Archive for maio, 2011

O atalho do casuísmo

Wilson Nogueira*

Os empresários dos agronegócios aprovaram, na Câmara dos Deputados, o Código Florestal, que poderia muito bem chamar-se Código da Anistia ao Crime contra a Floresta. Para entrar em vigor, a lei necessita de votação no Senado Federal e, se for emendada, retornará aos deputados. Uma nova aprovação na Câmara coloca a lei no colo da Presidenta Dilma Roussef, para sanção ou veto. Ela já adiantou que vetará as emendas que estimulam novos desmatamentos e desobrigam infratores de replantar áreas degradadas.

A lei aprovada na Câmara autoriza os Estados a decidirem sobre atividades agropecuárias em áreas de preservação permanentes, e ainda determina que quem desflorestou até 22 de julho de 2008 e hoje produz nas margens de rios está desobrigado de recompor a floresta. A aprovação desse texto confirma articulação do grande capital no Legislativo e revela que a sociedade ainda é insensível a temas ambientais. Em votações como essa, é possível observar o quanto Legislativo é dominado pelo poder econômico, cujo único compromisso é com o mercado.

Deixar as florestas – ou quaisquer recursos naturais, como água e terras – sob domínio total da mão invisível é o mesmo que autorizar catástrofe ecológica a curtíssimo prazo. Caso o Estado não estivesse, ainda que de forma tímida, reprimindo o desmatamento ilegal há décadas, a Amazônia seria hoje um imenso deserto. Essa hipótese, por sinal, não está descartada, porque o agronegócio e outros negócios se espicham para novas fronteiras.

A aprovação do Código contra a floresta mostra, também, que os políticos brasileiros defendem grupos econômicos em detrimento dos interesses da população. A ciência já atestou que as florestas produzem serviços ambientais – desde o sequestro de carbono, um dos gases de efeito estufa, até a distribuição das chuvas – fundamentais para o equilíbrio ecológico do Planeta. Ora, o bom-senso manda que usemos os recursos naturais de modo sustentável, para que eles sempre se renovem e gerem benefícios sociais, econômicos e ambientais

Não é isso que os senhores dos agronegócios querem. Eles almejam anistia de multas e mais terras para turbinar seus lucros. O contrário dessa atitude é investir em pesquisa, ciência e tecnologia para melhorar cada vez mais a eficiência da agricultura nas terras já disponíveis e estabelecer níveis de excelência em manejo florestal. A produção de conhecimento é um assunto enfadonho para certos segmentos empresariais, principalmente quando eles são chamados a financiar projetos de pesquisa. Por isso, preferem o atalho do casuísmo deslavado.

É necessário, portanto, que a sociedade fique atenta à movimentação dos senadores, para que as leis que protegem a floresta avancem e não sofram retrocesso. Sem pressão social, a tendência, pelo perfil do Senado, e a de que o Código contra a floresta seja aprovado sem muita dificuldade. Só uma provável reação da sociedade a esse ataque à proteção responsável ao meio ambiente pode levar os políticos a mudarem de idéia, ao menos por alguns instantes, porque o grande capital é insaciável. A história está aí: o que aconteceu com as reservas florestais da Europa? O que está acontecendo com a floresta Amazônica?

É tempo de ficar muito atento.

*O autor é sociólogo, jornalista e escritor.

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Morreu fazendo H

 

Neuton Corrêa*

Relatos das crônicas do jornalista Claudio Amazonas dão conta de que, há muito, viveu, no bairro Educandos, um homem conhecido como Chico Dacalé. Os relatos registram que essa figura tornou-se ainda mais famosa depois de sua morte. Um fato curioso, segundo Amazonas, e gente que jura ter conhecido tal personagem, é que Dacalé morreu fazendo H.

Eu já havia esquecido o Dacalé, afinal, passaram-se 11 anos desde o dia em que escutei atentamente a história do homem que morreu fazendo H. Aliás, nem me dei conta de que havia memorizado cada detalhe daquela crônica, da cena, do salão de danças e das pessoas que não se deram conta de que Dacalé havia morrido ao lado delas. E, como minha memória pode ter perdido preciosas informações, peço permissão ao querido Amazonas, que só conheço de fama, para contar algo semelhante.

Esta semana, esse personagem ressuscitou do nada nas minhas viagens de busão. Nunca o conheci, mas juro que o vi viajar comigo no 004. O embarque dele ocorreu onde sempre imaginei que um dia pudesse encontrá-lo: no Educandos, quando o ônibus contornava a orla do rio Negro.

Esse Dacalé vestia branco da cabeça aos pés: o chapéu panamá tinha a copa circundada por uma fita branca um pouco acima da aba; a camisa, branca, parecia ter sido feita de morim, mas diferenciava-se desse tecido pela leveza com que se balança sobre sua calça. Bem, a calça… A calça também era branca, porém não tinha a mesma alvura nem da camisa nem dos sapatos, que se destacavam de sua roupa por ter uma fivela reluzente dourada, a qual se podia perceber que havia acabado de ser polida.

Mais dois detalhes chamavam a atenção: o perfume e os cabelos. Ele estava mais cheiroso do que cupuaçu no pé da árvore. Ainda passava pela catraca, mas no fundo do ônibus já dava pra sentir o cheiro sufocante do extrato que usava. Os cabelos eram cacheados e, pelo que notei, os cachos foram arrumados um a um. Ah, parecia estar usando brilhantina.

Sentar-se foi outra coisa. Não foi simplesmente uma sentada. Foi um ritual de sentação: primeiro, ficou perto da cadeira, puxou uma toalhinha do bolso, passou-a sobre o assento, suspendeu a camisa, a calça, balançou a cabeça de um lado para o outro, rapidamente, fazendo os cachos dançarem e, finalmente, acomodou-se cruzando as pernas e abrindo os braços.

Foi ali, naquele ritual, que disse para mim mesmo: esse é o Chico Dacalé.

Até onde me lembro, assim as crônicas do Educandos o descrevem: como um ser performático em tudo o que fazia, principalmente como pé-de-valsa. Na verdade verdadeira, asseveram os relatos que, por causa de sua incrível intimidade com a dança, Chico Dacalé era também conhecido como encantador de mulheres.

Pelo que me recordo das histórias dele, sua habilidade como dançarino o fazia diferente do grupo de rapazes do qual fazia parte. Eles eram três: Otinha, Paixão e Chico Dacalé, acostumados a acabar com festa. Mas o que me impressiona, e o que me intriga, é que os relatos do lugar dizem que o Chico era diferente. Sua praia era mesmo a dança.

E foi dançando que aconteceu seu passamento. Ele era muito jovem e muito charmoso, dizem as crônicas. Estava dançando com uma linda dama quando se despediu dos amigos, das mulheres, da música, da dança e dos salões de então.

Naquele dia, dançou como nunca e como ninguém; dançou com todas as mulheres que ousavam ir além de uns passos acanhados, inclusive com mulheres casadas, que só se aproximavam mediante autorização dos maridos.

E Dacalé dançou, dançou até se cansar. E foi-se descansar em uma cadeira ao redor do salão. Lá, cruzou as pernas, abriu os braços, sorriu como galã de cinema e morreu sem que ninguém percebesse.

Foi ali, naquele instante, que alguém imortalizou a frase: “Ele morreu fazendo H”.

*Filósofo e escritor.

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Mãe rica em busão

Neuton Corrêa*

Lembram a crônica da semana passada “Filha de rico em busão”? Pois é. Adivinhem? A mãe da moça leu a história e respondeu.

Para os que não leram o episódio, contei a história do Claudomiro, forte empresário do Estado do Amazonas. Ele queria saber de mim se, realmente, ando de ônibus e perguntou-me se é possível andar para qualquer lugar de Manaus de busão. Com ele, discuti algumas de minhas ideias sobre transporte público.

Disse-lhe, na ocasião, que não sei quando o uso de carros será considerado algo abominável. E aproveito agora para lhes dizer de onde tirei essa coisa: do cinema. Lembro-me que, na década de 1980, os artistas sempre apareciam no cinema apreciando cigarros. Parecia regra. Hoje, é fato raro. Fumar não combina com nada e de charmoso passou a cafona.

O Claudomiro anda inquieto com trânsito. Queixa-se que tem quatro carros em casa, mas que pensa em pegar ônibus porque a quantidade de carros na cidade já não lhe permite mais acelerar em alguns pontos. Então, pedi-lhe que imaginasse um trânsito com mais 800 mil carros. Falava, é claro, dos 800 mil passageiros que usam o transporte público todos os dias.

No contexto atual, isso pode ocorrer porque o poder de compra do brasileiro aumentou bastante e oferta de carro vê-se nas ruas como oferta de banana em feira. No fim da conversa, ele me explicou porque estava me interrogando sobre o busão: a filha dele, agora, quer andar de ônibus e convidou-o para acompanhá-la.

Pois bem, feita essa digressão para nivelar nossas informações, vamos à mãe da garota:

Não citei o nome completo do Claudomiro nem o nome pelo qual é conhecido demais no Estado para não expô-lo, mas acabei surpreendido pela esposa dele no domingo passado. Também não citarei seu nome, mas porque não lhe pedi autorização. Porém, só para aliviar a curiosidade das senhoras e senhores, darei apenas uma informação sobre essa personagem: é sócia da Coca-Cola.

Então. Tenho o costume de publicar nossas crônicas de todos os sábados no meu blog www.textobr.com, anunciando-as pelo meu Twitter: @NeutonCorrea e pelo meu Facebook: Neuton Corrêa. E para minha surpresa vejam quem comentou a história. Justamente ela.

Assim provoquei os internautas:

“Na crônica do busão desta semana, conto o drama de um empresário poderoso do Estado. A filha dele quer andar de ônibus: “Filha de rico em busão” – www.textobr.com.E assim ela respondeu em quatro posts:

Post 1: Cursei faculdade no Rio de Janeiro, no final dos anos 80 início dos 90. Quando cheguei, morava na Barra e pegava o 179, às 06h30 da matina para ir pro Centro do Rio, onde fazia cursos de línguas. Meio-dia, pegava o 175 até o Flamengo para a faculdade – FA…

Post 2: Até hoje, quando vou ao Rio, me desloco pela Zona Sul de ônibus…

Post 3: Quando era estudante, aqui em Manaus, usava muito ônibus para voltar para casa do Centro… Mas, hoje…. não sei se tenho essa coragem. Vejo os ônibus velhos, sujos…

Post 4: Escuto as pessoas que trabalham comigo e é reclamação… Acredito que é a melhor opção para nossa cidade mas, desde que o cidadão seja tratado dignamente e não como sardinha de segunda, enlatada.

Meu Post-resposta: Que experiência! Concordo com você: não é esse modelo de sistema de transporte público que resolverá o problema. Você tem razão. A discussão é boa. Grande abraço!

*Filósofo e escritor.

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A cidade, o lixo

 

Ivânia Vieira*

Matéria publicada em A CRÍTICA, edição de ontem, mostra o efeito imediato de um dia sem o trabalho dos garis: uma cidade tomada pelo lixo, de todas as matizes. Serve como oportunidade para produzir reflexões e tomada de decisão pelo poder e público e pela sociedade.

O lixo produzido pelas cidades é objeto, hoje, de importância nas diferentes áreas: da saúde pública às artes, sem ignorar o forte componente de desenvolvimento cultural que carrega em si. A destinação do que é descartado pelos moradores, empresas, órgãos públicos, ONGs, enfim, por quem habita a cidade tornou-se tema em torno do qual são feitos inúmeros arranjos político-econômico-social.

O que se viu, por meio da matéria do jornal, é o quanto Manaus está longe de ter um programa eficaz no setor. Não apenas por parte das ações do poder público, mas também por parte da sociedade que ainda trilha o caminho do lavar as mãos ou “não é problema meu”.

Uma cidadania encolhida vai ajudar a reforçar ações paliativas no trato do lixo urbano.

Todos temos a ver com isso. Talvez, essa seja a lição mais difícil de ser apreendida. Há uma postura que deve ser coordenada e realizada pelo poder público, cuja tarefa de animar e incentivar é inerente, e, outra, dos cidadãos e cidadãs do lugar.

Já não basta fincar a placa “não pise na grama” – algumas vezes, como diz Rubem Alves, é bom pisar na grama – ou exigir que o carro passe e recolha o lixo, ensacado ou não. Mas é nele que as nossas reivindicações se esgotam.

Se esse dia sem gari servir para mergulhos mais profundos, pelo poder público e pela sociedade, para enxergar melhor a sujeira da superfície, então já teremos dado um passo à frente na construção de uma outra atitude. Caso contrário, vamos continuar por mais tempo espalhando lixo, tropeçando nele e transferindo responsabilidade. Essa conduta adoece tanto quanto a sujeira espalhada e o cheiro dela é pior do que o dos carros coletores, traduz conformismo e inércia.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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Filha de rico em busão

Neuton Corrêa*

Tenho convicção, e talvez passe desta para a pior sem poder comprovar essa verdade, de que o busão é parte da solução para a mobilidade urbana. Mas compreendo também que esse pensamento só começará se materializar quando o transporte coletivo melhorar, deixar de ser uma opção e passar a ser um modo de vida. Isso ocorrerá, pelas minhas postulações, quando o carro se tornar cafonice.

Partindo dessas premissas, três anos após adotar o ônibus como estilo de vida, imaginei que, primeiramente, pudesse ser compreendido pelos meus pares de classe social. Mas, amigos do busão, o primeiro a aderir as esses pensamentos é um amigo rico. Não chega ser totalmente um amigo, mas é alguém com quem tenho bastante contato. Na verdade, ainda não está pegando ônibus, mas já está treinando.

Ele escolheu a mim para ser seu consultor de transporte coletivo.

Esse amigo chama-se Claudomiro. Não nasceu em berço esplêndido, mas na juventude já conversava em milhões. Mexe com postos de gasolina, empreiteira, transporte fluvial e casou-se com a filha de uma família que é sócia de uma das multinacionais mais poderosas do Planeta. Até bem pouco tempo, só o conhecia de longe, mas, nos últimos anos, tenho trocado algumas palavras, em eventos de bacanas (é, ando por lá porque minha especialidade é a cobertura jornalística do poder).

A última vez que nos encontramos foi num jatinho. Lá, trocamos algumas palavras sobre ônibus. Foi ele quem puxou o assunto:

- Me diz uma coisa, você anda pra todo lado de ônibus?

- Sinceramente?

- Sim.

- Não, respondi, explicando: Há situações em que não dá.

- Como assim?

- Não dá para pegar ônibus de madrugada nem na hora de comprar rancho nem quando saio tarde do jornal. Nesses casos, pego táxi.

E ele:

- Tem ônibus pra todo lugar?

- Sim, tem. Para onde você quiser ir, fazendo integração, é possível chegar a qualquer lugar de Manaus.

Até aquele momento, para mim, as perguntas dele tratavam-se apenas de mais um olhar desprezível sobre o busão. Aliás, não sei se vocês, que também usam o transporte público, já perceberam que somos tratados como seres inferiores apenas pelo fato de andarmos de ônibus. Prova disso tive esta semana, quando uma colega de trabalho me abordou assim: “Por que você não compra um Celta?”.

Atentem bem para a pergunta e percebam as certezas contidas na indagação. Parecia dizer: “Você não se manca de andar de ônibus?”. E mais. Pelo fato de andar de transporte coletivo ela parecia saber que o máximo que eu posso alcançar, para me sentir melhor, na moda do carro, era ter um veículo popular.

Mas o Claudomiro fazia as indagações com peso na consciência. Disse-me que está pensando em contratar um motorista:

- Em casa, são quatro carros. Se eu contratar um motorista, ele poderá me deixar no meu escritório, minha mulher na empresa dela e minha filha na escola. Vou economizar grana e tirar três carros da rua. Porque o problema não é o trânsito. O problema é que tem muito carro na rua.

- Sim, assenti, pedindo que ele imaginasse os 800 mil passageiros que utilizam ônibus em Manaus (diariamente) utilizando carro.

- Um caos – sentenciou meu amigo rico.

Mais surpreso fiquei, quando ele me disse:

- Preciso que você me ajude. Minha filha não quer mais andar de carro. Ela quer andar de ônibus. Aliás, ela vai para escola de ônibus e quer que eu ande também. Me dá umas dicas aí.

E, para ajudá-lo melhor, pedi que ele fizesse um estágio viajando pelo 300, 600, 010, 352 e pelo 014.

*Escritor, filósofo e jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Uma oferta para eu parar de escrever

Neuton Corrêa*

Queridos amigos deste encontro de todos os sábados, há alguns dias recebi uma oferta de trabalho que me fez balançar. É um convite raro, daqueles que deixam a gente atravessar a noite observando o ponteiro do relógio circular e circular e circular.

Na noite em que fui abordado sobre o assunto, não me dei conta da oportunidade, mas, nos dias seguintes, voltei a pensar seriamente, até porque nunca havia percebido em mim a habilidade que o autor da proposta percebeu num pequeno gesto.

E foi justamente ali que ele me descobriu. E me descobriu dentro da filosofia que uso para identificar, em pequenos gestos, grandes talentos. Minha máxima é: “O bom jogador de futebol não se descobre em 90 minutos de jogo. Basta um toque na bola”.

E lá estava eu deixando aquele homem impressionado com a habilidade que é da atividade dele. Justo num raro momento em que peço para ajudá-lo e sou convidado para tornar-me sócio de seu empreendimento.

Sabe, depois que passei a pensar no convite, enchi-me de vaidades e modéstias para admitir que tudo o que fiz até hoje o fiz com grande competência. Lembro-me, por exemplo, quando trabalhei como plantador de capim da fazenda do já falecido João Pessoa. Eu tinha sete anos de idade, mas não queria trabalho de criança: só servir água para os adultos. Não, eu queria era carregar fardos de capim.

Nasci carpinteiro e me criei numa movelaria e, ainda hoje, apesar de atuar como passageiro-repórter, construo meus próprios móveis.

Comandante de barco, feirante, vendedor de livro, militar, radialista, assessor de imprensa, filósofo… Tudo isso fiz. Mas, imaginar-me ali, em uma nova atividade, nunca mesmo havia passado pela minha cabeça. Parecia estar revivendo o momento que me fez redescobrir o caminho do jornal, em 2001, quando o amigo Wilson Nogueira me provocou: “Você não se conhece”.

O desafio, senhoras e senhores, amigos do busão, perturbou-me depois que aproveitei uma folga para repetir o que sempre fiz desde que cheguei a Manaus, em maio de 1999: pegar o busão e ir à Feira da Panair comprar peixe.

Gosto da Panair por causa da diversidade, qualidade e do preço do peixe que se vende ali. E, naquele início de noite, o jaraqui estava perfeito: com todas as escamas em seus lugares e com os olhos brilhando. E o pacu nem se fala. Estava na baba.

Diria: foi paixão à primeira vista. Era como se eles estivessem me chamando. E eu os imaginando frito, assado, no caldo branco, com maxixe e jerimum, com baião de dois. Enfim, preparando de todo jeito, para chamar a parentada.

Depois desse encontro, calculei a capacidade de estocagem de casa e fechei o negócio: comprei cinquenta jaraquis e cinquenta pacus. Quando entreguei o dinheiro ao feirante, eis que chega um cidadão e diz: “Pode deixar que eu trato para o senhor”. E eu, prontamente, assenti.

Acontece, amigas e amigos, assim que ele levou a centena de peixe para a banca e começou a escamá-los, percebi que tão cedo eu não sairia dali e ofereci-me para ajudá-lo. Num primeiro momento, ele recusou, mas depois puxou debaixo de sua banca uma faca e um afiador e entregou-me.

Tão logo acabei de ticar o primeiro (na minha terra, chama-se retalhar o peixe), o tratador profissional pegou o jaraqui e, admirado de minha competência, disse:

- Égua! Tu trata muito bem e muito rápido!

Formando dupla com ele, em menos de meia hora, acabamos o serviço e, quando eu já estava pegando uma caminhonete para levar o peixe para casa, o tratador me chamou e, olhando nos meus olhos, propôs-me uma sociedade:

- Olha, nós dois aqui vamos ganhar dinheiro. Você não precisa entrar com nada. Eu já tenho a banca. A cada dúzia de peixe que a gente tratar dá para tirar até dez reais. Pense aí!

Até hoje estou pensando na oferta.

*Filósofo e escritor.

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