Archive for agosto, 2011

A mudança


Neuton Corrêa*

Lá se vai o carrinho espremido entre tantos carrões que se espremem naquelas romarias de latas barulhentas de fim de tarde do Complexo Viário Gilberto Mestrinho (construído para desafogar o trânsito e não resolveu). Lá se vai o carrinho de mudança; lá se vão mesa e cadeiras, fogão e botija, estante, televisão e antena, cama e colchão, ventilador, um monte de caixas e sacas, um monte de coisas. Lá se vão saudades; lá se vai alguém para algum lugar ao encontro de algo.

O carrinho para; alguma coisa acontece; talvez a caminhonete tenha pregado ou algum treco esteja caindo da mudança. Que bom! Meu ônibus vai se aproximar; vai passar pelo lado esquerdo da picape; terei a chance de ver de perto, e de cima, o que mais tem na caçambinha. O motorista desce, olha para a carga, puxa a corda que prendia a geladeira e o colchão, volta para o volante e lá se vai alguém para algum lugar ao encontro de algo.

Meu busão se emparelhou com o carrinho. Deu para ver os detalhes: o espelho da cama branca, de tubo-aço, parecia ter sido a primeira carga a embarcar, estava encostado na cabine do motorista, apertado pela geladeira também branca; as caixas e as sacas se amontoavam na parte de trás da pequena carroceria. Tentei observar um pouco mais, porém meu ônibus dobrou à esquerda da Zona Sul para a Centro-Sul, enquanto o carrinho de mudança seguiu da Zona Sul para a Zona Leste.

E lá se foi alguém para algum lugar ao encontro de algo.

Olhando para aquela cena, naquele mesmo ponto, ria e chorava no pensamento. Ria porque, naquele mesmo lugar, há nove anos e dez meses, num carrinho daqueles, uma Pampa, alcançava a metade do caminho para a minha Canaã e, exatamente ali, perdia quase tudo do quase nada que me restava do êxodo que iniciava dois anos antes, do interior para a capital.

E de lá trouxe saudades e para cá vim para algum lugar ao encontro de algo.

Naquele dia, 15 de setembro de 2001, um sábado, fim de tarde, havia conseguido o carro do primo Robson para fazer minha mudança. Dona Darci e o Neuton Segundo, ainda com cinco anos de idade, e minha famosa sogra Dionoca foram no carro fechado da vizinha Rosário. Eu fiquei para levar o grosso. Calculava que a mudança poderia ser feita em duas carradas, mas o Robson olhou e asseverou: “Vai só de uma vez”. E deu.

E partimos para algum lugar ao encontro de algo.

A tarde ardia de calor, mas, amigos do busão, ao alcançarmos a rua principal do Japiim, notamos uma nuvem carregada. Eu e o primo avaliamos que, se chovesse, a água passaria longe da mudança, além disso, pelos nossos cálculos, haveria tempo de chegar ao posto de gasolina à frente. No entanto, como castigo de Moisés no grande êxodo, em instantes, os céus abriram o jato d’água para purificar a mudança.

E continuamos a viagem para algum lugar para encontrar alguma coisa. Apesar do estrago na carga, lamentei apenas pelo colchão, pela TV de 20 polegadas, cujos canais eram trocados com a ponta de um lápis chamado de controle ultramoderno, e o Motobrás, o rádio de sete faixas, que me deixaria por um bom tempo sem a mania de sintonizar rádios estrangeiras.

E lá se foram a cama, a TV e o rádio, para nunca mais voltar.

Já o choro que sentia observando a mudança, vinha do desconhecido. Desde moleque, mesmo sem ainda nunca ter experimentado deixar tudo para trás, imaginava que qualquer tipo de deslocamento carregava uma dor profunda na alma.

Tentei pensar um pouco mais sobre meu encontro com a mudança, mas o busão logo chegou ao ponto. E desembarquei na parada de ônibus do jornal, pensando no carrinho da vida da gente, que anda sabe-se lá de onde e para onde.

*Filósofo e escritor; mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Nós e a rua

Ivânia Vieira*

Somos parte de uma população à qual não foi dado o direito de vivenciar as calçadas da cidade onde moramos. Temos arremedos de espaços hipoteticamente destinados aos pedestres. As calçadas da cidade são conquistas a serem realizadas e parece distante o dia de brindarmos a esse acontecimento, pois, cada vez mais o lugar destinado às andanças é ocupado por outros arranjos grosseiros, invasivos, violentos.

Calçada como dimensão de espaço público tornou-se extensão do privado. Os efeitos dessa cultura de negação de direitos e da não con-vivência se espalham reforçando o código da brutalidade que reforça uma feição de Manaus.

É tão forte a ação dessa regra que hoje um contingente de moradores da cidade experimenta desconfiança e medo ao pisar na faixa de pedestre (agora em vermelho e branco).

A normalidade desse ato em outras cidades não se aplica por aqui. Ontem, no início da tarde, na avenida André Araújo, um grupo de pedestres experimentava literalmente a faixa, tentava colocar os pés nela, para fazer a travessia, e, ao mesmo tempo, recuava diante de carros e de motoristas impacientes, aliás ameaçadores.

Houve um momento, após a espera pela chance de correr e alcançar a outra margem da rua, que o grupo – eu era parte dele – avançou os pés no território vermelho e branco, entre a surpresa e o susto, viu os carros parando, uns plenamente, outros em ‘estado de guerra’, para as pessoas passarem. Parecia um sonho, desse que dura segundos.

De qualquer forma, aconteceu. Nesse tempo fugaz, descobrimos o quanto nossa dignidade foi atingida, machucada: somente em 2011 estamos colocando os pés nas faixas, como estrangeiros acuados em nosso próprio lugar, tentando adivinhar a reação do motorista que, por meio do vidro fumê, nos olha e parece se divertir com a nossa agonia. Somos parte de uma população cujo direito de atravessar a rua não está consagrado.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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