Archive for janeiro, 2011

Adeus, Fuleiro!

Neuton Corrêa*

A crônica de hoje seria “A passageira da calcinha furada”, mas a morte do Fuleiro alterou meus planos. Ele passou mal na quarta-feira (12) e, na sexta-feira (14), partiu para o descanso eterno. Soube da gravidade do quadro clínico do amigo, minutos antes de ele perecer. Eu havia acabado de embarcar no 350, com destino à rodoviária de Manaus, de onde pegaria outro busão para o Município de Presidente Figueiredo.

Quem ligou dando a notícia do Fuleiro foi o “Ministro da Educação” (em breve contarei a história desse outro meu amigo). Pelo tom das primeiras palavras, imaginei o ministro apertando a boca para falar: “pô, cara… pô, tu sabes o Fuleiro?”. Sim, respondi. E o Ministro continuou: “Pois é, bicho. Acho que agora ele não vai escapar, não. Estou no lado dele. Talvez um milagre.”

Aquela notícia me deixou pensativo no busão. Há dois anos, Fuleiro passou uma temporada em casa, depois que perdeu a perna direita na luta para conviver com o diabetes. Na ocasião, depois de recuperado, fiz uma crônica para contar os bastidores da cirurgia dele e prometi não mais falar mais de meu amigo nesta coluna.

Mas, senhores, o que tinha a ver o Ministro me ligar na hora da viagem? Ainda no 350, tinha dúvida: uma voz me dizia: “escreve não” e outra atentava: “não perde a oportunidade”. Meia hora depois da primeira notícia, o Ministro voltou a me ligar anunciando: “O Fulero acabou de morrer”. Então, vou contar:

Fuleiro era o Roberto Paiva. Até 1994 era conhecido apenas como Bequinho. Em algumas situações, a antonomásia ganhava até sobrenome: Bequinho da Catedral, Bequinho da Jumac e Bequinho da rua Cordovil. Era um meio-campo nato. Foi ele que inventou o passe-drible, antes de o jogador Ronaldinho Gaúcho popularizá-lo. No campo dos padres, ele olhava para um lado, balançava a cabeça e os ombros e, com desprezo, tocava a bola noutra direção.

Bequinho ganhou o apelido Fuleiro por uma questão óbvia. Ele era “Fulero”, mesmo. Para você ter uma ideia, sempre que ia a algum enterro, nunca saía de lá sem uma piada. Talvez, por isso, sua morte tenha virado um acontecimento bem humorado para seus amigos.

A Darci, minha esposa, por exemplo, assim que falei para ela que o nosso amigo havia morrido, ela pegou o celular para avisar outras pessoas. Nessa hora, correu os nomes da agenda eletrônica, olhou para mim, riu e disse: “E agora, o que faço? No meu celular está escrito ‘Fuleiro Vivo’. Eu coloco ‘Fuleiro Morto?”.

Depois da Darci, veio o Gersinho, que disse: “Leeeeva, filho da mãe”; em seguida, avisei dona Maria, mãe do Neil, que mandou ver: “Eu já esperava, meu filho. Se era pra ele estar sofrendo só com uma perna, é bom que ele descanse mesmo”. Uma mulher que estava me ouvindo no ônibus, perguntou: “Seu amigo morreu?” Respondi que sim, contei o drama dele e ela: “Com essa doença ninguém brinca. Por que ele não fez pacto com Deus?”.

Avisei o amigo Juveco e ele replicou, incrédulo: “nãããããoooo! Tu tá mentindo”. E insisti, informando que não fazia uma hora que nosso amigo havia passado, e ele: “Tu tá será “balado”. Todo mundo pode morrer, menos o Fuleiro”. O Manuel, professor Manuel, como gosta de ser chamado, retrucou: “Que fuleragem é essa do Fuleiro? Como é que o Fuleiro morre sem avisar a gente?”.

Mas, nem tudo virou piada. Percebi isso, quando liguei para o Mailson, dando-lhe a notícia:

- Miguinho, o Fuleiro morreu.

Esperei a resposta, mas nada escutava, além do silêncio. Porém, depois de algum tempo, ouvi uma voz trêmula e lhe indaguei:

- Você está chorando, Miguinho? E ele:

- É, Miguinho, me deu um aperto no meu peito, porque tu sabes: “O Fuleiro era Fuleiro”.

Roberto Paiva morreu e ainda hoje não sei a idade dele. Uma vez me falou de quarenta e poucos anos; noutra, cinquenta e poucos, uns diziam que ele tinha sessenta, enfim… Por muito tempo, foi regente do coral da Catedral de Parintins. Ajudou a fundar o grupo musical “Canto da Mata”, cedendo (escondido do padre) instrumentos da igreja para os ensaios. Adeus, Fuleiro!

*Escritor, filósofo.

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Arigó, o retorno depois de boiado

 

Massilon de Medeiros Cursino*

            Figura carismática, Arigó recebeu como nome de batismo Raimundo Osvaldo Matos Novo, entretanto, o agrado incorporou à pessoa mais que o próprio nome oficial.

            Sujeito trabalhador, criativo, sonhador e descontraído, Arigó sempre foi do tipo que chamava a atenção. Era uma espécie de Professor Pardal na rua 31 de março.

            Tinha um bar de venda de picolés, onde a meninada disputava as bolsas de venda, à tapa. Bar “legal” era o nome de seu empreendimento.

            Quando caía a venda de picolé, Arigó inovava, ia produzir cadeiras, mesas, vassouras, portas talhadas etc. Fazia projetos que venderia sua produção para uma grande distribuidora, iria ganhar dinheiro, mas infelizmente quase sempre o que projetava não se concretizava.

            Cansado de não ver vingar seus projetos, Arigó resolveu mudar de cidade, iria atrás de outros horizontes, onde o mercado estivesse mais aquecido. Pensou em vender sua casa, todavia, lembrou-se que ela ainda serviria, aliás, já tinha feito até um aquário dentro de seu balcão. Quando voltasse abonado, com dinheiro no bolso tinha projetos para a casa conquistada com muita labuta. Na maioria das vezes atuou como próprio pedreiro na edificação do imóvel.

            Arigó, mais uma vez resolveu levar adiante o projeto, estava resignado, decidido a ir embora para Manaus, a casa ficaria alugada e ele, conforme fazia questão de dizer, “só voltaria a Parintins depois de boiado”, em outras palavras, bem financeiramente.

            Confiante em seu taco de homem trabalhador, Arigó segue para Manaus, onde a filha mais velha já morava há alguns anos. Na capital, Arigó alugou uma casa próxima a um igarapé e começou sua aventura em solo baré. O seu segundo filho foi logo arrumando emprego numa livraria e o homem se danou a trabalhar. Virou uma espécie de faz tudo. O dinheiro começou a entrar e Arigó via as coisas acontecendo, sempre se lembrando da promessa que fizera, de que ficaria “boiado” na capital.

            Meses se passaram e uma forte chuva despencou sobre Manaus. Parecia um dilúvio. A água do igarapé próximo subiu tanto que atingiu casas mais distantes, entre elas a que Arigó residia. Arigó pegou a enxada e tentava a todo custo desviar o curso da água. Debalde e de balde em mão, Arigó já estava com a água pela cintura quando se depara com uma forte luz sobre seu rosto e um microfone próximo à sua boca, Arigó estava diante das câmeras do jornal da Rede Amazônica de Televisão. O repórter nem bem fez a pergunta sobre a desoladora situação e Arigó rasgou o verbo contra as autoridades.

            No final de tarde, o jornal já exibia a imagem voraz da chuva e a luta de um cidadão chamado Arigó. Inúmeras pessoas em Parintins assistiram à cena do telejornal e identificaram o conterrâneo.

            Na rua  31 de março, Centro, as pessoas foram pra frente de suas casas comentar o que viram na televisão. Foi quando um ex-vizinho franzino disse: – Agora o Arigó volta pra Parintins. Ele prometeu que quando tivesse “boiado” ele voltaria. E vocês todos viram o quanto o homem boiou.

            Uma semana depois, Arigó aportava em Parintins. Voltou com malas e cuias. Seu projeto, mais uma vez, quase se concretiza, mas que o homem ficou boiado, ficou. Isso todos viram!  

*Economista, Bacharel em Direito

E mail: massilonmedeiros@hotmail.com    

Twitter: @massilon_pin

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Concentra, mas não entra (a pedido)

Neuton Corrêa*

Antes de começar esta narrativa, convém dizer que se trata de um episódio para atender ao pedido da professora Mazé. Para quem não leu a história passada, Mazé inspirou a crônica “Professora Má: minha fã”. E atendo-a porque ela me proporcionou a primeira frustração do ano. Escrevi o texto para que me odiasse para sempre. Mas vejam: assim que leu a história, conseguiu meu telefone e declarou: “por isso, sou sua fã”.

Expliquem-me, amiga e amigo do busão: que figura é essa que não se chateia nem quando é exposta ao ridículo? Ora, pois! Na crônica anterior, contei o bolo que ela deu, ao me convidar para palestrar em sua sala de aula, porém, no dia marcado, foi ela que faltou ao compromisso. Perdeu a hora em um aniversário na noite anterior. Também revelei, senhores, que entre seus ex-alunos ela é conhecida como “Professora Má”. E, diante de tudo isso, ainda gostou da crônica.

Na fase de criação da história, fui advertido pela equipe de palpiteiros, conselheiros e consultores que me ajudam a fazer esta coluna: “passageiro-repórter, você vai ganhar uma inimiga para o resto da vida”, era a advertência comum. O professor Kinho, consultor da crônica, escreveu-me: “você queimou o filme da professora. De tua fã, ela vai passar a inimiga; de ídolo, você passará a desafeto”. E minha esposa me aconselhou: “muda pelo menos a idade. Diz que ela é mais jovem”. E assim procedi, atendendo à esposa e não dando ouvido aos meus consultores.

No sábado que passou, já me preparava para ouvir a ligação telefônica para me avisar: “vou te processar (isso já aconteceu aqui: vocês não sabem, mas um ex-deputado, conhecido como ‘Pirarara’ me processou. Ganhei a questão)”. Mas, para minha surpresa, o telefonema aconteceu e, ao invés da ameaça de processo, recebi um convite: “meu escritor querido, vem aqui em casa. Hoje, eu sou a mulher mais famosa desta cidade. Graças a mim, o jornal foi recorde de venda. Vou fazer uma festa. Vem aqui, vem logo”.

Foi aí, queridos, que, antes dos efeitos bacantes da festa, que a fã me pediu: “agora quero que você conte a crônica ‘Concentra, mas não entra’. E assim narrou a Mazé:

“Foi no Carnaval do ano passado:

Eu iria desfilar no Carnaval de Parintins, num bloco chamado ‘Lagarto Salgado’. Fantasiei-me (assim mesmo, certinho. Ela é professora de Língua Portuguesa) cedo, mas éramos o último grupo a entrar na avenida do samba. Então, comecei a me concentrar.

Entre doze amigas com a mesma fantasia, fiz questão de me maquiar primeiro. Eu queria ser a primeira a entrar na avenida, queria sair na frente, queria ser a primeira a quebrar a curiosidade do povo, porque a gente era da linha de frente, mas ninguém sabia como era nossa roupa”.

Interrompi a Mazé e perguntei-lhe como era a fantasia. Ela correu ao computador e mostrou-me as fotos. Curioso, indaguei-lhe: “mas só tem onze pessoas fantasiadas de Tio Sam? Cadê você?” E ela continuou:

“Então, passageiro-repórter, depois que acabei de me maquiar, não sei mais o que aconteceu. Sei que capotei e que meu irmão me levou para casa. E, quando acordei, no outro dia, olhei para mim. Eu ainda estava toda fantasiada de ‘Tio Sam’, e vi minha filha (Mel é o nome da menina) me olhando desse jeito (ela colocou as mãos na cintura). Surpresa com a cena, rolei na cama para perto da Mel, estendi minha mão para ela e disse (ela fez uma voz manhosa):

- Bate aqui, minha filha: arrasamos!

Mas, menino, a Mel olhou para mim, balançou a cabeça e falou:

- Não, mamãe, a senhora não arrasou, não.

E eu:

- Como eu não arrasei?

E ela:

- A senhora dormiu antes do desfile. A senhora concentrou, mas não entrou.

- Ah, minha filha… Mas você saiu?

- Saí!

Aí, estendi, de novo, a mão para ela e disse:

- Então, filha, arrasamos!”

*Filósofo e escritor.

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Rio de Janeiro e a idade pra chorar

Massilon de Medeiros Cursino*

            Assistindo as imagens da catástrofe do Rio de Janeiro, o coração aperta de ver o sofrimento dos irmãos cariocas que perderam quase todo seu patrimônio, inclusive as centenas de vidas que foram ceifadas em razão da tragédia produzida pela fúria da natureza, justamente a mesma que privilegiou a região com uma paisagem das mais bonitas do país.

            Ao assistir as fortes cenas, uma reação involuntária quase que faz descer sobre a face as lágrimas salubres, abruptamente interrompidas pela mudança de canal que exibia concomitantemente uma outra imagem do Rio de Janeiro, onde mais de 20 mil pessoas estavam no campo da Gávea comemorando a contratação de Ronaldinho Gaúcho pelo Clube de Regatas Flamengo.   

            O contraste imediato da capital carioca foi proporcional ao contraste emocional que senti, mesmo sendo botafoguense de coração. Que bom que mudei de canal, pois assim evitei expor uma debilidade emocional, afinal como diz o jargão: “homem que é homem não chora”. E cá entre nós, entre assistir o choro da dor dos cariocas e o choro da emoção dos flamenguistas, a opção melhor, com certeza é a última.

            Mas chorar de alegria também expõe debilidade emocional, isso se aprende desde o colo, quando um som em forma de ossovio suave nos pede para parar de prantear. Na infância, chorar pode até dar origem a um apelido. Na juventude chorar é leseira, na senilidade é forte emotividade, enfim qual a idade e o momento palatável para se aceitar o choro de um ser humano dotado de razão e paixões.

            Com o ocontrole na mão, não titubeei em tomar uma decisão implacável, o melhor foi desligar a televisão e rezar pelas vítimas da catástrofe do Rio de Janeiro, uma cidade que há vários janeiros de São Sebastião vem se transformando em um rio de lama, de desabamentos e um rio de lágrimas. Lágrimas de dor e, ao mesmo tempo, de exultação. 

*Economista, Bacharel em Direito.

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Professora Má: minha fã

Neuton Corrêa*

Capítulo 1 – Do nome e do exemplo

Má, de jeito algum, atende pelo nome verdadeiro. Ela prefere ouvir o cognome “Mazé”. Suspeito que uma das razões pelas quais ela refuta o nome seja a extensão dele: para pronunciá-lo por inteiro é preciso puxar a respiração e soltar: Maria José das Graças Figueiredo Bentes de Souza.

A alcunha Má nasceu há pouco tempo. Não faz três anos, mas também não é de domínio geral. É um apelido que circula entre seus ex-alunos da 5ª série. Nasceu no primeiro dia de aula e se confirmou no resto do ano, pois, para mostrar que seria rigorosa com a turma, disse: “Sou boa, muito boa, boazinha, mas não passo a mão na cabeça de ninguém”. A garotada se retraiu e, para quebrar o gelo, olhou para o filho de uma amiga e comentou: “Está aqui o Toninho, filho da minha comadre Tiane. Não é porque ele me conhece, que eu conheço ele, que vai deixar de fazer as lições”.

Mas, minha gente, constrangido, para o desespero da professora, Toninho caiu num soluçoso choro interminável. Sem saber a razão das lágrimas, Mazé perguntou o que havia acontecido e, após ouvir a resposta, rebateu: “Eu só falei no seu nome, meu filho, para dar um exemplo”. E ele: “A senhora não tinha outro exemplo para dar?”.

Capítulo 2 – Da vida social

Mazé aprecia a noite e as tentações da noite como poucos. Certa vez, em uma balada, exagerou. E, mesmo assim, assumiu o risco de ir para casa pilotando sua motinha, uma Honda de 125 cilindradas. No dia seguinte, ela reapareceu entre as amigas, inteirinha, mas procurando uma bolsa, onde estavam todos os seus documentos.

Ah, ia esquecendo. Minha querida Mazé está chegando à casa dos 40 e continua atraindo olhares, ainda mais porque vive só e sempre anda como se estivesse pronta para o ataque.

Pois bem! Depois daquela noite, Mazé passou a ouvir assovios que saíam de um bar no caminho de sua casa. Imediatamente, achou que fosse apenas mais um paquera, mas os assovios passaram a se intensificar e, orgulhosa, mudou o caminho até se esquecer das supostas cantadas.

No primeiro descuido, porém, Mazé voltou a passar pelo bar e outra vez ouviu assovios e, dessa vez, não eram apenas assovios. O homem gritava, pulava, dava com as mãos, fazia de tudo para chamar atenção.

Com a insistência, ela resolveu parar. Antes, porém, revisou, se sua cabeça, naquela dita noite, havia registrado alguma coisa sobre aquele bar e o monte de homens que frequenta o local. Não encontrou nada. Então, tufou o peito e perguntou o que o homem queria. E ele, prontamente:

- A senhora que é dona Maria José?

- Não! – respondeu, tufando o rosto.

- Desculpa, sei que é a senhora sim! É que, naquela noite que a senhora estava meio balançando, a senhora bateu a moto ali (apontou para o quebra-mola) e caiu sua bolsa…

Mazé mal deixou o cidadão falar e exclamou:

- Veja se eu tenho cara de quem bebe, meu senhor! Me respeite!

Horas depois, Mazé mandou sua empregada receber a bolsa.

Capítulo final – minha fã

Conheci Mazé no festival folclórico de Parintins do ano passado. Foi por acaso, em um bar: um amigo me chamou pelo nome, perto dela, que estava de costas. Na hora, Maria José virou-se orgulhosa e gritou histericamente: “Aiiiii, Neuton, Neuton Corrêa?!!! Das Crônicas do Busão?!!!”. E continuou: “Eu sou sua fã”.

Depois das apresentações e de me contar quase todas as histórias que escrevi nesta coluna, combinei que iria na segunda-feira conversar com os alunos dela. Tudo certo: antecipei meu retorno da praia do Uaicurapá, preparei a conversa, citações e tudo.

Mas, senhores, ao chegar à escola, perguntei por ela. Responderam-me que a professora estava doente. Pedi o endereço e fui à casa dela. Ao chegar ao endereço, porém, encontrei o pátio cheio de mesas e cadeiras espalhadas, restos de comida e latinhas jogadas no chão.

*Jornalista, filósofo e escritor.

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O tesouro da prima

Neuton Corrêa*

Deitado na rede, atada do esteio da porta para o esteio da janela, fechando o triângulo da cantoneira da sala de paredes de taipa da casa do tio Zé, no lago do Miriti, acompanhava imóvel a movimentação externa que me fizera acordar. Tentava compreender o que se passava, mas o que ouvia servia apenas para me deixar ainda mais enrolado no lençol, com as mãos descansadas sobre o peito, com os dedos entrelaçados, fingindo-me de morto.

O silêncio rural fazia meu coração barulhar como um tambor apanhando em festa. O breu da sala era mais negro do que a escuridão que encobria o terreiro onde as coisas se passavam. Não tinha ideia de como a noite estava, até porque eu era apenas um curumim da segunda série do antigo primário. Mas a escuridão era tanta que pensei que o Sol havia se esquecido de acender as luzes das estrelas antes de descansar. A única coisa que podia fazer era aguçar a audição. E isso me fez ouvir os sussurros: “pega o ferro-de-cova”, “pega a enxada”, “pega o terçado”.

Instantes depois, ouço o tilintar de ferramentas se tocando e, em seguida, uma terceira voz sussurrando: “Não faz baruuuuulho”.

Não sei nem tenho ideia da hora que isso se passou, mas, naquele tempo, sete da noite, para mim, já era noite adentro, porque, assim que o Sol se punha, eu já estava no pano. Só dava tempo de ouvir o começo da Voz do Brasil.

Eu estava assustado. O dia que precedera àquela noite fora marcado por olhares desconfiados de minha avó Mariquinha, do meu tio Zé, da minha tia Mei, e da minha prima Cilica, que foi recebida por eles com tapetes vermelhos.

Aliás, é por causa da Cilica que vos conto este episódio. Cilica é minha prima mais velha. Em sua juventude, parava o trânsito, principalmente quando deixava expostas suas longas morenas pernas torneadas encobertas com pelos dourados. Pois bem, lembrei-me dela porque, sem querer, juro que foi sem querer, bati o olhar na perna de uma passageira do 458 que me fez viajar no tempo. Esquece!

Sim, paramos na recepção à Cilica.

Então, a prima tinha um sonho recorrente. Sonhava que era herdeira de um tesouro enterrado de valor incalculável e que teria que aceitá-lo para que seus antigos donos pudessem descansar em paz. Havia recebido todas as orientações, e o primeiro sinal de que os sonhos eram reais seria dado naquela noite: a entrega da fortuna ocorreria na noite mais escura do ano.

Cilica, vovó Mariquinha e o tio Zé, que se julgava o mais cético morador do Miriti, saíram com pás, ferro-de-cova e enxada para desenterrar o pote de ouro, como eles revelariam depois. Tudo coincidia. No local onde seria feita a doação da herança, o mato balançaria com um pequeno redemoinho. Lá, eles podiam cavar que, dois palmos depois, encontrariam o pote. E assim aconteceu.

Mas, senhores, quando meus parentes, começaram a se apossar do tesouro, eis que dona Mariquinha, grita: “Lá vem gente de canoa!” E todo mundo saiu correndo de volta para casa. E, de novo, fui acordado com as explicações da prima:

- Esqueci de falar pra vocês: esse era o último sinal. Quando a gente tocasse no pote, apareceria um homem vindo de canoa para entregar o pote de ouro.

Depois de pensar nas histórias da Cilica, deixei de olhar para as pernas douradas da passageira.

P.S.: Dona Dulcinda, 88, citada na crônica “A despedida da Pátria” (4/12/2010), morreu na última quarta-feira, 15. Ela era irmã de Dona Pátria, 86, personagem homenageada por esta coluna que faleceu no dia 28 novembro.

*Jornalista, filósofo e escritor.

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“Vem, meu filho, vem!”

 Neuton Corrêa*

Do nada, a mulher apareceu no cruzamento das ruas no mesmo instante em que o semáforo dava passagem para os carros que saíam da Praça da Polícia em direção à rua José Paranaguá, enquanto o sinal se fechava para o ônibus onde eu estava, na Floriano Peixoto, no Centro. Testemunha mais do que ocular da história, calculei o transtorno que me causaria o iminente acidente.

Como não consigo deixar em casa minha profissão de repórter, na hora que vi a cena, tracei o planejamento da cobertura: inicialmente, para dar a notícia em primeira mão, entraria, ao vivo, na rádio; depois, acionaria o portal www.acritica.com; e, por fim, levaria para o jornal as fotos da mulher que queria medir força com os carros.

Antes disso, imaginei que eu iria precisar dar uma carteirada no motorista do 600, implorando-lhe para que abrisse a porta antes de chegar no próximo ponto, no muro da Beneficente Portuguesa, onde é a parada regular da linha naquele trecho.

O acidente estava para acontecer. Em menos de meio segundo, o corpo da mulher estaria ali, espatifado no asfalto. Talvez nem levasse meio segundo. Velocidade e espaço indicavam que, em centésimo de segundo, o carro acertaria o lado direito do corpo da transeunte.

Não estou exagerando, senhores. Aplicando os fundamentos da Física, vocês haverão de concordar com este ser que vos escreve. E, para lhes provar isso, usei o conceito de Movimento Retilíneo Uniforme Variado, o famoso MURV. Com ele, poderia descobrir a velocidade do carro, o espaço entre o veículo em movimento e até a força da batida.

Sei que estão achando que estou viajando demais, porém tornarei a coisa mais simples. Para se encontrar tudo isso do que acabei de falar para vocês, basta aplicar a fórmula “Sa = Sb”, que se converteria em “So + Vo * t”. Ou seja: espaço inicial (So), mais velocidade inicial (Vo), vezes o tempo (t), igual à fração do tempo que estamos discutindo.

Pois bem, quando comprovei pela Física que numa piscadela seria obrigado a alterar meu sábado, senti um frio na espinha, minhas mãos gelaram, enquanto meus olhos observavam, em dilema, o iminente acidente: eles não sabiam se olhavam com o olhar de passageiro ou com o olhar de repórter ou com as duas coisas que sou como personagem desta nossa conversa de todos os sábados: passageiro-repórter.

A tragédia seria enorme. Não havia dúvida. O veículo era grande demais para sua futura vítima. Tratava-se de uma picape contra o corpo esquelético que atravessa a rua apressadamente, rebolando-se.

Eu não era o único a presenciar o episódio. Ao meu lado, o amigo Wellington, o Tolão, também observava aquilo que estava prestes a acontecer. A cena era tão ligeira que só deu tempo dele exclamar: “Putz, essa se lascou”, enquanto um pouco mais à frente outros passageiros antecipavam o final da história:

“Ela vai morrer”!

Mas, amigos do busão, a mulher não morreu. Pelo contrário, ela resolveu encarar o carro. Encarar é a palavra que me vem à cabeça, mas ela não encarou o veículo.

Na verdade, quando o carro acabou de arrastar seus pneus no asfalto em cima dela, a transeunte, deu um pulinho, meteu a mão no meio de suas pernas, abaixo do zíper de sua calça jeans e, com um rebolado sensual, gritou para o motorista: “Vem, meu filho, vem! Vem me matar!”.

*Jornalista, filósofo e escritor.

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