Aldenor Ferreira*

Em um final de tarde de muita chuva, aqui em Campinas (SP), o trânsito ficou complicado, como ocorre em qualquer cidade grande brasileira. O problema é que eu havia de enfrentar esse caos, pois tinha que voltar para casa e, nesse sentido, só há um jeito: embarcar no 332 para fazer baldeação no terminal de Barão Geraldo e pegar 331 e ir para casa.

Por volta das 17h, é natural que esses ônibus estejam lotados, pois todo mundo está saindo da universidade. Até aí tudo bem. É a rotina dos universitários menos favorecidos que dependem do busão ou dos que optam por se deslocar por essa modalidade de transporte.

Mas, naquele dia, uma coisa me incomodou muito. Na verdade, inquietou-me demais, fazendo-me pensar e indagar o porquê daquela correria.

Tratava-se da indignação de uma senhora, que aparentava ter uns 35 anos, magra, estatura mediana, cabelos à altura do ombro, carregando uma bolsa na cor cinza e com um semblante extremamente indignado.

E ela, ainda na parada, já questionava o porquê do busão estar demorando tanto. “Isso é uma falta de respeito com a gente”. E continuou: “Eles têm que colocar mais ônibus! Como é que pode a gente ficar aqui pegando chuva e sol, esperando mais de uma hora?” Ela falava e tentava achar um olhar que a “ouvisse” e que a voz fizesse coro com a dela, mas ninguém a olhava nem lhe dava a atenção que esperava. Até eu, inclusive, calei.

Depois de algum tempo, o busão apareceu e embarcamos. Então, pensei, agora ela vai se acalmar, pois já está no ônibus e, com certeza, sua angústia passará, conjecturei. Engano meu. Ela continuou indignada e as críticas ao sistema continuaram em voz cada vez mais alta.

Dessa vez, porém, ela encontrou ressonância, contudo, de forma muito tímida, apenas monossílabos, do tipo, “é”, “sim”. Suas críticas continuaram até o terminal, mas, antes de chegar ao ponto, ela então começou a convocar deliberadamente os passageiros, 90% estudantes universitários de diferentes níveis (graduação, mestrado e doutorado), para ir até os fiscais do terminal e denunciar o número reduzido de carros, bem como a demora, e outros problemas.

Ela dizia: “nós temos que ir lá com os fiscais e cobrar deles, se todo mundo for lá e pressionar e protestar, eles vão tomar uma atitude”. E prosseguiu: “Vamos lá, todo mundo, hein? Assim que desembarcarmos, vamos todo mundo lá”. Todavia, ninguém se manifestava em apoio.

Ela seguiu tentando cooptar aliados até chegar ao terminal. Tentou inclusive comigo, mas não obteve sucesso.

Quando o ônibus chegou ao terminal, todo mundo desembarcou correndo para pegar os seus respectivos ônibus. Então, acho que ela desistiu. Eu, envolvido naquele mar de gente, perdi a mulher de vista e corri também para pegar o 331, que estava quase saindo.

Aquela cena, porém, incomoda-me ainda hoje. Como pode um monte de gente tão esclarecida ser tão inerte e mansa, em contraponto àquela mulher que, nitidamente, sem muita instrução, tinha um poder de indignação tão grande.

Pensei no sociólogo italiano Antonio Gramsci e seu conceito de intelectual orgânico, mas isso é assunto para outra conversa

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), dourando em Sociologia (USP).