Archive for março, 2011

O banquete

Neuton Corrêa*

A comida deveria estar deliciosa. Sim, acho que estava! Daquelas que se prova e se exclama demoradamente: hummmmm!!!!!! Tão gostosa que colher e garfo eram dispensados. A mão parecia fazer parte do tempero! Lambuzava-se o que podia, chupavam-se os dedos, um a um, e encerrava-se a bocada com punhado de farinha amarela sacudido na palma da mão e atirado precisamente para a boca.

A comida estava quentinha, pegando fogo. Tudo preparado na hora. Caixas de verduras e pedaços de madeira que batiam as escadarias da Manaus Moderna com a dança das águas do rio Negro transformaram-se num braseiro, arrumado em um fogareiro improvisado com a ponta do concreto e um pedaço do ferro da armação de uma das escadas interditada pelo abandono do lugar.

Ali, com o fogo ardendo e sobre uma trempe retirada detrás de um dos armários que se perfilam na extensão do muro de arrimo (uma espécie de vestiário público ao ar livre), vinte e um peixes foram colocados por três homens para assar. Eram três rapazes de físico rústico, sendo que um deles, com tatuagens em várias partes do corpo, enxergava apenas com um lado do olho. Percebi isso quando ele mirou para o alto do muro na minha direção.

Ele não falou nada. Apenas olhou para mim. Naquela hora, pensei que levaria uma bronca por estar fotografando cada cena que eles protagonizavam na frente de dezenas de embarcações de linha e sob olhares curiosos.

Depois que o peixe só dependia do fogo, dois dos homens saíram da beira do fogão e voltaram logo: um trouxe uma sacola com farinha, e outro, outra sacola com cheiro-verde, pimentão, cebola e tomate. O tatuado, que havia ficado, puxou uma caixa de madeira e, com o fundo para cima, armou a mesa rente ao chão para servir o banquete.

Dava gosto vê-los comer, indiferentes ao público que lhes assistia. E, mais animada ficou a comida, quando outros rapazes se aproximaram para participar da refeição. Um deles se ofereceu para entrar na festa perto de mim, no parapeito do muro. Para baixo, ele gritou: “É bico seco?” E o tatuado, com a boca ocupada, olhou para cima e fez sinal com a mão para ele descer.

Confesso que nesta hora tive também vontade de saber se era bico seco, mas segurei a tentação de me acocorar junto a eles e provar da comida. Não faltava nada: lá estavam o peixe, o sal, o vinagrete, a farinha e limão à vontade para dar a última gota do tempero à comida.

Mas, senhores, não era somente eu que desejava a comida dos homens da beirada. Um picolezeiro que parou o carrinho ao meu lado fez uma observação: “Aí, só tá faltando pimenta”. Ele tinha razão: peixe assado sem pimenta seria como tomar mingau de arraial sem pó de canela.

Depois do picolezeiro, passou uma mulher carregando uma valise que parou, sorriu e comentou: “isso é bom no tucupi”. Era outra coisa que eu não havia pensado. Aquele peixe, assado do jeito que estava, bastava mergulhá-lo no tucupi, com um pouco de jambu, para ficar completo.

Assim que ouvi o comentário, desci correndo a escadaria para fazer o que deveria ter feito uma hora antes: entregar encomenda no barco. E, quando voltei, pensando sentir gosto de cebola, cheiro-verde, limão, pimenta e farinha na minha boca, atravessei para a Feira da Manaus Moderna e entrei no portão A, já imaginando o cheiro que o bodó (acari) iria exalar dentro do busão.

E assim agi.

Filósofo e escritor.

No Comments

Bate-papo na Internet

Ilustração: Myrria

Neuton Corrêa*

Estava saindo do jornal, na última sexta-feira, quando resolvi abrir meu e-mail e encontrei, online, no MSN, o amigo Aldenor, conterrâneo, quase vizinho e quase contemporâneo (ele é mais novo). Mas o Aldenor deixou Parintins no fim dos anos 90 e só vim reencontrá-lo em 2007 nas aulas de Metodologia do mestrado Sociedade e Cultura na Amazônia, que cursamos juntos na Ufam.

Quando vi meu amigo na Internet com o sinal verde-limão e a palavra “Disponível” na lista de meus contatos, pensei fingir não tê-lo visto. Naquela hora, 22 horas, era tarde demais; tarde para quem usa busão. Mas o Aldenor merecia uma longa conversa. Há uma semana ele embarcou para Campinas (SP), para se doutorar, e fez a despedida na minha casa, com muita toada de boi-bumbá.

Então, resolvi teclar com o amigo e agora reproduzo o diálogo:

Neuton diz:

E aí, companheiro, como foi sua primeira semana em Campinas?

Aldenor diz:

Lembrei pra caramba de vc (você).

Neuton diz:

Por quê?

Aldenor diz:

Aqui tem muita crônica do busão.

Neuton diz:

Rsrsrsrsr (risos).

Aldenor diz:

Olhando a realidade aqui, de fato, você tem razão que o transporte público é a solução do transporte e do trânsito.

Neuton diz:

Parte da solução.

Aldenor diz:

Sim! É que aqui os ônibus funcionam mesmo.

Neuton diz:

Um sonho!!!Conta.

Aldenor diz:

Tem um lance legal. Aqui, eles querem acabar com o dinheiro nos ônibus, para reduzir os assaltos. Quase todo mundo usa cartão eletrônico, mas você pode comprar os créditos pela Internet e em vários pontos da cidade. Muitos pontos.

Neuton diz:

Os ônibus são novos? Motoristas e cobradores falam com os passageiros? Deficientes e idosos são respeitados?

Aldenor diz:

Novos e limpos. Rapaz, motoristas e cobradores são, sim. Ontem, vi um motora esperar uma passageira que estava uns trinta metros longe. Dá para perceber que o pessoal é bem treinado.

Neuton diz:

Hummm!!!! (pensando).

Aldenor diz:

Campinas foi reconhecida pelo Governo Federal com o título de “cidade acessível é direitos humanos”, na categoria mobilidade urbana. Recebeu também o Prêmio Volvo de segurança no trânsito. Conta ainda com o PAI (Programa de Acessibilidade Inclusiva), que dedica atenção aos idosos e pessoas com algum tipo de deficiência. Está entre os seis municípios brasileiros que serve de modelo para o transporte público.

Neuton diz:

Ah, tá! Vc já andou bastante para estar falando isso? Vc já andou pelos ônibus da zona leste daí?

Aldenor diz:

Não o suficiente! Mas, cara, é outra coisa. Você entra na Internet e pode ver a hora que o ônibus vai passar. E funciona.

Neuton diz:

Meu amigo, desculpe-me, mas não posso continuar teclando com vc, porque já é tarde e só tenho um ônibus para ir pra casa. E, além disso, não esqueça: estou em Manaus.

*Filósofo e escritor.

No Comments

Taperebá e Carnaval

 

Neuton Corrêa*

Nas últimas semanas, quase todos os dias, na calçada da Avenida das Torres, na metade do caminho entre minha casa e a parada de ônibus, sinto vontade de rir, quando vejo a frondosa árvore de folhas miúdas, tronco graúdo e rugoso a lançar seus frutos amarelos e de cheiro que chega a adormecer os dentes.

Sim, a árvore fica na metade do caminho, nem mais nem menos. Sei disso, com exatidão, com a precisão de Fernando Pessoa, porque tenho o costume de contar os passos que dou em rotas frequentes. E nesse trajeto, que faço todos os dias, de manhã, de tarde e de noite, empreendo 400 passos simples, o que significa dizer que são 240 metros entre minha casa e meu encontro com o busão, já que cada passo que dou corresponde a 60 centímetros.

Explicado o espaço, vamos retornar à vontade de rir. E, para não dizer que fico só na vontade, um dia, quando não havia ninguém na rua (nesse trajeto), caí na gargalhada, imaginando a cena no velório do pai do Francisco, o mais novo de uma família de dezoito filhos.

Aliás, agora, escrevendo esta passagem, lembrei-me que poderia rir mais, ali naquele ponto, se tivesse recordado também o Monta (Na infância, era Monte ou Montanha), lembram? Sei que não, mas farei um flash back, para os que não leram a história do Monta possam saber do que estou falando.

Bem… O Monta foi escalado pelas irmãs para resgatar o pai que estava caído na calçada da Igreja de São José, onde uma multidão participava de uma celebração. Monta não perdeu tempo. Foi decidido a levar o pai para casa. Ao chegar lá e falar da vergonha que a família sentia, o velho respondeu: “Até tu, Monta? Agora que tu tá bonito, quer me dar lição de moral”. E Monta, feliz com o “bonito”, olhou para o cenário onde o pai estava e disse:

- O que é “icho” (assim mesmo: icho)?

E o pai:

- Corote, cachaça, pinga… Não conhece?

Monta respondeu que sim, olhou para uma sacola ao lado da garrafa e insistiu:

- E icho aí?

E o pai, prontamente.

- ‘Teperebá’.

Monta, então, desistiu da missão e falou:

- Me dê logo uma ‘doge’ aí.

Monta voltou para casa, mas carregado pelo Pai.

Se tivesse lembrado essa história, teria rido mais na metade do caminho. Acontece que a história mais fresquinha que tem passado pela minha cabeça é a do Francisco, cujo pai morreu há exatamente um ano. Não há como esquecer a data, porque o velho, de noventa e poucos anos de idade, morreu no início do inverno chuvoso amazônico, em pleno tempo de taperebá.

O problema do Francisco foi justamente o taperebá. O pai dele, na semana que morreu, chamou todos os filhos para pedir perdão, dar conselhos. Fazer os últimos ajustes de contas. Conseguiu falar com todos, menos com o Francisco, que, naquele tempo, não saía debaixo do taperebazeiro da rua da casa dele.

Mas, convencido pelos irmãos, Francisco se afastou um pouco da árvore para dar adeus ao pai, que insistia em dizer que só descansaria depois que visse e falasse com o Chiquinho, como ele o chamava. E assim aconteceu:

- Chiquinho, meu filho, quero que você atenda o último pedido que lhe faço: “Pare de beber”.

E Francisco não teve dúvida:

- Não, papai, não agora. O errado é o senhor que achou de querer morrer no tempo do taperebá e do Carnaval.

*Filósofo e escritor.

No Comments