Archive for setembro, 2011

Ensaios bons

 

Ivânia Vieira*

Duas manifestações, ocorridas ontem, reaproximam os brasileiros do campo das grandes mobilizações sociais por mudanças de fato na postura político-parlamentar e administrativa. Em Brasília, o relançamento da Frente Parlamentar em defesa do voto aberto. No Rio de Janeiro, mais de 2 mil pessoas se concentraram na Cinelândia para protestar contra a corrupção e pela efetiva aplicação da ‘Lei da Ficha Limpa’.

Os ensaios, embora usados por alguns setores habituados ao autoritarismo e a uma prática política do “é dando que se recebe”, retomam o exercício dos embates públicos. Um dos aspectos significantes é o de ampliarem o espaço de reivindicação, de interlocução e de questionamentos em torno de temas esquecidos. O voto secreto é um deles. Por que mantê-lo? Mas, derrubá-lo vai precisar muito do vigor da aliança da frente com outros setores da sociedade.

As vozes pelo voto aberto nas Casas Legislativas terão que ressoar muito mais longe a fim de se constituírem em uma força propulsora de mudança.

No ato de lançamento da frente, dos 513 deputados que constituem a Câmara, 198 aderiram à iniciativa; dos 81 senadores, quatro assinaram. Em parte, as assinaturas não funcionam como garantia de derrubada do voto secreto. E se a vigilância não for permanente ancorada na disposição da sociedade civil organizada de derrubar o sigilo dos votos, o assunto voltará para a gaveta por mais uma temporada.

Na Assembleia do Estado do Amazonas, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) está em tramitação. Falta o tema ganhar as ruas, de asfalto e virtuais, e retornar à ALE-AM como expressão da vontade popular.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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O Arrependido

Neuton Corrêa*

Chamei-o de “O Arrependido” por causa da história que ele contava no busão. Com manchas de sangue na roupa, parecia ter saído de um campo de batalha e, ainda agitando, ofegante, repetia várias vezes que, por causa do que havia feito há poucos instantes, estava sendo obrigado a procurar uma delegacia de polícia:

- Eu vou lá porque os policiais disseram: “É melhor você registrar uma ocorrência, senão, você pode se complicar, se ele morrer”.

O comentário despertou minhas antenas de passageiro-repórter. Na verdade, despertou muito mais meus sensores de repórter, pois o que ele falava poderia se tornar um escandaloso caso policial.

Depois que ele falou que havia sido orientado por policiais a registrar a ocorrência, fiquei a imaginar a manchete do dia seguinte: “Polícia dá fuga a assassino” ou “Policiais mandam assassino abandonar cena do crime”.

Então, amiga e amigo do busão, para colher mais elementos para a reportagem, procurando não chamar atenção, deixei minha cadeira discretamente, fingindo que iria desembarcar e fui morcegar (ficar perdurado no apoio do teto do ônibus) ao lado do até então suposto agressor.

Tão logo me posicionei ao lado dele, ouvi: “Olha como está ficando minha mão”. E já que pedia para olhar, não me fiz de rogado e aproveitei. Senhores, para que vocês tenham noção do que eu vi, falarei usando metáfora: a mão dele estava se transformando num sapo cururu, daqueles bem crescidos.

Quando observei os detalhes da mão do agressor (nem vou contar dos pontapés que ele disse ter desferido), compadeci-me da vítima, que eu sequer sabia quem era, mas a musculatura dos braços que desferiram o golpe deixava claro que os policiais estavam com razão em prever que a vítima poderia morrer.

Porém, quem poderia ser a vítima? Quem poderia ter provocado a fúria daquele homem que foi capaz de acabar com a própria mão? Enquanto inquiria a mim mesmo, ouvi-o dizer:

- Se eu soubesse que eram só duas latas de óleo, eu não teria feito aquilo.

Eu já não aguentava mais tanta curiosidade em saber o que havia acontecido, mas fui ajudado por outra pessoa que perguntou ao homem o que acontecera e, finalmente, menos agitado contou:

“Eu estava aqui na saída do bairro, disse ele apontado para a entrada do bairro Parque São Pedro, na Zona Norte, quando minha mulher ligou dizendo que dois ladrões tinham entrado na loja”.

E outro passageiro interrompeu-o:

- Agora?

E ele continuou:

“Agora! Aí, eu pedi que ela descrevesse eles e ela me falou que os ladrões estavam numa moto e que tinham feito uma limpeza no comércio. Eu perguntei se ela tinha anotado a placa da moto. E pois não é que o número coincidia com os da moto dos caras que estavam ali, no meu lado”.

E aí? – perguntou o outro passageiro.

- E aí, que, se não fosse a polícia chegar, eu teria acabado com o ladrão que eu peguei. Depois, eu perguntei dele: cadê o resto da mercadoria? E o bandido respondeu (disse ele rindo):

“Não, senhor, eu só peguei duas latas de óleo, mas juro que nunca mais quero ver óleo de cozinha na minha vida”.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Dona Rosa

 

 Neuton Corrêa*

Passei algum tempo chamando-a de engenheira, mas sua obra não enquadrar-se em nenhuma categoria. A ideia de tratá-la como profissional da Engenharia me ocorreu depois da segunda vez que troquei algumas palavras com ela. Nesses dois encontros, apontou-me erros flagrantes em obras públicas. São coisas que o olhar apressado e embaçado pelo cômodo conforto da não-contestação não consegue perceber.

Ainda cheguei a insistir na ideia de tentar enquadrá-la em uma profissão. Quem sabe urbanista lhe caísse bem ou quem sabe arquiteta, porém desisti do esforço, para aceitar chamá-la pelo nome que todo mundo a conhece: Dona Rosa. Simples! E Dona Rosa é Dona Rosa. Nem a conheço tanto para dizer que ela é ela. Também nem acho necessário investigar uma vida inteira para ver o ser revelado. Ele, o ser, mostra-se como o gelo n’água. Só com as pontas de sua essência.

Dona Rosa mora e trabalha num endereço ao lado (um pouco atrás) da primeira parada de ônibus da Timbiras, no Núcleo 3 da Cidade Nova. Ali, funcionam duas quitinetes, o charmoso restaurante “Mixtura Fina” e um abrigo para cães e gatos abandonados e/ou acidentados, que lhe fazem companhia. Não sei se ela tem marido, filhos ou outros parentes, também nem fui atrás dessas informações. Sempre a vejo só.

O máximo de companhia humana que ela tem são algumas pessoas que a ajudam no restaurante. Sei que são seus ajudantes, porque eles aparecem tratando de carnes e peixes nas duas churrasqueiras que mandou instalar na frente do Mixtura. Na verdade, uma das churrasqueiras é móvel e sempre colocada à beira da rua.

A primeira vez que observei Dona Rosa, atentamente, foi numa fatalidade. Um dos três cães de que ela cuidava foi atropelado. Eram três vira-latas branquinhos com pintas pretas que lembravam a raça dálmata. Eram molecões danados que cresceram perto do ponto de ônibus desde quando a mãe deu cria ali perto do restaurante.

O acidente foi por volta das 9h. O cachorro havia atravessado a rua com a irmã, mas, ao retornar, foi apanhado violentamente por um carro. Não vi a cena. Apenas ouvi a freada do veículo, os latidos e o desespero de Dona Rosa, socorrendo e ao mesmo tempo repreendendo a desobediência do cachorrinho.

Quando me aproximei da parada, percebi que os olhos dela nublavam preparando a água que logo cairia.

Por causa disso, toda vez que olhava Dona Rosa a via como uma pessoa de alma caridosa, mas me surpreendi em outra ocasião, com outras qualidades dela quando esperava o busão na frente do Mixtura. Ela puxou um assunto que não tinha nada com o restaurante nem com os animais:

- Acho que esses engenheiros são burros.

Como não sabia exatamente do que ela estava falando, concordei para não alongar o assunto, mas ela continuou:

- Aquilo aqui (apontou na direção de um igarapé poluído) era lindo. Era água limpinha, limpinha. Aí, vieram os engenheiros e aterraram e agora toda vez que chove, transborda.

- É verdade, assenti outra vez sem poder continuar a prosa, porque meu ônibus passou logo.

Mas, poucos dias depois, voltei a falar com ela. Dessa vez, no 043. E ela, novamente, com assuntos de engenharia me disse:

- Esses engenheiros não pensam. Eu fui ali na praça pra molhar as plantas, mas não tem um bico de torneira. Onde já se viu: construir um jardim sem ter água pra molhar?!

Outra vez, concordei com ela:

- É verdade, Dona Rosa.

Pena que tive que desembarcar.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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O adestrador de homem

Neuton Corrêa*

Pelas passadas em ritmo de ordem unida, com os joelhos elevando-se à altura da cintura, peito estufado e com o nariz empinado, o adestrador descia a Avenida das Torres, perto do conjunto Boas Novas. Reconheci-o de longe, tanto pela altura (ele deve ter uns dois metros de envergadura) quanto pelos passos de soldado em desfile marcial de 7 de Setembro. Mas outro detalhe denunciava que era ele: o cachorro ao seu lado, também desfilando.

Enquanto meu ônibus não passava, detive-me a observar o quanto homem e animal executavam movimentos que pareciam combinados e/ou muito bem treinados. Era a primeira vez que os via pela nova avenida. Não usavam o passeio de concreto destinado a pedestres, onde muita gente caminha e corre para queimar gorduras ou manter o corpo em harmonia com a vaidade e o espírito.

Os dois andavam entre árvores recém-plantadas na via, parando de quando em vez, assim como faziam quando passeavam na frente de casa, a poucos metros dali.

À medida que adestrador e adestrado se aproximavam do ponto de ônibus onde eu estava, avaliava a evolução do treinamento deles. Sim, eu tinha como avaliá-los. É que a primeira vez que observei o adestramento, o cão, um pastor-alemão mestiço de negros pelos brilhosos do trato dado pelo criador, ainda agia como um adolescente teimoso e desobediente. Na ocasião, o treinador tentava mantê-lo ao seu lado, mas, curioso, o animal só dava atenção aos cães que se agitavam e latiam dentro dos quintais da vizinhança e do Fidel, meu vira-lata (Não é implicância com o líder comunista, não. É que meu cachorro, nos primeiros meses de vida, mantinha o focinho com uma rala barba, como a do cubano).

Aquelas primeiras aulas se davam na rua da minha casa, a rua Pintassilgo, nome que pouca gente sabe pronunciar quando me perguntam o endereço:

- Como senhor?

E eu respondo, soletrando:

- Pin-tas-sil-go.

E eu até sei o vai sair:

- Pinta Silva?

Deixa pra lá. Vamos voltar para o adestramento. Pois bem, o tempo se passou e um ano depois, com o animal já adulto e o tratador cada vez mais careca e ainda mais barbudo, os efeitos da repetição davam resposta. De esquina em esquina, os dois paravam, o cachorro se sentava e, sem a ordem do adestrador, estendia a pata direita para o homem, para, em troca, ganhar alguns grãos de ração.

Aquilo, para mim, traduzia-se em aulas práticas de Psicologia do famoso condicionamento operante, em que o animal (ou o homem) condiciona ou modela o seu comportamento a partir de uma série de estímulos e respostas.

Meses depois, notei outra marmota que, talvez, nem o criador percebia. É que, quando chegavam à esquina da rua, o animal repetia os mesmos movimentos de seu dono, olhando para um lado e para o outro. Até pareciam estar sincronizados.

Mas, agora, na Avenida das Torres, outro detalhe que me fez deixar o ônibus passar, atrasar a chegada ao trabalho, para poder confirmar minhas desconfianças. É que descobri que os movimentos não são mais puxados pelo homem, mas pelo animal. Sim, agora, quem dá as patas é o adestrador, já que o cão, quando para, só estende as mãos para o treinador depois que ele se ajoelha.

Fiquei até intrigado em querer saber quem obedece a quem.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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