Archive for novembro, 2011

Abraço pela vida

Ivânia Vieira*

Mulheres do Amazonas estão sendo mortas por tiros, facadas, espancamentos. São mortes anunciadas com antecedência. Ainda assim os pedidos de socorro não são ouvidos. A quem importa essa tragédia?

As autoridades têm discursos prontos para apresentar números e até imagens. Não raro são dados distantes da realidade de isolamento e de abandono a que estão submetidas essas mulheres. A estrutura dos governos na maioria das cidades brasileiras e, de forma particular, nos municípios amazonenses é marcada pela precariedade e pela ausência. Não é a falta de recursos financeiros e sim a falta de vontade política para virar essa página. Em geral, violência doméstica contra a mulher é assunto tratado com importância menor pelo conjunto das autoridades e amplos setores da sociedade.

Prevalece um pensamento de que as mulheres vitimizadas o são porque querem ser e com ele mantém-se o alimento de uma cultura de violência naturalizada, reforçada pela mídia e pela publicidade.

O movimento de mulheres local/regional é convocado a olhar com atenção ampliada e levar de volta às ruas as bandeiras de luta (pela qualificação dos agentes públicos que atuam nessa área, por espaços físicos dignos  para receber e atender as mulheres vitimizadas, para que programas de governo contemplem essas mulheres).

Estudos mostram que, em todo o mundo, em pelo menos 80%  dos casos de assassinatos de mulheres a motivação é a tentativa delas de encerrar um relacionamento. Aquelas que não são mortas de imediato passam a viver um longo processo de violência traduzida numa outra forma de matar.

No 25 de novembro, milhares de mulheres organizaram mobilizações em várias regiões do mundo para marcar o Dia Internacional pela Não-Violência contra a mulher. Está nas ruas e nas praças, na Internet, a campanha “quem ama abraça, pelo fim da violência contra a mulher”. Mulheres e homens estão sendo convidados a abraçar a causa. Olhar em casa, no trabalho, na escola, na vizinhança, ser parte de um outro elo de promoção e de zelo por uma vida sem violência.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Melzinha e Segundinho


Neuton Corrêa*

A Mel chegou em casa ainda bebê: fofinha, chorona, tola e manhosa. Uma dessas manias nunca perdeu: esparramar-se ao chão até que alguém a carregasse. Nem gritos para repreendê-la nem palminhas davam jeito. Era uma menina cheia de vontade.

A Mel foi a companhia e o xodó de meu filho, Neuton 2º, em curtíssimos dez anos. Fotos de um álbum só dela registraram a amizade e a cumplicidade em peraltices que juntos aprontavam. Em uma dessas imagens, apareço dormindo numa rede e os dois atrás de mim fazendo chifrinhos.

Ela sentia minha presença a distância. Minha esposa cansou de ganhar apostas, observando a Mel anunciar que eu estava chegando. Bastava ela levantar a cabeça e correr para o portão, barulhando as unhas no piso que a Darci dizia: “O passageiro-repórter está chegando! Quer ver?”. E, minutos depois, a visão se confirmava.

Mas a vida da Mel não foi só de maravilha. Em 2006, por descuido, perdemos nossa parceirinha. Ela foi raptada num domingo de muita tristeza para a família. E reanimou a casa cinco meses depois, pulando e batendo no portão num domingo inesquecível. Era Dia das Mães e ela foi o melhor presente que se poderia dar e receber naquela data.

O Segundinho ainda estava dormindo quando ela retornou, mas não perdi tempo em avisá-lo. Os olhos dele brilharam nublados, como num dia de Sol e chuva. Nesse dia de choro de alegria, o Segundo até dispensou brincar com outros colegas.

Mas a Mel não chegou tão bem. Deu apenas um sorriso, parecendo ter agradecido a calorosa recepção que recebera, porém, depois da festa, mergulhou numa profunda depressão. Ela se recolheu a um cantinho e por cerca de dois anos não se ouvia nenhum barulho da Mel. Eu até achava que ela havia ficado muda.

A única coisa que fazia, quando a gente se aproximava dela, era colocar a mãozinha direita em seu rostinho, baixando a cabeça e tremendo os olhinhos. O dia em que voltou a falar foi outra festa para nós. Daí em diante, recobrou o ânimo e até a mania de se jogar no chão voltou a usar, dessa vez acrescentando uma submania: colocar a língua pra fora.

A vida, no entanto, reservara-lhe outro problema. Aos poucos, foi perdendo a visão e, nos últimos anos, percebemos que ela só andava se orientando (e muito bem) pela pontinha do focinho.

Ah, já ia esquecendo. Mas a Mel também era companhia de minha sogra, a Dinoca. E se tratavam como gente grande.

Na semana passada, no Dia de Finados, a Mel se despediu deste mundo e nos últimos momentos de sua vida tentei confortá-la, mas não conseguia. Seus suspiros finais sopravam em meus olhos uma profunda certeza do adeus. Do nunca mais.

O Segundo nem quis ver o passamento dela, e eu, para fingir ser forte, na frente de parentes e amigos que estavam em casa, fiz uma sussurrada despedida, erguendo uma represa para conter a correnteza que se formava em mim.

Mas, amigas e amigos do busão, a água represada transbordou em meus olhos esta semana, quando peguei o busão, acessei o Facebook pelo meu telefone e abri um post que o Segundinho acabara de publicar.

Lá estava a foto da Mel esparramada ao chão de barriga para cima, com as patinhas no peito, os olhinhos entreabertos, fazendo carinha de tolona. E, abaixo da foto, ele escreveu: “Uma cadelinha feliz, uma boa menina. Assim termina sua vida. Sentiremos muito sua falta, Melzinha…”

*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Dores da alma

Neuton Corrêa*

Vai fazer dois meses e ainda hoje continuo sem saber o que dizer para aquele homem. Sou péssimo nesse negócio de manifestar sentimentos com palavras faladas. Condolência, por exemplo, evito, mas admiro quem a expressa. E olha que tem gente que o faz como se há muito estivesse esperando a notícia apenas para dizer, solenemente: “Sinto muito, aceite minhas condolências” ou “aceite meus pêsames”.

Já contei para vocês, aqui na “Crônicas do busão”, no início de nossos encontros de todos os sábados, há três anos, a história de dona Varlinda que caça velórios apenas para dizer à família do morto, com muito dó: “cuinfeito (com efeito), ainda ontem vi esta pessoa por aqui”, mesmo que não conhecesse o falecido.

Minha sogra, Dinoca, também tem grande experiência nessas coisas. Ela é um obituário ambulante. Sabe tudo sobre quem morreu ou está para morrer. De tanto eu zoá-la por causa disso, ela parou um pouco, mas antes, ela só puxava conversa com outros assim: “Sabem quem morreu?”

O noticiário preferido dela é o caderno policial. E, quando conhece o morto ou a família do morto, não pensa duas vezes em fazer uma ligaçãozinha para prestar solidariedade. Ela tem uma frase pronta que eu já decorei: “Querida (sempre ela começa assim), pôôôôôxa!!! Coitado do fulano! Me conte como foi?”.

Era essa disposição, de perguntar como foi e depois dar um “cuinfeito”, que eu precisava naquele último dia 7 de Setembro, quando aquele homem começou a contar a história que viveu há 55 anos em um seringal no interior do Estado, na calha do rio Madeira. Ainda me lembrei da Dinoca, mas não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Na verdade, nem era problema de coragem. Acontece que a história deixa qualquer pessoa sem saber o que dizer.

Ele não estava na conversa. Naquele dia, eu havia saído do Sambódromo, após a parada militar do Dia da Independência e tomado um ônibus com um colega de profissão, o Bosco, com quem certamente eu falava alto no ônibus por causa do busão superlotado. O Bosco me abordara sobre a saúde dos meus pais:

- E aí, como estão os velhos? (Já havia contado para ele que meu pai estava com complicações de próstata). E eu, mais pelo costume do que pela realidade dos fatos, respondi:

- Estão bem.

- Graças a Deus…

Nem o deixei concluir o raciocínio e contei.

- Na verdade, não está tão bem.

- Piorou!?

- O tratamento com remédio não deu jeito. Ele teve que se operar. Faz dois dias.

O Bosco, então, replicou:

- Pô, cara, perdi meu pai. Deus levou o velho Atalaia. Ele já estava bem velhinho, mas eu senti muito, porque eu fiz de tudo para que ele ainda estivesse por aqui.

Depois disso, senti que meu amigo fez uma pausa esperando que eu o confortasse, mas o mal de travar as palavras nessa hora me acometeu, porém fui salvo por aquele moreno que atentamente ouvia nossa conversa.

Ele, reduzindo o vazio que se abria no diálogo, falou:

- Sei o que vocês estão sentido. Isso é triste! – lamentou com uma breve pausa e depois continuou – Mas vocês não sabem o que é perder oito irmãos e o pai… de uma só vez. Só sobrou eu e minha mãe.

Eu travei a língua e o Bosco não conteve as lágrimas. Em seguida, desci para fazer integração com outro busão.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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Antes da morte

Neuton Corrêa*

Já testemunhei e ouvi fatos de pedidos que se fazem antes da morte. É claro que são apelos de pessoas que sabem que a única solução para a vida, naquele extremo instante, é a morte. Mas desejar ver um policial antes da derradeira viagem era a primeira vez. Aconteceu a bordo do 125, véspera do feriado do Dia da Criança.

Não escutei a conversa inteira, apenas um pedaço. E esse pedaço, uma súplica: “Senhor, antes ‘deu’ morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”. A própria frase saía espedaçada: o vocativo (senhor), ofegante e, talvez por isso, a pronúncia das orações seguintes tenha vindo emendada, para esperar longamente o complemento da sentença (ao menos um policial).

Depois disso, o passageiro desceu à altura do bulevar Álvaro Maia, em frente ao primeiro portão do cemitério São João Batista, dando apenas um “tchau” bem baixinho, quase sussurrado, para a pessoa que lhe ouvia.

Tentei imaginar o que poderia ter acontecido àquele homem, mas o barulho do motor e o silêncio de vozes da ausência de passageiros na linha universitária em véspera de feriado eram as únicas coisas que se podiam ouvir.

Até poderia perguntar ao estudante que ficara ali (acho que era um estudante, porque ele estava com bolsa e lia um texto pintado de cores luminosas), mas não me senti encorajado. As linhas da área central não são como as de periferia, onde todo mundo conversa de tudo e fala de todos sem cerimônia.

Então, passei a conjecturar coisas para tentar alcançar um raciocínio que me pudesse fazer imaginar a situação que aquele homem alto e forte, no vigor físico de sua idade (não creio que ele tivesse mais de quarenta anos), tivesse vivido para implorar a Deus o último desejo de sua vida.

Aquela frase, “senhor, [...] ao menos um policial”, martelou meu juízo por alguns instantes, ainda mais porque um dia antes, uma conhecida da família, após longo sofrimento, recebera a notícia de que sua pressão estava 7 por 4 e que sua partida era questão de horas (no máximo).

A velha amiga, então, preparou-se. Chamou os filhos, primeiro um a um. Não eram tantos, apenas três, que não se falavam depois de um bate-papo que deixou a casa deles como um campo de guerra com pedaços de paus e facas atiradas para todos os lados. Mas, no fim, a morte acabou unindo-os, atendendo ao pedido da mãe.

Eu também fiquei imaginando qual seria meu último desejo. Pensei, pensei e pensei. Se fosse hoje, nem pensaria duas vezes. Rogaria a Deus, honestamente: “Deus, meu amigo, deixe-me aqui”. E se ele não atendesse minhas preces faria o que mandou fazer um conhecido cidadão de minha terra, que pediu aos filhos, e foi atendido, que se mandasse escrever em sua lápide: “Aqui, jaz, muito contrariado, Otávio Guedes de Araújo”.

Depois disso, recobrei o juízo, dei três cascudinhos no banco do ônibus e voltei a pensar na frase: “Senhor, antes de eu morrer, mande-me um policial, ao menos um policial”, decido a perguntar de meu parceiro de viagem sobre o que aquele homem havia falado, mas, quando me encorajei, que me aproximei, o passageiro se levantou e puxou a cordinha para desembarcar.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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