Archive for junho, 2011

O visitante das Castanheiras

 

Massilon de Medeiros Cursino*

Nas caminhadas de uma campanha política acontecem causos e fatos memoráveis. Na última, para deputado estadual, Tony Medeiros sentiu na pele o que é um eleitor que enfrenta e questiona o candidato.

Com parcos recursos financeiros e apelando para o corpo a corpo, Tony mapeou a cidade e decidiu que faria caminhada em todos os bairros de Parintins. Iniciaria pelo bairro mais extremo da parte de baixo da Ilha.  Identificou que seria o bairro da Castanheira, o primeiro que se esforçaria em visitar casa a casa.

Saiu da beira do rio subindo o pequeno e aconchegante bairro. Saudou alguns moradores, cumprimentou amigos, entrou em casas e acenou para os mais distantes. De repente, um senhor que estava num bar de esquina ingerindo algumas doses de bebida alcoólica se dirigiu ao candidato. Ao perceber, só de ver a pose do homem marchando em sua direção, que o cidadão vinha decidido a afrontá-lo, Tony se antecipou e estendeu a mão em sua direção. Em resposta, o morador embebedado franziu as sobrancelhas, olhou-o sério e o retribuiu o aperto de mão de forma um tanto quanto fria, disparando em cheio: – É assim mesmo, agora, época de eleição, visitam nosso Bairro!

Tony fez de conta que não ouviu e continuou saudando os moradores.

O homem o seguiu e continuou: – Agora o senhor vem por aqui. Eu nunca lhe vi por essas bandas antes.

Com discrição, Tony respondeu: – Eu sempre venho por aqui…

E o homem insistia: – Como? Eu nunca lhe vi aqui no bairro da “Castanheira”. Agora aparece, pega na mão de um, de outro… Eu só lhe via na TV tirando versos, e às vezes até frescando com meu boi…

Aquilo estava incomodando Tony que tinha uma carta na manga, mas não queria se comprometer com a resposta.

O homem, sentindo que estava ganhando terreno continuou: – E aí candidato visitante, vai sumir de novo? Me diga se não é verdade, tu nunca botaste o pé aqui, nem como assombração…

Tony já envergonhado e sentindo que os outros moradores começavam a prestar atenção no cidadão embriagado, disparou: – O Senhor insiste em dizer que nunca me viu por aqui, né? Ta bom, o senhor pode até não ter me visto, mas eu sempre venho no “Castanheira” sim. Tenho até uma filha aqui no Bairro, ela mora naquela outra rua.

O bêbado olhou de canto de olho, com um olhar irônico e com um sorriso discreto diz: – Então me desculpe! Tá explicado… Assim fica difícil realmente lhe ver por aqui!

*Economista e escritor.

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Campa de barco

 

Neuton Corrêa*

Eu e o Aldenor embarcamos no busão entretidos com a ideia de escrevermos um livro juntos. Cientista social, o Aldenor procurava na Sociologia um método e uma teoria que pudessem sustentar e fundamentar a obra. Eu, passageiro-repórter, filósofo de formação, argumentava que deveríamos brincar de ser deuses. Pegar o Nada e transformá-lo em Tudo e deixar o resto para os outros. 

É claro que, pelo respeito que tenho pelo amigo, não falava assim. Até academizava a discussão dizendo: “Acho que podemos usar todas as ferramentas científicas possíveis, sem, contudo, citá-las. Vamos apenas reunir as histórias e escrevê-las”. E meu amigo concordava, replicando que, nas Ciências Sociais, o pensador Geertz, chama esse tipo de trabalho de descrição densa. 

Não estranhem o papo, senhoras e senhores do busão. Estávamos à vontade para tratar daquilo, porque a viagem era no 616, rota da Ufam. Tão à vontade que passamos pela catraca sem interromper o diálogo. E sentamos nos primeiros bancos, perto do cobrador, que já deve estar acostumado com esse tipo de papo na linha universitária. 

E foi ali, perto do cobrador, que o Aldenor interrompeu a conferência, levantando dedo o indicador direito, pedindo atenção para alguma coisa. Logo, supus que lhe houvesse ocorrido uma grande ideia, mas ele me olhava e ria e sem dar uma palavra e permaneceu me pedindo atenção de um ponto a outro nas paradas do busão. 

No ponto seguinte, porém, quando o ônibus parou, o Aldenor voltou a falar: “Presta atenção, presta atenção”. E nada aconteceu, mas ele insistia: “Espera aí, espera aí”, pacientando-me, desta vez, porém, pedindo que eu escutasse alguma coisa. 

Nessa hora, um passageiro, à altura do bairro Japiim, pede para desembarcar e, ao descer, o cobrador olhou para a porta de desembarque e, com uma moeda, deu dois toques em sua mesinha de metal, pedindo para que o motorista partisse. 

Eu ainda não havia entendido o que meu amigo queria com aquela história e ele me perguntou: 

- Isso te lembra alguma coisa? 

Eu, ainda sem assimilar, respondi. 

- Não. 

E ele, então passou a imitar o som de uma campainha: 

- “Tem”, “tem” (pausa) “tem” (pausa) “tem”, “tem”! 

E eu, finalmente: 

- O barco? 

-Exatamente, respondeu, caindo na gargalhada. E eu também. 

Ora, amigas e amigos do busão, como pude ter sido incapaz de ouvir o aviso do cobrador ao “motora” sem associar o barulho da moeda à campainha dos barcos? Uma falha grave para quem tanto viajou e ainda viaja até hoje nesse meio de transporte, apesar de que a grande maioria das embarcações já não utiliza mais o instrumento de comunicação entre o comande e o marinheiro de máquina. 

As campas, como são chamadas as campainhas de barco, possuem linguagem universal que tentarei explicar para vocês. Se o motor estiver em repouso, e com a máquina desligada, para acioná-la, o comandante emite vários toques insistentes. À re: “tem”, “tem”; parar à ré: um “tem”; avante: um “tem”; meia-força à frente: “tem”, “tem”; a toda: “tem”, “tem”, “tem”. 

O movimento para parar em algum destino é mais simples. Quando o barco está a toda, emitem-se os sinais inversos: chama-se atenção do marinheiro com vários toques; dois toques são para reduzir a velocidade e um toque desliga-se a tração e depois os “tens” são da operação de atracação. Aí, a campa canta de acordo com o porto, o rio e a correnteza. 

Bem, chegamos à Ufam e não falamos mais da nossa obra, mas ideia está viva. 

*Filósofo e escritor.

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