Archive for abril, 2012

O barco do asfalto

Aldenor Ferreira*

Toda semana tenho que pegar o busão intermunicipal para ir à aula na Unicamp, já que agora estou morando em Jaboticabal (SP), a terra da cana-de-açúcar e do amendoim, distante 260 quilômetros de Campinas.

Na minha primeira viagem, com o trajeto ainda inédito, comprei um bilhete onde pudesse sentar na cadeira da janela para apreciar bem a paisagem. E de fato fiquei apreciando tudo, de um lado e de outro das rodovias Washington Luis e Anhanguera, importantes rodovias que ligam o interior do Estado à capital.

Amigos do TEXTOBR, a paisagem é monótona, possui uma única cor e uma ausência. A cor é o verde, da imensidão das plantações de cana-de-açúcar, paisagem humanizada que mostra a força do agronegócio na região. Quanto à ausência, esta é de fácil percepção, ou seja, nada de florestas, apenas pingos de matas, tristes e isolados uns dos outros, como se fossem as lágrimas do Criador caídas ao chão.

Logo de imediato lembrei de Antônio Carlos Belchior, naquela sua modinha chamada “Fotografia 3×4”. No primeiro verso dessa canção o poeta diz: “eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei; jovem que desce do Norte pra cidade grande; os pés cansados e feridos de andar légua tirana; e lágrima nos olhos de ler o Pessoa e de ver o verde da cana…”. De fato foi um momento de emoção.

O itinerário do busão é planejado para que o mesmo pare em várias cidades que se localizam às margens das rodovias acima citadas. O silêncio interno do busão, com suas poltronas reclináveis, onde todos dormiam ajudados e embalados por um potente condicionador de ar, possibilitou-me divagar e voltar à infância.

Nesse ambiente tranquilo, lembrei das viagens que fazíamos todos os meses do Aduacá para Parintins. A cena é a mesma, só que lá viajávamos no barco de recreio que, ao longo dos anos, tal qual o busão, também foi evoluindo.

De um motor 4 Yamaha, para um 25, depois para um 52 e até quando viajei, para um 114 MWM. As viagens que duravam até 12 horas, hoje duram a metade. Ao longo do Paraná do Cabori várias comunidades, vários portos, rica paisagem e muitos embarques e desembarques.

Quando saíamos no rio Amazonas a mesma coisa. Então, mentalmente transladei o Paraná do Aduacá para São Paulo e conclui: aqui os paranás são as rodovias, as comunidades são as cidades e o barco é o busão, “o barco do asfalto”, até o ronco do motor é parecido. Cada manobra de entrada e de saída das rodoviárias das cidades me remetia às mesmas manobras do comandante do barco Cel. Tavares.

E a viagem seguia; vários portos, várias comunidades, muitas manobras, muitas rodoviárias. Aqui, como lá, a cada porto uma parada, muitos embarques e desembarques, todos carregados de sonhos e esperanças.

Aqui como lá, há alegrias de chegadas e tristezas de partidas, todos esses pontos comuns apontam para uma mesma realidade, ou seja, tanto aqui, quanto lá, todos estão inseridos nessa colossal máquina da vida. Sem dúvidas foi uma viagem recheada de lembranças e comparações, sem água, e com muito asfalto.

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultural/Ufam; dourando em Sociologia pela Unicamp.

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Ré-tchem-tché

Neuton Corrêa*

Entretidamente, três amigas embarcaram no ônibus falando alto e pouco se importando com o busão lotado. Como falavam, falavam e falavam, detive-me com outras coisas. Porém, a certa altura da viagem, quando boa parte dos passageiros já havia desembarcado, escutei uma delas dizer: “Ela matou a jornalista”.

A frase não apenas aguçou minha atenção, mas, também, deixou-me com as mãos e os pés gelados por trazer uma informação do meio profissional em que atuo. Para começar, tenho dezenas de colegas jornalistas e, por isso, logo preparei o telefone esperando que ela dissesse algo mais para que eu buscasse outras notícias.

A sequência da narração que ela fazia, contudo, permitiu que eu respirasse aliviado, mas, ainda assim, fiquei impressionado com a performance que exibiu para contar o capítulo da noite anterior da novela. Parecia ser ela mesma quem havia segurado o travesseiro para sufocar a repórter dentro do hospital.

A riqueza de interpretação me trouxe à mente o esforço que a garotada de meu tempo fazia para assistir aos filmes do velho oeste americano, exibidos nos saudosos Cine Saul e Cine Oriental. Eu já não me recordava mais disso, mas o conterrâneo (o mais famosos de todos) Chico da Silva, há poucos dias, contou detalhes de como isso se dava.

Na verdade, segundo o Chico, nem todo mundo, naquela época, conseguia vender tucumã e picolé suficiente para comprar o ingresso. Então, para não perder o filme nem “furar” o cinema, a curuminzada se cotizava e elegia um que depois soubesse contar para os que não entraram ao que havia assistido.

E não pense que a turma se contentava apenas com a narração, conta o Chico. Dependendo da história, fazia-se até montagem de espetáculo com direito a cenário e personagens que Hollywood mandava para o interior da Amazônia nos antigos rolos de películas que circulavam o mundo todo.

Um desses episódios o Chico contou assim, com sua voz inconfundível:

“Era um daqueles filmes de guerra de índios contra o exército americano. O Narciso foi escalado para assisti-lo e, quando voltou, levou a turma para a praça pra contar a história. Aí, num círculo, fez aquele ritual: uns se fantasiaram de índio e outros de soldado.

Ficaram divididos. De um lado, os índios; de outro, os soldados. E, no meio, sentados, ficaram um chefe sioux, um chefe cheyenne e um chefe apache, que conversavam com um general da brigada americana do Western por intermédio de um tradutor, que ouvia as lideranças e falava para o general e, no sentido contrário, ouvia o general e falava para os chefes.

Era uma guerra por território. Os líderes estavam reunidos para decidir se iriam ou não para o combate. Aí, o tradutor ia e vinha; ouvia as palavras enroladas das lideranças e depois falava para o general, que sempre perguntava: “O que ele disse?”

Na primeira pergunta, o tradutor respondeu: “O chefe siouxdisse que, em memória dos jovens que morreram em combate, ele não aceita levar seu povo para guerra”. Na segunda, ele traduziu: “O chefe cheyenne disse que, por seu território, ele vai para guerra para honrar a terra em que vive”.

O problema foi quando o tradutor ouviu o chefe apachedizer: “Ré-tchem-tché”. O general perguntou: “O que ele disse?”. Sem saber responder, ele olha novamente para o apache, que, irritado, dançando em círculo e batendo sua lança no chão, começou a cantar:

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché;

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché.

O general outra vez perguntou o que ele havia dito e o próprio chefe apache respondeu, cantando: “Vai quem quer; Vai quem quer”.

*Filósofo e escritor; mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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