Archive for fevereiro, 2011

A vendedora de rosas abusada

 

Neuton Corrêa*

A mulher entrou no busão à altura do bairro São Jorge. Antes de aparecer no ônibus, primeiro apareceu a bengala que a apoiava. Não se pode dizer simplesmente que ela embarcou, porque não foi uma ação comum de embarque, mas um procedimento extraordinário de subida ao coletivo. Então, para tentar ser fiel à narrativa, precisa-se dizer que a escalada no 120 foi uma operação de embarque.

Não, senhoras e senhores, não lhe faltou solidariedade. Sobrou-lhe! Eu, assim que vi a dificuldade da mulher em entrar na viagem, levantei-me para ajudá-la, porém contive-me porque outro passageiro se atirou na minha frente para ampará-la. No entanto, assim que ele segurou em seu braço, a passageira puxou-o bruscamente e disse, olhando para ele: “Deixa que eu sei me virar só”.

Espantei-me com autoconfiança da passageira, porque, se não fosse ele a vítima da irritação dela, seria eu ou qualquer outra pessoa que tivesse tentado ajudá-la. Além disso, por mais que o vigor de suas palavras dispensasse ajuda, seu corpo e idade apelavam por apoio.

Mas a reação da passageira não chamava atenção apenas pela hostilidade das palavras. O comportamento também não combinava com o buquê de rosas vermelhas naturais que carregava no braço esquerdo, lembrando moças com livros a caminho da escola.

Logo que a vi com as rosas, achei que estivesse voltando para casa (até porque já era quase meia-noite); que tivesse saído de uma festa familiar ou mesmo de um encontro romântico de terceira idade, afinal, ela estava produzida como se estivesse indo ou vindo de um baile, Porque  ela cobria o corpo com o brilho do cetim, do pescoço aos pés, sendo que a blusa era mais vistosa do que a calca branca, pois era estampada com flores vermelhas, combinando com a cor das rosas que carregava e com o tom do esmalte que lustrava suas longas unhas.

No entanto, amigos do busão, a distinta mulher, deslocando-se com dificuldade, começou a abordar outros passageiros. Dirigia-se somente aos assentos onde casais estavam sentados e a eles oferecia as lindas rosas.

Ao passar por mim, puxou um botão e perguntou se eu que queria dar de presente à minha esposa, mas, com reação pensada, respondi: “Melhor não, minha mulher pode achar que estou com peso na consciência”. Ela resmungou alguma coisa e foi ter com o Ferreira, meu amigo e parceiro de viagem que estava sentado à frente com a noiva. Na hora, vi a transformação da passageira marrenta em vendedora sedutora:

- Essa dama merece a beleza de uma rosa, o senhor não acha?

Fisgado pelo poder das palavras, ele respondeu:

- Quanto é?

- Dez reais.

E meu amigo retrucou:

- Na Vila Municipal, eu compro dessas por cinco reais. E fechadas! Essa flor está aberta, deveria ser mais barata.

A vendedora, então, transformou-se, de novo, e rebateu:

- Vai querer ou não vai?

Quase desistindo do negócio, mas, talvez, pensando que a noiva não entendesse sua reação, ele puxou uma cédula de vinte reais e deu à vendedora. E ela:

- O senhor não tem uma nota de dez.

Meu amigo disse que não e ela o ordenou:

- Vá ali com o cobrador. O senhor não quer agradar sua namorada? Então, vá lá.

A namorada de meu amigo, porém, intrometeu-se na compra, puxou uma cédula de dez reais e encerrou o negócio. E a vendedora saiu da dali resmungando: “Rosa não é para quem quer, é para quem pode”.

*Filósofo e escritor.

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Ministro da Educação

Neuton Corrêa*

Acho que meu parceiro de viagem deve ter tido algum problema na noite passada. Assim que embarcou no 460 e passou pela catraca, ele foi direto para o fundão do ônibus e sentou-se no último assento do cantinho direito do busão. Ao invés dos bregas que costuma ouvir, tocou uma música que fez uns poucos passageiros olharem em sua direção. Ouvindo os primeiros versos da primeira canção que ele tocou (Todo dia quando eu pego a estrada / Quase sempre é madrugada / E o meu amor aumenta mais), lembrei-me de meu amigo Zezito.

Em 1984, quando essa música, Caminhoneiro, foi lançada, Zezito andava para cima e para baixo com o disco do Roberto Carlos. Recordo até hoje daquele LP. Era um disco branco, com a imagem do cantor na capa e na contracapa. O Roberto calçava sapatos brancos, vestia calça jeans e casaco do mesmo tecido com mangas compridas enroladas até o cotovelo e com dois botões desabotoados para deixar aparecer um cordão de ouro. Nesse vinil, Roberto Carlos está de cabelos curtos.

Pois bem, onde parava, Zezito pedia para tocar a primeira faixa do lado B e repetia a canção enquanto estivesse sentado com olhar compenetrado. Por causa disso, amigos do busão, sempre o achei um ser romântico. Mas, senhores, ano passado, conheci algumas presepadas que não conhecida do amigo de adolescência, com quem experimentei as primeiras meiotas e cheiotas.

Para vocês terem uma ideia, Zezito não se chama mais Zezito. Agora, é “Ministro”. “Sim, Ministro! Ministro da Educação”, respondeu-me o Romário, irmão dele, explicando-me: “O bicho era mais grosso que papel de embrulhar prego”. E eu, prontamente, contestei: O Zezito que eu conheci era romântico.

Mas o irmão dele rebateu: “Macho, tu não sabe: eu decorei todas as músicas do Roberto, porque toda vez que ele lançava um disco, o Ministro ligava a vitrola de casa e todo mundo tinha que ouvir quantas vezes ele repetisse o sucesso”. Confesso que tentei defender outra vez meu amigo, mas o Romário, que é bem mais novo do que o Zezito, começou a fazer um relato das histórias que ele já presenciou do irmão:

“Macho, quando o Ministro veio estudar em Manaus, ele morou comigo e com a Cris (irmã). Num dia, ele chegou se sentindo mal e perguntou:

(Ele engrossou a voz e fechou o rosto).

- (Cris) Tina, onde tem uma farmácia aqui por perto?

- Mano, aqui, a gente não precisa ir lá, não. É só ligar que eles atendem!

Macho, o Ministro colocou a mão na cintura e perguntou a dela:

- Quer dizer que aqui eles também aplicam injeção por telefone, é?”

Ri da história, mas ele continuou:

“Rapaz, o Ministro era invocado com o namorado da Cris, porque, toda vez que o Zezito chegava em casa e encontrava o namorado dela bebendo, o dia acabava para ele. Aí, macho, num dia, ele chegou em casa e encontrou o namorado da Cris bebendo. Nesse dia, o Ministro chegou com duas caixas de leite, e o cunhado perguntou:

- Ei, cunhado, vai beber leitinho hoje?

O Ministro respondeu tranquilamente:

- Não, isso aqui é para lavar a calçada. Eu gosto de lavar calçada com leite.

- Cara, meu cunhado saiu para pegar cerveja e, quando voltou, encontrou o Zezito com uma vassoura na mão e esfregando a calçada com o leite”.

Lembrando-me do Zezito, nem percebi o busão chegar ao local onde eu desembarcaria. Apressei-me para descer, mas resolvi desembarcar no outro ponto, porque, do fundo do busão, ouvi outra música do Roberto (Eu cheguei em frente ao portão/ Meu cachorro me sorriu latindo…).

Ah, ia esquecendo, quando o Romário me contou a história do irmão, ele me advertiu: “Macho, o Zezito agora está um amor”.

*Filósofo e escritor.

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Meu amiguinho da madrugada

Neuton Corrêa*

Todos os dias, encontro aquela família sentada no mesmo lugar: em dois bancos perto da porta de desembarque do 458. De longe, ela se destaca por dois detalhes: primeiro, os assentos são mais altos do que os outros, já que foram montados num sobressalto do assoalho da roda do ônibus e, segundo, porque, nos dois bancos ocupados por essa família, viajam cinco pessoas. Exatamente isso, nos dois espremidos lugares, viajam cinco pessoas.

Pai e mãe tomam conta das vagas. O pai fica com a da janela, com vista para a esquerda, e a mãe, com a do corredor. O filho mais velho, o qual suponho ter em torno de seis anos de idade porque ainda está com a dentição temporária perfeita, sem nenhuma janelinha, senta-se no colo do pai; a mais nova, de mais ou menos dois anos, geralmente, viaja atracada ao pescoço da mãe; e o do meio vem ao centro, com uma perna sobre coxa da mãe e outra, na do pai.

Imagino que eles saem muito cedo de casa para pegar o busão. Basta montar o quebra cabeça: ninguém tem vaga cativa nos coletivos. Talvez a família tenha o lugar reservado por embarcar no começo da viagem. E, como passam pela minha parada ainda sem a luz do dia, calculo que acordam antes das quatro horas da manhã.

Sim, não pode ser menos do que isso. E devem sair de casa correndo e lutando para os meninos acordarem. Você já pensou, no melhor do sono, sair do pano? Aliás, as crianças viajam todas agasalhadinhas. O mais velho, por exemplo, sempre vai de calça moletom até o tornozelo e com duas camisas, sendo uma de mangas cumpridas, com a gola apertando-lhe o pescoço.

O irmãozinho dele não é diferente. Sempre veste uma calça jeans, usa também camisa de mangas cumpridas de lã sintética e calça tênis azul que lembra as antigas congas chinesas. A menina nem se fala. Vai protegida pela roupa e pelo abraço da mãe. Os pais, não. Acho que não sente o inverno que as crianças sentem. Só os vejo de camiseta.

Quando os vi pela primeira vez há sete meses, na hora, pensei em escrever uma crônica sobre os cinco, chamando-os de “A Família Dorme”. É que na hora que embarquei, os cincos estavam de olhos fechados. Aproximei-me para observar melhor os detalhes, mas a mãe apenas fechava o olho. Os outros dormiam profundamente, enquanto, com olhar fixo e compenetrado, ela abria os olhos  para mostrar que vigiava o grupo.

Depois, na viagem seguinte, certifiquei-me de que não poderia mesmo chamá-los de Família Dorme, pois todos estavam acordados, até a menina. Pareciam haver combinados olhar para um ponto e brincar para ver quem não piscava.

Bem, mas, se fossem brincar disso, teriam que excluir logo o do meio. Ele, quando está acordado, não sossega. Ali, no lugarzinho dele, sozinho, fica fazendo caretas e mexendo com os outros (sem que a mãe perceba). Tanto que, de quando em vez, ele brinca comigo. Até lembro-me dos meus velhos tempos de bang-bang no quintal da velha Maria Preta.

Num dia desses, do colo dos pais, ele fez do dedo indicador revólver, disparando balas imaginárias na minha direção e, eu, também, com a ponta do dedo, discretamente escondido, contra-atacava. E, assim, brincamos até eu descer do ônibus e eles continuarem a viagem sabe-se lá para onde.

*Filósofo e escritor.

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Sons pela liberdade

 

Ivânia Vieira*

Doze países integram, nesse momento, a frente de protestos no mundo árabe e em territórios africanos. É a batalha por mais democracia e melhores condições de vida no Planeta Terra. Uma bandeira do passado ora erguida por multidões em várias regiões do mundo que inscrevem, na contemporaneidade, a nova etapa histórica das lutas pela liberdade e para assegurar os direitos da humanidade.

As manifestações desafiam os ditadores e as políticas de controle do mundo desenvolvidas a ferro e fogo por governos como os dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Os protestos, agora na versão longo alcance, chegam aos lugares mais distantes e promovem outras inquietações. Já não se discute o preço da transição no Egito, na Tunísia… Ele é alto demais, e se faz entre o sangue, a morte, a angústia, mas acima de tudo carrega a força da esperança realizadora de mudanças.

Os ditadores hoje encurralados, alguns forçados a largar o poder, foram e são muito bem recepcionados pelas potências ocidentais. O marco desse movimento é a ruptura de uma forma de governar o mundo, maquilada de moderna e democrática, porém geradora e mantenedora da cultura segregacionista, escravagista, desagregadora e antidemocrática. É ela que está sendo contestada numa das maiores mobilizações mundiais da primeira década desse século 21.

Da praça central do Cairo, onde um outro futuro está sendo rascunhado, passando pelas manifestações das mulheres italianas diante da série de escândalos sexuais do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, aos haitianos que tecem fios em nome de vida digna em Tabatinga, ou nos gritos dos sem-água de Manaus,  há um brado extrapolando a tela – grande e pequena – pulando para além das letras, compreendido pelo gesto da mão, pelo olhar flagrando outro olhar, o abraço capaz de alcançar o coração, aquecer a alma atordoada e fazer derramar lágrimas poderosas que, em forma de rio, nos levarão a cumprir o roteiro da viagem à liberdade, experimentada, conquistada, até cair o último muro.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da UFam.

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A ferra dos bois

Iriam Butel*

Uma nova discussão a cerca do Festival Folclórico de Parintins se desenrola, a proposta de um novo regulamento para direcionar as apresentações de Caprichosos e Garantido, colocaram as paixões azuis e vermelha em ebulição. A proposta de redução do tempo de apresentação de cada bumbá anula o que há de mais original nas apresentações: a surpresa, o frio na barriga, a imprevisibilidade, elementos essenciais para a compreensão da nossa festa.

Parintins vive a brincadeira do boi-bumbá há quase cem anos, 98 especificamente, no decorrer do tempo muito foi transportado, importado ou aniquilado na forma de se brincar boi. Nas dicotomias vigentes temos: tradição e modernidade; espetáculo ou brincadeira; manifestação popular ou “ópera” cabocla, capital circulante ou paixão voluntária. A lista é infinita, no entanto, antes dessa famigerada indústria cultural e formatos midiáticos.

Devemos questionar por que esta manifestação vem sofrendo mutilações? em prol de que? Turismo? Espaço na mídia nacional? Vamos lembrar de alguns pontos – mudança da data do festival, exclusão do item pai Francisco e Catirina do regulamento, retirada dos fogos, retorno dos fogos, Sinhazinha morena para Sinhazinha loira. Sob a desculpa de agradar o expectador. O boi sai das ruas para uma arena, das famílias para as instituições.

A despeito do que se comenta sobre o Festival de Parintins como a previsibilidade, o amadorismo, apenas reflete a total incapacidade de entendimento de uma autêntica manifestação da cultura popular que ousa sim se reinventar a cada ano. Identidade cultural não se importa e tão pouco se forja, há 98 anos se brinca de boi em Parintins, temos orgulho disso. Qualquer mudança nos rumos do Festival repercute de forma direta na história de vida de cada parintinense. Esta discussão traz outra reflexão, até quando o Estado e dirigentes dos bois vão brincar com a identidade cultural do povo de Parintins.

*Historiadora, presidente do Instituto Memorial de Parintins (Impin).

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Viagem nojenta

Neuton Corrêa*

Há três semanas tento esquecer-me da cena. Não consigo. Acho que estou traumatizado. Não há um busão em que eu entre que o estômago não reclame. Imagino-o rebolando, mexendo como barriga de mulher grávida com curumim sapeca desde o ventre, chutando a mãe para querer sair. O cheiro que meu nariz não sentiu, a imagem que os olhos não viram, parecem tão reais que ainda me atormentam.

Não falo de uma náusea de viagem, daquelas que me custam caro, quando minha mãe, minha irmã e minha sobrinha me visitam. Sem a habilidade que desenvolvi andando de ônibus, minha parentada não aguenta uma voltinha no 014, no 015, 016 ou 017, que demoram até três horas para completar o percurso pela cidade. Quando embarcam, minutos depois, lá estão elas empalidecidas, cheirando a mão e lá vou eu descer e, ao invés pagar a tarifa de R$ 2,25, desembolsar sabe se lá quanto com táxi.

O que falo, senhores, é de coisa nojenta, mesmo! E espero não lhes estragar o dia com essas coisas. Mas faço um pacto com vocês: prossigam na leitura que prometo não deixá-los com a repugnância. Tenho consciência que essas coisas não são para serem contadas em crônica jornalística, mas o que fazer se minha missão nesta coluna é narrar aquilo que o estranhamento incomoda?

Sei o quanto uma cena como essa é danosa. Eu, por exemplo, quando garoto pequeno, bem pequenininho, lá em Parintins, sonhava em comer tartaruga. Afinal, todo mundo falava que bicho de casco era bom (o único que conhecia era bodó), mas era um cardápio de custo alto e o máximo que minha família conseguia era uma cambada de jaraqui, às vezes doada pelos pescadores para não estragar na canoa.

E o sonho de comer tartaruga estava prestes a ser realizado, quando meu tio chegou do lago com uma daquelas que exigem a força de mais de um homem para carregá-la. Desde a hora que chegou à casa dele com o animal, passei a lamber a boca. Acompanhei passo a passo a matança, o preparo, até ajudei a catar lenha no mato para escaldar as vísceras, mas, na hora que o banquete foi servido, um cachorro (Sultão era o nome dele), começou a morrer de um ataque de raiva. Nem queiram saber como foi.

Agora, quase trinta anos depois, voltei a sentir as mesmas coisas. E a responsável por isso é a cobradora do 460, nova linha de ônibus que passou a operar há poucas semanas na Avenida das Torres. Naquele dia, nem tinha planejado embarcar naquela viagem, mas eu queria experimentar a novidade. 

Se eu soubesse o que ocorreria ali, mudaria o plano de viagem que tracei para ir ao trabalho. Havia tempo de sobra, uma hora, no mínimo. O planejamento previa que eu deveria embarcar no 458, com tolerância de meia hora para esperá-lo. Mas o 460 apareceu, assim que cheguei à parada. Estava vazio e era novinho. Então, não tive dúvida. Embarquei.

Por sorte, sentei-me nos últimos acentos do coletivo. Se tivesse escolhido um dos acentos vazios perto do motorista e da mulher, talvez o bodó no tucupi tivesse voltado para a boca, ruminando como um touro.

Tudo isso porque, senhores, mesmo de longe, enxerguei a cobradora se portando com estranhos modos. Primeiro, flagrei-a metendo a mão por baixo da calça, coçando e lavando a ponta dos dedos à boca. Por causa disso, deixei de olhá-la por alguns instantes, mas depois voltei a observá-la, dessa vez, a mulher coçava a cabeça repetidas vezes e, de novo, levava a ponta das unhas à boca.

Quando pensei que ela havia acabado com as marmotas, enxerguei-a levando as pontas dos dedos indicadores ao nariz, mas não esperei para ver: gritei para o motorista para parar e, debaixo da chuva, desci da viagem nojenta

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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A malhadeira da Loura

Neuton Corrêa*

A passageira ficou numa posição irresistível para qualquer olhar masculino. E não era uma passageira qualquer. Era a Loura da Madrugada. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, antes de o sol aparecer, é o clarão de sua pele e o brilho dourado de seus cabelos que primeiro iluminam a parada onde tomo o busão, na avenida das Torres, à altura do conjunto Boas Novas.

Lembro-me do dia 26 de agosto de 2010, primeiro dia em que ela pegou o ônibus, o 457. Guardei a data não por interesse, senhores. É que, naquele dia, foi minha estreia na linha. E, por coincidência, era o primeiro dia dela também. Ela dúvida sobre o trajeto. Eu, idem! Mas foi ela quem comentou o assunto, talvez querendo que a tranquilizasse. Então, mesmo sem ter certeza, respondi que o ônibus passava pela Bola do Coroado, sim.

Nesse dia, senhores, primeiro e único em que falou comigo, o cheiro dela chegou na frente. Exalava mais forte e atraente do que cupuaçu no pé da planta. Trançados como roupa lavada e espremida, pendurados no ombro esquerdo, seus cabelos (por enxugar) deixavam transparente a blusa de malha branca de sua roupa de trabalho.

Seu andar me chama atenção. Ela caminha em passos curtos e apressados. A pressa é compreensiva: é exigência para quem pega busão de madrugada, mas os passos miudinhos suponho que sejam impostos pelas calças jeans que costuma usar, coladas do tornozelo à cintura. E, ao usá-las, deixa a viagem e o começo do dia ainda mais especiais.

No dia que ficou na posição irresistível, não me passava pela cabeça o que acontecia com ela. Aliás, até hoje, não sei. Sei apenas que quando ela entrou no ônibus, sentou-se e escorou a cabeça no banco da frente, como quem quer tirar uma soneca. Foi nessa hora que outros passageiros começaram a se entreolhar e rir.

Depois disso, tive o impulso de deixar meu lugar para ver o que estava acontecendo, mas controlei a curiosidade. Imaginei uma série de coisas. Em princípio achei que ela estava passando mal. Mas logo afastei a hipótese, afinal, se estivesse precisando de ajudando (AJUDA), haveria fila para o socorro.

O Negão (parceiro de parada. Não sei o nome dele, porque, desde que passei a embarcar ali, ele já era conhecido assim: pela cor da pele. O Negão, por sua vez, não me conhece. Poderia me chamar de índio, mas me trata como Vizinho e, vez ou outra, usa de formalidade ao me tratar de senhor), que mora perto da casa da Loura, cochichou-me: “Ela está porre. Na casa dela, foi a noite toda de barulho”.

A informação do parceiro ainda não explicava as razões das risadas. E não foram poucas. Até o Velhinho da Saca (conheço-o assim porque é como sempre o vejo: com uma saca pendurada nas costas) passou por ela, riu e comentou para todo mundo ouvir: “Parece uma malhadeira”.

Depois dessa, fiz um cálculo e tracei o raciocínio: “vou me levantar da cadeira do busão três paradas antes do meu ponto; vai dar tempo de me aproximar dela, olhar disfarçadamente e ver a causa dos risos”.

Ao me aproximar da Loura da Madrugada, inclinada, exibindo as costas nuas, vi a piada: não era grande coisa. É que o cós da calça da moça desceu demais, distanciando-se da calcinha, encravada entre as montanhas carnudas de seu traseiro. E só então entendi o que o Velhinho da Saca havia falado: a calcinha dela tinha mais buraco do que malhadeira atacada por piranha.

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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