Archive for setembro, 2010

Meu busão de cinco gigas


Neuton Corrêa*

Que brincadeira tola! De longe, observava as crianças. Elas olhavam para os carros, apontavam o dedo para eles e riam. Não, não riam! Riso é pouco: elas caíam na gargalhada. Haviam acabado de sair da escola. Umas atravessaram a rua se arriscando entre os carros; outras, esperavam o trânsito acalmar. As que conseguiam cruzar a pista, em meio ao perigo, zombavam das outras, que ameaçam ir, mas recuavam. Cada impulso que faziam, valia um empurrãozinho.

Bem antes disso, elas já se divertiam à toa. Quando passaram do portão da escola para a rua, os meninos apareceram se chutando, como franguinhos de terreiro, puxando briga um com o outro. As meninas eram mais centradas e se ocupavam a conversar não sei o quê, mas devia ser um assunto animado, porque riam de tudo.

Enquanto elas se divertiam, do outro lado da rua, na parada de ônibus, eu ficava apreensivo. Cada moleque que se desgarrava do grupo para enfrentar o perigo dos carros ia me deixando nervoso. Pensei até em me encorajar para pedir-lhes que só atravessassem em segurança, mas sei que se botasse para fora o que pensava também viraria piada.

Mas, se rissem de mim, eu entenderia. Eles não saberiam que, enquanto olhava para eles, lembrava de uma cena que se passou ali, no início do ano letivo de 2002, portanto, há oito anos. E, talvez, nem oito anos de idade o mais velho deles tivesse.

Naquela tarde de um dia de fevereiro, daquele mesmo ponto, via aquela mesma cena com personagens diferentes: o menino, de mochila nas costas, atravessou a rua correndo e provocou os outros a ousarem como ele: dois seguiram sua coragem, um foi e voltou e, ao decidir partir, foi apanhado por um micro-ônibus.

Meu filho, àquela altura com seis anos de idade, apertou a boca e molhou os olhos. Nem tive tempo de acalmar-lhe com deveria, porque corri para me juntar às outras pessoas que, desesperadas, tentavam suspender o veículo para retirar o menino dali debaixo. Depois de muita força, ele foi socorrido e não sei o que aconteceu depois.

A tristeza que senti ao lembrar-me dessa  tragédia me tirou tanto de tempo que nem percebi a meninada sumir do outro lado da Timbiras para se amontoar ao meu lado. Na verdade, foram eles que me trouxeram ao presente, quando voltaram a fazer piadas perto de mim. Dessa vez, ouvi. Olhavam para os carros e diziam: “Aquele é de um byte (lê-se: baite)”, “aquele é de um mega”, “aquele é de 512 megas”, “aquele é de um giga”. Lembro que quando passou uma carreta, um dos moleques gritou: “aquele é um de cinco gigas”. Ninguém aguentou.

Foi só aí que entendi a piada. As crianças estavam associando o tamanho dos carros à linguagem dos computadores: um carro pequeno, por exemplo, valia, para eles, um kilobyte (pequena unidade de informação de um computador); um megabyte, mil e vente e quatro kilobytes a mais; um gigabyte, um bilhão de vezes mais. E por aí vai.

Eu, prontamente, fiz meu raciocínio e acessei a brincadeira deles: quando pego um micro-ônibus, viajo num businho de um kilobyte; viajar num ônibus convencional significa andar num busão de 512 megabytes, enquanto um expresso biarticulado, agora, chamo-o de busão de cinco gigabytes.

Fazendo esse raciocínio, vi meu ônibus de cinco gigas aparecer, com a memória carregada, e, sentindo-me um garoto de um byte, embarquei.

*Filósofo, jornalista, escritor.

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O apelo da velhinha

Neuton Corrêa*

Esperei a fúria do corpo passar e ansiei que a luz da alma chegasse (como se isso fosse possível) para poder escrever este episódio. Já se foram cinco dias. Agora acho que posso reportá-lo sem o furor que a situação causava. Posso até não conseguir, mas prometo-lhes vigiar-me para não ser contaminado pelos sentidos. Eles, nossos sensores, são a porta de entrada para o engano.

Talvez, se, naquele dia, tivesse-me colocado diante de uma folha de papel em branco, armado com uma caneta e o dolo literário, teria começado o texto com uma ofensa. Apressadamente, seria um desabafo dirigido àqueles que me tiraram do sério na manhã da segunda-feira que passou, mas poderia atingir vossa sensibilidade, amiga leitora e amigo leitor. Escreveria que todos os motoristas de ônibus são iguais.

E aqui começa a questão. Ninguém é igual a ninguém. Talvez, no máximo, entre as pessoas, haja semelhança. E semelhança não significa igualdade. A semelhança é uma analogia, um paralelo, uma aparência. Logo, trata-se de uma certeza, absolutamente, não verdadeira.

Naquele dia, pensei. Esta semana não farei nenhuma crônica. Cheio de mim, puto da vida, pensei: “Esta semana, os amigos e as amigas do busão que me perdoem: não farei nenhuma crônica. Vou escrever um artigo. É sacanagem demais”. Depois, voltei atrás e conversei com a voz mais ponderada de minha consciência, que me dizia: “Engana eles dizendo que tu vais fazer um artigo-crônica ou uma crônica-artigo”.

A segunda-feira passou e eu não coloquei uma letra no papel. No dia seguinte, acordei achando o tema irrelevante. Ainda mais porque havia acabado de ter outra ideia: falar de um ceguinho que encontrei no busão um dia desses (escrevo sobre ele não sei quando). Depois, lembrava que, na semana passada, conversamos sobre esse tema que estava bolando: O desrespeito dos motoristas de ônibus com os idosos.

Lembram? Na semana passada, contei a história do velhinho que correu para a porta de trás para entrar sem pagar (é lei) e o motora não a abriu. Pois é: na segunda-feira, voltei a testemunhar outra humilhação contra o povo da terceira idade. Era uma mulher magrinha, magrinha, de cabelos branquinhos, branquinhos. Estava só, sentada, na parada de ônibus em frente ao Clube dos Oficiais da PM, ao lado do jornal Manaus Hoje.

Eu a vi assim que passei pelo portão da empresa e parei para conversar com um colega de redação que estava chegando ao trabalho. Nessa hora, a mulher estava esticando o braço, pedindo parada ao motorista do 600, mas ele passou direto.

Foi aí que comecei a generalizar as coisas, quando disse ao colega de redação: “Motorista, tudo é a mesma coisa”. Foi essa frase que embolou depois minha cabeça, porque hoje lembro que nem todos motoristas são assim. Já vi motora atencioso, paciente e tratando idoso com carinho de filho bondoso.

Mas, naquela segunda-feira, não me lembrava disso. Aliás, fiquei ainda mais furioso, quando passou o 676. A mulher levantou-se do banco de concreto onde sentava e esticou o braço, de novo, e outra vez o motorista queimava o ponto. A velhinha fez sinal para o terceiro carro, e nada!

Houve um outro busão que ela queria chamar, mas não pôde, porque o motorista, como quem foge de alguém ou de alguma coisa, esquivou-se por trás de uma carreta. Minha revolta aumentou ainda mais.

Despedi-me do amigo e apressei o passo para alcançar a parada e, ao chegar lá, a passageira me fez um apelo: “Pelo amor de Deus, moço, faça parada pro meu ônibus, porque os motoristas não querem parar para mim”.

E assim procedi, imaginando-me daqui a mais alguns anos.

*Filósofo, jornalista, escritor.

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Crônica para uma dama que acaba de partir*

Nunca desejei tanto não ser ateu, como hoje, para poder acreditar que há uma existência posterior a nossa fase humana.

Quem sabe, um local onde não existam distâncias e aquelas circunstâncias que, por vezes, nos obrigam a ficar longe de algumas pessoas que a gente ama.

Uma nova chance, para o ser egoísta que sou, poder ficar próximo o tempo todo – se é que lá existiria o fator tempo – de uma criatura ao mesmo tempo tão frágil mas tão forte e tão doce.

Para poder acreditar que tudo não acaba por esta terra de tantas amarguras e sofrimentos, mas que tem sim uma continuidade em um plano superior.

Dentro da tristeza infinita que machuca o meu coração hoje, pensar na possibilidade acima até que me dá um certo alento.

Que felicidade imaginar que Dona Celuta vai poder reencontrar seu amado João. Quem sabe os dois não batam um papo amigo com meu pai e minha queria Vó Via?

Se tal lugar existisse, me consolaria muito hoje.

Seria legal saber que na hora da minha morte eu os encontraria, pelo menos para dizer o quanto eu os amava e tentar consertar alguns erros que cometi com eles.

Mas este consolo eu não tenho.

O ser ignorante que sou, não consegue acreditar em algo assim. Minha limitação me prende ao raciocínio que somos apenas um pó espacial perdido na imensidão do universo e que tudo acaba na lápide de um cemitério qualquer.

Mesmo assim, Dona Celuta, mesmo que não exista mais nada, valeu muito a sua quase centenária existência terrestre. Foi uma honra poder conviver com uma figura tão humana, que suportou tantas dores com altivez, humildade, resignação e mais um conjunto de qualidades tão contrastante quanto raro.

A senhora, que rezava tanto e acreditava tanto em Deus, quem sabe tenha uma razão que eu não consigo ter.  Quem sabe, do alto da sua sabedoria, a senhora enxergou todo esse tempo o que o insignificante deste seu genro não conseguiu.

Torço para a senhora estar certa e eu errado. Como sempre.

Costumo dizer que “algumas presenças são menos sentidas que certas ausências”.

A senhora mal acabou de partir e eu já estou morrendo de saudades.

*Carlos Lodi, em 18 de setembro de 2010.

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Comunista marxista, radical, espírita!*

Chico Lima**

O avião entrou em procedimento de pouso, olhei no relógio: eram 17h20min. Nas minhas contas, davam 55 minutos de vôo desde que decolamos de Eirunepé. Mal podia adivinhar que minha mania urbana de contar o tempo de deslocamento nas diuturnas migrações pendulares seria inútil pelos próximos oito dias. Ortiz, o piloto da minúscula aeronave, imediatamente advertiu-nos: “deixem primeiro a poeira baixar, depois abram a porta.”

Parecia mais uma pista de pouso clandestina, dessas usadas pelo narcotráfico para a rota da cocaína. Baixada a poeira, pude ver o saguão do aeroporto, aliás, “saguinho” seria a designação mais apropriada para aquela inominável tenda, construída como prolongamento do depósito de combustível, um verdadeiro “puxadinho”. Ao leste, pude contemplar a estrada de barro que rasgava o morro um tanto quanto íngreme para o padrão de nossa vasta planície. De repente despontou, no ponto mais alto da estrada, um pequeno trator agrícola com uma espécie de carroceria.

Cheguei a pensar que se tratasse de algum agricultor se dirigindo para o roçado, a fim de transportar a colheita do dia. Diametral engano: tratava-se sim de uma espécie de “transporte especial” que a Prefeitura disponibilizara para levar os passageiros do aeroporto até o hotel municipal.

O interessante é que aquele tratorzinho, conhecido nas redondezas como jerico, era parte dos implementos agrícolas distribuídos por um certo Programa de desenvolvimento agropecuário intitulado “Terceiro Ciclo”, o qual, por meio de um trocadilho, o povo passou a chamar de “Terceiro Circo”. Claro que era do “Terceiro Circo”, não podia estar enganado! O ícone apiforme, gravado no capuz daquele veículo agrícola, denunciava a origem do intrigante transporte de passageiros. Bom, pelo menos para aquilo servira o “Terceiro Circo”, pensei baixinho.

O tratorista recolheu nossas bagagens, enquanto tomávamos nossos assentos na curiosa condução. Tratei de sentar-me próximo às bagagens, a fim de minimizar o irritante chacoalhado da carroça. Não havia nenhum portal para recepcionar os que se aventuravam àquele longínquo município, mas, se o houvesse, certamente nele estaria inscrita a mesma frase que Dante apôs na porta do Inferno: “Deixai para trás toda a esperança ao passar por esta porta”.

Foi assim que me senti ao saber, naquele momento, que só haveria vôo de volta dali a oito dias, na próxima quinta-feira. Nesse momento, comecei a perceber que meu célere ritmo urbano seria, no mínimo, ridículo naquele quase ermo lugar incrustado em tamanha imensidão verde, onde os habitantes seguiam o ritmo sereno do rio Juruá.

Quando chegamos ao hotel, fui recebido pelo administrador, seu Getúlio, que gentilmente pegou minha mala e a caixa de apostilas que levara para o treinamento dos professores. Depois de alojado em um dos “confortáveis” cômodos, dirigi-me para o lavabo, a fim de retirar a poeira que se acumulara naqueles dois quilômetros do aeroporto ao hotel. Só então percebi que, além da poeira, havia em minha pele vários pontos intumescidos, verdadeiros hematomas feitos por um mosquito de que só naquele momento ouvira falar: o pium. Se bem que achei o nome do inseto um pouco irônico, PI 1 (um). A meu ver, ele seria mais bem designado se o tivessem chamado de PI 1000 (mil), pois era assim que me sentia, vítima de mil ferroadas.

Depois de usar o conhecido expediente do álcool para aplacar a dor decorrente das aguilhoadas dos mosquitos e de recompor meus trajes, encaminhei-me para o refeitório. De lá, ainda pude contemplar um finalzinho de pôr-do-sol, belíssimo, diga-se. A voz da cozinheira arrancou-me daquele êxtase vespertino: “Professor, o senhor quer peixe ou galinha?” “Peixe, é claro”, respondi-lhe incontinênti.

Cuidei então de tomar um dos assentos à mesa. Loquaz que sou e desejoso de encontrar um interlocutor para a longa noite que se anunciava, procurava fazer perguntas sobre o município, principalmente sobre a política local, assunto predileto em minhas viagens rurais. Logo procurei saber sobre as correntes partidárias do município. Queria elementos para uma análise de conjuntura da correlação de forças da política local, mas elementos que permitissem uma análise o mais desapaixonada possível. Todavia ninguém presente à mesa parecia ser capaz de falar com isenção do assunto, envolvidos que estavam com o partido hegemônico da localidade.

Minha esperança era a chegada do Carlos, espécie de cientista político do lugar, anunciado como o arauto do comunismo nas redondezas, núncio da economia planificada ribeirinha, emissário da Comuna do Juruá. Pelo menos era o que se podia depreender dos comentários que seu Getúlio me fizera até ali a respeito do saber político descomunal de tal personagem. Sempre que alguém não sabia responder a alguma pergunta por mim formulada, logo seu Getúlio intervinha: “Quem sabe lhe explicar isso direitinho é o Carlos”, assessor do Prefeito. Às vezes, a fórmula mudava para: “Olha isso eu não sei lhe explicar não, mas o Carlos…”

Quase no fim do jantar, assomou-se à porta do refeitório uma figura que impunha respeito pela imponente e espessa barba. A calça jeans desbotada, cingida por um cinto de couro, a camiseta branca com a efígie do Che, a bolsa a tiracolo e o inconfundível calçado de sola preso aos pés por tiras de couro dispensavam apresentação: “Carlos, certamente.”, disse eu mirando a característica figura. “Sim, Carlos! e o senhor?” “Muito prazer, sou o professor Francisco, do Projeto Educação Contextualizada.”

Esperei que meu interlocutor se acomodasse à mesa e servisse seu prato. Ele parecia mais ávido que eu por uma conversa sobre política. Entre uma garfada e outra começou a me fazer uma verdadeira inquisição a respeito de minhas ligações políticas em Manaus e de meu pensamento a respeito da política econômica do governo federal. Depois de responder com solicitude a todas as suas perguntas, decidi que chegara minha vez de aplacar a curiosidade acerca da correlação de força local.

Com entonação de cientista político abalizado, meu interlocutor tratou de me explicar a binária natureza das forças políticas atuantes na cidade: de um lado a situação, representada pelo Imperador Francisco Barroso e seus asseclas; de outro, a oposição, representada pelos pongós, ou seja, pelos traíras, sempre disposta a sublevar-se e tomar o poder do Executivo local.

Após sua detida explicação, indaguei curioso: “E você, Carlos, qual sua orientação ideológica?” Em tom de quase declamação, Carlos se definiu: “Sou comunista marxista, radical, espírita!”. Dali por diante, eu ouviria muitas vezes essa sincrética frase que reunia o mais absurdo paradoxo em uma só definição: o materialismo e o espiritismo.

Bastava pedir àquela emblemática personagem que falasse sobre a política local para ele disparar em tom solene e empolado: “Eu, comunista marxista, radical, espírita creio que a conjuntura política que se nos apresenta é…” Tal oxímoron constituía mesmo a fórmula para abertura de seus sofísticos discursos.

Contudo, não só ele se caracterizava com esses quatro adjetivos como também listava outros eminentes políticos da pequena cidade que partilhavam de suas mesmas convicções político-espirituais. Dentre os ilustres sectários do movimento estava o excelentíssimo Prefeito, Imperador Francisco Barroso, como ele próprio gostava de definir. “O Barroso é comunista marxista, radical, espírita! O Barroso é um bruxo”, arrematava.

Foi pensando em pôr à prova a solidez desses discrepantes princípios político-espirituais, e por uma absoluta falta do que fazer naquela cidade da calha do Juruá, que, depois de ter cumprido minha missão em apenas um dia, resolvi insuflar a turma hospedada no hotel a preparar um despacho para a intrépida figura que se gabava, entre outras pavulagens, de ter corpo fechado e contar com a proteção de espíritos de luz.

Era sexta-feira. O pessoal do hotel me havia dito que o cientista antropo-sócio-político-religioso só voltaria por volta da meia-noite, pois a sexta era consagrada ao seu passatempo predileto: uma boa cachaçada, regada a uma polêmica discussão filosófico-político-religiosa.

Era isso que o entretinha nas horas de ócio, o que, ali, representava mais de dois terços do dia. Mas a sexta-feira feira era um dia especial, pois não precisaria descer mais cedo no outro dia para a Prefeitura. Então gastava suas horas em homéricas discussões à mesa do bar, desafiando os “pongós” a resistirem ao seu implacável discurso. Diziam mesmo que, depois que começava uma discussão, não havia quem dela o conseguisse demover antes de ver seus opositores reduzidos à situação insignificante. Gostava de ver seus desafetos reduzidos a pó. Espezinhava-os como podia por meio de frases de efeito, máximas, provérbios e fragorosas citações de O capital, de Marx. Seus adversários quedavam-se diante de tamanha “cultura”.

Na verdade, suas bravatas não passavam de mera bazófia, frases montadas como colcha de retalhos para impressionar seus rivais. Mas surtia efeito, já que por aquelas bandas não se lia nem “Zé Carioca” imagine O capital. Por volta da meia-noite, todos esperávamos ansiosos a chegada do símbolo da retórica itamaratiense, a fim de vermos sua reação diante da surpresa que lhe preparáramos.

O contínuo do hotel anunciou: “Lai vem o Carlos! Ele vem cercando galo!” – depois soube que a expressão “cercando galo” era usada na região para descrever o andar trôpego dos embriagados, que se assemelha a alguém querendo capturar um galo. Todos correram para seus respectivos quartos, que, dispostos nas laterais do terreno, tinham as fachadas voltadas para um grande pátio interno.

De lá, vimos o expoente da eloqüência política cruzar o vestíbulo, trôpego, e adentrar ao refeitório. Do refeitório, nosso eminente orador viu a luz da velas no quintal e resolveu verificar do que se tratava. De repente, ouvimos um grito cortando o silêncio da noite: “Vade retro!”, a frase que, há algum tempo, celebrizou-se quando se queria esconjurar o demo. Carlos, ao ver o despacho ali colocado, com seu nome em cruz dentro de um saco contendo unhas, cabelos, barro, logo proferiu: “Unha e cabelo de defunto, terra de cemitério: são os pongós! Eles querem me amarrar, deter minha implacável ira contra eles!”. O mestre da persuasão vocabular, que até ali a todos impusera suas idéias filosófico-político-religiosas, valendo-se de um pomposo discurso, ficou realmente impressionado com a presença daqueles elementos afro-religiosos, convencendo-se de que se tratava, de fato, de uma oferenda com finalidades maléficas.

Naquela sexta-feira, ele não jantou, como de costume, nem cantou o refrão da Internacional: “Bem unidos façamos / Nessa luta final / Uma terra sem amos / A Internacional”. Pelo contrário, voltou para o bar e continuou a beber até a manhã seguinte.

Nem bem o arrebol se anunciara, dirigiu-se à casa do Prefeito (o Imperador Barroso, como o denominava) a quem, além de líder político, tinha também por guia espiritual. “Carlos, a essa hora da manhã, num sábado! Que aconteceu?”, indagou o Imperador Barroso. Carlos narrou-lhe com sofreguidão o que acontecera na noite anterior e, mostrando-lhe os objetos votivos que recolhera do trabalho arriado, repetia com a voz ofegante: “São os pongós! São os pongós! Eles querem minar o sustentáculo da hegemonia política desta administração!”. “Calma, Carlos! Vou ensinar-lhe a neutralizar essa “coisa feita”, disse-lhe o Prefeito, a fim de arrancar-lhe daquele sofrimento. “Pegue um saco plástico preto virgem, vire-o do avesso, coloque todas essas coisas dentro, vá até a margem do rio Juruá, rodopie-o sete vezes no sentido anti-horário e atire-o bem no meio do Juruá em direção ao Oriente. Depois reze sete pais-nossos e sete ave-marias. Pronto: o rio carregará todos os malefícios que poderiam advir desse trabalho. Entendeu?”. “Entendi quase tudo, mas o que é mesmo anti-horário e Oriente?”.

O Prefeito explicou-lhe em linguagem coloquial, tendo que esclarecer que Oriente tratava-se da parte onde o Sol se levanta, e não daquele relógio “cebolão” que Carlos havia perdido no rio Tarauacá, quando da última pescaria.

Cumprido o ritual de exorcismo dos espíritos maus, Carlos pôde, enfim, recuperar-se daquela atribulada noite, dormindo ao longo de todo o dia. Na verdade, nosso destemido materialista só se sentiu completamente aliviado quando descobriu que o trabalho arriado não passava de uma peça que a turma lhe pregara. Preocupados com o comportamento depressivo que Carlos passara a apresentar por causa das possíveis conseqüências funestas do “ebó” que lhe fora preparado, os funcionários do hotel resolveram contar-lhe tudo.  Ao tomar conhecimento disso, proferiu a conhecida frase dos detetives dos romances policiais: “Suspeitei desde o princípio”.

No dia de meu regresso (oito dias depois, diga-se), quando eu me preparava para entrar no avião, Carlos dirigiu-se a mim e disse que já sabia de tudo. Interpelei-o acerca de como ele descobrira o autor da oferenda. Explicando que mantinha, em Itamarati, um Serviço Municipal de Inteligência, a Gestapo do Juruá, Carlos convidou-me, quase em tom de segredo, a fazer parte daquela excêntrica confraria que congregava comunistas marxistas, radicais e espíritas.

Enquanto eu punha a bagagem na diminuta aeronave, o curioso retor proferia: “Professor, eu sou uma pessoa bem informada, não há nada que se passe da nascente até a foz do Juruá, que eu não possa descobrir. Nada escapa à minha arguta investigação. Eu descobri que o senhor é um bruxo, por isso vim convidá-lo a ingressar nas fileiras de nossa comuna. Se o senhor aceitar, preparo o ritual de iniciação para sua próxima vinda à cidade”. Depois de dizer isso, despediu-se, exortando-me à luta por meio do refrão da Internacional: “Bem unidos façamos / Nessa luta final / Uma terra sem amos / A Internacional”.

*Texto escrito pelo autor em 2000, com base em viagem que fez ao Município de Itamarati, em junho de 1998.

**Licenciado em Língua e Literatura Portuguesa pela Ufam, com especialização em Língua Latina.

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A blasfêmia

Neuton Corrêa*

Na parada de ônibus, o passageiro agitava as pernas, socava o ar, balançava a cabeça negativamente e resmungava não sei o quê. Logo que cheguei ao ponto, com tempo de folga para ir ao trabalho, achei que aquele homem estava prestes a surtar. Mas, aos poucos, a agonia dele foi-me contaminando. O busão das 5h45 estava atrasado dez minutos e também comecei a praguejar tudo. Até a mim mesmo.

“O que faço eu aqui a esta hora?”, indaguei-me, olhando para o relógio do telefone celular. Acontece que, ao levantar a cabeça após olhar o tempo, enxerguei a testa do ônibus metendo a cara na Avenida Timbiras. Mais alegre fiquei ao conseguir identificar a linha, o 458, que me deixaria em frente ao jornal. Então, tudo o que havia dito comecei a desdizer, achando-me sortudo por ter um ônibus que tira 15 minutos entre minha casa e o jornal.

Mesma coisa não aconteceu com o cidadão agoniado. Enquanto corri para passar pela catraca, pela entrada dianteira, ele tomou o rumo contrário com uma carteira de identidade nas mãos. Mas, assim que fiquei cara a cara com a cobradora, ouvi um barulho na porta traseira. Fez um barulho tão alto que achei que iria quebrar o busão. Era ele gritando para o motorista liberar a entrada de idosos.

Não tenho como afirmar nem supor se o motorista deixou a porta traseira fechada deliberadamente ou por esquecimento, até porque tem motora que implica mesmo com passageiros beneficiários de passe livre, seja aposentados, seja cadeirantes.

Vamos voltar ao homem agoniado: eu já havia me esquecido dele, quando voltei escutar sua voz. Desta vez falava mais baixo, com a expressão fechada na direção do motorista. Aproximei-me dele, não para ouvi-lo, mas porque em poucos minutos eu desembarcaria. Nessa hora, com o ouvido quase grudado na boca dele, ouvi: “Porra, Deus é foda! Faz a gente sofrer e ainda vem um f.d.p. desses”.

A blasfêmia me trouxe à mente as histórias do João do Emílio, que se tornou famoso no beiradão onde me criei. Tanto o é que, por lá, quando alguém se queixa, ouve-se um terceiro falar: “Para, João do Emílio”.

Uma dessas histórias que lhe rendeu tal fama se passou quando o atual prefeito de Manaus era governador, entre 1998 e 2002. Todos na comunidade haviam recebido motor rabeta, menos ele. Até o Anta (não sei o nome verdadeiro, mas todos o chamam assim desde criança) ganhou. Quando soube disso, João do Emílio bradou: “O único desgraçado aqui sou eu. Acho até que Deus não gosta de mim.”

Mas a história clássica do Emílio aconteceu num dia que ele e mais um sobrinho saíram para uma pescaria. Antes de escolher o arreio, contam seus parentes, ele decidiu: “Hoje, só vou levar caniço e tarrafa. Faz quase uma semana que vou pro lago atrás desses budecos (pirarucus) e eles não aparecem. Não é possível que hoje é que vão aprontar comigo”. E partiu para a pescaria com os arreios para peixe pequeno.

Acontece que, amigas e amigos do busão, assim que botou a proa do casco (canoa) no lago, os pirarucus apareceram. O barulho deles podia-se ouvir de longe. João do Emílio não quis acreditar, mas, ao ver o enorme cardume com os próprios olhos, não pensou duas vezes. E já partiu se queixando de Deus, mas falando com muito jeito: “Porra, Deus, tu não gosta de mim. Mas tá bom! Vou te perdoar. Eu vou lá buscar o arpão. Não quero muito, Senhor. Só unzinho!”.

Rindo com o sobrinho e fazendo a reconciliação com o Todo-Poderoso, João do Emílio, voltou para casa, distante dali duas horas de remo, ida e volta, e ainda se demorou um pouco mais porque foi atrás de um isopor, antes de voltar para a pescaria.

Remando de volta com tanta vontade, o casco dele até fazia um grosso bigode de águas, mas, assim que chegou ao local de onde voltou, não ouviu mais nada. A água estava tão calma que nem jaraqui boiava. João do Emílio sentou-se, pôs o chapéu para proteger os olhos do brilho do Sol para poder enxergar mais, porém os budecos não boiavam mais.

Depois disso, ele pegou o arpão, levantou-se e gritou: “Puta que pariu, Nosso Senhor, por que Tu faz isso comigo? Se não é pra mim, por que tu me mostra? Pega tudo isso que Tu tá escondendo e mete onde Tu quiser”.

Recordando essas histórias, quase passava do ponto e, ao descer apressadamente, esbarrei no passageiro, quando ele gritou me olhando: “Hoje não é meu dia mesmo!”.

*Filósofo, jornalista, escritor.

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O choro da Lua Cheia

Ilustração: Myrria

 

Neuton Corrêa*

Naquela manhã de sexta-feira que passou, achei que a Lua havia passado a noite toda chorando. Seu brilho, o brilho de seu olhar não era como o de sempre. O branco-neve de prata-fluorescente havia perdido a alvura do luar cheio, ofuscado pelo vermelho ardente e fosco do cinza que encobria a cidade.

Se algum desorientado a visse naqueles primeiros instantes do começar do dia, poderia jurar que a manhã começava com dois sóis, um, que iluminava tudo antes de aparecer, e outro, a Lua-Sol, que se emparelhava, como um lustre sem brilho, sobre a parada de ônibus onde eu ficaria à espera do 457 ou 458, na Avenida das Torres.

Esse sol a Oeste, em plena manhã, parecia sem razão de estar ali. Talvez estivesse lá apenas por capricho da Natureza, que, para não deixá-lo solitário, pôs uma de suas filhas brilhosas para acompanhá-lo até o ponteiro da Terra completar mais um quarto de hora para se esconder.

Mas a Lua Cheia não queria deixar a noite passar. Segurou a escuridão até onde pôde. Ou será que a noite, para ela, foi daquelas noites mais longas do que um dia de fome? Acho que não foi o único ser, naquela manhã, a não querer ver o dia chegar.

Talvez fosse isso. Sim, agora, lembro. Era isso, mesmo. A noite não custou passar apenas para ela. Os canários que voam do jambeiro de casa antes das cinco horas da manhã ainda estavam por lá, às cinco e meia, esperando a plena luz da manhã apontar-lhes o caminho.

Os sabiás do taperebazeiro da vizinha também ainda estavam se despreguiçando. Os japiins eram os mais espertos, mas também não haviam partido em revoada. Aproveitavam a manhã cinzenta para aquecer um pouco mais as ninhadas que fizeram perto da casa de cabas.

Ah, ia esquecendo: ouvi, rumo ao Norte, um canto que não escutava há quase dez anos, desde o tempo em que uma faixa de mata virgem ainda resistia timidamente ao avanço da nova avenida e das casas que brotam tão aceleradamente à medida que o verde natural vai desaparecendo. Era o canto de um araçari, um tucano que, aos poucos, ganha hábitos urbanos.

Sim, amigas e amigos do busão, eu também: se naquele dia tivesse me guiado pelos sinais da Natureza, não teria saído da rede. A vidraça da janela do meu quarto mandava eu ficar deitado. Apenas o ponteiro do relógio me dizia que estava na hora de partir para o novo compromisso que assumi na rádio Nova A Crítica FM.

Pois bem, naquela manhã, quando encontrei a Lua com os olhos vermelhos, eu não consegui conter as lágrimas. Nem eu nem os passageiros que aguardavam o busão. É que a fumaça das queimadas da floresta amazônica encobria cidade e deixava os nossos olhos ardentes e avermelhados.

Quem sabe não foi essa fumaça que deixou a Lua triste e chorosa. Talvez ela tenha sentido mais, porque observa lá do alto a agonia da floresta transformada em nuvens.

*Jornalista, filósofo, escritor.

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Lágrimas sul-africanas

 

Ivânia Vieira*

 O pós-Copa na África do Sul é uma lição cruel. Milhares de trabalhadores sul-africanos, os pobres e os miseráveis estão nas ruas. Lutam para receber salários atrasados, ter acesso ao trabalho, à comida, à assistência médica.

Em meio a esse cenário, descrito por jornalistas de vários lugares do mundo, os estádios são, agora, comparados a ‘elefantes brancos’. Estão sem função e constituem-se em mais problemas porque representam custos elevados em um país cuja história ainda é de reconstrução, de cuidar das enormes feridas abertas por anos de segregação de vários povos a uma minoria branca.

Os dias de sonho são hoje um pesadelo. A poderosa Federação Internacional de Futebol deve ser co-responsabilizada pelo quadro caótico em vários lugares da África do Sul. A Fifa se constituiu em uma espécie de governo paralelo, com força total. Chega nos países, determina o que deve ser feito e faz ameaças de deletar aqueles que se insurgem contra ela. O Brasil sabe qual é o peso dessa mão, pior com as alianças nacionais feitas com a federação internacional e assim assegurar silêncio e muitos aplausos.

A paixão pelo futebol não pode embriagar a todos e ser a justificativa para a omissão. Infelizmente, no Brasil, a regra tem sido essa. No Amazonas, atitudes que questionem decisões tomadas em relação a Copa de 2014 são recebidas como se as pessoas que as fizessem fossem desprovidas de razão e fizessem parte de um complô internacional contra o Estado. Essa conduta, com apoio de amplos setores da imprensa, veta o debate e sustenta apenas o discurso elogioso que tanto agrada e facilita a vida dos governantes e dos legisladores.

A angústia e as agressões a que centenas de sul-africanos estão submetidos não é peça de ficção. Talvez não sejam notícia nos telejornais nacionais. Mas alertam para que as cidades-sedes da Copa do Mundo no Brasil não vivam drama parecido. O fim do silêncio conivente, a fiscalização e a transparência dos atos são bons remédios para prevenir contra essa doença bancada com muita verba pública.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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