Ivânia Vieira*

Benúdia tinha um sonho: vir ao Amazonas. Talvez ficasse apenas em Manaus – pedaço menor e o mais dominador desse imenso território. Na cidade, buscaria um lugar para melhor ver o rio Negro, o “mais lindo rio do mundo”, como o apresentamos no passado. Talvez saísse triste pelas tintas carregadas em coisas tão feias.

Esse jornalista angolano, guerrilheiro e, depois, parte do ‘governo revolucionário’ virava menino quando falava das histórias contadas pelo pai sobre o Brasil e o Amazonas, espécie de terra prometida.

Morto há pouco mais de dois anos, Benúdia não conseguiu chegar até aqui. Apenas espalhou seus sonhos, desejos, projetos e, em meio as marcas deixadas pelas guerras para libertar Angola, não perdeu a capacidade de ter compaixão. Olhava atento para os dramas de outros povos, transpunha-se até ser um deles e se perguntava: “o que posso fazer para ajudá-los a superar essa angústia?” Nessa inquietação que o acompanhou sempre percorreu o mundo de guerras e escreveu em meio a agonia da sua existência sobre as longas trilhas a serem vencidas na construção de um estado de paz.

As exigências à construção da paz estão postas para os governos, os jornalistas, os intelectuais, os artistas, os empresários, a sociedade organizada em todo mundo, em todo lugar. E a intolerância é uma das mais cruéis barreiras para essa obra.

É profundamente destrutível. Humanos condenando humanos a uma sub-humanidade, negando o direito do ser uma pessoa e, por isso, portadora universal de uma dignidade que não pode ser aniquilada, desqualificada.

Os povos indígenas do Brasil, os caboclos sabem, em grau diferenciado, o tamanho da dor causada, das vidas perdidas por esse motivo articulado a projetos de dominação de uns poucos sobre muitos. Até hoje, nesse novo milênio de triunfo da ciência e das novas tecnologias, a ignorância alimenta a intolerância e esta justifica a cultura de guerra, das políticas de segregação – um triunfo e uma denúncia de como os humanos podem ser miseravelmente desumanos.

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.