Archive for abril, 2011

Petro Velho e seu reduto eleitoral

Massilon de Medeiros Cursino*

Desde a época de Ropoca, Juliano Santana sempre sonhou em um dia ocupar um cargo público eletivo, para atender os anseios de seu povo, dos mais humildes e daqueles que se sentem excluídos. Juliano cresceu, mostrou seu potencial como humorista, virou “Petro Velho”, se aproximou dos “homens importantes”, sem se afastar dos humildes, e entrou para vida pública como vereador.

Mas não foi assim tão fácil. Petro Velho teve que ser  corajoso e carismático numa campanha acirrada de captação e conquista do voto e da confiança do eleitor.

Na eleição de 2008, ao notar que havia muitos candidatos disputando cada palmo de rua na cidade, Petro Velho parte para a zona rural, mas, para sua surpresa, nas comunidades aonde chegava, geralmente já tinha passado alguém com cartazes, santinhos e outras formas de publicidade eleitoral.

Em suas andanças de campanha, certo dia, conheceu um indígena que lhe falou de sua comunidade-aldeia e da necessidade de alguém os representar, a exemplo do que já acontece na vizinha cidade de Barreirinha.

Petro Velho não contou duas vezes e, na primeira oportunidade, zarpou para área indígena, já contabilizando o voto do novo eleitor que o apresentaria a sua família e seu povo.  Não titubeou em enfrentar horas de lancha rio acima, mesmo que isso lhe custasse uma monstra dor nas cadeiras, que sua amiga Dra Danielle diagnosticaria como sendo nevralgia, na linguagem médica.

Apresentado ao líder tribal, Petro Velho sentiu que havia descoberto o mapa da mina. –Não seria possível outros candidatos se arriscarem a captar votos em lugar tão distante – Petro Velho ficou “disconformemente” empolgado com os irmãos indígenas que pensou até em mudar de personagem na apresentação de seu boi de preferência. Não queria mais ser Mãe Catirina…

Na viagem de volta a cidade, adornado de adereços típicos, incluindo o anel de tucumã no dedo anelar, Petro Velho trabalhava silenciosamente com a mente, calculando que com quase a totalidade dos votos daquela área, a eleição estava praticamente garantida. Não via a hora de contar para sua esposa e filho, do sucesso da visita.

A empolgação era tanta que ainda voltou duas vezes ao convívio dos amigos e porque não chamá-lo de “correligionários”. Só faltava sacramentar a votação. Nas conversas em grupo, o líder tribal falava na língua mãe. Todos aplaudiam e as índias riam, com as mãos sobre a boca. Katiane, esposa de Petro Velho, já pensava em fazer um trabalho social entre as mulheres e crianças da aldeia…

Abriram-se as urnas e Petro Velho foi eleito. A contagem do TRE foi tão rápida que não deu pra saber de imediato sua votação por secção. Também não precisava, agora era só comemorar no Bar da Chapada. Na hora de agradecer a votação, depois de Deus e de seus pais Balanga e da saudosa dona Silvana, Petro Velho, pela seqüência, manifestou seu penhor a comunidade indígena que lhe abraçou como um filho.

Passada a festança e a emoção de ser o primeiro Vereador eleito pelo PDT em Parintins, dias depois Petro Velho vai ao TRE atrás do Boletim de votação. Fez a triste descoberta de que teve apenas 1 voto na secção em que esperava arrebentar. Ficou ainda sabendo que o voto foi da Professora, que é da cidade. Suas comadres Astrid e Dina ficaram indignadas…

Anos depois, já com o coração contrito, e sem mágoas, Petro Velho volta à área indígena, para a inauguração de uma escola. Os nativos o saúdam e admitem:  – Na eleição passada não deu, mas na próxima, pode esperar!

Apesar da promessa dos receptivos indígenas, Petro Velho já confidenciou que não vai investir na área. Segundo ele, o motivo são as longas viagens e as fortes dores em cima da cadeira e da “pente”.

Por isso, quem quiser, que se habilite!

*Economista e escritor.

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Produtos da Zona Franca

Neuton Corrêa*

Sentado sobre um monte de terra da beira da BR-174, ao lado da esposa, uma senhora de olhos ameríndios, pele e cabelos afros, com mechas brancas começando a aparecer, seu Raimundo espera o ônibus. Riscando o barro do acostamento, nem demonstra a angústia que sua fala despida de ânimo ou permeada de desânimo pronunciaria à abordagem: “Vou ver meu filho que está baleado no hospital”, respondeu-me.

Aquela frase e o cenário de fim tarde e da maior e mais longa rebelião da história do sistema prisional do Estado, nos primeiros dias de 2004, retornaram-se a minha mente na semana que passou, quando voltei àquele trecho da estrada (km oito) para cobrir a inauguração de mais um presídio de Manaus. Ao sair da solenidade, que teve até a presença do ministro da Justiça, vi-me outra vez a ouvir a voz sussurrada daquele drama.

Como fazia há dois anos, seu Raimundo havia ido ao presídio visitar o filho mais velho de 25 anos de idade e o outro, de 23 anos, que estava recém-chegado ali, após condenação por assassinato, mesmo crime que levou à cadeia o irmão mais velho. Era manhã de sábado, terceiro dia do ano. Ele e a esposa estavam entrando na ala onde estava o filho de 25 anos, quando foram orientados a entrar em uma das celas.

“Foi uma gritaria e tiros pra todo lado”, relatou.

Só depois disso, seu Raimundo se deu conta de que o presídio havia lombrado (deflagração de rebelião, na linguagem dos detentos). No local aonde fora recolhido, todos estavam bem. Não havia nenhum ferido. Mas seu Raimundo não tinha notícia do outro filho, até que recebeu a informação do mais velho: “É o mano!”.

O “é o mano” descrevia sem humanidade a retirada de um dos feridos, carregado pelos colegas pelos braços e pelas pernas. Seu Raimundo viu o filho ensanguentado e com a cabeça pendurada, como se ele estivesse desacordado. Ele se pegava com tudo para se convencer de que o garoto estava vivo, mas a única coisa que ouvia era que “todos estavam mortos”.

Seu Raimundo veio para Manaus no início da década de 1980, expulso pela miséria do interior do Alto Solimões e atraído pela propaganda de emprego fácil e bom salário que se propagandeavam com o auge do comércio da Zona Franca de Manaus. “Lá, a gente plantava. Até que dava, mas não tinha para quem vender”, comentou, explicando um dos motivos que o fez deixar a roça.

Ouvindo a explicação, perguntei a seu Raimundo sobre os rapazes: se eram bons filhos, se haviam estudado, se trabalhavam… e ele, pelo nariz, respondeu positivamente ao interrogatório: “Hã! Ham!”.

Ainda fiz várias perguntas para ele, que, de quando em vez, era ajudado nas respostas pela mulher, mas, depois voltei a falar sobre o filho baleado e ele: “O pessoal aí diz que ele está bem, mas aqui fora todo mundo diz que eles morreram. Vou lá!”

Era quarta-feira, quarto dia da rebelião, e fiquei imaginando o drama que aquele homem vivera sem ter a certeza sobre a vida do filho. Nessa hora, fiz uma expressão que até parece que o casal ouvia meu coração. Tanto ouviu que a esposa do seu Raimundo logo falou:

“É, seu moço, a gente está sofrendo mesmo, porque, se a gente encontrar ele vivo no hospital, ainda hoje nós vamos lá para o Puraquequera. Lá a gente tem outro filho preso”.

O Puraquequara, senhoras e senhores, foi outro presídio que também passou por rebelião, naquele início de 2004. Nesse local, a tragédia foi maior. Em apenas algumas horas de motim, sete presos morreram.

*Filósofo e escritor.

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Pensando sobre jornal

Ivânia Vieira*

Fazer jornal é testar em poucos minutos as teorias e as práticas em nome da notícia boa; é aprender, a cada dia, a superar a rotina que acostuma o olhar e congela nossa percepção em favor da acomodação. É também sair do agrado fácil e enfrentar o mundo dos conflitos.

Fazer jornal não tem salto alto e sim a necessidade de andanças, mesmo que o andar nas ruas seja um exercício cada vez menos praticado por jornalistas. É angústia e alegria quase sempre solitárias vividas em um tempo acelerado, de espaço apertado e cioso por novidade (nem sempre é o olhar novidadeiro cobrado por Paulo Freire como sinal de uma existência com a marca de sujeito portador da liberdade e é mais de agenciamento bem combinado que reduz cidadania e faz crescer o número de consumidores).

Fazer jornal é apostar numa marca maior – alimentada por centenas de gestos e condutas realizados numa arena cada vez mais diversificada e não menos voraz – que só vai se completar se compreender e tornar público os males porque passam as populações e/ou os setores mais fragilizados da sociedade.

E é por isso um ato de esperança aqui entendida como energia capaz de gerar movimentos locais, nacionais, mundiais, de saber que há uma razão para amanhecer e para caminhar, de cabeça erguida.

Celebrar a vida duradoura de um jornal é celebrar também muitas outras vidas geradas e crescidas em torno dela e é denunciar as mortes injustas.

No discurso gráfico de cada página residem confrontos e uma impressão digital à espera de serem desvendados. Que as brechas nos ensinem a fazê-la plural como ontem, por todo o dia, aconteceu nos vários espaços do prédio deste jornal. Eram muitas vozes, de gente de paletó e de gente de sandálias de borracha.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam. 

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Calção de cordinha de punho de rede

Neuton Corrêa*

Ilustração: Myrria

As lembranças da infância se sucederam no busão depois que a mocinha embarcou no 014 à altura do Hospital Pronto-Socorro João Lúcio, na Zona Leste. Tudo porque a menina vestia um calção que não sossegava em sua cintura. Virava e mexia e lá estava a garota a pôr a mão no cós e dar uma reboladinha no corpo para assentar a roupa.

Ela fez esses movimentos umas três vezes sem que eu tivesse me atentado para a riqueza do gesto. Sim, um gesto rico, para mim. E mais rico ficou quando ela resolveu dar uma solução mais duradoura ao calção frouxo: puxou uma cordinha de punho de rede, esticou uma ponta para um lado e outra para o outro, cruzou-a como um xis (x), apertou a corda com um laço, escondendo-o na própria roupa.

Observando aquilo, perguntei ao parceiro de viagem, um sociólogo de meu tempo de faculdade, se aquela cena lhe lembrava alguma coisa, e ele, interrompendo o assunto político que conversávamos, sacudiu a cabeça negativamente. E continuei instigando-o: “Você usou alguma vez calção de cordinha de punho de rede?”

Sem esperar a resposta, contei-lhe que eram minhas roupas preferidas na infância. Quando eu percebia que minha mãe ia para a máquina de costura renovar meu uniforme do dia a dia, corria para perto para pedir-lhe que não colocasse elástico. Preferia mil vezes um calção amarrado na cintura.

A preferência é explicável, amigas e amigos do busão. Cueca foi coisa que só conheci quando estava na 6ª série, portanto, quando eu já era adolescente, aos doze anos de idade. Lembro-me muito bem da primeira. Uma peça de três cuecas de copinho que minha mãe comprou na João Melo, até então a única rua do comércio de Parintins.

Pois bem. Como eu era desprovido desse privilégio, sofria nas mãos dos adultos. Um deles era o Beto, que esperava a curuminzada se reunir, vinha por trás e, com um puxão, deixava o calção da gente no calcanhar. Com a corda de punho de rede, não. Sentia-me protegido desses bullyings, que, na época, não tinha esse nome sofisticado. Chamava-se judiação mesmo.

Assim que acabei a viagem ao túnel do tempo, meu amigo começa a história dele:

“Sabe do que eu tenho saudade da minha infância? Eu tenho saudade das conservas de carne e de sardinha enlatada. Tanto que meu sonho, quando moleque, era comer só eu uma lata de sardinha.

Lá onde a gente morava, a comida favorita era essa: conserva e sardinha. Os quintais eram cheios dessas latas. Era tanta lata que os cachorros do bairro eram conhecidos como “língua cortada”.

Ria da história de meu amigo, imaginando a cena do cachorro metendo a boca para tentar tirar um restinho de carne da lata afiada, quando outro passageiro, que ouvia nossa conversa, falou:

“Pô, vocês falando aí me lembraram do meu sonho de infância. Meu sonho era comer só eu uma lata de Leite Moça. Um dia eu consegui. Capinei o quintal de um vizinho e a primeira coisa que fiz com o dinheiro que ele me deu foi correr para taberna do seu Zé para comprar uma.

Sabe o que eu fiz? Peguei uma linha comprida e fui pescar no rio Negro. Deixei o Leite Moça no meu lado, com um buraquinho de prego para não sair tudo só duma vez. Tomei tudo, realizei meu sonho, mas depois…”.

O amigo desse passageiro também tinha outra história para contar, mas eu já havia chegado ao local onde desembarcaria. E desembarquei.

Ah, não sei onde menina do calção de cordinha de punho de rede desceu.

*Filósofo e escritor.

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Onires de Alcântara e o Rio Bonito


Massilon de Medeiros Cursino*


Desde muito jovem, Onires de Alcântara é encantado pela arte de escrever. Ainda na década de 80, Onires, adolescente, vendia seus cordéis pelas escolas públicas estaduais da cidade.
Sobrinho do saudoso Saracura e filho do cordial Foca, Onires levou em frente o sonho do jornalismo. Não cursou nenhuma graduação na área de Comunicação, mas aprendeu como ninguém a produzir os jornais do sistema Alvorada.
Sempre com seu radinho em mãos e o fone de ouvido, Onires é do tipo que fala rápido e ouve rápido, da mesma forma que se gaba que era rápido como jogador de futebol, defendendo o Corinthias do Aninga, comunidade onde conheceu sua esposa.
Certo dia, Onires convidou seu colega de trabalho Correa Neto para visitarem um compadre que trabalha em um órgão público estadual. Sequer entraram na instituição, o compadre, que estava de saída, encontra-os e os saúda de forma bastante cortês: – Compadre Onires, cadê a minha afilhada? Onires tira o fone do ouvido e responde que está tudo bem com sua netinha, a quem devota um amor paterno.
Breve em falar sobre a afilhada ao compadre, Onires faz um convite irrecusável para um fim de tarde de sexta feira: – Compadre, viemos aqui lhe convidar pra tomar “uma bem gelada” no Bar “Comunas”.
De pronto aceito o convite, os três se dirigiram à praça onde o crepúsculo se faz mais belo à medida que o sol beija o Rio Amazonas em frente ao Xibuí e ao Paraná do Espírito Santo de Cima.
O Compadre, gentilmente, propõe patrocinar três cervejas, recebendo um “Beleza!” de Onires, que assim responde toda vez que acha agradável uma proposição. Ele diz que quando responde “Beleza”, sempre lembra de um ex-colega de trabalho a quem nutre uma grande amizade.
Na metade da terceira e última cerveja, Onires mira ao pôr-do-sol e ao rio Amazonas e diz: – Meu compadre, nós aqui bebendo em frente ao maior rio do mundo e diante desse por do sol, dá vontade de tomar mais três.
O compadre concorda e pede mais três cervejas por sua conta, desta vez acompanhadas por uma porção de bolinho de piracuí.
Chico da Silva ao fundo cantando “Que tempo bom, que não volta nunca mais..”, palitos já espetando os últimos bolinhos de piracuí e as três cervejas acabando, Onires começa então a declamar: – Oh rio bonito…
O compadre tira a chave do bolso da frente de sua calça, puxa a carteira do bolso de trás e gesticula como quem vai pedir a conta e se despedir, quando Onires novamente declama: – Oh rio bonito!…

O compadre, manjando que o momento de contemplação ao rio coincidia sempre com o esvaziamento da terceira garrafa, estende a mão a Onires e diz: – Com licença meu compadre, esse rio realmente é bonito, o problema é que minha carteira está ficando seca. Vamos embora e termine sua declamação noutra ocasião. Essa não será a última vez esse rio vai estar bonito!

*Economista, Bacharel em Direito.

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Machado de Assis: um santo remédio

Neuton Corrêa*

Ilustração: Myrria

Não queria me desfazer do livro, mas eu estava aperreado. Não havia me dado bem com o lanche da estrada. Foi bater e ver. Não sei se o desarranjo era da comida vencida ou se, efeito psicológico da desconfiança. Mas havia aceitado as consequências da gula apenas para provar a tão falada arepa, comida da culinária da Venezuela, para onde viajei na semana que passou.

Fui de busão e voltei de carro. E, como a viagem se demoraria um dia inteiro, resolvi me acompanhar de dois Machado de Assis, “Papéis Avulsos” e outro livro com o título “Melhores contos: Machado de Assis”.

Para começar, a viagem de ida foi interrompida à altura do km 200 da BR-174. As chuvas haviam destruído um trecho da rodovia. Resultado: quatro horas de espera para que operários e máquinas recuperassem a estrada. Adorei o problema, porque aproveitava ao máximo para ler as obras.

Essas quatro horas foram suficientes para uma descoberta que parece tola, mas que me rende até hoje, uma semana depois, a imaginação da cena. É que no conto “O Alienista”, o escritor dá uma explicação pra lá de convincente sobre a origem do sinal de positivo que a gente faz com o dedo polegar.

Conta Machado de Assis a história do Dr. Simão Bacamarte, filho nobreza do Brasil dos idos do século XIX, o maior dos médicos da época, o Alienista, como é chamado no conto, era um homem obcecado pela ciência e que resolveu construir, na vila Itaguaí, uma casa para dementes. Essa casa recebeu o nome de “Casa Verde”.

Bacamarte recolhia à Casa Verde todos aqueles que a observação científica julgasse demente. Com base nisso, pôs no hospício uma multidão: vereadores (todos), gente de outras cidades, o melhor amigo, a esposa e ele próprio acabou se internando no casarão.

Pois bem! Aí vem a explicação do sinal de positivo: num determinado período do vigor dos poderes do Alienista (ele era poderoso, segundo o conto), Bacamarte determinou o uso de um anel de prata no dedo polegar esquerdo de todo aquele que se declarasse de descendência germânica sem prova documental. Esses eram recolhidos ao hospício e, então, para mostrar que estava tudo bem com eles, exibiam o anel.

Bem, o problema, para mim, foi que na volta da viagem, antes de cruzar a fronteira, a barriga reclamou. As primeiras contrações vieram tão intolerantes que precisei aspergir três vezes as terras do comandante Chávez. Nem mais nem menos. Três vezes! E, medicado, retornei ao Brasil.

Na fronteira, porém, encontrei três enormes filas de carros e as contrações intestinais me atacaram outra vez. A primeira fila, a da guarda venezuelana, suportei com muita reza; a segunda, já no Brasil, do controle fiscal, venci com paciência de Jó. O drama maior viria na última fila: a do posto da Polícia Federal.

Essa fila não andava. A única coisa que andava era minha imaginação, tentando deixar o carro e correr atrás de uma moita. O problema é que essa mesma imaginação me advertia: eles podem achar que você está fugindo ou tentando eliminar alguma coisa, que não era exatamente aquilo que eu queria eliminar.

Ao me aproximar do ponto da abordagem, calculei: acho que será lá, exatamente lá será minha desgraça. Ora, o agente que fazia a abordagem encontrava problema em tudo, revistava tudo e só liberava o veículo depois de um sermão.

Ouvindo um dos sermões, intuí: “esse policial não vai parar nosso carro”, disse para meu primo Lucinor Júnior. E, olhando para trás, pedi que minha mulher me desse o “Papéis Avulsos”: “Traz aqui que ele vai liberar a gente”. E assim o federal nos abordou solenemente: “Os documentos do carro, senhor”, disse ele ao primo motorista.

Ato contínuo, o policial olhou para mim, que fingia ler, e bradou: “Ah, o cidadão é intelectual! Que livro é esse?” E eu não lhe disse uma palavra. Apenas virei a capa da obra. E ele prontamente decretou: “Machado de Assis! O maior escritor brasileiro! Seja lá o que vocês estejam levando, pode passar”.

E eu retruquei: O livro é seu! De lá, até Manaus não senti mais nada.

*Filósofo e escritor.

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Sem medo da crise

Ivânia Vieira*

Em meio às previsões catastróficas feitas em diferentes regiões do mundo, o jornalismo resiste e tenta traçar o seu novo caminho. Está em crise. É um fato. Mas não a crise traduzida em morte generalizada e sim no embate para criar outras possibilidades da existência ativa.

Nesse processo, no campo empresarial, alguns jornais desapareceram; outros migraram para a versão eletrônica; e alguns experimentam propostas compartilhadas envolvendo setores até então alheios a esse tipo de negócio.

Nos Estados Unidos, algumas fundações entraram em ação para trabalhar um jornalismo numa outra perspectiva editorial. Aos profissionais, interessa o êxito das empresas e que esse se realize na busca permanente da qualidade do jornalismo realizado.

Nosso negócio tem como regra número 1 o desempenho técnico e o compromisso ético e humanístico, como prega Luiz Costa Pereira Junior. Perceber as trilhas abertas na contemporaneidade é uma das portas abertas para oxigenar o jornalismo ora asfixiado.

Outro dia, ao conversar com alguns jornalistas e estudantes de jornalismo, o jornalista e hoje um dos mais premiados escritores brasileiros Laurentino Gomes (autor de “1808” e “1822”), disse: “(…) o jornalismo não está condenado à morte. Ao contrário, os meios passam, mas o (bom) conteúdo permanece. Jornalismo honesto, bem feito, com reportagem e informações bem apuradas, continuará a ser relevante. (…). É na qualidade do conteúdo que temos de nos concentrar para garantir o futuro dessa profissão”.

O jornalismo está sendo reposicionado. Ampliam-se as exigências e o seu papel nas sociedades do Ocidente ao Oriente. Nossa bússola se faz no compromisso de limpar as lentes e clarear os caminhos, às vezes são trilhas a serem abertas até surgir a estrada que se faz na luta permanente pela ética e a liberdade em respeito aos povos e por dever de promover a voz de uma multidão ainda sem direito a ela e de ser a outra parte do coro para que seja ouvida e provoque mudança.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A revolta dos macacos

  

Neuton Corrêa*

Foi um susto encontrar o Guaribão no busão. Ao vê-lo, levei a ponta dos dedos da mão direita à testa; depois, ao peito; em seguida, perto do ombro esquerdo; e, por fim, ao ombro direito. E, enquanto ele não me via nem eu falava com ele, repeti o sinal da Cruz no pensamento.

Poderia evitá-lo, passar por ele e fazer de conta que não o tinha visto ou que não lembrava mais de sua figura. Afinal, 25 anos já se passaram desde o tempo que o conheci nas cabeceiras do rio Mamuru, em 1985, quando eu tomava conta do barco do meu pai. Antes de conhecê-lo, conheci primeiro suas histórias. Não havia quem não contasse as aventuras do Guaribão. Por onde andava, de porto em porto, ouvia as dele.

Pessoalmente, não havia nada de extraordinário nele. Era um sujeito de pouco mais de um metro e meio e, suponho, um ou dois anos mais velho do que eu. A diferença principal entre mim e ele é que eu era um espetinho de churrasco, e ele um “caboco” entroncado, um tronco de itaúba. No futebol, ninguém o derrubava nem tinha a habilidade que tinha para quebrar a perna dos adversários com golpes de tesoura voadora.

Mas as histórias que mais se ouviam eram as de suas caçadas. Muitos acreditavam que, na mata, ele fazia pacto com o Credo-em-Cruz, já que nunca voltava com as mãos abanando. Ouvi até dizer que era tão selvagem nas caçadas que dispensava a companhia de cachorros. Isso, porém, era um exagero. Eu mesmo testemunhei que não era assim. Na verdade, Guaribão possuía um cão chamado Quebra-Mato.

Naquele dia que o vi em ação é que percebi a razão da fama. Guaribão soltava o Quebra-Mato e, assim que ouvia o latido do parceiro, saía em disparada para acompanhar a perseguição. E não imaginem um caçador equipado, não! Ele era desprovido de tudo (usava apenas uma espingarda calibre 36, às vezes). No meio da floresta, corria descalço até acuar o animal.

Por causa disso, admirava o Guaribão. Quando chegava à cidade, por exemplo, eu propagava as aventuras selvagens. Porém, na última vez que o encontrei, antes de parar com as viagens para o Mumuru, acabei concordando com os comentários do povo de lá sobre a ligação dele com o “Coisa-Feia”.

Guaribão contou que certa vez, ao atravessar o Mamuru, no fim da tarde, observou a distância, no horizonte, algo se mexendo no meio do rio. Remou e, à medida que se aproximava da coisa, dava-se conta de que se tratava de um homem nadando. Remou, remou e, quanto mais perto ficava, mais certeza tinha de que se tratava de uma pessoa tentando vencer a água. “Seu mano, o cara nadava muito bem. Dava cada braçada”, dizia.

Certo disso, de que se tratava de alguém tentando se salvar, Guaribão relatou que acelerou ainda mais o socorro. Ao chegar perto, porém, ele percebeu que não era um homem, mas um macaco, uma enorme guariba (macaco guariba):

“Aí, seu mano, eu peguei o remo e disse: ‘Ah, tu não é gente, é?’. E dei-lhe uma cacetada que o bicho virou na hora. ‘Purra’, mas na hora que eu fui colocar o bicho no casco (canoa pequena, feita de tronco inteiro de árvore escavado), eu ia alagando. Aí, eu peguei uma corda, amarrei no pescoço dele e reboquei a guariba até a beira”.

Quando pensava que já havia acabado o relato, Guaribão prosseguiu:

“Ainda bem, seu mano, que, quando cheguei na beira, amarrei a guariba num tronco de árvore pelo pescoço, porque na hora que eu virei de costa, o bicho se levantou, ficou de pé e quis me atacar. Só não me pegou, porque a corda não deixou. Aí eu disse: ‘Tu qué, é?’. Peguei o remo e, assim que preparei a porrada, a guariba meteu as mãos na frente para se proteger”.

Antes que concluísse, perguntei se havia terminado o serviço e ele, sem o remorso que eu sentia, disse: “Claro”.

Esta semana, quando encontrei o Guaribão no ônibus, a primeira pergunta que lhe fiz foi:

- Cadê as guaribas?

E ele.

- Hum, nunca mais, parente. Depois que matei aquele macaco, toda noite os parceiros dele iam lá na minha canoa fazer cocô. Foi o jeito eu sair de lá.

*Escritor e filósofo.

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Crise de perfeição

Neuton Corrêa*

De cara, não dava para fingir que as duas meninas que embarcaram no Centro, na avenida Getúlio Vargas, eram apenas mais duas passageiras. Elas não eram passantes. Correto, talvez, seria dizer ficantes, porque, delas, muita coisa ficaria. Eram tão incomuns que valia a pena dar uma espiadela. Pareciam gueixas ou artistas de circo.

Sob o branco da maquiagem que cobria a rosto, a morenez das garotas desaparecia para reaparecer nas partes que as calças e blusas de mangas compridas que vestiam deixaram à mostra. E as faixas da pele que ficavam expostas faziam um círculo para exaltar ainda mais os contornos dos tornozelos e barrigas saradas das meninas.

Não sei descrever se eram altas ou baixas, mas não dava para dizer que era uma coisa ou outra, porque nelas tudo era proporcional. Pareciam ter sido esculpidas pela paciência da eternidade de um tempo de sete dias e sete noites, o tempo eterno do verbo que ordena a perfeição.

Ali, espiando as esculturas, até imaginava ouvir a ordem da perfeição: “Faça-se o rosto”: e o rosto se fez com boca suave, olhos modelados e narizes afilados pela mão do mais preciso artesão do corpo humano; “Façam-se as pernas”: e as pernas brotavam simetricamente torneadas, para assentar os quadris que se destacavam das demais partes.

Devo revelar-lhes, amigo e amiga do busão, eu não era o único a me assanhar e me bestar (no pensamento) por elas. Até as mulheres olhavam. Olhavam e se cochichavam. Mas, e daí? Falar o quê. Era o primeiro dia do Carnaval e elas poderiam ser artistas mesmo ou estar maquiadas para algum espetáculo.

Elas não quiseram sentar no busão. Havia lugar. Depois das 22h, sempre sobram cadeiras, mas preferiram dividir o suporte do busão onde os passageiros se apoiam quando a viagem está superlotada. E lá, pertinho de mim, começaram a conversar, e eu a conhecê-las pelo nome.

Aprendi os nomes das meninas porque na conversa elas deixaram escapá-los. Uma se chamava “Cel ou Céu”. A outra era a Marcela. Na verdade, às vezes, a Cel chamava a amiga de “Má”, de “Cela” e, por fim, “Marcela”:

Da parte do diálogo que ouvi, apenas por causa de meu magistério de passageiro-repórter, elas estavam se queixando:

- Eu estava rouca.

- Passei o dia com febre. Só vou não sei nem por quê.

- Eu também. Só vou porque ele percebeu que eu estava rouca.

Nessa hora, as duas fizeram um breve silêncio e Céu, sussurrando, perguntou à parceira:

- E aí, Má, me conta:

- Nada!

Os ouvidos dos abelhudos se aguçaram ainda mais. E Céu continuou, falando deliberadamente:

- Ah, ele é muito devagar. Ele quer namorar. Namorar não dá.

- Nem naquela noite?

E Má assentiu:

- Nem naquela noite.

Depois disso, a Céu veio abaixo:

- É, Má, eu também acho que vou voltar no zero. Até agora, por amor, não peguei ninguém.

Como já havia passado de minha parada, desci no ponto seguinte.

*Escritor e filósofo.

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