Archive for agosto, 2010

Roubaram o Homem-Aranha

Ilustração: Romahs

Neuton Corrêa*

Juveco entrou no 446 cerrando as mãos, flexionando o braço direito com o punho apontado na direção do corrimão do teto ônibus, mirando e atirando munições imaginárias com disparos que fazia com a boca. Os mesmos movimentos ele repetia com o outro braço. Parecia andar pendurado como o Homem-Aranha.

Era o último busão do dia. Faltavam alguns minutos para a meia-noite. Quando eu, ele e minha esposa embarcamos no núcleo 2 da Cidade Nova, havia apenas uma passageira, uma senhora que se sentava ao lado da porta de desembarque. Ela segurou o que pôde, mas caiu na gargalhada com a presepada de meu amigo.

Não dava para reagir diferente! Até eu que o conheço há duas décadas e meia não aguentei a cena. E olha que já havia assistido ao espetáculo há mais de dez anos, do tempo em que ele trabalhava em Manaus como humorista.

Lembro-me do dia em que fomos a um festival de música, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Lá testemunhei seu poder de raciocínio para o humor refinado. Quando chegou à festa, com cara de quem não quer nada, foi abordado por um palhaço (era um palhaço mesmo, fantasiado), que tentava zombar dele. Meu amigo fingiu que não viu; o palhaço insistiu; Juveco, então, dobrou a cabeça para a copa de uma árvore, apontou o dedo para lá e trouxe-o lentamente junto com o olhar do comediante para o meio de suas pernas. O palhaço não falou mais nada. Apenas o cumprimentou, estendendo as mãos.

Juveco, José Inácio Miranda da Silva, seu verdadeiro nome, mudou-se para Maraã (a cinco dias de viagem de Manaus), em 2000. Conheceu a cidade e para lá migrou com a família para pôr em prática outra profissão: a de enfermeiro.

Feita a apresentação, vamos retornar à conversa inicial. Juveco não vinha à capital há quatro anos. Chegou aqui como garimpeiro. Parecia que nunca tinha visto bebida. Festa, então, nem se fala! Queria estar em todas e convidou justamente a mim, que sou mais bronco do que Dom Casmurro.

Evitei as tentações até onde pude. Mas precisava fazê-lo uma concessão. Ivete Sangalo se apresentaria em Manaus, no Sambódromo, e ele queria porque queria ir à festa. Tentei convencê-lo a ir a outro ambiente, mas fui voto vencido. Minha mulher, que só queria um pezinho, aproveitou-se.

Foi nesse percurso para o Sambódromo que ele interpretou o Homem-Aranha. Aliás, até quando desembarcou do ônibus, desceu como Aranha. Jogava suas teias para os postes de iluminação pública, para os prédios, para os carros que passavam pela gente. Para tudo!

Ao chegar ao Sambódromo, ainda tentei dar um desdobro nos dois, no Juveco e na minha esposa. Perguntei a que hora Ivete se apresentaria e fomos informados de que ainda se demoraria. Era tempo suficiente para jantar na praça de alimentação ali perto. E assim aconteceu.

Mas, amigos do busão, Juveco não queria perder a festa. Engoliu a comida e disse, apressando-me: “Vamos, Mojica (assim ele me chama)”. Não houve jeito.

Juveco aproveitou o que pôde. Estreou o celular novo filmando as pernas da Ivete Sangalo e batendo foto para levar de lembranças para a família. Mas, de repente, quando a cantora começou a repetir “Levada louca, levada louca”, o Homem-Aranha me chamou:

- Mojica, vem cá. Vamos lá no banheiro?

- Vamos, respondi. – já saindo do meio da multidão de jovens bêbados e drogados.

Antes de escalar a rampa para os banheiros, porém, Juveco se escorou numa coluna do Sambódromo e disse: “Porra, cara, levaram minha carteira, com tudo o que eu tinha”.

Tentei não rir, mas não deu.

Jornalista, filósofo, escritor.

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O QI da passageira

Ilustração: Myrria

Neuton Corrêa*

O 017 passava pelo bairro São José, quando a moça embarcou na viagem. Antes mesmo de subir no busão, a presença dela já causava alvoroço. À minha frente, duas passageiras discutiam:

- É sim.

- É não!

- É sim filha dele. Eu conheço ela desde pequena.

Do outro lado, dois rapazes levantaram a cabeça, olharam-se, torceram a boca e atestaram: É ela.

A agitação chamou minha atenção. Até estiquei a cabeça para tentar ver de quem eles tanto falavam. Não puder ver, mas ouvi. Ouvi uma voz fininha dizendo: “Ai, que bom! Esse ônibus não está lotado”. E não estava lotado, mesmo! Ainda havia lugares para o dobro de gente que estava viagem.

Enquanto fazia a operação matemática para concordar com ela sobre a lotação do ônibus, a passageira apareceu cruzando a catraca. Foi aí que entendi o porquê do zum, zum, zum. Várias cabeças masculinhas viraram-se em sua direção. As mulheres também a olharam, mas eram os homens que a descreviam com os olhos.

Foi por um desses olhares que a visualizei antes de vê-la: ele olhou para baixo (supus que estivesse olhando para os pés da passageira) e passou segundos demorados fixados naquela direção, o que me fez imaginá-la com pés encantadores; depois, ergueu o pescoço na direção das pernas. E demorou ainda mais. E finalizou os movimentos do pescoço, erguendo a cabeça até o toco da nuca, não deixando dúvida de que se tratava de uma mulher alta. Muito alta.

De fato, era alta. Assim que passou por mim, medi-me ao seu lado (só na imaginação, é claro) e constatei que minha cabeça batia nos peitos dela. Mas não eram apenas a altura nem os pés, nem as pernas grossas e roliças, simetricamente, do calcanhar ao joelho, que chamavam atenção.

O vestido e a bolsa que trazia pendurada no ombro direito também a faziam diferente dos passageiros do dia-a-dia. Era um vestidinho com pintinhas marrons, parecendo um couro de onça pintada. A roupa deixava grande parte da costa exposta e a metade da coxa despida. Não dava para ver a parte da frente porque ela ficou de costas para mim e depois se sentou. Ah, a bolsa combinava com o vestido. Parecia que vestido e bolsa haviam sido feitos do mesmo tecido.

Bem, antes de sentar, a passageira cumprimentou algumas pessoas. Os que não eram alcançados por suas mãos eram tocados por seu sorriso e pelo adeus de sua mãozinha. Parecia conhecer todo o mundo. E isso ficou claro quando começou a falar com outra passageira que estava em pé:

- Amiga, arrasou!

A outra respondeu, perguntando:

- Cadê o carro?

- Arrasaram comigo. Papai me deixou sem o carro. Agora que a campanha começou não fica nenhum em casa.

Depois que falou isso, minha cabeça tentou comparar seus traços com algum agente público conhecido, mas eu não tinha visto seu rosto. Fiquei assim, curioso, até que a interlocutora perguntou:

- Pra onde você vai?

- Amiga, eu estou arrasada. Estou trabalhando.

- Lá?

- É, lá! Amiga, lá é pra quem tem QI (Quem Indica, explicou ela). O papai conseguiu na hora.

A outra respondeu:

- Arrasou!!

Acho que eu não era o único a prestar atenção no diálogo. Tanto que, assim que elas deram uma pausa na conversa, uma passageira explicou, em sussurro: “Ela é filha do deputado”.

*Jornalista, filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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O lugar da política

 Ivânia Vieira*

 O espaço para a corrupção eleitoral equivale a vários latifúndios. São tantas as possibilidades de realizá-la, inúmeras as brechas existentes e forte a cultura que naturaliza o não natural. Os grandes acordos plastificam posturas forjando transparência nos atos opacos patrocinados por servidores públicos, alguns com paletó de autoridade.

A primeira reação é mesmo de embarcar no consenso em torno da impossibilidade de construir mudanças mais radicais nessa área. Com ela, prevalece a concordância de que política é o lugar dos negócios espúrios. Ou seja, político não é para ser levado a sério. O acumulado dos escândalos fortalece esse tipo de compreensão e, lamentavelmente, promove a acomodação e o conformismo da cumplicidade. 

Mas, o Brasil vem dando passos significativos e, mesmo tratado por alguns como pequenos, devem ser objeto de olhar mais atencioso inclusive pela mídia em razão do seu efeito multiplicador.

Há uma outra história sendo escrita e ela merece ter espaço nessa arena de interesses gigantescos. Os comitês populares pelo voto ético começam a ser instalados em diferentes lugares  do País. Em Manaus, gente simples, como Camilo Gomes Assunção, 68, estão abrindo, mais uma vez a porta da cidadania para um trabalho de formiguinha: distribuir cartilhas a moradores de comunidades como Nova Floresta, no bairro Tancredo Neves, nas quais explicam o que os candidatos podem fazer e também informar sobre as condutas ilegais.

Nesses lugares, o gesto mais comum de parcela de candidatos que por lá aparecem  é a tentativa de comprar o voto. Oferecem  dinheiros e vantagens para famílias que vivem sob a ‘lei da necessidade’.  Se, em cada lugar desse, dez pessoas começarem a questionar tais abordagens e a denunciar tais tentativas, a peleja dos Camilos, Odilos, Neudas… já será uma conquista e ela merece ser manchete. A política não é lugar de bandidos e essa é uma lição a ser aprendida.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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A testemunha muda

Neuton Corrêa*

Na verdade, acho que a personagem desta crônica também é surda. Há doze anos falo com ela, em troca, porém, nunca recebi nenhum piscar de olho, nenhum movimento de corpo, nenhuma expressão. Nada! Nada! Nada! Antes de saber que não ouvia, passava por ela e dava-lhe alô, e, como não respondia, usei o polegar para lhe perguntar se estava tudo bem, mas não consegui resposta até hoje.

Nessa dúzia de anos passados, ela permanece ali na mesma posição: braços retorcidos, mãos e dedos enrijecidos; pernas grudadas da coxa ao joelho e abertas do joelho aos pés, apoiados em dois suportes fixados ao lado das rodas de sua cadeira. Assim a vejo de manhã, quando saio para o trabalho, e, às vezes, à noite, ao retornar para casa.

Sua imobilidade, indiferença e silêncio há muito me inquietavam. Tinha convicção de que o cenário de sua história não se resumiria a seu corpo entrevado na cadeira posta à frente de sua casa. Ela deveria ter algo a mais. Ninguém é nada, até porque o nada é tudo, ensina o estudo da filosofia do ser. Pensava essas coisas todas as vezes que estava na parada de ônibus, de onde a observo.

E, de fato, ela comunica. E muito. Ajudou, por exemplo, a polícia a desvendar o mistério de um crime que ocorreu às suas costas. Quando não sei, mas, num tempo qualquer, sua irmã foi assassinada. Os detalhes do crime fizeram a imprensa passar semanas publicando manchetes sobre o caso e cobrando a polícia. A vítima era uma criança, e a testemunha, a única pessoa que estava na casa.

Ela, que havia nascido com múltiplas deficiências, após a violência contra a irmã, aprofundou ainda mais o silêncio. Tentaram de tudo, mas seu olhar sequer embaçava. As suspeitas recaíam sobre duas pessoas com o mesmo nome. Entretanto, pesavam mais contra a mais jovem, presa porque foi a última a entrar na casa, momentos antes do crime.

A prisão da suspeita não resolveu a situação. Com trinta dias de prisão, ela insistia na sua inocência, como todos criminosos fazem. Conseguiu até um álibi que o livrava das suspeitas, mas a implicava em outro crime. Ela revelara que, naquele dia, naquela hora, estava com mais dois vizinhos participando de um assalto a uma agência bancária.

Os outros irmãos da menina também não se davam por convencidos com a solução apresentada pelas investigações. Intrigava-os o fato de que o acusado, apesar do histórico, era conhecido na vizinhança por praticar roubos em outros lugares, menos na redondeza.

O tempo fazia as coisas esfriarem, até que o suspeito 2, voltou a andar pela rua. Toda vez que passava por ali, a deficiente se agitava e, à noite, não conseguia dormir. A família percebeu o detalhe e resolveu chamá-lo. Ele não se fez de rogado e atendeu o chamado.

Foi nesse momento que o caso teve reviravolta. A moça da cadeira de rodas passou a se debater e, pela primeira vez, já adulta, produziu os primeiros ruídos de sua vida e derrubou a represa que impedia seus olhos lagrimarem.

Até esta semana eu não sabia disso. Tomei conhecimento na parada de ônibus, quando dois vizinhos começaram a contar histórias da vida dela.

PS: Em outubro de 2008, dois homens estacionaram uma motocicleta a dois metros de onde a testemunha muda sentava e eliminaram um rapaz de 24 anos de idade. Um mês depois, a cena se repetia e, pela terceira vez, ela se tornava testemunha de outro crime.

*Jornalista, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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O caseiro

Neuton Corrêa*

Não pude observar os pormenores nem os “pormaiores” de como elas eram. Disso me arrependo por ter subido tão apressadamente a bordo 541, no Centro, e não ter sentado estrategicamente, como sempre faço. Nem havia motivo para tanta pressa. Afinal, a viagem era longa e o busão não estava lotado. Sobravam assentos, mas faltava-me audácia de repórter para me posicionar de um jeito que pudesse captar melhor a conversa delas.

Na hora, até pensei que pudesse trocar de lugar, mas meus movimentos poderiam fazer com que elas mudassem de assunto. Então, segurei a bisbilhotice e falei para a excitação do passageiro-repórter que apenas ouvisse. Ainda assim, a cabeça não se quietava, querendo olhá-las.

Agora, uma semana depois, reviro em minhas lembranças alguma coisa para caracterizá-las, para a gente conversar melhor hoje, nesse nosso encontro de todos os sábados. A única coisa que recordo é que uma delas carregava uma sacola branca, de plástico duro, pendurada no braço direito, que se apoiava no assento da frente, onde eu sentava. Sabia disso porque aquela mãozinha cheia de anéis era a única coisa que o canto do meu olho alcançava.

Ah, o plástico duro. Sim, por que sei que era um plástico duro? Porque houve um momento em que ela abriu a sacola e o barulho de caminhada em folha seca começou a tomar conta do ônibus. E, quando a estaladeira começou, uma dizia para a outra, ainda em sussurros:

- Esse é bom, mesmo?

- É, é bom! – atesta a interlocutora.

- E esse?

- Tem um perfume bom, mas você vai ter que tomar o banho com outro, porque ele é muito forte.

Elas estavam tão entretidas a falar de aroma que o cheiro da conversa das passageiras parecia ter chegado ao meu nariz. Deu-me até vontade de repensar a decisão que tomei, no dia 10 de dezembro de 1996, de nunca mais usar perfume. Lembro tão precisamente da data, porque foi um dia depois de meu aniversário. Eu estava doente da festa do dia anterior e, por onde passava, assim que sentia cheiro de perfume, arrependia-me dos exageros etílicos.

Acontece, amigos do busão, que a conversa delas não era apenas de perfume. Depois dos cheiros, as passageiras começaram a misturar tudo:

- Você pega isso aqui, mistura com esse aqui, e com isto aqui…

Nem imagino o que ela apontava, mas a amiga reagiu como se o ar tivesse fugido de seus pulmões:

- Ahhh!!!  Com isso?!

- É, com isso mesmo!

- Mas…

- Faz, menina! Você quer que ele continue saindo?

A outra ficou calada, e a amiga insistiu:

- Ele não precisa ver. Ele não vai saber!

Depois disso, um longo silêncio se fez entre elas, quando a amiga que animava a outra voltou a falar:

- O meu também era brabo! Bebia, bebia, chegava em casa querendo me bater. Só vivia na rua. Peguei esse banho, e taí. Agora, virou caseiro, caseiro!

No terminal da Cachoeirinha, elas desceram e eu nem fiz questão de olhá-las.

*Jornalista, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Tem flor no Cacto

Para a Profª Garcilenil

Ivânia Vieira*

A terra é árida. Tem ranhuras multiplicadas. Até os pés de lavadeira, generosos que são em se multiplicarem, já não conseguem criar raiz. A poeira avança e turva a imagem deixando a impressão de que ver, compreender e sentir não tem mais importância nenhuma.

Ironicamente, foi nessa terra sem vida aparente, de tamanho estreito, que um cacto acaba de florir. São as suas primeiras flores, amarelas, pequeninas e belas. São três florzinhas. Nasceram pela persistência de completar a vida da planta por tantas vezes morta na superfície pela falta de atenção. Mas lá embaixo fios de raízes entrelaçaram-se, ganharam força, revigoraram o cacto e produziram flores. Em meio ao verde-escuro, o amarelo delicado faz a dança da combinação. Mais que isso: é vida em alegria.

Eu tinha deixado de olhar – para ver – essa plantinha. Passava por ela carregando livros e pastas e pensava: esse cacto não vai sobreviver mesmo. Então, num pacto, sem testemunha, assumi o compromisso de lançar sobre a planta um pouco de água. Assim foi feito, de forma irregular, duas vezes por semana, uma vez por semana… E nesses dias, numa dessas passadas, o cacto me surpreendeu. Era cedo da manhã, eu apressada para chegar ao campus da Ufam, e quando olho para a planta eis o presente singular. Descubro, agora, detalhes importantes, como o crescimento das flores ainda que decididamente minúsculas, o amarelo cada dia mais amarelo se agasalhando no verde e ambos tentando viver.

Olho a rua onde fica minha casa, tomada por águas servidas e o lixo da classe média deseducada; olho o bairro e olho a cidade e, de novo essa rua, um pedacinho de Manaus tentando sobreviver aos ataques das pessoas importantes que nela vomitam a ignorância das atitudes e, assim, transformam o lugar em terra rachada. Penso no cacto pequenino, nas poucas gotas de água e no simbolismo dessa floração. Se os fios da raiz forem entrelaçados, a superfície muda e até podemos sonhar com os jardins. A tarefa é descobrir qual é o nosso fio e com qual raiz faremos a aliança.

*Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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Seu Zé


Neuton Corrêa*

Preparava-me para pegar o 306 no Aeroporto Eduardo Gomes, quando encontrei um cidadão sentado olhando para cima, com a perna esquerda cruzada sobre a coxa direita, suave e distraidamente balançando o pé. Ele vestia uma camisa de botões e uma calça marrom e calçava uma sandália de couro, tipo franciscana. Nas mãos, segurava uma sacola amarela, na qual se podiam observar chapas de raios X e alguns papéis.

De longe, parecia um velho conhecido, mas, de perto, apenas parecia. Devo ter me enganado pela semelhança dele com o meu pai: magrinho, baixinho e com raros cabelos brancos (apesar da idade) penteados para o lado direito. Chamou-me a atenção também o fato de ele se manter naquela posição, de pernas cruzadas, por um longo tempo. Eu não aguentaria. Está aí uma posição que não combina comigo. Quando faço isso, é câimbra na certa.

Eu estava no aeroporto, agoniado. Havia chegado de férias. João Paulo, o Bodó, ofereceu-se para me apanhar no desembarque. Prometeu estar lá 21h30, meia-hora antes da chegada do voo, mas até as 22h30 não apareceu. Mais agoniado fiquei quando o primeiro 306 passou e eu ainda estava ali esperando o JP.

Para disfarçar a impaciência, sentei e puxei conversa com o cidadão, que se apresentou com o nome de Zé, apenas Zé: “Pode me chamar de Zé” – concluiu.

- O senhor vai viajar, seu Zé?

E ele respondeu suavemente:

- Não, estou chegando.

- Está esperando alguém?

- Minha acompanhante! – respondeu abrindo um leve sorriso.

- O senhor não conhece a cidade?

E ele:

- Não, ela vai me levar agora para o hospital.

- Hospital?! O senhor vai agora para o hospital?

E ele, de novo, calmamente:

- É, estou com um probleminha!

- O que é? – insisti e ele ainda mais pacientemente respondeu:

- Estou com uma pedrinha impedindo a passagenzinha de água para bexiga.

Assustei-me, mas não deixei que ele percebesse e continuei o interrogatório, lembrando-me do resgate que fiz de meu pai no dia 13 de setembro do ano passado, quando ele travou a urina com problema de próstata. Nem queiram saber! A dor de meu pai parecia que era em mim. Foram quatro horas, entre o primeiro sinal de dor ao atendimento (outro dia conto isso).

Pois bem, com essa lembrança, perguntei:

- Faz quanto tempo com a urina presa?

E ele, tranquilamente:

- Trinta horas!

- Há trinta horas o senhor não urina!

Fiquei preocupado com a resposta e propus pegar um táxi para levá-lo onde quisesse, mas ele me tranquilizou:

- Não precisa, ela está chegando.

- Quem é sua acompanhante?

- Minha esposa.

- Ela mora aqui? – repliquei.

- Não, ela está fazendo um tratamento de saúde.

- O que ela tem?

E ele, suavizando a resposta, falou:

- Está com câncer, mas tá tudo bem…

Bodó apareceu e despedi-me de seu Zé. E a angústia que eu sentia para sair do aeroporto desapareceu. Tanto que até agradeci ao João Paulo por não ter chegado na hora combinada.

*Jornalista, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Arquitetura e fé

Detalhe da fachada da Catedral Metropolitana de Belém do Pará (foto de Wilson Nogueira). O prédio, concluído em 1771, homenageia a Vírgem de Nazaré, a padroeira de Belém, cuja devoção  atrai dois milhões de romeiros todos os anos. O ponto alto da programação religiosa é o Círio de Nazaré, realizado no segundo domingo de outubro.

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O desafio de preservar o Encontro das Águas

Washington Novaes (*)

Que pensariam norte-americanos e canadenses se, a pretexto de uma crise energética, se resolvesse desviar as águas do rio e, com isso, deixassem de existir as cataratas do Niagara? Que achariam japoneses se, com a descoberta de uma jazida de um metal precioso, se resolvesse implantar um grande projeto de mineração no sopé do Monte Fuji e de suas neves deslumbrantes? O escritor Ernest Hemingway poderia levantar-se indignado do túmulo se, com igual motivo, se decidisse escavar sob o Monte Kilimanjaro, na África, tema de seus escritos. Pois é com indignação que o poeta amazonense Thiago de Mello brada aos ventos contra o projeto de implantação de um terminal portuário ao lado do majestoso Encontro das Águas do Rio Negro com as do Solimões, que dá origem ao Rio Amazonas. Já há um forte movimento em Manaus para impedir que o projeto vá em frente (os defensores da obra argumentam com a “importância econômica” e a geração de empregos). E da oposição participa boa parte da comunidade acadêmica, que tem seus argumentos consolidados pelo professor Ademir Ramos, da Universidade Federal do Amazonas – que lembra também a importância histórica e científica dos sítios paleontológicos identificados na área.

O majestoso Encontro das Águas fascina brasileiros e turistas de outros países que vêm conhecê-lo (isso não é “importância econômica”?). O escritor Fernando Sabino escreveu (O Encontro das Águas, Editora Record, 1977): “Tudo aqui parece encerrar um sentido simbólico; os rios, as florestas, os animais e as plantas, os próprios homens. Aqui a natureza nos dá a sensação vertiginosa de que um dia fomos deuses. Aqui a alma se expande até perder-se no vazio onde o espaço e o tempo se confundem, para reencontrar-se numa vida além da vida, em que tudo se harmoniza – tempo e espaço, civilização e natureza, homens e deuses – numa perfeita integração.”

Pois é nas proximidades desse fenômeno e em área de propriedade da União que se quer levar adiante um projeto de R$ 220 milhões, bancado por duas grandes empresas, com forte apoio em áreas políticas locais.

A Secretaria do Patrimônio da União, em Brasília, deu parecer contrário, mas a Gerência Regional no Amazonas opinou a favor do empreendimento e com isso liberou a regularização de “faixa de terreno marginal do rio federal” (Amazonas). O Ministério Público Federal conseguiu na Justiça, em Manaus, medida liminar sustando o licenciamento – mas ela foi revogada em Brasília pela Justiça Federal. Agora o Ministério Público estadual tenta reverter o quadro.

Segundo a proposta apresentada, o “cais de flutuantes será composto de 4 flutuantes de 65 metros de comprimento, 30 metros de largura (boca) e 4 metros de altura (pontal) cada um, perfazendo uma extensão total de 260 metros”, à margem frontal ao Encontro das Águas. E tudo isso ocorre num momento em que se afirma universalmente a necessidade de reavaliar enfoques humanos diante de questões como mudanças climáticas, insustentabilidade de padrões de produção e consumo no mundo.

O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) está propondo implantar um novo índice que inclua o valor monetário dos serviços prestados gratuitamente pela natureza (fertilidade natural dos solos, regulação do clima e dos recursos hídricos, importância da biodiversidade para a criação de fármacos, etc.). E é com visões dessa natureza que precisam ser confrontados projetos que põem em risco patrimônios naturais e da biodiversidade. Neste momento mesmo estão no meio de polêmicas vários projetos de portos que implicariam esses riscos – em Santarém (PA), no litoral baiano, em Santa Catarina, no litoral norte de São Paulo.

Da mesma forma, o projeto considerado ameaçador para o Encontro das Águas que formam o Amazonas. Neste caso, precisa ser considerado também o patrimônio representado pelas visões da cultura popular amazônida – sempre tão desprezada. Segundo o escritor Márcio de Souza, ela só aparece como folclore “e depois que passa a polícia”.

Mas quem viaja pelos rios da Amazônia vai descobrir de repente – como o autor destas linhas -, no Rio Nhamundá, no Lago da Serra do Espelho da Lua (que nome!), que a lenda das amazonas, para os moradores da região, não é uma lenda . É História, com H maiúsculo: elas habitavam a região, sequestravam homens para ter relações sexuais e a eles entregavam os recém-nascidos, se fossem do sexo masculino; com a aproximação dos colonizadores europeus, “elas foram fugindo para o norte, até depois da última cachoeira, em Roraima”. Poderá descobrir que a “democracia do consenso” de que fala o antropólogo Pierre Clastres está em pleno vigor entre os índios maués, à beira dos Rios Andirá e Marau. A eles devemos, entre outras coisas, a descoberta das propriedades energéticas do guaraná, reveladas por seu herói criador. E muito mais.

É preciso abrir ouvidos aos poetas, aos artistas, que conseguem incorporar a importância dessas culturas. Como o próprio Thiago: “Vem ver comigo o rio e suas leis./ Vem aprender a ciência dos rebojos,/ vem escutar os cânticos noturnos/ no mágico silêncio do igapó /coberto por estrelas de esmeralda” (Outros Poemas, Global Editora, 2007). Porque, diz ele, “de caminho de barcos sabe o mar. Os ventos é que sabem dos destinos”.

Os ventos populares, com certeza, desaconselham a rota que põe em risco o Encontro das Águas. Então, convém ouvir de novo Fernando Sabino, ao visitar esse lugar: “Aqueles que se encontram na fase de industrialização estão correndo constantemente o risco de empobrecerem e de se desnortearem em vários rumos. Talvez amanhã a riqueza de um povo seja medida pelos seus esforços a favor da conservação da Natureza, do seu ambiente natural, ou seja, pela capacidade de conseguir preservar a sua própria alma.” E, como sentencia ele, “não se desafia em vão a natureza”.

(*) O artigo do jornalista foi publicado nesta sexta-feira (23/7/10) pelo O Estado de S. Paulo <a href=”http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100723/not_imp585067,0.php”>http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100723/not_imp585067,0.php</a>

Contato: e-mail <a href=”mailto:wlrnovaes@uol.com.br”>wlrnovaes@uol.com.br</a></div>

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