que caem do céu, de paraquedas, para resolver todos os problemas da humanidade. Não são poucos. Às vezes eles se locomovem pelos becos e ruelas metidos em roupas e em pregações que fazem inveja a franciscanos dos pés-descalços; ou travestidos de super-heróis, como faziam os Irmãos coragem.

O eleitor já deve ter notado e anotado que, como a TV mundo cão perdeu credibilidade, há político defendendo causas das quais jamais foi defensor, simplesmente porque ser justiceiro ou super-herói dos abandonados pelo Poder Público não engana mais como antes dos truques de audiência de Wallace se transformarem em rumoroso episódio policial. É estranho, no mínimo, que alguém que se arvorava ser xerife protetor da periferia contra a delinqüência juvenil, se apresente agora, na pré-campanha eleitoral, como um pacífico ecologista da causa amazônica. Paciência!

Muito cuidado com esses farsantes. Além de ridicularizar a democracia, essas pessoas oferecem muito perigo à vida pública – exemplos não faltam. Contra elas, o Poder Público e as suas instituições deveriam agir previamente, para que os cidadãos se sentissem mais esclarecidos e mais seguros na hora tomar decisões importantes, como a de votar e de colaborar com o aperfeiçoamento da vida em sociedade.

*O autor é jornalista e sociólogo

Tags:

No Comments

Patriotismo, uma ova!

Carlos Lodi*

Hoje eu amanheci “invocado”.

Não prestei atenção, mas devo ter-me levantado com o pé esquerdo. Nada contra o meu pé esquerdo e nem contra os canhotos. Pode ser até um simples problema de desequilíbrio de hormônios, com os azedos em maior quantidade.

O fato é que uma série de coisas me incomoda e todas elas vieram juntas e simultaneamente atazanar a minha vida hoje. Mal consegui terminar o café da manhã e nem a leitura do, pois a cada manchete era um incômodo que me vinha à lembrança.

Não, pessoal, não sou contra futebol.

Muito pelo contrário.  Assisto, torço e gosto muito de ir aos estádios.

Mas acho que no Brasil já atingimos um patamar quase patológico no nosso relacionamento com este esporte tão interessante, um dos poucos em que os mais fracos têm alguma chance de vencer, ao contrário do tênis, do basquete, do vôlei, esportes em que as ‘zebras’ são muito menos freqüentes e os ‘pequenos’ não tem muita vez.

Fico atarantado quando chega a época das finais da Copa do Mundo. O país todo entra em estado de delírio, com gente pensando nos jogos desde o momento em que acorda e vai assim até a hora de dormir.

Gente que enfeita suas casas, carro, local de trabalho com as cores do Brasil e fica em verdadeiro êxtase defronte `as TVs na hora da peleja.  Alguns ficam irados por serem incomodados durante as partidas pois estão até mais concentrados nas jogadas do que os próprios jogadores.

Irrita-me profundamente esta importância que se dá ao futebol em nossa terra. Há tantas coisas mais importantes que não recebem nem um pequeno quinhão de atenção destes mesmos torcedores fanáticos! Enfurece-me a idéia de que quase ninguém vai a uma reunião da sua Associação de Moradores, a uma assembléia do seu Condomínio, mas não perde jogo algum da Seleção Brasileira.

Fico ainda mais preocupado quando muita gente classifica esta euforia toda de bandeiras tremulando em casas e edifícios, carros, carroças e bicicletas, como demonstração de patriotismo.

Patriotismo uma ova! Na realidade, estas pessoas são apenas fãs de um time de currículo vencedor e nada mais do que isto.

Nenhum destes mesmos torcedores que desfilaram suas bandeiras na época da última Copa foi capaz de fazer o mesmo na Semana da Pátria! Que patriotismo é este que só aparece nas competições esportivas?

Incrível também é a alavancagem que a Copa do Mundo traz ao mundo dos negócios. As montadoras de eletro-eletrônicos – principalmente de TV e DVD – começam a trabalhar em regime de 3 turnos logo no começo do ano para tentar suprir a esperada enxurrada de pedidos que será recebida à medida em que a data da abertura da Copa se aproxima.

As fábricas de bandeiras são forçadas a aumentar drasticamente as suas encomendas de matéria-prima e a contratar verdadeiras hordas de funcionários temporários para dar conta de tanta demanda.

Uma criatividade ímpar invade os fabricantes de brindes, com oferta de itens em tal variedade e quantidade que até supera a grande temporada destas empresas que é o final de ano.

Grandes e médias empresas fazem promoções amplamente divulgadas por todos os meios de comunicação oferecendo sorteio de passagens e estadias para o país-sede da Copa do Mundo aos compradores dos seus produtos.

As emissoras de rádio e televisão despendem milhões de dólares para montar as suas bases, alteram sua programação normal para transmitir ao vivo do local da Copa, seja qual for o fuso-horário. Toneladas de equipamentos e centenas de funcionários destas empresas são enviados para garantir a melhor cobertura.

Enfim, é toda uma roda gigantesca de negócios que se movimenta em torno dos 32 países que disputam a fase final do mais assistido evento esportivo do mundo.

Não sei se existe algum estudo sociológico para entender esta paixão absurda do brasileiro pelo futebol, principalmente pela Seleção Brasileira, mas seria interessante tentar entender.

Por acaso, não seria uma espécie de catarse coletiva em contraponto aos tantos e imensos problemas do País? Uma válvula de escape para desviar dos problemas pessoais de cada um? Uma tentativa de fugir da realidade dolorosa que a maioria do povo brasileiro tem que encarar todos os dias?

*O autor é escritor, conselheiro da CALL e coordenador executivo do FliFloresta

No Comments

O castigo de minha sogra

Ilustração: Myrria

Neuton Corrêa*

Enquanto minha sogra contava histórias, eu evitava sair do quarto. Aliás, acordei com aquele bochicho e com o cheiro de frito de crueira na cozinha. Ela conversava com a parentada do interior que vira e mexe está em casa. Notei que queria mostrar suas aventuras aqui na capital. Gabava-se por conhecer cada rota de ônibus e andar sozinha por aí à procura dos conhecidos.

Naquela conversa, puxou um fato que eu sabia por alto, mas ela revelava detalhes que deixavam o episódio ainda mais interessante.   Mas, até ali, eu não dava atenção ao acontecimento para não decorar e me sentir obrigado a contar para vocês.

Sabe por quê, amigos do busão, não queria aprender a história? No ano passado, quase a matei do coração. Não sei se vocês lembram: escrevi uma crônica chamada “Eu, minha sogra e as pipiras”. Pois não é que ela leu! No primeiro parágrafo, foi bater no quarto. Sua pressão chegou à casa dos vinte.

Quem a socorreu foi meu filho, que ainda tinha 13 anos de idade. Socorreu da melhor forma possível. Ele leu a história e explicou para ela: “Não, vovó, ele não está zombando da senhora, não. Ele está falando mal dele mesmo. Ele disse que não manda nada em casa e quem manda é a senhora”.

Bastou isso para a pressão voltar ao normal.

A crônica tratava das frutas que eu colocava para atrair pipiras. Anos depois, no entanto, vim descobrir que minha sogra escondia e comia as frutas que eu deixava para os passarinhos. Por causa das pipiras, até cortou os mamoeiros que deixei crescer no quintal e dois pés de bananeira que plantei para alimentá-las. Então, depois de tudo isso, resolvi, literariamente, homenageá-la.

Ah, sim! Bem, como expliquei na crônica anterior sobre ela, minha sogra chama-se Dailsa, mas é conhecida pela alcunha de Dinoca e Coca (para íntimos). Outras pessoas, no entanto, por não entenderem os agrados, chamam-na de Bidoca e ainda aparecem uns para tratá-la de Bicoca ou Vinoca.

Então, naquele dia que me acordou conversando com as amigas, ela contava que entrou no ônibus perguntando se o busão passava pela Avenida Constantino Nery: “Sim, passa, sim, passa pelo (clube) Municipal”. E ela contou que reagiu assim: “Kenga é a tua mãe, seu…”. E continuou:

- Aí, na hora que fui me sentar no lugar dos idosos, tinha um bêbado.

E um dos interlocutores da cozinha indagou:

- E aí?

- Aí, eu tirei ele de lá. Fresquei com ele: “Bora, bora, sai daí”. Pois não é que ele se “astreveu” de me dizer: “Ah, minha tia, procure outra cadeira. Não vê que tô dormindo”.

- E ele saiu? – insistiu uma voz.

E minha sogra:

- Eu disse para ele: Quer dormir, vai para tua casa. Lugar para dormir é em casa e não no ônibus. Aí, mana, ele saiu.

- E daí, Coca?

Ela respondeu:

- Pois não é, mana, parece um castigo: Eu me sentei na cadeira e dormi. O ônibus passou da entrada do São Jorge, foi no Centro e voltou e eu não acordei. Aí, quando eu já estava aqui na Cidade Nova, o motorista ainda me acordou assim: ‘Lugar de dormir é em casa, né, tia’.

Não resisti ao final da história e saí do quarto para rir com elas.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

No Comments

Doutrina de guerra

Wilson Nogueira*

Estranhe, quem quiser estranhar, a posição dos Estados Unidos no ataque de Israel a um comboio naval de ajuda humanitária aos palestinos da Faixa de Gaza, que resultou em nove mortos. Não se trata sequer de uma posição cautelosa, como analisam setores da imprensa. Barack Obama, o prêmio Nobel da Paz, explicitou que não condenará os israelenses por esse ato brutal. E não poderia ser diferente, porque a defesa preventiva – alegação dos militares israelenses – faz parte da doutrina militar norte-americana. Afinal, como poderiam justificar as invasões e as guerras pelo mundo afora?

Caso o ato fosse cometido por Cuba, Coréia do Norte, Venezuela ou Irã, Barack Obama não só o teria condenado com veemência, como colocaria seu poderio militar em estado de alerta ou a caminho do país agressor. Alegariam que são países perigosos. Só isso seria o bastante! Aliás, à exceção da Venezuela, os demais citados já sofrem pesadas sanções econômicas lideradas pelos Estados Unidos. Israel, ao que tudo indica, contará sempre com a proteção dos Estados Unidos, ainda que, desta vez, tenha massacrado civis, em águas internacionais, em declarada missão de paz.

Esse episódio amplia a compreensão da incoerência norte-americana, pelo fato de não ter sido uma meia dúzia de países a condenar esse massacre; o mundo inteiro se sentiu horrorizado com a desproporcionalidade da agressão, pediu investigação independente e punição dos culpados. Os Estados Unidos, em primeira hora, se isolaram no apoio velado à ação dos militares israelense, sem se incomodar com o aumento da desconfiança em torno das suas supostas ações pela construção da paz no Oriente Médio.

Israel vai insistir na versão de que fez a intercepção da frota de ajuda humanitária para se proteger da agressão de prováveis terroristas e que seus soldados mataram em legítima defesa. É bem provável que os Estados Unidos tenham se convencido por essa explicação, ainda que ela soe como mera digressão para qualquer recém-bacharelado em Direito. A voz da comunidade internacional é clara: a agressão cometida por Israel é um afronta à civilidade e se não for punida com rigor se transformará num péssimo precedente histórico.

Do interior dessa tragédia, extrai-se o sentimento de que a luta pela paz deve ser mais abrangente e permanente; e que ela produz resultados que se confrontam, no campo político, com ideologias e doutrinas de culto à violência, sejam elas de estados, de grupos guerrilheiros ou terroristas. Os estados deveriam ser os primeiros a zelar pela paz, mas há estados que não se sustentam sem guerra, porque o campo de batalha também é um negócio lucrativo. Por isso, não seria nada absurdo afirmar que os estados que defendem a paz são os mesmos que fazem a guerra.

Os Estados Unidos comandam esse jogo macabro, no momento. Sua máquina de guerra está em pleno vapor em vários lugares do mundo. Não seria um Prêmio Nobel da Paz a lhe parar. Aliás, o patrono do Prêmio Nobel é Alfred Nobel, inventor da dinamite. Estranhe, quem quiser estranhar, a posição dos Estados Unidos e do presidente Barack Obama.

*Jornalista e sociólogo

No Comments

As conversas de dona Ana

Ilustração: Myrria

*Neuton Corrêa

Dona Ana está em Manaus. Vai visitar a filha que mora no Município de Presidente Figueiredo. Disseram-lhe que fica perto da capital. Por isso, ela me procurou. Quer que a deixe lá de carro. Informei que só ando de ônibus. Ela riu! Mesmo assim insistiu: “Então, me deixe lá agora!”. E eu, pensado que posso aproveitar a passagem dela por aqui, expliquei: “Dona Ana, Figueiredo é perto, mas não assim”.

Dona Ana é vizinha de meu pai. Mora cabeceira do Miriti, zona rural de Parintins. Tem quatorze filhos, alguns casaram e foram morar em outro lugar e outros continuam ali, dividindo uma casa sem divisória, coberta de palha e com assoalho despregado. Sempre que vou à casa do papai, faço questão de conversar com ela. Dona Ana topa qualquer assunto. Nunca deixa o interlocutor falando só.

Há muito ela mora ali, mas faz pouco tempo que descobri sua capacidade de diálogo. Faz uns seis anos. Foi numa vez que uma onça atacou o poleiro de meu pai. Aconteceu à noite. O barulho do ataque acordou todo mundo, mas ninguém teve coragem de sair da casa para ver o que era. Não dava para abusar. Papai construiu a casa dele a 20 metros da floresta virgem.

De manhã, Dona Ana apareceu por lá com um pedaço de pau na mão. Ouviu a conversa e começou: “Ah, seu Aguinaldo (nome de meu pai), por isso é que toda tarde eu entro na mata atrás de filho de onça. Vai eu e esse corumbote (apontou para um dos filhos). Quando a onça sai da galhada, a gente vai lá e tira os filhos e lava pra casa, não é aquele?” E curumim, balançando a cabeça confirmou: “Éhhh”.

Antes que ela concluísse a história, meu pai já fechava a cara. Tanto que ele quis fazer dona Ana interromper o causo e tentou constrangê-la, perguntando: “Como, dona Ana, se eu nunca vi nenhuma onça na sua casa?” Mas ela não perdeu baque: “Não, seu Aguinaldo, acontece que, quando elas vêm pra casa, elas viram gato. No mato é que elas viram onça.”

Em outra viagem, assim que dona Ana ouviu meu barulho por ali, ela apareceu. Foi ter direto comigo: “E aí, Gordão (assim ela me chama)? Chegou hoje?” Sim, respondi. Ela: “Vai quando?”. E meu pai, como um bom parintinense, cheio da pavulagem, disse: “Ele já vai amanhã”. E ela repetiu: “Já!” E o papai: “Ele veio de avião e vai voltar de avião”.

Mas pensam que dona Ana não tinha o que falar? Tinha! E muito! “Eu nunca andei de avião. Só de helicóptero (ela falava ‘hielicop’)”. De helicóptero? – repliquei. E ela: “Foi num dia que passei mal dentro de um barco. Assim que a gente entrou no Paraná do Limão, o comandante do barco achou que eu não chegaria em Parintins. Aí, ligou para o pessoal do Petrobras”.

Eu, curioso para saber o desfecho, pedi que continuasse. E ela, na hora: “Eles mandaram um hielicop. O bicho me pegou na tolda do barco. Lá em cima eu embarquei. Quase nem dava para subir, porque ‘suprava’ muita na gente”. E eu, de novo, interrompi olhando para o papai, e ela continuou: “Eles vieram, me trouxeram para o hospital. E, graças a Deus, fiquei boazinha”.

Imaginei a cena do resgate e perguntei o que aconteceu com o barco. Ela e contou: “Gordão, esse pessoal da Petrobras é muito bom. Quando eu saí do hospital, eles perguntaram: ‘Já, dona Ana?’ E eu disse ‘já’! E eles falaram: ‘então, dona Ana, vamos deixar a senhora de volta. Assim como a gente lhe trouxe, a gente vai lhe levar. E assim aconteceu! Ainda peguei o motor na saída do Paraná do Lima”.

Bem, já marquei a viagem para Presidente Figueiredo. Vou viajar segunda-feira com ela. Serão 90 minutos de conversa.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura/Ufam.

No Comments

David e Golias

Ilustração: Myrria

*Neuton Corrêa

David inspecionava todos os ônibus que faziam escala na parada onde eu esperava o busão para ir ao trabalho, na tarde de segunda-feira que passou. Ele deixava o motorista abrir as portas, olhava para dentro do coletivo, ameaçava embarcar, mas, impedido pelos passageiros, desistia, chorando. Por fora, contido, apenas gemia; porém deixava parecer que, por dentro, chorava como um bezerro desmamado.

Sim, David parecia um bezerro enjeitado. Ele olhava para frente e para trás e, depois que o busão continuava a viagem, corria desesperadamente atrás do veículo até onde o fôlego lhe permitia. Um detalhe curioso me chamou atenção: David só atacava veículo do transporte público. Um cacareco da TAP (Transporte Ana Paula), passou por ali e ele nem deu bola.

Quem não viu a cena anterior, poderia jurar que David estava surtando. Talvez estivesse mesmo. Parecia querer dar cabo à própria vida. Contei ao menos seis vezes os gestos de bravura dele, como um guerreiro, tentando parar os ônibus. E arriscados nem eram os ônibus. Os carros é que eram o problema, pois houve um momento que seu desespero foi tanto que ele atravessou a rua para tentar seguir os coletivos que vinham em sentido contrário.

Em uma dessas idas e vindas, achei que David se acabaria na roda de algum carro. Sorte é que uns motoristas desviaram e outros frearam quase em cima de seu pequeno corpo. E dava para perceber que ele não tinha costume de andar em uma pista movimentada, ainda mais naquela tarde de Sol, na rua Timbiras.

Num desses vaivens, senti o impulso de ajudá-lo, mas me acovardei pensando que aquela gente que estava de passagem por ali poderia achar que eu estava mais louco do que o David. Senti minha consciência aliviar um pouquinho quando uma amiga, lourinha, da altura dele, pulou em suas costas convidando-o para brincar.

Senhoras, amigas do busão, não posso descrever detalhes da cena para não ofender o pudor alheio. Aconteceu que ela montou em suas costas e começou a roçar o toco da coxa na traseira do David, com um apressadinho vai-e-vem. Mas ele não queria conversa! Tanto que a expulsou mostrando-lhe os dentes e franzindo a cara. Naquele momento, o que ele queria era olhar para os ônibus.

Depois dessa cena libidinosa, não sei o que aconteceu com David. Meu busão, o alimentador 043, apareceu em frente à escola estadual Dom João de Souza Lima e decidi que estava na hora de partir. Eu já havia perdido tempo demais. Embarquei e ainda fiquei olhando, torcendo para ver se ele voltava para a casa.

Eu estava compadecido com o David, porque o conheci antes de ele ficar perturbado. Minutos antes o vi subindo a Rua 12, vindo do Conjunto Boas Novas, pela avenida das Torres, na companhia de uma mulher magrinha que se protegia do Sol com uma sombrinha lilás, cheia de florzinha. A negra cor de Davi, seguindo suas pegadas, brilhava de longe e ele caminhava todo orgulhoso.

David agia como um guarda-costas da mulher. Tanto o é que, assim que ela se sentou no banco da parada de ônibus, ele, ainda vaidoso, deitou-se debaixo dela de peito para baixo, esticou as pernas para trás e cruzou as mãos para apoiar a ponta do queixo sobre elas; manteve o olho em patrulha pelo ambiente e fechava a expressão quando alguém se aproximava dali.

Toda essa pose de David mudou depois que o 304 parou ali. Sua companheira nem parecia que ia entrar naquela viagem, mas, rapidamente, pulou do banco, perguntou do motorista se ele passaria pela rua Recife e embarcou, apressadamente. David, um cãozinho vira-lata, que até aquela hora não tinha nome, começou a lutar com o ônibus, fazendo-me imaginar ali o duelo bíblico entre David e Golias.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura/Ufam.

No Comments

O bêbado legalizado

*Neuton Corrêa

O 651 ainda estava travado no engarrafamento de todos os dias, na avenida André Araújo, porém, mesmo assim, o passageiro equilibrava-se como se o veículo estivesse em solavancos. Ele ia para frente e para trás, de um lado para o outro, e não conseguia levar a mão onde mirava. Ao se apoiar, desequilibrou-se novamente quando o motorista acelerou o ônibus.

A dança do busão fez o passageiro se sentar. Acomodou-se na cadeira e balbuciou algo que eu não consegui entender. Poderia ter feito um esforço para ouvi-lo, mas ele não colaborou. Baixou a cabeça e, com os olhos fechados e o tronco em rotação e translação, começou a falar de si para si. A única coisa que deu para entender foi quando ergueu o pescoço e gritou: “Estou aqui porque estou bêbado”.

A explicação dada por ele quebrou o silêncio que se fazia na viagem. Ao meu lado, uma pessoa comentou: “Não dá nem para perceber”. Mais atrás, perto da cobradora, uma jovem balançou a cabeça em sinal de reprovação. O motorista olhou pelo retrovisor e eu, que estava pendurado olhando para as janelas do lado direito, posicionei-me em sentido contrário para observá-lo melhor.

Meu esforço, no entanto foi em vão, porque, depois que ele gritou, começou a andar no ônibus. Parecia que iria descer, mas escolheu a porta errada. Ao invés de ir para frente, foi para trás e, ao se deparar com a cobradora, trocou algumas palavras com ela. Talvez estivesse disfarçando o engano, mas logo em seguida algumas pessoas apontaram os dedos para frente e orientaram: “A saída é por ali”.

O bêbado, como todo bom bêbado, não perdeu a pose e voltou. A essa altura, o busão já estava chegando ao ponto onde eu deveria desembarcar, mas, para acompanhar o desembarque do meu companheiro de viagem, resolvi descer no ponto seguinte, bem distante do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AM) para onde eu iria.

Assim, pude vê-lo caindo no colo de um cidadão de cabelos brancos que viaja perto de mim, sentado em uma cadeira reservada a idosos. E ele, outra vez, não perdeu a deixa. Olhou para o cidadão e disse:

– Sabe por que eu estou bebendo?

E o idoso apenas balançou a cabeça negativamente.

– Porque hoje é o aniversário do meu pai. Ele está completando 78 anos. Tá velhinho, mas tá teso assim como o senhor.

Depois disso, ele olhou para mim e perguntou:

– Onde nós estamos?

– Acabamos de passar pela Sefaz, respondi.

Ao ouvir a resposta, ele pediu que o motorista o deixasse na próxima parada. Mas antes de desembarcar importunou o motora:

– Motora, eu sou o único legalizado aqui neste ônibus.

Por quê? Retrucou o motorista.

E o bêbado explicou:

– Eu tenho carro, mas toda vez que eu bebo, eu pego o ônibus.

Nessa hora, olhei para o bolso de sua calça e vi, pendurado, um molho de chaves de carro.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura/Ufam.

No Comments

A tradutora

Ilustração: Romahs

*Neuton Corrêa

Da estação de ônibus da Matriz, no Centro, já se podia observar o navio atracado no cais. Não dava para vê-lo inteiramente, mas, pelos botes salva-vidas pendurados a boreste e mastros com duas bandeiras estrangeiras que ultrapassavam o telhado dos armazéns do Porto de Manaus, podia-se concluir que um novo grupo de visitantes havia acabado de desembarcar na cidade.

Tive a certeza da presença estrangeira, assim que o 422 parou em frente à estação hidroviária. Os turistas ainda desciam a rampa que dá acesso ao setor de embarque e desembarque. Eram jovens falantes, de olhos espichados, tomando os ônibus que os aguardavam no estacionamento, e gente de pele avermelhada, senhores e senhoras de cabelos brancos, que ficaram ali mesmo pelo Centro.

Naquela manhã de domingo, havia ido ao porto para esperar meus pais, que também desembarcariam ali, não do cruzeiro, mas do Novo Aliança, que vinha de Parintins cheio da cabocada. O problema é que o anel de noiva, que geralmente chega às 9h, já estava atrasado uma hora. Então, resolvi fazer dos turistas minha atração. De longe, passei a segui-los, curioso para captar de seus olhares e gestos a impressão que tinham da cidade.

Não adiantaria chegar mais perto: primeiro, poderia incomodar os visitantes; depois, não entenderia nada, mal arranho o português. Aliás, ainda tentei captar o idioma com o qual se expressavam, no entanto quase nada eles falavam. O que se ouvia mesmo era o tradutor, que mais balançava os braços do que falava.

Por causa disso, pude perceber a distância as coisas que ele mostrava. A igreja de Nossa Senhora da Conceição, por exemplo, foi a primeira atração apresentada. De lá, o tradutor conduziu o grupo de velhinhos branquelos para o prédio da Alfândega e depois para o Relógio Municipal da Eduardo Ribeiro.

Da posição em que eu estava, seria possível notar o brilho dos olhos verdes e azuis, porém não consegui notar neles nenhuma expressão de encanto. Pareciam pedras de gelo se movendo intactos sob o calor dos trópicos. A frieza dos visitantes aumentou em mim a vontade de poder ouvi-los. Por alguns instantes, até imaginei que o coração deles estivesse nas máquinas fotográficas que carregavam no pescoço, já que o clique que faziam era a única coisa que deles brilhava.

Pensando nisso, desisti de segui-los. Eu fui rumo à Manaus Moderna à espera do Novo Aliança e eles subiram a Eduardo Ribeiro. Supus que estivessem a caminho do Teatro Amazonas. Afinal, vir a Manaus e não conhecer o prédio símbolo da exploração do leite dos caboclos e arigós do tempo da borracha é a mesma coisa que ir a Roma e não acenar para o papa.

Mas eu estava enganado. Descobri isso quase uma hora depois, quando estava à beira do rio Negro, sugando a terceira latinha ao lado de uma caixa de isopor. Não fui eu quem notou a presença dos turistas por ali. Foi a dona da venda, uma senhora com parcos dentes, que cobria a cabeça com uma touca rubro-negra, com um urubu bordado à frente, que me cutucou:

- O que essa velha vem fazer aqui?

Olhei para trás e vi a cena que já tinha visto antes. Ela estava apontando para uma mulher fina como uma tala de papagaio, com a coluna ondulada como costas de camelo, que caminhava curvada para o chão e chutando a perna direita.

Em seguida, quando o tradutor olhou para as ruínas do mercado Adolpho Lisboa e começou a falar, a vendedora de água e cerveja começou a traduziu para mim a conversa:

- Ele está dizendo que o mercado foi destruído pelo prefeito que passou e que o atual não tá nem aí. Por isso, esse prédio, construído pelos parentes de vocês (dos ingleses), está se acabando.

Ri da imaginação da tradutora e pedi mais uma lata d’água.

*Filósofo, mestre em Socìedade e Cultura/Ufam.

No Comments

Meu pequeno vizinho super-herói

*Neuton Corrêa

Num fim de tarde desta semana, Marcos Victor apareceu na rua ainda molhado. Havia acabado de sair do banho. Estava com a mãe, que, de quando em vez, aparece por lá. Pelas pontas, com as duas mãos, como uma capa de super-herói, ele segurava uma toalha que passava sobre suas costas, à altura do ombro, e brincava com o pano como se estivesse voando.

Marcos Victor é aquele meu pequeno vizinho. Lembram dele? Encontrei-o em um ônibus brincando com dois bonecos de plástico. O encontro me fez perceber que ele vive a infância como qualquer menino de sua idade, apesar da vida adulta que leva. Victor foi abandonado pelos pais em uma bocada quando ainda tinha três anos e conhece os códigos do mundo em que vive, apesar de seus seis anos de idade.

A primeira vez que falei sobre Marcos Victor, aqui neste nosso encontro de todos os sábados, faz quase um ano. Queria dividir com vocês um pouco do muito que testemunho quase todos os dias. Foi no fim de maio do ano passado. Achava que ele daria apenas uma crônica, mas, hoje, já me convenço de que um livro é pouco para descrever o universo que vive a poucos metros de casa.

Depois de publicar a primeira história, surgiu a segunda, após descobrir que Victor estava internado em um pronto-socorro da cidade. Ele havia sido molestado por um viciado que frequentava a bocada. Era festa de São João, mas a fogueira junina ardia triste. Por fim, em setembro, com alegria, relatei que uma família o havia resgatado e que ele estava protegido, estudando e vivendo com crianças de sua idade.

De lá para cá, alguns vizinhos me procuraram para contar um pouco do que sabiam sobre o meu pequeno vizinho. Uma dessas histórias encharcou meus áridos olhos. Victor havia aparecido na rua cambaleando, com a voz pesada e os olhos vermelhos. Era efeito de uma noite de festa em sua casa. Socorrido, passou manhã e tarde dormindo na casa da vizinha. Naquela época, ele tinha quatro anos de idade.

Tão logo a vizinha me contou esse episódio, como um juiz que decide o destino alheio, julguei que não deveria mais tocar no assunto. Para mim, o filme, a novela, como queiram, havia acabado. E terminado como uma fábula, com final feliz para a personagem principal. Afinal, ele estava protegido. Mas Victor não é ficção nem a história dele chegou ao fim.

Em junho, no dia em que Victor foi levado para o pronto-socorro, por muito pouco, a bocada não registrou um assassinato. O pai de criação de meu pequeno vizinho, um rapaz de 22 anos, tomou as dores da violência contra a criança e tentou fazer justiça com as próprias mãos. Só não concluiu o serviço porque foi contido por populares.

Pois este ano, há cerca de três meses, foi a vez de Marcos Victor agir em defesa do pai adotivo. O rapaz andava depressivo e resolveu decretar o fim de sua vida. Na cozinha da casa, preparou uma forca. Victor observou passo a passo a montagem da engenhoca suicida. Mas quando o ato final foi executado, Victor saiu gritando pela rua e conseguiu atrair a atenção dos adultos que salvaram seu pai.

Desde aquele dia, eu passei a ver meu pequeno vizinho não como um herói, mas como um super-herói, que agora usa até supercapa.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura/Ufam.

No Comments