Archive for novembro, 2010

Boca da Onça

 Neuton Corrêa*

Para captar melhor o cenário, tentei a anotar quadro a quadro, mas, no mesmo instante, ouvi que importunava os moradores do lugar: “O que é filho da puta? Nunca viu?”. Virei para trás e localizei o protesto: era uma mulher que vestia um sutiã vermelho, esgarçado, sentada ao lado de uma fogueira que assava duas matrinxãs.

Assim que fiquei de frente para ela, levantei as mãos e as baixei colocando a caderneta no bolso de trás da bermuda e a caneta, na gola da camiseta, pedindo-lhe desculpas. Entendia que a boca da ponte que engole carros, caminhões e gente de todo tipo é também o mundo para um grupo de pessoas que mora ali.

Ela não foi a única a reclamar. Notei isso quando outro morador, que dormia sobre caixas de isopor, despertou-se com os gritos da mulher. Ainda deitado, ele olhou sonolento para mim; rolou; e, debaixo da cabeça, tirou um embrulho que lhe servia de travesseiro; e, de lá, puxou uma garrafa PET, ajoelhou-se contra o paredão da ponte, arriou o cós dianteiro da bermuda e, depois de algum tempo, enroscou a tampa da garrafa, embrulhou o travesseiro novamente, afofou-o e o agasalhou sob sua cabeça.

Mas nem tudo era hostilidade, ainda mais na banca de venda de doses de cachaça, a dez metros de onde a mulher berrava. Lá, quase fui recebido com festa. Ganhei até o olhar faceiro de uma morena vaidosa que enfeitava os braços com pulseiras de miçangas coloridas. Não sei se a recepção foi porque pedi um gole de ciquenta centavos ou porque todos ali já estavam embalados. Talvez nem uma coisa nem outra.

Talvez todo mundo seja bem tratado por ali. Quem sabe não foi esse tratamento que fez o Francisco de Assis da Silva, 62, trocar a vida de uma casa, o calor da mulher e dos filhos, pela umidade debaixo da ponte. “Eu era casado e tinha sete filhos: um morreu e os outros seis me abandonaram”, contou-me Francisco, depois de me queixar uma dose. O Francisco contava sua história como se há muito estivesse esperando alguém para falar de sua biografia.

Deves, agora, estar duvidando que eu não tenha perguntado nada, mas é verdade: não perguntei nada a ele. Nem anotei. Mas ainda hoje lembro-me de que o Francisco nasceu no dia 12 de agosto de 1948, no Município de Tefé. Veio para Manaus, quando tinha 12 anos. Aqui casou e formou duas famílias, incluindo a da ponte. Voltou a Tefé nas eleições de 2002, mas só para votar: “Fui votar no Lula. Hoje ele não precisa mais do meu voto”.

Enquanto conversava com o Francisco, apareceu outro morador da ponte. Também queria uma dose, porém achei que ele não suportaria nem cheiro de aguardente.

O bêbado desistiu e o Francisco não perdeu oportunidade. Relatou-me que sua vida foi marcada por um acidente quando trabalhava como marinheiro regional: “A proa bateu no meu peito. É por isso que tenho o peito aberto”. Quando ele ia me contar o que aconteceu, outro morador dali apareceu. Era um homem de óculos de grau, vestindo uma camisa vermelha e usando chapéu de palha. Chamei-o de “Jonas Boca de Ouro”. A dentadura dele era toda assim: cheia de ouro. Também não lhe perguntei nada, mas logo ele disse: “Eu vendo peixe aqui na ‘Boca da Onça’”.

– Boca da Onça? Esse é o nome deste lugar? – perguntei.

– É, aqui é a Boca da Onça e não me pergunte o porquê.

Nessa hora, minha mulher, que retornava da Feira da Manaus Moderna, puxou-me pelo braço e disse: “Vamos, senão, tu não vai conseguir subir no ônibus”. E assim aconteceu.

*Filósofo, escritor.

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A pescaria do Patinho

Massilon de Medeiros Cursino*

Tem família que além do sobrenome em comum, carrega igualmente o agrado. Uma dessas, em Parintins, é a família “patinho”. Todos são conhecidos pelo mesmo agrado de “patinho”, a começar pelo saudoso patriarca, desde a época em que plantava guaraná com seu Élcio Martins (sogro do Chico da Silva), lá pelo lugar conhecido como “Cabeçudo”, no alto Mamuru.

Até a mulherada da família obedece à mesma regra, são as patinhas.

Um dos Patinhos, o mais velho, certo dia foi pescar num lago próximo a sede da cidade de Parintins. Patinho foi acompanhado de um amigo, responsável por levar o “esquenta”, e seguiram a remo, a fim de livrar a janta e o almoço do outro dia. Não queriam “porção” de peixes, visto que não era pra comercializar, era somente pro consumo da curuminzada.

Ao chegar ao lago, a recepção foi logo em clima de litígio, com um comunitário forte bradando e gesticulando com sinal de expulsão:

- Vão embora, que aqui não tem nada pra marmanjos de fora. Aqui tem regra, bora sair, bora sair…

Ao ver que o homem era corpulento, Patinho tentou usar de argumentos, buscando sensibilizar o morador da área:

- Mas patrão, a gente só quer livrar o da broca, só dois peixinhos e basta. É só pro prato da curuminzada.

Não adiantou. O homem estava irredutível e cada vez mais furioso:

- Não quero mais conversa, se insistirem vou partir para as “vias de fato”. Vão embora agora e fim de prosa.

De repente, já absorvido por um ar de fúria, porém sabendo que não teria como enfrentar fisicamente o purrudo do caboclo, Patinho dispara:

- Olha meu senhor, quero lhe dizer uma coisa: Na porrada não, mas no “fitiço” (feitiço) eu sou macho...

Dito isto, Patinho e o amigo remam lentamente no sentido de retirar-se do local. Quando o bico da proa já apontava para a saída do lago, eis que o impertinente comunitário lança, inesperadamente, uma indagação a Patinho que estava de piloto na popa da canoa:

- Ei parentes vem cá, mas só são dois peixinhos mesmo…?

*Economista, Bacharel em Direito.

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Pela brecha, vi o mundo

 

Ivânia Vieira*

Com que olhos eu olho os negros daqui e de lá? Com que olhos eu olho os indígenas? Com que olhos eu olho os pobres do meu País e os pobres do mundo? Com que olhos eu olho os idosos, aqueles e aquelas que têm outra orientação sexual, que têm uma outra orientação religiosa?

Meus olhos, meu corpo e minha fala foram educados para entender como natural a desigualdade, a dominação de uns poucos sobre tantos; para aceitar os argumentos da intolerância como parte da norma social. Ensinaram-me, desde muito pequena, que uns teriam de meter os pés no barro para alcançar a escola mais próxima e mais precária ou jamais alcançá-la, e outros teriam a melhor escola a sua disposição; ensinaram-me que negros e índios eram gente menor, incapazes, nascidos para servir a alguns senhores e morrer como indigentes quando não assassinados. Ensinaram-me na escola e na igreja sobre uma única religião e que o homossexualismo era uma doença a ser combatida.

Mas um dia, pelas brechas da ousadia, na mesma escola lá da Colônia Oliveira Machado, nossos olhos de criança – carregados de curiosidade – viram outras crianças marcadas pelo espancamento, pelas feridas do abandono e da omissão. E como prega Paulo Freire usamos nossa curiosidade para perguntar, para abrir portas a meninos e meninas prisioneiros acima de tudo da injustiça e da intolerância.

Então, as brechas e a curiosidade nos aproximaram dos outros pobres, como nós, vizinhos da poeira forte e da falta d’água permanente (só não quando chovia. Afinal, a chuva para nós era sinal de festa, além de encher latas e camburões de cada casa do bairro); éramos e somos irmãos e irmãs da cor da pele, da cara de caboclo, de um jeito índio de ser. Éramos, sem saber decifrar, parte das “minorias” do Brasil.

Nessa arte de construir brechas, professores, padres e freiras, mulheres e homens anônimos nos ensinaram sobre uma outra escola, sem fronteira, determinada a questionar as regras dessa naturalidade que perpetua o egoísmo, o preconceito, a discriminação, a desigualdade. Nos animaram a desconstruir o olhar acostumado a não contrariar a normalidade das coisas. Essa escola, agora espalhada, se traduz em tantas vozes, constrói o território de esperança. É nela que se realiza o outro projeto, aquele pelo qual há 315 anos Zumbi deu a vida. Zumbi, Ajuricaba, Maruaga, Chiquinha Gonzaga, Pagu, Nestor Nascimento… são a nossa estrada. Nos alimentam a alma para seguir na luta e fazer soar bem alto o tambor da kizomba.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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A visagem do Paulinho do Sagrado

 

Massilon de Medeiros Cursino*

Início da década de 90, o Boi Bumbá de Parintins começa a se projetar na capital do Estado para se transformar na febre assistida nos anos seguintes.

O manauara já ensaiava o dois pra lá, dois pra cá em suas casa noturnas. As “bandas de boi” iam de Parintins fazer as festas na quadra da Aparecida, na TVlândia e em outras casas de shows.

Paulinho DU Sagrado, compositor e musico era um desses parintinenses que compunha uma das bandas de toadas do lado do Garantido. Pode-se dizer que ele foi um dos precursores no gênero.

Certa vez, Paulinho DU Sagrado chega angustiado à casa onde eu (Massilon) morava, numa vila ao lado da “Panificadora Pátria”, na avenida Epaminondas. Chateado e triste, Paulinho bate a minha porta e vai logo desabafando, enquanto ainda estava destrancando o cadeado do portão:

- Lonlon, meu irmãozinho, perdi o barco. O Fredinho (Fred Góes) me levou prum tal de “embrião” (como se chamavam os conjuntos de casas populares, distantes da cidade) e eu dizia pra ele “bora cara”… e ele só respondia mais uma, mais uma, e aí quando eu chego no cais porto o “Cisne Branco” (navio) já ia lá fora.

E completou:

- O pior é que o Sidão (Sydney Rezende) foi na viagem e, querendo me ajudar, levou na frente a minha bagagem. Agora, eu vou ficar fedendo aqui meu irmão. Deixa eu dormir na tua casa hoje mano, deixa!

Com uma amizade fraterna construída com meus irmãos mais velhos, na esquina das ruas 31 de março e Armando Prado, respondi positivamente pro Paulinho, no entanto, aproveitei para “pregar” uma no amigo, cuja fama de medroso de visagem vinha de longas datas:

- Paulinho, mano, aqui tem dois quartos, lá em cima, mas só tem um ventilador que fica no quarto que eu durmo; tu dormes no quarto de frente e abre as janelas pra entrar um vento (uma janela dava pra rua e a outra, da lateral, dava de frente ao Hotel Mônaco).

Para completar, expus a situação que daria um nó na cabeça do amigo:

- Olha Paulinho, só tem um problema, ali próximo, na Praça da Saudade foi um cemitério (há menos de 100 metros) e tem umas visagens que vem de lá assustar a gente…

Dito isto, desejei boa noite e dirigi-me a meu quarto para dormir, enquanto o Paulinho ficou pensativo, pra ser mais franco, em polvorosa. Encucou tanto que lá pelas duas da manhã gritou com uma voz apertada, vindo a acordar-me.

Corri para o quarto ocupado por Paulinho achando que uma coisa horrível poderia ter acontecido, diante do grito assustador. Antes de empurrar a porta do quarto, me armei com uma vassoura em punho. Pisei para abrir a porta encostada e dei de cara com o amigo sentado na cama com os olhos arregalados.

Foi quando perguntei:

- Paulinho, que foi que houve irmão? – E a resposta me veio de imediato:

- Lonlon, tinha uma “fuleira” da visagem querendo me engasgar! Eu já tava querendo dormir e de repente a “bacana” vem e me diz: – “Booom diiia!

Não sabia se ria ou se ouvia o reclame do amigo. Tentei encoraja-lo:

- Tu ficaste foi nervoso com o que eu te falei e aí achas que viste misura. Isso é psicológico, irmão!

Paulinho, em transe, com seus olhos firmes para a janela lateral, me respondeu ao seu estilo:

- Como psicológico Lonlon, se eu via tudo. Eu olhava pra essa janela e via o Mônaco, meu irmão. Como psicológico,cara, se o cenário era o mesmo!

*Economista, Bacharel em Direito.

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