Archive for outubro, 2010

A canhota

Ilustrução: Myrria

Neuton Corrêa*

Esta semana, no Executivo 850 (Mutirão), fiquei impressionado com uma incrível habilidade de uma passageira. O businho (era um micro-ônibus) estava lotado (na verdade, superlotado) quando ela entrou. Eu estava sentando nos primeiros assentos, na entrada do ônibus, e, por isso, tive a intenção de me levantar para lhe ceder a vaga. Mas não pude fazê-lo.

Contive-me em dar-lhe a micropoltrona, não por falta de educação ou de cidadania. Não! É que eu estava espremido entre a parede do veículo e a bunda esquerda de uma passageira, cujo corpo ocupava toda a cadeira dela mais um terço da minha. Ensaiei um impulso para levantar, mas pensei que a operação incomodaria os passageiros que estavam em pé, pendurados no corrimão do teto.

Imaginem uma carreta com três vagões tentando estacionar na avenida Djalma Batista em hora de trânsito congestionado. Seria exatamente isso que você está pensando que aconteceria. Pior. Pior porque ela teria que se levantar, engatar marcha à ré; depois para frente; em seguida, para trás, de novo; e para frente outra vez, até que eu saísse da garagem para dar minha vaga para a mulher do braço esquerdo se sentar.

Ainda bem que o cobrador apresentou a solução para que ela não ficasse ali se equilibrando, apoiando-se apenas com o lado esquerdo do braço. Ele pediu que a mulher sentasse sobre o capô do veículo. Ela, prontamente, acomodou-se lá para exibir suas habilidades com o membro superior esquerdo.

A passageira começou o espetáculo tirando, com a mão esquerda, a bolsa vermelha que estava pendurada no lado direito do ombro. Tirou-a e a colocou sobre as coxas e, com a ajuda dos membros inferiores, apertou-a contra a barriga para ganhar apoio e, com a mão esquerda, puxou o zíper no sentido esquerda-direita. Revirou ali dentro algumas coisas e de lá tirou uma revista.

Como estava muito perto de mim (não dava mais de um metro), estiquei a cabeça para ver o nome da publicação. Para sorte de vocês, amigo e amiga do busão, consegui captar o título. Era uma revistinha da Natura com as páginas riscadas. Sinceramente, achei incrível sua habilidade para folhear a revista só com a mão esquerda.

A parte mais fantástica foi quando ela não conseguiu revirar a revista para as páginas finais. Primeiro tentou usar a ajuda da barriga, depois apoiou-a na borda da bolsa, na sequência, colocou-a no queixo e, finalmente, encontrou um jeitinho: deixou a revistinha sobre o antebraço e pelas pontas dos dedos chegou aonde queria chegar.

Fiquei com a imagem na cabeça até hoje. Desci do Executivo 850 lembrando das cenas e decido a repetir tudo o que ela havia feito para ler a revista usando apenas a mão e o lado esquerdo do braço: com ajuda da barriga (a minha já está bem saliente), consegui folhear um livro mais ou menos com as mesmas dimensões da revista da Natura; abri folhas aleatórias, mas também não acertei abrir as páginas finais; usei o queixo e foi pior ainda, eu estava com a barba por aparar. Aí é que a coisa só fazia deslizar.

Também tentei folhear o livro usando meu antebraço para abri-lo com as mãos do mesmo lado. Foi um desastre.

Bem, quando estávamos chegando à avenida Djalma Batista, a passageira de bunda avantajada levantou-se. A mulher da revista, na hora, sentou-se ao meu lado. E, assim que se acomodou, o celular dela tocou no bolso esquerdo de sua calça e, com mão esquerda puxou o aparelho cotovelando meu rosto. Assim que desligou o aparelho, olhou para mim e disse:

- Desculpa, moço, é que eu sou canhota.

*Filósofo e escritor.

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O domínio do poder econômico

Wilson Nogueira*

O jogo eleitoral sempre foi duro. Reflete-se nele a disputa pelo poder. Em circunstância pouca republicana, torna-se a luta do poder pelo poder, um salve-se-quem-puder determinado pela quantidade de dinheiro de cada candidato ou coligação. Os debates públicos de propostas e ideias correm na margem das estratégias de grupos que dominam a cena eleitoral. Esse quadro fragiliza a democracia, cujo fundamento é o governo do povo pelo povo, porque reduz esclarecimento do eleitor. Sim, não devemos perder a esperança. Já viemos de muito longe. É só lembrar que fomos governados por reis e que, mesmo na República, houve tempo em que só votavam nobres e coronéis latifundiários; sem falar que, mais recentemente, passamos pelos horrores de uma longa ditadura militar. A confiança no futuro melhor decorre exatamente da compreensão de que essas mudanças são resultados da luta de gerações que se sentiram alijadas do processo político. O direito ao voto livre e universal, portanto, é uma conquista histórica da sociedade brasileira e, por isso, deveria ser reconhecido e valorizado como instrumento a serviço da coletividade. Mantenho distância dos que pensam que o povo não sabe votar. Acredito que o eleitor age de boa-fé: ele acredita nas propostas dos candidatos que escolheu. Não raro, acredita no mesmo candidato por várias legislaturas, porque as promessas se renovam. Ora, sem debate público, sem formação política, sem transparência nas regras da atividade eleitoral não há como se desenvolver o chamado voto consciente. Consciente no sentido de que o eleitor vota em determinado candidato porque, por meio de um leque de informações e propostas colocadas em posições contraditórias, pensa na melhoria do seu bairro, da sua cidade e do seu país. No jogo atual, sem amplo debate das propostas e sem regras que garantam a disputa dos candidatos em condições iguais, prevalecem a falta de informação sobre a importância do voto e a presença dos representantes dos grupos econômicos nos chamados bolsões eleitorais, nas TVs e outras mídias – esses são mais ágeis porque têm mais dinheiro. No Amazonas, por conta dessa anomalia, tem-se a impressão, caso se considerar a cobertura da mídia, de que só existem dois candidatos ao governo do Amazonas. Ao encolher as escolhas, o poder econômico, no qual se incluem as empresas de comunicação, reduzem, também, a democracia. A questão não é a participação do setor econômico na eleição. Trata-se, principalmente, do fato de que esse segmento, em grande medida, disputa sozinho o controle dos poderes da República. É só dar uma olhada na declaração de bens dos candidatos à Justiça Eleitoral, nos orçamentos de campanha e na relação das empresas que lhes apoiam maciçamente. Sobra, por isso, pouco espaço para o triunfo de representantes no Executivo e no Legislativo fora da influência dos grupos econômicos que, por sua natureza, têm o Estado como mais uma oportunidade para negócios lucrativos. Não faz mal repetir que, para mudar esse quadro, só uma ampla reforma política. Evidentemente que essa medida não virá dos próprios políticos, mas da vontade da sociedade como um todo, como expressão da indignação contra o abuso do poder econômico nas eleições.

* O autor é jornalista e escritor

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O presente que Manaus quer

Antônio Paulo*

Foi pensando em ti, Manaus, que nesta manhã acordei, quando festeja seus 340 anos. Até ensaiei uma prece, relembrando os idos tempos de membro ativo da catequese e pastorais. E rezei: Meu bom Papai do céu! Proteja sempre essa Manaus querida, tão bela, acolhedora, mas tão castigada pelos problemas crônicos acumulados ao longo dos anos e que nenhum governante alçado pelas mãos do seu povo consegue ou quer resolvê-los. Amém.
Agora, dizes, Manaus, nesse dia que é teu e de todos nós, o que queres de presente?
“Ah! Gosto das festas, das comemorações que fazem pra mim, levando centenas de milhares de manauaras, turistas vindos de longe e de admiradores ao Boi Manaus, um ritmo todo nosso que há muito conseguiu sufocar o axé da Bahia por essas bandas. Gosto desse calor tropical, que deixa toda a gente melada de suor; que na dança frenética produz um esfrega-esfrega voluptuoso típico das caboclas e caboclos daqui.
Faz-me lamber os beiços o peixe assado, regado com um molho ardoso de murupi com farinha do Uarini; o vinho de cupuaçu, açaí, buriti e patoá… o embalo da rede, o banzeiro do rio e os temporais com suas chuvas torrenciais que nem cururu abre o olho.
Mas, o presente que mais quero nesses 340 anos de vida é ver meu povo mais feliz, atendido dignamente nos postos de saúde e nos hospitais; escolas e ensino de qualidade; alunos bem ensinados, professores mais preparados e remunerados dignamente. Ruas limpas, lixo recolhido e reciclado; sem mais esgotos a céu aberto e aquele cheiro podre que vem do ar; água abundante jorrando das torneiras nos bairros onde vivem os mais pobres. Trabalho para os pais e mães de famílias; o primeiro emprego para os jovens. Mais segurança e menos polícia cometendo crimes e castigos…
Dos nossos governantes, quero empenho para executar as políticas públicas corretas sem meter a mão, o braço e o corpo inteiro nos recursos que são do povo. Que as empreiteiras não sejam mais as ‘donas do pedaço’ e que as licitações sejam transparentes e não mais viciadas, cartas marcadas na mesa do poder. Que o dinheiro das obras não suma mais pelo ralo da corrupção e que os interesses coletivos se sobreponham aos individuais, uma prática comum que venho observando ao longo desses 300 anos e que o meu povo teima em não querer enxergar porque ainda elegem ‘fichas-sujas’, lambanceiros e mentirosos de carteirinha…
Que os testas-de-ferro, laranjas e apaniguados do dinheiro público sejam extirpados esse chão e os mentores, que ficam por trás deles, sugando, mamando e enriquecendo as custas da miséria e ignorância dos mais necessitados, sejam banidos do processo político. Quando isso vai acontecer? Sinceramente, não sei. Ao longo desses quase três séculos e meio de existência só tenho visto essa gente enganar, ludibriar, fazer sofrer, fazer chorar o povo dessa terra. Mas eu não desisto. Insisto e resisto até esse dia chegar.
Brasília, 23/10/2009

*O autor é jornalista

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Poltergeist

Lúcia Carla Gama*

Foi numa noite de sábado, isso sei bem. Lulinha e eu cumpríamos o ritual dos finais de semana de dormir com papai. Estávamos no Conjunto dos Jornalistas, apartamento 109, primeiro andar. Depois de um dia na piscina, na AABB, como de costume, jantar na casa da vó Maria e uma conversinha fiada os três deitados na cama de casal, papai tinha saído e nos deixado a sós, como sempre fazia.

Em seus 30 e tantos anos, ele era pai de dia e à noite saia para namorar, beber, farrear, hoje sei bem o que se faz com essa idade, e nós dois ficávamos no apartamento do Jornalistas. Devíamos ter por volta de dez, onze anos, eu a mais velha, e Lulinha uns oito, nove. Ficávamos na boa, cheios de recomendação de não mexer no fogão, não abrir a porta para estranhos – que seriam identificados pelo olho mágico –, comer bolacha cream cracker com xarope de guaraná em caso de fome e chamar o primeiro adulto ao alcance de um telefonema se houvesse um problema qualquer. E passávamos nosso tempo ali assistindo televisão ou filme, tirando proveito do vídeo cassete e de um certo conforto que não tínhamos em casa.

Naquele sábado especificamente decidimos assistir à programação da TV e o Supercine exibiu Poltergeist, o filme de Steven Spilberg que conta a história da menina Carol Anne, que desaparece no armário do seu quarto e se comunica com os pais por um canal de TV sem sinal, tudo por conta de espíritos que rondam a casa da família.

Acompanhamos a história sob as cobertas, quarto escurinho, frio por conta do ar condicionado. O filme nos assustou de primeira, mas resistimos e continuamos a assistir. E conforme a história ia passando, o medo ia aumentando a ponto de não sairmos mais do lugar nem durante os intervalos comerciais.

Quando a última cena foi exibida, o medo nos dominou por completo. Fomos os dois na cozinha beber água e Lulinha, conhecedor de tudo, foi dizendo que Poltergeist são espíritos perturbadores que estão por todos os lugares e certamente estariam por ali também. Pronto, foi a gota d’água!

Escrevemos um bilhete expondo nosso pavor, avisando a decisão, e lá fomos nós, perto de meia-noite, de roupa de dormir, andando por, ainda hoje, uma das mais movimentadas vias de Manaus, a Constatino Nery, rumo ao condomínio vizinho pedir abrigo na casa de um primo de papai, que nos acolheu delicadamente, apesar do adiantado da hora, até o momento do resgate paterno, no meio da madrugada.

Até agora, perto dos 40, tenho que admitir que nunca vi uma assombração sequer nem quando fico em casa sozinha – fato raro. O que há por aí, sei, são outros tipos de fantasmas, os que estão em mim, seguem comigo, e os do dia-a-dia, que andam com seus corpos pesados, de carne e osso, pelos corredores da vida, me assustando às vezes.

Alguns já aprendi a enfrentar mas de outros ainda fujo, como a menina daquele sábado à noite. Só não deixo o bilhete porque já sei que ninguém mais vai chegar e me resgatar.

*Jornalista.

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Aquarela do busão

 Neuton Corrêa* 

Não sei se já aconteceu com vocês, mas, às vezes, flagro-me pensando coisas absurdas. Acontece que na hora nem me toco que são absurdas. São tão irreais e tão verdadeiras, ao mesmo tempo, que, quando retorno à realidade, o real torna-se irreal. Nos últimos tempos, tenho feito um esforço para descobrir o momento mais frequente desses pensamentos. Descobri: geralmente, quando estou na parada de ônibus.

Esta semana, por exemplo, ao esperar o 57 e/ou o 58, ocupei-me a conversar com uma folha de papel.

Só um minutinho.

Antes de falar da folha de papel preciso explicar sobre o 57 e o 58. Na realidade, eles são a corruptela do 457 e do 458. Poderia defini-los assim: é um agrado, um apelido. Fica mais fácil para os passageiros dos núcleos 2 e 3 da Cidade Nova e do conjunto Boas Novas falar sobre eles sem ter que pronunciar um monte de números. Basta dizer: lá vai o 57 ou lá vem 58, que já se sabe do que se trata.

Das 17 linhas de ônibus que passam por ali, o 57 e 58 são os únicos a serem tratados carinhosamente pelo público. O único problema deles é a demora, mas, no geral, sobram-lhes elogios. O Nenca, meu vizinho, tirava uma hora para chegar ao trabalho, sem falar nos transtornos do aperto no 418; o Célio também, ele tinha que pegar dois busões. Agora, não tiram meia-hora. E mais: viajam sentados.

Eu, nem se fala: tiro 20 minutos de casa ao jornal, contando com a caminhada que faço da Bola do Coroado à redação. Isso quando venho no 57. Pelo 58, desço em frente ao Manaus Hoje.

Sim, deves estar perguntando o que tem a ver a folha de papel com os ônibus. Respondo: tudo.

Pois num desses dias quando esses danados do 457 e do 458 (pronuncia-se o nome completo quando a gente está p. vida com alguma coisa) demoraram a passar, na viagem de volta, fiquei a disfarçar a angústia da espera a conversar com uma folha de papel. Não era uma folha inteira. Era uma tira, da largura de papel higiênico e da altura de uma folha de papel ofício A4: branca; de um lado, fosca e de outro, brilhosa como papel de fotografia.

No primeiro momento, nem dei bola para o papel, que estava sentado ao meu lado, no meio-fio da rua. Mas, de repente, observei a parte brilhosa e tive uma ideia: usá-lo para forrar o concreto onde eu sentava. E assim o fiz.

Acontece que, amigos do busão, o ônibus demorou. Então, lembrei-me do papel (mais pelo brilho), tirei-o debaixo de mim e comecei a tratar com ele.

Primeiro, olhei-o e ri de mim mesmo, dizendo: “esses caras são malucos”. Falei isso pensando no filósofo britânico John Locke (1632-1704), que comparava a mente humana a uma folha de papel em branco. Dizia que essa folha era preenchida à medida em que se iam conhecendo as coisas. Ou seja: nascemos sem nenhuma letra, mas podemos crescer com a mente como uma biblioteca babilônica. É só abastecê-la de conhecimentos.

Passada a viagem filosófica e ainda esperando o busão, lembrei-me da “Aquarela”, do Toquinho, o genial pintor que conheci na minha infância, quando o ouvia pela rádio, cantar: “Numa folha qualquer/ Eu desenho um sol amarelo/ E com cinco ou seis retas/ É fácil fazer um castelo…”. Ainda moleque, bem moleque, pensava: “Esse cara desenha pra caramba”.

Tirei a caneta que estava pendurada na gola de minha camisa e, naquela folha qualquer, comecei a escrever a “Aquarela do busão”.

*Filósofo, jornalista e escritor.

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