Archive for outubro, 2011

O troca-troca

  Neuton Corrêa*

Esta semana, lendo, ouvindo e escrevendo notícias sobre o troca-troca de partidos, lembrei-me da fala de uma passageira a bordo do 423. Pelo que dava para entender, ela queria trocar um aparelho de tirar sangue por duas caixas de frango.

A mulher era a imagem da angústia. Ela estava meio sentada. Sim, meio sentada, é isso mesmo. Nesse caso, a expressão “meio sentada” não é figura de linguagem para dizer que ela estava mal acomodada. É que o tamanho dela, principalmente a largura, só lhe permitia colocar uma das duas partes globosas da porção inferior do dorso (tradução: bunda) sobre a cadeira do busão.

Quando embarquei, na Avenida Umberto Calderaro, à altura do Manauara Shopping, a mulher já estava meio sentada e com um aparelho de telefone celular ao ouvido. Decompondo-se como água de seu estado sólido para o líquido, ela abanava a gola da blusa para tentar aliviar a quentura daquela tarde de sábado de calor tempestivo nesta época do ano. Cada vez que tirava o celular da orelha, sem falar nada, suspirava e sacudia a cabeça negativamente.

Vendo a inquietação da passageira, dei um jeito de me aproximar dela para observá-la melhor. Contei uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, até perder as vezes da frequência com que ligava e desligava o telefone para em seguida enxugar o suor do rosto com as mãos e resmungar.

A angústia da passageira me fez lembrar situação parecida que vivi em 2005 e para a qual a única solução ao meu alcance era um aparelho celular. Foi numa viagem a Presidente Figueiredo, no início de maio daquele ano. Havia sido deslocado para lá para entrevistar um ministro de Estado que estava em visita ao município. Tudo dava certo até encontrar o ministro dos Transportes.

O problema foi que o ministro só aceitou conceder a entrevista dentro do carro dele. Essa informação passei ao motorista que me acompanhava, que seguiu o carro ministerial por toda a cidade, mas, nos primeiros cinquenta quilômetros da viagem de volta para Manaus, desistiu do combinado achando que eu já havia desembarcado sem que ele percebesse.

Eu, porém, sem saber disso, desembarquei após a entrevista, ainda achando que seria resgatado pelo parceiro de trabalho. Iniciei caminhada de volta para Presidente Figueiredo acreditando que me encontraria com o motorista. Pedi carona várias vezes, em vão. E andei um, dois, três, quatro, cinco, seis… oito, dez quilômetros até encontrar um morro bem elevado.

O barranco era minha salvação. Escalei-o como alpinista habilidoso na esperança de que ali, no ponto mais alto daquele trecho da estrada, pudesse obter sinal de telefonia e deu certo. Lá, no topo, o aparelho registrava um ponto, ponto suficiente para ligar para a redação, mas, senhoras e senhores, liguei uma, duas, três, quatro, cinco…; liguei para um colega. E nada!

Relembrando essa história voltei a olhar a mulher. Já estávamos perto de minha parada, na rua Timbiras, quando a ouvi, eufórica: “Branca, pelo amor de Deus, sou eu. Me socorre, Branca”.

Eu já estava pronto para desembarcar, mas segui a viagem só para tentar descobrir a razão de tanta angústia, quando ela falou: “Branca, minha amiga, tu sabes que eu fui ali na feira vender um aparelho e não consegui e eu, agora, estou precisando desse dinheiro. Tu compra ele de mim”.

Depois disso, ela fez uma pausa na fala e depois continuou: “Não, é um aparelho de tirar sangue. Tô vendendo por cem reais, mas eu faço pra ti até por oitenta reais; tu me dá cinquenta agora, depois me dá o resto”.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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As vozes daqui

Ivânia Vieira*

Há uma semana, a presidenta Dilma Rousseff‘ concretizava, na 66ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas mais um feito histórico. Tornava-se, 66 anos depois da criação da ONU, a primeira mulher a fazer a abertura oficial dessa Assembleia. E o fez em estilo maiúsculo. Tratou das questões cruciais para a humanidade, chamou à responsabilidade os países ricos, convocou os presentes a uma nova conduta na forma de cuidar do mundo.

Dilma recebeu, da masculina plenária da ONU, os aplausos mais intensos e a aprovação da crítica especializada em análise das falas das autoridades mundiais. Passou, com louvor, em um dos seus testes mais delicados.

Hoje, em Manaus, mesmo numa viagem rápida, a presidenta pode temperar o Brasil com porção amazônica. Há muito essa região luta, mesmo inviezadamente, para ter lugar efetivo no plano de desenvolvimento do País. Condição negada pela República que a trata como um problema, um óbice ao progresso.

É preciso desconstruir essa mentalidade administrativa para, enfim, o Brasil se completar na sua multifeição. Em seu singular discurso, Dilma disse ao mundo, a partir da tribuna da ONU que sua voz, ali, era “a voz da democracia e da igualdade se ampliando”. Informou, como numa espécie de promessa, que “este é o século das mulheres” e, beliscou a poesia para reduzir a aridez do lugar situando, no nosso português, as palavras “vida”, “alma”, “esperança”, “coragem” e “sinceridade”.

As mulheres da Amazônia, parcela expressiva dessas “mulheres anônimas; que passam fome e não podem dar de comer a seus filhos; que padecem de doenças e não podem ser tratadas; que sofrem violência e são discriminadas” contam com essa mesma determinação para revigorar a esperança.

Suas vozes, nos lugares mais invisíveis dessa região, entoam o canto da resistência que atravessa os rios e insiste na ousadia de ser ouvido para transformar aquilo que, na Amazônia, é abandono, é omissão e é opressão.

* Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam. 

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Meio-banho

 

Neuton Corrêa*

Seu Francisco foi ao jirau da cozinha que fica em frente à casa dele, a poucos metros da rua, pegou uma lata (suponho que era uma lata de manteiga, daquelas de 20 litros), derramou um pouco de água numa vasilha menor e colocou-a sobre um banquinho de madeira debaixo da torneira, cujo bico já estava vedado com teias de aranha e tudo mais, menos água potável.

A cena era acompanhada pelo ex-governador (recém-saído do cargo), que estava no bairro em campanha para o Senado. A observação era mais pelo estranhamento do que pela curiosidade. Não entendia por que a reunião que promovia atraía tanta gente, só não seu Francisco, que, depois de deixar a panelinha sob a torneira, voltava para mais um gole do copo de cerveja, emparelhada à cadeira de embalo.

Quando percebeu que seu Francisco voltou a se sentar e, convencido de que ali estava um voto perdido, o político tornou a conversar com aqueles que lhe davam atenção, mas não deixava de olhar de canto de olho para o eleitor da outra esquina.

Eu gostaria de ter sido testemunha do episódio para fazer esta “contação” sem atravessador, mas o narrador da história descrevia detalhes tão preciosos que pareceria ter ido à reunião apenas para observar a preocupação do candidato e o desdém de seu Francisco. Era tão fecundo na descrição que conseguiu captar do olhar escanteado do candidato à teia de aranha no bico da torneira.

O narrador chama-se Roberto, trabalhou naquela campanha e foi o organizador da reunião. Encontrei-me com ele há duas semanas, no aeroporto de Manaus:

- Vai para onde?

- Pra casa.

- De ônibus?

- Sim.

- Duvido.

Em meio a essa dúvida, combinamos embarcar a esmo no primeiro ônibus que passasse por ali, e, mal fechamos a boca, o 306 apareceu, lotado, em direção ao bairro. E foi nessa direção, à altura do bairro Campos Sales, que ele me contou a história de seu Francisco.

O relato foi uma resposta do Roberto a um dado curioso que eu observava pela janela do busão na direção dos quintais daquelas casas: a preocupação dos moradores em armazenar água. Tudo eles improvisam como depósito: garrafas PETs, latas, baldes, panelas, bacias, tanques de combustíveis, banheiras de bebê. Enfim, tudo!

Foi aí que ele disse:

- Vamos parar aqui, que eu vou te mostrar uma coisa. E paramos numa esquina, em frente a uma panificadora e a uma casa de varanda ampla, onde provavelmente funciona uma igreja evangélica ou é o centro social da comunidade:

“O governador (ainda hoje é assim que ele chama o chefe) estava sentado ali naquela mesa atendendo as pessoas (apontou para a varanda). Aí, de repente, ele olhou para o outro lado da rua e viu aquele homem naquela marmota”.

Como? – perguntei e ele continuou.

“Seu Francisco pegou a panelinha que estava debaixo da torneira, segurou-a com o lado da mão esquerda e, com a direita, meteu a mão n’água, massageou um pedaço de sabão na mão direita e lavou os sovacos; depois, lavou o pescoço; em seguida, o rosto; e o resto que sobrou de água ele molhou a cabeça”.

Rindo da cena, acabei interrompendo a narração, mas ele logo continuou:

“Rapaz, o governador não se segurou, parou o discurso que fazia e perguntou ao povo que banho era aquele. Aí, uma voz da multidão explicou:

- Não é só ele que toma banho assim, não. Aqui não tem água encanada. Então, a gente tem que tomar meio-banho: da cintura para cima, de dia, e meio-banho, à noite, da cintura para baixo.

  E “governador” perguntou:

- Por quê?

Aí veio a explicação, com uma pergunta:

- Como o senhor prefere namorar à noite? Limpo da cintura pra cima ou limpo da cintura pra baixo?”

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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