Archive for dezembro, 2011

Para as meninas

Ivânia Vieira*

Talvez o tempo tenha passado e nós não tenhamos percebido o ritmo. As perdas se ampliam e se diversificam enquanto a jornada da vida exige exercícios mais intensos. Esse 2011 é uma  maratona. Não sei se das mais dura ou se das mais sentidas.

A largada, em janeiro, teve brinde de esperança mas os acontecimentos nessa maratona engoliram o tempo de enfeitar a casa, construir a árvore e organizar a flora e a fauna numa versão amazônica do ritual do presépio; não permitiram as visitas nem a celebração dos encontros aguardados com tanta saudade apesar de estarmos na mesma cidade.

Estão distantes o som da voz e das gargalhadas das minhas amigas e minhas companheiras de lutas e de sonhos. Enredadas numa outra peleja emudecemos um pouco mais, deixamos a distância tomar conta das nossas vidas e, com ela, o tempero da existência tornou-se insípido. O olhar ficou embaçado.

A marotona de 2011 nos desafia. Triplica os obstáculos e tenta esticar o percurso. É possível que a árvore, desta vez, não seja montada e o presépio engraçado se realize apenas na lembrança. É possível que as paredes de dezembro permaneçam desnudas e os enfeites guardados em uma gaveta.

Pode ser que a nossa teimosia seja reanimada. Então, para quem já enfrentou tantas outras maratonas, a de 2011 é apenas mais uma. Doída sim, deixando marcas no corpo e na alma, mas não como derrota. A distância e a saudade dos encontros, das brincadeiras e dos saraus serão superadas porque mesmo nesse grande aperto as oportunidades do encontro se insinuam para aquietar a onda de desencontros dessa temporada.

Ontem, na noite tarde, até uma lua em êxtase fazia sinal para terra em agonia. Foi possível percebê-la, renovando o pacto de que a vida vai triunfar e a amizade tem um outro tempo.

Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Uma noite no pronto-socorro

 

Neuton Corrêa*

Embarquei no 439 ainda lembrando as cenas que presenciei nas seis horas em que estive na porta da emergência do Hospital Pronto-Socorro João Lúcio, no sábado que passou. Fui ali à espera de notícia de minha cunhada que fora levada para lá após queda de moto.

Daquelas cenas, uma se repetia incessantemente em minha cabeça, a de um garoto que desembarcou de uma ambulância, entubado, com cilindro de oxigênio ao lado dele e, entre as pernas, um depósito de plástico cheio de sangue que se interligava ao corpo por um dreno que saía debaixo de um curativo à altura do peito esquerdo.

A imagem daquele moleque poderia se tornar comum entre tantas cenas semelhantes que se sucederiam no local numa frequência não superior a vinte minutos entre um desembarque e outro de vítimas de crimes e acidentes, mas a curiosidade dele em erguer a cabeça e atirar em minha direção um olhar suplicante o fez diferente em meio a tantos desesperos.

Hoje, intrigado estou, pois minha memória, impetuosamente seletiva, não se ocupou com o caso da moça que deu entrada ali com os braços jorrando sangue do profundo golpe que recebera do padrasto. E ainda dá pouca importância ao rapaz que chegou desesperado pedindo socorro para uma mulher que havia machucado as pernas em uma queda. Aliás, ele mesmo, depois de chegar naquele portão deve ter se convencido que era apenas mais um e que, se comparasse os dramas da noite, o da amiga dele seria o menor.

Mais intrigante ainda, para mim, agora, é que minhas lembranças insistem em pedir que eu não fale do homem que deu entrada com um tiro na cabeça. Mas pede que eu conte as histórias do maqueiro que, enquanto aguardava os pacientes das ambulâncias, contava casos de pessoas importantes na sociedade que passaram pelas mãos dele:

“Um dia eu estava aqui e aí desembarcou um cara que eu tinha conhecido há muito tempo. Quando olhei, eu gritei:

- Tenente!!!

E ele respondeu:

- Tenente uma porra, agora eu sou coronel! – fez-se um silêncio e o maqueiro retornou a fala do oficial – Mas do que adianta? Olha como eu estou aqui!”

Um cidadão fez um comentário e ele continuou suas histórias:

“Porrada (assim mesmo) foi um desembargador!

O cara chegou ali e, quando eu toquei nele, um camarada gritou: ‘Olha, ele é desembargador’. Eu fiquei muito puto. Porra, aqui, na maca, ninguém tem diferença”.

Depois disso, ele acabou de contar o caso.

“Não deu dez minutos aí a médica chamou o cara que tinha me falado do desembargador e perguntou:

- O senhor é o acompanhante do (e deu o nome)?

- Sim.

- Ele tinha plano de saúde?

- Tinha. Ele é desembargador.

Aí a médica disse pra ele:

- Era! O desembargador acabou de morrer”.

O maqueiro puxou outro fato, mas logo em seguida um dos seguranças do hospital se aproxima das dezenas de pessoas que estavam à espera de notícia e anuncia, lendo um papel: “acompanhante do fulano de tal (não entendi o nome)”.

Nessa hora, acompanhada do segurança, uma mulher entra para uma sala e, em menos de dez segundos, ouço um grito e, ao meu lado, vejo um cidadão bater os pés no chão e socar desesperadamente a parede do pronto-socorro, gritando:

“Ai, meu Deus! Ai, Deus! Ele era meu único filho!”

Hoje, o corre-corre da porta do hospital, o olhar do menino e os gritos do pai dele ainda ressoam em meus ouvidos.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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Uma chuva na parada

Neuton Corrêa*

Era meio-dia, mas o Sol havia acanhado o brilho por causa da nuvem carregada que corria empurrada por um vento agitado que soprava para todos os lados. Olhando o tempo que se formava, calculei que ainda havia tempo de alcançar o abrigo de ônibus antes da chuva. Fui o primeiro a chegar e não se demorou muito para o ponto ficar lotado de gente à espera do busão e gente à espera de o temporal passar.

Dessa gente, lembro-me de uma garota que vestia roupa colegial e que atravessou a rua desafiando os carros, correndo de cabeça baixa e protegida por um caderno que colocara sobre si para se proteger das gotas maduras de águas que começam a molhar o asfalto. Depois dela, apareceram um vendedor de lanche de bicicleta cargueira; um policial militar fardado; um mototaxista que parou ali apressado; e outros de que não sei dar definição.

O corre-corre de pessoas atrás do abrigo se encerrou com a chegada de três mulheres que surgiram correndo com uma criança de colo protegida por elas com pedaços de pano que me fizeram lembrar os antigos cueiros que minha mãe usou para me embrulhar e vestir meus outros sete irmãos.

As três se sentaram e uma delas, sem embaraço consigo e com a plateia, foi logo suspendendo a camisa e puxando o peito para dar de mamar ao filho. Esta, a que amamentava, ficou sentada ao meio às amigas, sendo que, a da esquerda me fez ficar por algum tempo tentando ler o que estava escrito em uma tatuagem que trazia no toco (metacarpo) dos dedos, mas, com muito esforço, consegui decifrar a inscrição: “Rosa Maria”. “Rosa” ela escreveu no lado esquerdo e do outro lado da mão, ocupando todos os dedos, “Maria”.

A terceira delas, que se sentava à direita da mãe e do menino, era bem diferente das demais. Era bem mais alta que as amigas, vestia-se bem menos despojada do que as outras. Aliás, a calça de malha apertadinha que usava modelava-lhe as coxas e as batatas das pernas. Ela era também a mais falante do grupo.

A mulher era tão falante, que abriu espaço para que o mototaxista lhe abordasse com alguma coisa que não entendi. Imaginei que ele havia perguntado alguma coisa sobre a mulher com o filho no colo, porque a assim ela respondeu em alto e nítido som:

- Não, o marido dela está com um ano que morreu.

Com a resposta, quase como reflexo, dobrei a cabeça ligeiramente em direção à criança para supor a idade dela e calculei pelos dentinhos que começam a brotar que o bebê não tinha mais do que seis meses. Ou seja: a criança não chegou a conhecer o pai.

Enquanto eu fazia essas conjecturas, a porta-voz do grupo falou, como se estivesse lendo meu pensamento:

- Mataram o pai dele, né bebê? – disse apertando a bochecha do menino.

Eu pensei que a conversa continuaria nessa direção, mas outra vez o motataxista fez uma pergunta sussurrada e a mulher respondeu:

- Já sofri muito como criança. Agora, meu filho, toda folga tomo minha cervejinha. Passei o feriado todo dormindo. Ah, vida boa!

Como a conversa já dava caldo para uma crônica e tudo ali acontecia desnudado, saquei minha caderneta de passageiro-repórter para anotar os detalhes do papo, quando, outra vez, respondendo às silenciosas perguntas, respondeu:

- Tu tá doido? Mal sair duma entrar noutra? Não!

Desta vez, senti o mototaxista constrangido, mas ele insistiu (e juro que não ouvi nada) e a mulher rebateu:

- Mano, hoje a gente não casa mais por amor, né? Mas nunca se sabe!

Depois disso, a chuva e os nossos ônibus passaram levando o que temporal testemunhara.

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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Briga de amigos

 

Neuton Corrêa*

A luta entre os dois amigos estava boa, boa para assistir. Só não ficou melhor porque o busão atrapalhou. A peleja começou no bar e foi parar na viela, onde, para passar um carro, o outro precisa pedir permissão, porque, juntos, os dois não cruzam a via de jeito nenhum, sob pena de se baterem. É claro que quem conhece já sabe que estou falando do bairro Alvorada. Pois foi nesse lugar de ruas apertadas e trânsito intenso que eles resolveram medir forçar e tirar a limpo as diferenças.

Ninguém se meteu na querela. Eles ficaram à vontade, até porque todo mundo os via dia e noite secando milimetricamente, gole a gole, a garrafa cheia de aguardente. Ao contrário, houve quem ajudasse a formar o ringue para que eles estivessem protegidos para trocação de socos, dos quais 99,9% não atingiam o oponente, e o percentual que restava chegava sem violência. O bom era ouvir o que eles diziam, cheios de si, da maldita e de sabedoria.

E essas coisas que eles falavam podiam ser ouvidas fora do cinturão de gente que se formou para assistir à briga. Dessas sábias frases que eles pronunciavam, algumas o Antônio, colega de trabalho que me contou esse episódio, ainda recorda. Eram coisas do tipo: “Vem, pode vir, chapéu de otário é marreta” ou “Quarenta anos (talvez a idade de um deles) de lagoa, perder pra sapo?” E por aí foi o Antônio, que jura não ter feito parte da plateia, narrando detalhes que me custaram a acreditar.

Mas não era difícil deixar de crer. Eu mesmo fui testemunha de algo semelhante em 1989, quando cumpria serviço militar obrigatório, em São Gabriel da Cachoeira. A briga envolveu dois parceiros de farda, dois infantes, dois combatentes de selva, o 1460 (cabo Inácio) e o 1489 (soldado Gama). Eu era o 1481 (cabo Corrêa). Os dois brigaram por causa de fila para o almoço. Um queria passar na frente do outro. O Gama, mais forte do que o Inácio, agrediu o superior, que lhe aplicou uma garfada. Nada grave.

O problema, amigas e amigos do busão, é que a confusão chegou ao conhecimento do Comando da 1ª Cia de Selva e o julgamento sumário do caso ocorreu duas horas depois da briga, na formatura da tarde (no quartel é assim: formatura toda hora).

Inácio e Gama foram chamados para frente do grupamento e interrogados ali mesmo, na frente da tropa. Como não souberam ou não quiseram explicar as razões das agressões, o comandante, com ordens de “direita volver” e “esquerda volver”, abriu um corredor de mais ou menos quatro metros entre os pelotões reunidos e ordenou que os dois continuassem a luta iniciada antes do almoço. E eles lutaram, lutaram, lutaram, lutaram. Lutaram! Até que, sem força, resolveram cessá-la, entreolhando-se, rindo e se abraçando por ordem oficial.

Assim como aconteceu com meus colegas de quartel de fronteira, os amigos do bar do bairro Alvorada, também se cansaram, contou Antônio. Cansaram-se ao ponto de dormir na rua e obrigarem os carros a desviarem-se deles.

Um dos veículos, porém, não pôde parar. Era um ônibus, daqueles verdes que passam por lá. Nessa hora, um deles recobrou o juízo e se levantou, olhou para o lado e auxiliou o parceiro a sair dali, mas quando a plateia achava que a confusão já havia terminado, depois que o ônibus passou, eles voltaram para rua e recomeçaram a briga.

*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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