Archive for dezembro, 2010

A despedida da Pátria

  Neuton Corrêa*

Lotado e apressado, o 422, quase arrastando a traseira esquerda no asfalto, faz a curva para sair à altura do Cruzeiro, na rua Timbiras, Cidade Nova. Também apressada e atrasada lá vem ela, mas com o apoio da torcida, que grita da parada de ônibus: “Corre! Corre! Corre!” Dez enormes segundos se passam, quando perto de mim alguém exclama: “Corre, Dona Pátria!”. Estranhei, porém outra voz gritou: “Vai, Dona Pátria, vai!”

E dona Pátria apressa os passos, aperta os beiços, engelhando ainda mais o rosto, e faz todo o esforço que pode para alcançar o busão, mas o terreno acidentado do Cruzeiro e a calçada esburacada do vizinho da parada não a ajudam. O motorista ameaça partir, mas alguém lhe pede calma, enquanto uns gritam “corra” e outros,  “cuidado, cuidado, Pátria”.

Finalmente, após, talvez, trinta segundos, Dona Pátria chega à porta dianteira do 422, mas ela resolve recuar. Vai para a frente do ônibus, afasta-se um pouquinho, põe a mão direita à altura da testa mirando para o número da linha para então prosseguir o embarque. E lá se foi Dona Pátria.

Acostumei-me com essa cena nos anos que se sucederam a 2001, quando fui morar na Cidade Nova. Dona Pátria pegava o busão para o Centro por volta das 7h e voltava para a Zona Norte depois das 19h. Não havia um horário pontual. Às vezes, até chegava às 22h ou 23h.

Dona Pátria foi a primeira personalidade da rua Pintassilgo que conheci assim que fui morar ali. Vamos dizer assim: morava, mas não morava. Com o tempo, fui saber que passava o dia na casa dela, no Igarapé de Manaus, e, à noite, dormia na casa da Mãe Emília, minha vizinha, presidente da Federação Amazonense de Umbanda, cuja sede situa-se defronte do jambeiro da calçada de minha casa.

Dona Pátria é uma de três irmãs idosas que dona Emília acolheu não sei quando. A mais velha, dona Dulcinda, hoje com 88 anos, há muito passa dia e noite gritando e chorando; a mais nova, a Cléa, ainda não perdeu a infância: ri de tudo e brinca com tudo e com todos que se aproximam dela, apesar de seus 65 anos. Tanta infância na velhice deixou Cléa sem os movimentos de uma das pernas. Explico: brincando, Cléa caiu e fraturou o joelho.

Dona Pátria, hoje, vale um parágrafo à parte. Era a mais sajica de todas. O rosto parecia estar sempre sério, mas o espírito estava sempre sorrindo. Aos 86 anos de idade, ainda apreciava uma cervejinha lambendo os beiços. Nas festas do terreiro, Pátria era a primeira a procurar um copo para aliviar sua ansiedade. Diziam os filhos da vizinha que ela, apesar da idade, era um âmago de piranheira. Não vergava nem com o fogo nem com o frio.

Recentemente, Dona Pátria abandonou o busão: passou a morar, dia e noite, no casarão de Mãe Emília, mas ganhou outra rotina no começo do dia: varrer as folhas da mangueira do quintalzão da vizinha. Passava a manhã ali a tirar folha e a trocar palavras com conhecidos e desconhecidos.

Na segunda-feira que passou, ainda de madrugada, ao sair para trabalhar, percebi que o barracão da umbanda estava com as luzes acesas e que todas as portas e janelas estavam abertas. O silêncio falava muito! Entrei, olhei e, sem dizer nada, dei adeus à Pátria do busão.

*Filósofo e escritor.

No Comments

O peixão do Bracinho

  Neuton Corrêa*

 Da janela do busão, enxerguei Bracinho. Ele estava em um ponto de ônibus da avenida Djalma Batista. Vestia-se do mesmo modo que o conheci em novembro de 2004: tênis, calça e jaqueta jeans; e mantinha o costume de colocar as mãos nos bolsos da jaqueta.

Conheci o Bracinho em uma viagem de trabalho para o interior do Estado. Não sei o verdadeiro nome dele nem me recordo se chegou a se apresentar. Mas, se tivesse se apresentado, não faria diferença. Ainda assim continuaria a chamá-lo de Bracinho por questões óbvias: o braço dele é desproporcional ao tamanho do corpo.

Na verdade, não é exatamente desproporcional ao corpo, mas ao conjunto das extremidades superiores. Os braços são regulares, as mãos também. O problema é o antebraço, entre o cotovelo e o punho: é tão pequeno que quase não lhe permite roçar as mãos na cintura.

Não me lembro dele apenas pela assimetria corporal, mas pelas cascatas que falou nos dois dias que passou com a gente (éramos cinco repórteres, dois fotógrafos e três cinegrafistas). Exibiu-se já na viagem, quando o avião em que estávamos entrou em instabilidade com um mau tempo que durou mais de uma hora.

Para se ter ideia do desespero na viagem, uma colega gritava e ameaçava colocar o fígado para fora a toda vez que o aparelho despencava no vácuo. Outro colega, quase furava as mãos de tanto fazer figa. E eu estava para tomar banho com o suor gelado que saía das minhas mãos. Nessa hora, tudo passa pela cabeça. Na minha, por exemplo, só vinham as imagens da tragédia do acidente com o voo da Rico Linha Áreas que havia acontecido seis meses antes.

Quando o temporal passou, Bracinho, que viajava nas poltronas da frente, olhou para trás e disse: “Vocês são muito moles, não aguentam um tempinho desses. Eu não senti nada”. Ninguém lhe respondeu, até porque ele continuou a relatar episódios mais dramáticos das aventuras que passou no ar, até como paraquedista.

Em terra, no lugar onde os jornalistas iriam cobrir a destruição de órgãos públicos durante as eleições daquele ano, Bracinho, como uma necessidade, mostrava que conhecia tudo sobre a cidade e corrigia, em tom de repreensão, quem apresentava alguma informação que ele julgava errada. Levei uma dessas repreensões quando disse que aquele município tinha uma receita mensal de ICMS em torno de R$ 300 mil. E ele, prontamente: “R$ 300 mil, não. O ICMS daqui é de R$ 301.550,50”.

Antes do embarque de volta a Manaus, Bracinho voltou a se exibir. Dessa vez, o assunto era pescaria. Um dos cinegrafistas contou que, no lago de Balbina, em Presidente Figueiredo, capturou um tucunaré de doze quilos. Para mostrar o tamanho do bicho, ele levantou as mãos e disse: “Era mais ou menos desse tamanho”.

Eu não tinha história de peixe grande, mas podia contar do 7 de Setembro de 1997, quando o barco de meu pai foi fretado para um grupo de pescadores. Só num lance, os pescadores trouxerem na rede mais de duas toneladas de curimatãs e ainda disseram: “Erramos o lance”.

Acabava de contar essa passagem, quando o Bracinho puxou a dele: “Aqui nesse rio (disse ele apontando na direção do rio Purus), peguei uma piraíba enorme”. E continuou: “Eu coloquei um tracajazinho vivo no anzol e joguei n’água. Não demorou muito, a porrada cantou”.

Nessa hora, ele abriu o braço o que pôde e continuou:

- Olha o tamanho do peixão!

Um dos cinegrafistas insistiu, olhando para o braço dele:

- Mostra aí, de novo, o tamanho do peixe.

E ele outra vez esticou os braços e sustentou:

- “Deeeeeeesse tamanhão”.

*Filósofo e escritor.

No Comments

Highlander

 Neuton Corrêa*

Pela janela do busão, enxerguei o China. Vestindo macacão azul, passos miudinhos, andando na rua Mário Ipiranga Monteiro, perto do viaduto, ele carregava no ombro esquerdo uma roçadeira branca e alaranjada. Não via o China há quase oito anos, desde o dia em que estava jogado na beira da rua à espera da ambulância do S.O.S. Manaus (hoje é SAMU) e/ou do rabecão do IML.

China nasceu e viveu até a adolescência na rua 31 de Março, onde também me criei. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, até porque era na mesma rua, mas um pouco distante de casa. Eu morava para as bandas do rio Amazonas e ele, perto da usina termelétrica. Além disso, China se enturmou mais com o pessoal do Beco do Sapo do que com os meninos do Ryota (escola estadual Ryota Oyama).

O que sabia dele, vinha da fama que ele fez.

As notícias sobre o China não eram poucas. Lembro-me da primeira, quando ele estudava a primeira série, no Sindicato (prédio construído pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil que mais tarde virou escola estadual): quase morreu enforcado. Como?! Perguntei-me, diante do bochicho da rua.

Pois, de manhãzinha, depois de comprar pão, antes de ir para aula, China sumiu. Índio, irmão mais velho dele, que virou pai e mãe da família com a morte prematura dos pais, (as perdas aconteceram num espaço de um ano – nunca procurei saber o que aconteceu), saiu à procura do moleque.

O Índio tinha certeza de que o China estava escondido, fazendo manha para não ir à aula, como sempre fez. Mas, ao andar pelo quintal da casa dele, viu galhos da mangueira do vizinho balançar. Desconfiado, Índio foi investigar o que acontecia e descobriu. Era o irmão, que, ao tentar apanhar uma fruta amarelinha, perdeu o equilíbrio e caiu e só não foi parar no chão porque uma forquilha dos galhos da árvore o aparou. Ele estava seguro pelo queixo e balançava as pernas para tentar ganhar apoio.

Com a ajuda do irmão conseguiu sair da enrascada.

No dia em que ele esperava pelo S.O.S. ou pelo IML, fui avisado da situação pelo Índio, que me pedia ajuda. Imediatamente, fui. Ao chegar lá, encontrei outro amigo da 31 de Março, o Marcos, que convenceu o Índio a levar o corpo do China para a casa. E assim aconteceu!

Quando cheguei à casa do Índio, o corpo do rapaz estendido na sala. E lá, nas costas dele, a perfuração que o fez tombar. Tantos risos e nada de choro me davam a convicção de que a morte do China era um alívio para o irmão. Os risos não eram pela morte, mas pelas histórias que o Marcos contava sobre as aventuras do China.

Eu já estava animado com o velório (na verdade, não tinha nenhuma vela, porém já havia gente fazendo cotinha para comprar umas cervejas), mas S.O.S. chegou. Da ambulância, desceu uma mulher de jaleco branco. Ela foi com a mão direto no pescoço do China, olhou para um assistente, vestiu a mão com uma luva cirúrgica, apontou o dedo indicador e introduziu-o no ferimento.

Quando a mulher puxou o dedo de volta, o sangue jorrou e, no mesmo instante, China se mexeu e gritou: “Vocês pensam que estou morto, é? Eu sou é o Highlander (guerreiro imortal)”.

Depois disso, China ainda se envolveu em um grave acidente de trânsito e, desde aí, perdi o contato com o irmão dele.

Filósofo e escritor.

No Comments