Archive for julho, 2010

Só deu pro dele

Neuton Corrêa*

Acordei dando gargalhadas e socando a mão esquerda fechada com mão direita aberta. Sonhei com o dono do 015, mesmo dono do 351. Era um sujeito branco, alto, cabelo louro, de pastinha. Nas idas e vindas do sonho, sempre o via de calça de tergal cinza, com camisa rósea de mangas cumpridas. Parecia um motorista de ônibus da Eucatur. Em uma das situações, ouvi alguém o chamar de senador.

O sonho começa comigo, perdido, na frente de uma casa, um casarão, com um muro baixo que sumia ao olhar. Por trás dessa muralha, podiam-se observar centenas e centenas de ônibus guardados. A única coisa que me parecia familiar era a frente da casa. Olhava para ela e pensava: “Acho que já estive aqui”, dizia para mim mesmo olhando para uma escultura de duas cobras enroladas.

De tanto ficar admirando a escultura, fui abordado por uma pessoa que me disse: “Me acompanhe!” Parecia hostil, mas acabei conversando com ele. A primeira coisa que lhe perguntei foi: “De quem é isso aqui?” E o segurança: “É do senador!” – respondeu o homem, tufando o peito.

Quanto mais eu entrava na casa, mais assustado ficava. É que as cobras não eram esculturas. Elas se mexiam. E ainda mais apavorado fui ficando, quando outras serpentes surgiam da garagem, das portas, de todo lugar para onde eu olhava! Preocupado, perguntei: “Por que ele gosta de cobra?” E ouvi:

- Ele é de Cascavel, uma cidade do Sul do Egito, onde os faraós criavam as cobras para tirar o veneno.

Ouvi a explicação sem dar uma palavra, quando, finalmente, o dono da casa apareceu com um celular ao ouvido, falando: “É, irmão, presidente do IMTT (órgão que cuida do transporte público, em Manaus), amanhã vamos brincar com os nossos passageiros. Eu vou mudar a rota do 015: ao invés de ele passar pela rua Timbiras, ele agora vai direto pela Max Teixeira. Vamos também tirar a parada do 351 daquele lugar tranquilo e vamos misturar com a turma do 450, do 014 e do 015, no meio daquela confusão do T3”.

Não sei o que o cidadão do outro lado da linha falava, mas pela resposta do louro dava para desconfiar, pois assim ele falou: “Não, não te preocupa que eles vão se acostumar”. Outra vez, ele fez uma pausa e voltou a falar: “Que câmara, que nada! Aqueles lá fazem o que a gente quer”. Outro silêncio e, de novo: “O prefeito também. Ele também se diverte com essas brincadeiras”.

E eu, no sonho, fiquei a pensar: “Ah! Quer dizer que é assim que eles combinam as coisas”. Lembro que, após ouvir o acerto, cochichei com o homem que havia me abordado na frente da casa das serpentes e combinei: “Vamos fazer a mesma coisa com ele só para ver como se sentiria se as coisas de sua rotina mudassem sem ele ser avisado”. A assim aconteceu, com a concordância do segurança:

Tão logo desligou o telefone, ele correu para o espelho, pegou uma escova ao lado e quanto mais ele penteava o cabelo, mais preto ficava sua cabeça e, quanto mais tentava arrumá-lo, mais suas mãos se lambuzavam com a cera que estava na escova. Enquanto isso, o segurança me olhava, rindo, mostrando que havia trocado a lata de vaselina do patrão por uma lata de graxa.

O embaraço não parou por aí. Agoniado com a sujeira, o senador gritou para o motorista, pediu seu carro, que demorou meia hora para passar, e, quando passou, ele ordenou: “Me leva para o IMTT”. O problema, amigos do busão, é que ao lado do carro estava escrito: “IMTT via Ceasa, Educandos, Ponta Negra, Ponte da Bolívia, Rio Piorini e um monte de destinos que não lembro mais”.

Nessa hora, senhores e senhoras, acordei dando gargalhadas, socando as mãos e dizendo: “Agora, seu filho da mãe, tu vais ver como é ruim ir para onde a gente não quer”.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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Asfalto no Beco da Indústria

Lúcia Carla Gama*
Quando nos mudamos para o Beco da Indústria vindos do Parque Tropical,
em 1978, não havia asfalto na rua. Eram pedras vermelhas, irregulares,
que compunham o cenário das nossas danações de crianças. As pedras nos
doíam nos pés descalços e nos faziam sonhar com o dia em que o asfalto
chegaria àquele canto do bairro Aparecida.
Queríamos andar de bicicleta e patins na frente de nossas casas e
correr, disputando a barra bandeira e as manjas variadas sem tanto
sofrimento para os pés e, ainda, desenhar macaca no preto da rua, só
possível, àquela altura se fôssemos para a Wilkens de Matos, rua
perpendicular à nossa, onde nem sempre as mães nos autorizavam chegar.
Daí porque no dia em que apareceu um caminhão de asfalto e todos os
apetrechos necessários à obras lá pelas bandas do Beco da Indústria eu
quase enlouqueci.
Mãe Dora trabalhava no Iteram e Lulinha e eu, já mais taludinhos,
ficávamos sozinhos em casa, esperando a hora do almoço para esquentar
a comida, almoçar, tomar banho e seguir para a escola.
E nada de rua pela manhã! Era a recomendação da mãe, que não valeu
nada naquela manhã de um mês e ano que não me lembro. Porque assim que
começou o movimento dos trabalhadores e as máquinas para a operação de
asfaltamento da rua eu comecei o meu movimento de informação à mãe
Dora, mesmo que ela não tenha pedido.
Telefone na porta de casa por conta do fio comprido – moda naquela
época quando não havia telefone sem fio ou não havia grana para
comprar o aparelho moderno – disquei certamente mais de 20 vezes o
236-2415 do Iteram, pedindo todas as vezes para Glorinha, a
telefonista, transferir, com urgência, a ligação para o departamento
de pessoal. “Não é nada demais, Glorinha, mas preciso muito falar com
a minha mãe”, dizia, como que justificando as ligações insistentes.
E fui dando a mãe Dora satisfação do que acontecia em nossa rua. “Eles
tão no começo do beco, lá em cima, perto do Cônego Azevedo, jogando um
líquido preto primeiro!” E minha mãe assentia positivamente sobre a
informação. “Mãããe! Agora tão botando um pó preto, que deve ser o
asfalto!”. Tudo certo, filha, dizia ela. “Mãe Dora, agora tão batendo
o pó preto no chão!”. Tá bom , Carla, respondia de lá. “Mããããe, agora
tão passando um rolo grande no beco inteiro!”. Certo, minha filha,
certo, é isso mesmo… E finalmente, “mããããe, o beco tá asfaltado.
Todinho!”.
Depois daquela manhã, acompanhada atentamente também por dona Tereza,
dona Glória, dona Olga e toda a criançada, nunca mais se viu as pedras
vermelhas no Beco da Indústria ou pelas ruas de Aparecida. O asfalto
nos trouxe a uniformidade no piso, algum calor, a possibilidade de
novas danações e cobriu parte da história do bairro, fez desaparecer
os trilhos dos bondes que cruzavam sobre o piso irregular levando e
trazendo vidas na Manaus da década de 80 do século passado.

*A autora é jornalista

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Riachão

Lúcia Carla Gama*

Acho que só agora a ficha caiu: o Riachão está à venda. Não sei o preço cobrado e nem sei se aquilo ali tem valor que o dinheiro possa pagar. Mas o fato é que está à venda. Tá bom que esta é outra época, meninos adultos, virando pais, outras relações estabelecidas, adultos ficando velhos e a civilização tomando conta do que era no meio do mato.

Localizado num braço de igarapé do banho que um dia foi a Ponte da Bolívia, guardo do Riachão deliciosas lembranças. Antes e primeiro de tudo da água farta e escura, que certamente lhe rendeu o nome de
batismo. Havia uma época do ano em que o rio particular ficava tão cheio que inundava uma ilha bem no meio do sítio, encostando na ponte de madeira que dava acesso a dita ilha. Nadar ali, naquelas condições, era uma aventura e tanto assim que comecei a freqüentar o local, comuns sete, oito anos. Também era aventura descer, levada pela força das águas, até o tronco que dividia o Riachão do sítio vizinho e depois subir de volta, literalmente, contra a correnteza.
Lugar de areias brancas e escuras, o Riachão fica onde hoje é o bairro Nova Vitória. Ali, nas redondezas, há uns 25 anos, havia enormes reservas de areia que Alex, André, Lulinha e eu explorávamos algumas vezes a pé, sol fritando os miolos. Eram tão grandes os montes que nos divertíamos escorregando sobre papelões e, àquela altura, imaginando estar nas dunas nordestinas. Também arriscamos ali o primeiro contato com o volante num Fusca branco que não convém contar a origem. Era uma aventura dirigir na estrada arenosa, esburacada e alagada em tempos de inverno amazônico, quando chove num dia e no outro também, mas nós nos divertíamos a não mais poder.
Aliás, foi numa época dessas, de inverno, que voltando do Riachão para casa, papai achou que podia transformar, por um momento, o AM-5990 num barco e passou com o Fusca no meio de uma enorme poça d’água. Foi entrar e o carro alagar completamente. O que restou foram as sandálias flutuando e o vô Petrônio voltando no dia seguinte para resolver o caso. Nós pegamos carona naquele final de dia.
Domingos eram os dias de Riachão. Num tempo em que a fiscalização de trânsito não era das mais rigorosas, nós íamos apertados em carros pequenos ou, um tempo depois, quando as coisas melhoraram, íamos de caminhonete, atrás, na carroceria. Tinha cantoria e piadas no caminho.
Chegando lá havia churrasco, quase sempre coordenado pelo Joãozinho, botafoguense desses chatos, mas gente boa, que já não está mais entre nós. Havia também um vôlei disputado a ferro e fogo sobretudo pelo Alex e André. Lembro direitinho do tamanho do bico de um e da expressão de raiva do outro quando a vitória nas partidas de brincadeira não vinha. Havia a turma do baralho, sentada à mesa, um olho nas cartas, outro no ambiente e as línguas – afiadíssimas – trabalhando sem parar. E, havia, ainda e claro, muita, mas muita mesmo, conversa fiada. E gaiatice como as que reproduziam antigos “reclames”, inventados ou verdadeiros: “Não existe mulher frouxa, seu pau que é fino. Se seu pau é fino, tome Engrossolino. Engrossolino é da Bayer, e se é da Bayer é bom!” e “Cagar todo mundo caga, mas cagar com elegância só nos penicos da Casa Bragança, de Pixita e Cia”. Nunca mais esqueci estas pérolas, que acabei usando recentemente, devidamente adaptados, na apresentação de um trabalho em equipe na pós-graduação.
Rodeado de areia por todos os lados, o Riachão produzia muito jambo. Nos tempos desta fruta amazônica os pés das árvores ficavam atolados da frutinha vermelha, tinha tanto que, de verdade, fazia lama. Também tinha caju, mas em quantidade infinitamente menor.
E foi no campo deste Riachão que assisti uma das maiores manipulaçõesd e resultado de um jogo de futebol, num tempo em que a cartolagem e a compra de árbitros eram coisas muito bem escondidas. Alex e André fazem aniversário com três dias de diferença e, claro, a festa era uma só. Num ano qualquer o tema da festa era futebol, com uma disputa entre Flamengo e Vasco. Os primos compunham os times de cada um. Nem lembro quem era Flamengo e quem era Vasco, mas o certo é que o jogo teria que terminar empate. De qualquer jeito, sem nem ser levados em conta o talento e a disposição de jogar de cada atleta. E assim foi: com pênalti arranjado, batido e repetido e o fim do jogo antes do tempo, o placar foi de um a um. Tempos depois, com eles já maiores, houve uma disputa de vôlei para comemorar os aniversários, mas àquela altura já não dava mais
enganá-los com tanta facilidade e o time do Alex acabou vencendo para desespero do André e seu bico de meio metro.
Além dessas, são muitas as lembranças do Riachão. As festas juninas, os jogos da Seleção assistidos ali, as músicas ouvidas, a alegria pelo encontro, as crianças – hoje homens e mulheres – correndo e fazendo barulho, a mesa de ping-pong, as histórias da dona Idá, a fofoca que não falta em lugar nenhum do mundo, os cafés da manhã, as noites estreladas que Lulinha, André, Alex e eu curtíamos do alto da caixa d’água e nas nossas filosofias juvenis falávamos da imensidão do mundo, da vida, dos mistérios e da expectativa de uma noite ver um disco voador pousando no antigo campo de futebol.
Pode ser que o tal disco pouse, um dia, ainda, e, que pena, nós não estaremos mais lá para ver. Pela caixa d’água no lugar de água farta no meio da imensidão de areia nós já passamos, como o tempo, que faz com que nada do que foi seja de novo do jeito que já foi um dia.

* A autora é jornalista

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Uirapuru do busão e esses meus colegas

Neuton Corrêa*

Ao entrar no 451, no núcleo 3 do bairro Cidade Nova, para fazer integração com o 447 ou com o 439, no bairro Novo Aleixo, ouvi uma voz aguda que penetrava cada cantinho do busão. Nem mesmo a multidão que se acotovelava pendurada no coletivo impedia a voz de se alastrar pelos ouvidos dos passageiros. Era um som tão poderoso que até o ronco do motor se acanhava para ouvi-lo.

Antes de passar pela catraca, olhando por baixo da fila de braços suspensos na posição de mãos ao alto, tentei identificar quem era o dono daquela voz que a alternava entre o cantar e o falar, mas não consegui achá-lo. Então, usando minha experiência de passageiro-repórter, estrategicamente, fiquei perto da cobradora, dizendo para mim mesmo: “Você vai apenas ouvi-lo”, mas não houve jeito. Toda vez que ele cantava eu esticava a cabeça, olhando para trás.

E mais curioso fiquei quando o ônibus alcançou o núcleo 16, onde os passageiros da posição de vítimas de assalto começaram a descer e a abrir visão para mim. Olhei outra vez para trás, mas, ainda assim, não consegui visualizá-lo. Porém, já dava para perceber que estava acompanhado de uma mulher de beleza e forma exuberantes. Com pouca gente no busão, a voz ficou a mais nítida.

As canções que cantava e depois explicava para sua parceira de viagem ficaram tão claras que até pude acompanhá-lo (no pensamento). Lembro, por exemplo, quando ele cantou: “Eu quero ver/ Este sorriso em tua boca/ Quando esse cara que te abraça/ Te abandonar cabeça oca”. E informei para mim: “Essa música é do Abílio Farias”, enquanto ele dizia para o mulherão: “Isso vai acontecer com ela”.

Quando o busão entrou no Novo Aleixo, perto de onde eu desceria, ainda não conseguia vê-lo. Mas o pensamento já me obrigava a imaginá-lo magro e alto ou gordo e alto. Porém, amigos, os sentidos nos enganam, segundo René Descartes: acordamos sorrindo quando o sonho é agradável, e, assustados, quando nos perturbam. Parece real, mas não passa de sonho. Que engano maior do que a febre? A pele arde; às vezes, parece que vai pegar fogo, mas, ao invés de queimar, faz-nos tremer de frio.

Nada de filosofia cartesiana. O engano estava ali, de novo. Procurava um homem grande e o que eu via era apenas a pontinha de uma cabeça com cabelos grisalhos e as mãos segurando o acento da frente. E, como ainda dava tempo, saí do lugar onde estava e me posicionei ao lado dele, para ouvi-lo interpretar Valdic Soriano, balançando as pernas, sentado, sem tocar os pés no assoalho do ônibus.

Depois dessa apresentação não resisti, pedi-lhe autorização para tirar sua foto e ele não se fez de rogado e ainda fez pose. Cliquei o que pude, pedi o número de seu telefone e, apressadamente, puxei a corda para descer na padaria onde costumo fazer integração. Mas, para minha sorte, lá ele desceu também, perguntando-me:

- Pra que é isso?

- Eu trabalho em jornal. Vou sugerir para o pessoal do Manaus Hoje que faça uma matéria sobre o “Uirapuru do busão”.

E ele:

- É aquele jornal de cinquenta centavos, da A CRÍTICA?

Disse-lhe que sim e ele falou:

- Ei, eu conheço teus colegas. Eles sempre vão lá no meu trabalho!

Animado pela coincidência, perguntei:

- E o senhor trabalha onde?

- No Motel Serpente.

O 447 apareceu e eu me despedi do cantor, pensando: “Esses meus colegas…”.

Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Conhecendo a Amazônia com Frank Stones

Neuton Corrêa*

Sentado ao lado da janela do 009, ouvi uma voz que saía da direção do motorista de um carro vermelho, emparelhado com o busão: “Maninho! Maninho! Maninho!” Na hora, olhei, mas não consegui ver quem era. E não foi por falta de esforço do condutor: ele até se deitou no banco do passageiro, tentando mostrar o rosto, mas o motorista do ônibus seguiu viagem pelas vielas do bairro Redenção.

Vim descobrir quem era quando o ônibus saiu na Avenida Torquato Tapajós e quando o carro vermelho outra vez apareceu, buzinando ao meu lado. Um pouco afastado do busão, deu para ver. Era Frank Stones Amazonas, que, apesar do nome, é paraense.

Conheci o Frank há pouco tempo por meio de um deputado que o escolheu para apresentar a região ao ex-presidente do Ibama Hamilton Casara. Não foi uma escolha qualquer. Frank Stones sempre se julgou um profundo conhecedor da Amazônia, da fauna, da flora e dos modos de vida do caboclo. Foi ele quem traçou o roteiro da viagem: de Manaus a Itacoatiara, de carro; de Itacoatiara a Terra Santa (PA), de lancha, pelo Paraná do Ramos. E assim foi.

No começo da excursão, logo que a voadeira começou a cortar água, Frank olhou para Casara e disse, solenemente: “Presidente, conheço cada palmo desse estirão”.

Na primeira escala da viagem, em Barreirinha, ele não perdeu tempo para exibir seus conhecimentos regionais. No flutuante onde pararam para abastecer, Frank viu uma canoa com uma tarrafa (aquela rede de pesca circular com chumbo na borda) e prometeu: “Presidente, o senhor, agora, vai comer um peixe fresquinho”.

A exibição chamou atenção. Frank pegou a rede, mergulhou-a nas águas do Paraná do Ramos; depois, fez um laço com a corda da tarrafa em sua mão esquerda, prendeu uma parte do apetrecho nos dentes e passou a abrir a rede com a mão direita, até dividi-la em duas partes. E explicou: “Tem que ser assim, presidente: ‘o peso da chumbada tem que estar divido’”. Com isso, conquistou a platéia. Tanto que Casara comentou com o deputado: “Ele conhece, mesmo!”.

Acontece, amigos do busão, que, ao atirar a rede para o rio, Frank perdeu o equilíbrio e foi também para água, trançando-se na malha e dando trabalho para o resgate. A partir daí, o guia se quietou, porém reanimou-se quase perto do rio Amazonas, quando gritou para o piloto: “Para! Para! Para!”. Todos queriam saber o que era. E ele apontou para o horizonte dizendo: “Presidente, veja como a fauna é bonita! Essa maravilha precisa ser preservada! Uma capivara atravessando o rio!”

A comitiva se agitou. Na correnteza, de longe, a capivara parecia nadar balançando a cabeça para cima e para baixo. Frank continuava: “Motorista, devagar: não vai assustar!” Quem estava na popa queria ir para a proa, mas Frank dizia: “Calma! Calma! Calma! Todo mundo vai ver”.

Acontece, senhores, que, ao chegarem perto, a capivara não passava de um pedaço de pau que descia o rio, dançando a dança da correnteza e das ondas.

Aos poucos, o Sol começou a deixar a companhia da viagem, mergulhando nas águas do Amazonas, e, a esta altura, nada do que Frank Stones falava levava-se a sério. Porém, quando as estrelas já cobriam a viagem, ele apontou para um clarão de luz elétrica, fazendo um discurso, batendo as duas mãos no peito:

“Terra Santa do meu coração! Deputado, presidente, gente que nesta viagem me acompanha, aqui nasci e cresci! Aqui, pesquei e cacei! Aqui, militei! Aqui, presidente, encontrei minha mulher querida!”

Ao encerrar o discurso, no entanto, o piloto, chamado Pancoso, interrompeu-o, dizendo: “Seu Frank, seu Frank, isso aqui não é Terra Santa, não. É a comunidade do Maracanã”.

Cumprimentei meu amigo no trânsito, apertando minhas mãos como se tivesse apertando as dele e ele partiu.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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A sementinha voadora

Tenório Telles*

Cuidar das crianças é tarefa intransferível dos pais, dos professores e da sociedade. Os escritores, em especial os que escrevem para o público infanto-juvenil, têm igualmente a responsabilidade de contribuir com o processo de aprimoramento da sensibilidade e o despertar da paixão dos jovens pela leitura e o amor pelos livros.

As crianças gostam de ouvir histórias, de brincar e inventar suas narrativas – concebidas como brincadeiras com o imaginário, com as palavras e a capacidade que têm de narrar. Incentivar a leitura e a aptidão criativa que possuem é uma forma de manter ativa a inventividade e o entusiasmo pelas palavras e pela magia das narrativas. A escritora Lygia Bojunga considera a leitura um ato transformador e definitivo na vida do ser humano: “Quem tem o hábito da leitura está salvo para o resto da vida”.

E por falar em leitura, acabo de ler um livro belo e profundamente humano. Trata-se de “Formosa – a sementinha voadora”, escrito pelo ficcionista Wilson Nogueira. Nascido na beira do rio Amazonas, em Parintins, conviveu em criança com os bichos, as plantas, os pássaros e as histórias de encantados. Foi o aprendizado da leitura, entretanto, que mudou o curso da sua vida. Experiência que tornou possível o acesso ao conhecimento, à educação escolar e, hoje, aos estudos acadêmicos. Esse filho da floresta é atualmente um dos mais produtivos intelectuais amazonenses.

Fascinado pelas narrativas populares, Wilson se firma como um escritor sensível e cuidadoso de textos infanto-juvenis. Exemplo disso é o livro “Órfão das águas” e essa história maravilhosa que é “Formosa – a sementinha voadora”. A obra é uma narrativa delicada sobre as experiências de uma pequenina semente de samaumeira que, ao se desprender do fruto, é levada pelo vento e inicia uma viagem por paisagens desconhecidas e lugares distantes. Nesse caminhar, melhor dizendo, voar pelo mundo, vive experiências e descobertas que marcam-lhe o ser.

Wilson presenteia as crianças com um livro especial, escrito numa linguagem simples e cheio de lições de vida, em que discute temas como solidariedade, amizade, cuidado com a natureza, coragem e aprendizagem. A história de Formosa é uma metáfora da própria existência, manifesta na trajetória do ser humano, que vive muitos desafios do seu nascimento até amadurecer e adquirir segurança, como a Sementinha voadora, que, após rodear “o mundo”, será plantada e se transformará numa bela samaumeira, e “dará muitas frutas e sementes!”. As duas palavras que melhor expressam essa história e definem este livro são: poesia e humanidade. Formosa é uma obra que encanta e comove pela sua delicadeza e conteúdo humano. Somos todos sementes da vida – às vezes nos tornamos altivas samaumeiras, outras simples arbustos, quando não espinheiros.

*O autor é escritor e membro da Academia Amazonense de Letras (AAL).

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O velho jogo dos políticos

Wilson Nogueira*

A campanha eleitoral começou, oficialmente, ontem, com o encerramento, anteontem, do prazo para o registro de candidaturas e coligações. Na prática, a guerra entre os grupos políticos pela conquista da preferência dos eleitores nunca cessou. A campanha formal e fiscalizada pela Justiça Eleitoral refere-se apenas ao ciclo da política partidário mais acirrado e mais violento.

Como as candidaturas já estavam nas ruas, os eleitores mal se deram conta de que só agora a campanha está permitida por lei. A oficialização da disputa só reforça o fato de que havia, antes, uma competição oficiosa e acobertada pela hipocrisia geral. Lembremo-nos de que determinados servidores públicos deixam, por força da lei, suas funções seis meses antes do dia da votação. Desligam-se, mas não podem fazer campanha abertamente. Até parece que poderiam se enclausurar até o apito do início do jogo.

O intervalo entre a desemcompatibilização e a legalização das alianças e candidatura é conhecido como pré-campanha, que, na realidade, é a própria campanha em andamento. A intensidade da peleja pelo voto, no ciclo da pré-campanha, pode ser medida pela guerra que se estabelece entre os advogados dos candidatos e partidos. As demandas judiciais só confirmam que as leis têm pouca importância para os políticos. Eles as infringem sem-cerimônia, porque pagam suas punições com dinheiro, o que não se constitui problema ou dificuldade para a maioria. É só conferir o número de multas aplicadas pela Justiça Eleitoral por propaganda fora de época.

O que se pode ver no jogo da política é que suas regras são confusas e contraditórias. Elas priorizam a proteção dos interesses dos partidos e suas coligações, que não são os únicos envolvidos no jogo.  A outra parte, os eleitores, não consegue se situar no processo eleitoral senão pela obrigatoriedade do voto. Ouve-se com certa freqüência: “Só voto porque sou obrigado”. Os partidos, por sua vez, não se sentem obrigados em convencer os eleitores por meio de propostas e idéias. No cenário da política, valem mais os truques da propaganda e o jogo rasteiro dos dossiês e contra-dossiês.

Por isso, há setores da sociedade que clamam – faz algum tempo – por novas regras para os partidos e para as eleições. O apelo faz muito barulho, parece contagiar os legisladores, mas, no final das contas, se perde nos escaninhos do Congresso Nacional. Até a lei da ficha limpa, de iniciativa popular, corre o risco de morrer depois de alguns dias de nascida. Se já não morreu! A final, os interesses do poder se escondem por corredores obscuros por onde se movem somente que têm acesso aos fios-guias das suas entradas e saídas.

A situação é desesperadora, porém, não dá para perder as esperanças ou para não sonhar com as mudanças. De repente, a sociedade pode se movimentar, no próprio processo eleitoral, contra o sistema de proteção dos políticos e dos partidos. Desse modo, poderia pautar uma reforma que banisse a impunidade e tornasse mais transparente as coisas da política. Esse é o sonho. O pesadelo é continuar a espera de uma atitude altruísta dos atuais e dos futuros legisladores.

*O autor é jornaista e escritor

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Incentivo à leitura

Wilson Nogueira*

O gosto pela leitura, independentemente das classes sociais, é sempre latente. Ele se manifesta na primeira oportunidade, que, para a grande maioria dos que lêem, surge na escola. O problema é que os primeiros contatos com os livros podem acabar entre as paredes da sala de aula. Não por falta de interesse do leitor iniciante, mas, pela ausência de políticas públicas de incentivo à leitura dentro e fora dos muros escolares. É, portanto, injusto exigir leitura de quem não tem acesso aos livros. Por isso, iniciativas como o Leitura para a Juventude, lançado pelo Governo do Amazonas, no dia 24 de junho, merecem voto de confiança, porque que colocará nas mãos dos alunos do Ensino Médio clássicos da Literatura Brasileira, escolhidos por gênero e escolas literárias. Os professores farão cursos de aperfeiçoamento em leitura e literatura para aplicar, com o melhor eficácia, as diretrizes do projeto. Cada escola receberá uma cesta como títulos de autores – entre os quais livros de Castro Alves, José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego e Mário de Andrade –, mais obras de escritores contemporâneos, entre os quais Márcio Souza e Milton Houtun, destinados à leitura complementar. Dá-se, com essa medida, um passo importante na direção do amadurecimento de uma provável política de estado de estímulo à leitura no Amazonas. Não será uma única ação, por mais eficiente que venha a ser, capaz de pôr fim ao déficit de leitura e do conhecimento literário nas escolas amazonenses. Mas, decerto, faz surgir um pontinho de luz no fim do túnel da democratização dos livros e de outros meios de acesso ao conhecimento. A luz se expandirá na medida em que governos e sociedade assumirem compromissos de ampliar as medidas que visam alcançar todo o potencial de leitura disponível no País. Leitura para a Juventude é mais uma semente nesse terreno latente da leitura. No ranking de 52 países, ha uma década, cada brasileiro lia apenas 1,8 livro por ano, em média; no ano passado, um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) atestou que a média de leitura do País subiu para quatro livros por ano, mas ainda ocupa a 47ª posição dessa lista. Em países desenvolvidos, segundo a Unesco, uma pessoa lê ao menos dez livros por ano. Seria muito feio ver o Brasil, daqui a dez anos, no ranking dos países mais desenvolvidos do Planeta, porém, com um nível de leitura lá embaixo. Isso se configuraria em negligência do poder público e da sociedade com a inclusão social dos brasileiros por meio do conhecimento. Nada mais providencial do que o incentivo à leitura na escola, funcionamento correto bibliotecas e criação de novos espaços públicos de leitura, com equipamentos e pessoal adequados e qualificados. O Amazonas, por sinal, conforme recente pesquisa do IBGE, é um dos Estados com menor número de bibliotecas em pleno funcionamento. Se a escola é o lugar da leitura principiante, a biblioteca pública é o equipamento que possibilita a democratização do acesso aos livros. Ainda há tempo de corrigir os erros e os equívocos do passado, afinal, o gosto pela leitura continua latente. A sociedade precisa ficar atenta para que uma ação dessa importância resista aos conflitos da política e do poder.

*O autor é jornalista e escritor

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Vaqueiro do Caprichoso

Ilustração: Romahs

Neuton Corrêa*

Enquanto esperava meu filho chegar do Festival Folclórico de Parintins, pus-me a observar os passageiros que deixavam o cais do porto e, apressados, corriam em direção à estação de ônibus da Matriz, no Centro. Entre eles, surgiu um que chamava atenção: ele estava montado em cavalinho de boi-bumbá. Era uma escultura malhada de preto e branco, com uma saia amarela, brilhosa, que escorria até o chão.

Nas costas, o cavaleiro carregava uma mochila preta; na cabeça, um chapéu enfeitado em verde-amarelo, com espelhos grudados nos lados e fitinhas que desciam da aba até suas costas; e nas mãos, ele segurava uma lança com fitas também verdes, amarelas e brancas e uma miniatura de boi-bumbá ao lado de uma bola de futebol (era uma jabulani), fixados na ponta da haste.

O vaqueiro quase nem conseguia se mover com tanto treco que trazia.

A cena me fez lembrar o amigo Romário. Na verdade, o nome dele é Messias Albuquerque, hoje diretor de uma das maiores redes de lojas do interior do Amazonas, a Green Colection. Pois bem. Quando jovem, Romário alimentava um sonho: queria entrar no Tabladão (antes não havia Bumbódromo em Parintins) de qualquer jeito, de preferência no Garantido. Tentou de tudo, até se candidatou a pajé, mas não conseguiu.

Depois que perdeu a vaga de pajé, parecia, definitivamente, haver esquecido o sonho. Mas viu a oportunidade aparecer, quando, ao andar pelos arredores do Bumbódromo, encontrou um brincante do boi Caprichoso fantasiado, mas jogado ao chão, dormindo ao lado do cavalinho e da lança. Romário não perdeu tempo. Correu atrás do responsável pela vaqueirada do bumbá, relatou o caso e se prontificou a substituir o vaqueiro.

Mas, senhores, não foi fácil. O responsável da vaqueirada sabia que o Romário era torcedor do Garantido e, na hora, vetou a participação de meu amigo, que depois aceitou todas as imposições que lhe foram feitas e conseguiu a fantasia.

O problema, amigos do busão é que, ao vestir o cavalinho e sentir o peso da lança, Romário percebeu que a festa, para ele, não seria tão boa. Para complicar a situação, o ritual de concentração exigia que ele tomasse um copo de cachaça para entrar no clima. Eu não sabia da história, mas foi ele mesmo quem me contou o que aconteceu durante a apresentação:

- Macho (assim trata conhecidos e desconhecidos), estava certo que a gente iria rodar o Bumbódromo “só” dez vezes. E eu calculei: “acho que dá”. E fui!

E eu, curioso para saber o que aconteceu, perguntei:

- E daí, Romário?

- Macho, quando agente estava para completar as dez rodadas, apareceu um monte de gente gritando, desesperada: “continua!”, “continua!”, “continua!”. Eles não conseguiam tirar uma alegoria da arena e a gente teve ficar lá e ninguém podia ficar parado.

E eu, de novo, e daí?

- Quando o cara veio falar perto de mim “continua pulando”, eu disse: “Macho, eu não aguento mais”. A aí ele gritou: “Faz isso, faz! Para pra te ver! Aqui todo mundo já sabe que tu é do Garantido”.

Meu filho apareceu no porto, fomos embora e o brincante da vaqueirada continuou lá na estação de ônibus do Centro.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Delicado

Ilustração: Myrria

Neuton Corrêa*

Apoiando-se com dificuldade na porta dianteira, a passageira tentava embarcar na viagem quando o motorista a advertiu: “É lá por trás!” A mulher pareceu não haver entendido o aviso e, com a mão direita à altura do joelho direito, e a mão esquerda, no capô do motor, seguiu seu esforço para subir no coletivo. O motorista, porém, novamente, olhou para ela e repetiu, pausadamente: “É lá por trás”.

Pensei que o motorista iria seguir viagem, afinal havia lugares de sobra e, até porque, em mais alguns segundos, a mulher já estaria acomodada. Mas não! Ele tirou as mãos do volante, mexeu na janela ao lado do retrovisor, jogou o corpo no encosto da poltrona e, com as mãos na cintura, balançou negativamente a cabeça e repetiu, desta vez, em tom ríspido: “Minha senhora, já disse: a entrada é lá por trás”.

Observando a cena, revoltado, pensei em meter meu bedelho na situação, mas me contive. Contive-me não por vergonha, mas por covardia, mesmo! Pensam que é fácil? A última vez que me envolvi em discussão no busão quase sobrava para mim. Foi por causa de troco. Tentei ajudar uma cobradora, mas o passageiro me olhou com cara de ameaça e disse: “Quem te perguntou?” Depois disso, peguei meu uxi e fui.

Enquanto controlava o impulso, minha cabeça lembrava do Lazareno Garapeiro. Lazareno foi meu vizinho de infância e meu parceiro de primeiras noitadas. Era um grande amigo, principalmente no verão, quando dava um jeito de escapar com a bicicleta cargueira de seu pai para carregar tala de papagaio que a gente tirava na copeira do Campo Grande. Mas ele sempre foi de falar pouco. Um caladão. Lazareno só abria a boca para decidir.

Nos últimos anos, meu amigo aprimorou a técnica de falar o essencial. Tanto o é que ganhou um apelido: “Delicado”. Delicado porque não costuma dar bom dia aos clientes que frequentam a lanchonete que montou na Avenida Amazonas. Mas pensem que isso é problema. Por causa de sua delicadeza, a lanchonete tornou-se um das mais badaladas do bairro. Virou lenda.

Para se ter uma ideia, ele só entrega o pedido com o dinheiro na mão. Deixa isso bem claro nas dezenas de placas que pregou na parede do comercio: “Fiado só amanhã”, “Liso aqui não faz festa”, “Fiado só na JP” e por aí vai.

Uma das delicadezas que testemunhei chegou a me deixar preocupado. Eram dois rapazes. Chegaram desconfiados, olharam para um lado e para o outro, leram as placas e sentaram-se a uma mesa ao lado. Um deles levantou o dedo e pediu:

- Traz uma cerveja.

Do balcão, Lazareno apenas cerrou o polegar e o indicador e esticou os outros três dedos. Mas o cliente insistiu:

- Traz uma cerveja.

Lazareno respondeu:

- Três reais.

Os rapazes tiraram o dinheiro, colocaram na mesa e o Lazareno entregou a garrafa, nevada como canela de pedreiro, que é sua marca principal. Os dois apreciaram a bebida e, de novo, pediram:

- Traz uma cerveja.

E, mais uma vez, Lázaro exibiu os dedos. E assim foi até a quinta cerveja.

Acontece que, lá pelas tantas, um dos rapazes meteu a mão no bolso e foi ter reservadamente com meu amigo. Mostrou-lhe um celular propondo trocar uma cerveja pelo aparelho. Lázaro não falou nada, apenas abriu a mão em sinal de “espera aí”. Ele se abaixou, puxou uma gaveta velha e a soltou no balcão acintosamente, dizendo:

- Tu sabes o que é isto? E ele mesmo respondeu: Isto aqui é um celular, isto aqui é uma gaita, isto aqui é um anel, isto aqui é um cordão e foi puxando os objetos de sua caixinha de fiados.

Quando me acordei daquelas lembranças, o motorista estava resmungando: “Porra, toda vez essa mulher entra no ônibus se arrastando e desce correndo. Pensa que sou leso!”

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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