Archive for maio, 2012

O fanho andarilho

Neuton Corrêa*

Era fim de tarde de sábado, voltava da zona rural e havia parado em uma feira à beira da rodovia Manoel Urbano, atraído pelo alaranjado do maracujá do mato que se destacava entre melancias, bananas, ingás, cachos de pupunha e trabalhadores que saboreavam churrasquinho de gato com farinha amarela no copinho, quando o fanho veio em minha direção e, à queima roupa, disparou um pedido: “Senhor, me dê um dinheiro para eu comprar passagem pro Cacau Pirêra?”.

Não pense que foi tão simples para mim, no primeiro momento, entender o que ele havia dito. Levou algum tempo. Na hora, entendi apenas o “senhor”. Pedi que repetisse, e nada. Depois, compreendi que ele queria dinheiro e, por fim, com a ajuda de dois amigos, que ele queria chegar ao Distrito de Cacau Pirêra, distante dali, mais ou menos, três quilômetros.

O fanho entendeu que lhe pedia para repetir a pergunta não por zombaria, mas porque a comunicação entre nós estava precária e ele mesmo tratou de explicar que falava com dificuldade. Imagine: o fanho reconhecendo a dificuldade de falar: “Senhor, desculpa, não estou conseguindo falar direito por causa disso aqui”, disse, levantando o lábio leporino com as mãos para mostrar os pontos de uma cirurgia que parecia ter sido feita poucos dias antes. “Senhor, estou fazendo cirurgia. O senhor vai ver: ‘eu vou falar melhor’”.

Embora tivesse me convencido da recente cirurgia, outra coisa me intrigava: o fanho estava com o rosto negro do sol e brilhava muito, o que me fazia desconfiar que ele tivesse, ali, tentando levantar algum trocado para beber mais à frente. Então, voltei a perguntar:

- O que você quer mesmo?

- Senhor, quero chegar no Cacau Pirêra.

E eu, impondo minha arrogante convicção de que estava sendo enganado, sentenciei:

- Quer nada, rapaz!  Você quer é beber…

Mal acabei de falar, o fanho, olhando nos meus olhos, começou a lagrimar e a falar:

- Senhor, pelo amor de Deus, eu não estou mentindo não, senhor. Senhor, eu estou vindo andando de Manacapuru. Fui atrás de trabalho. Estou há dois dias andando e agora eu só quero chegar ali no Cacau Pirêra, pra amanhã cedo eu continuar andando.

Meu coração amoleceu. Ele ainda queria continuar falando, mas o interrompi, oferecendo-lhe o maracujá do mato e uma lata de refrigerante, ao mesmo tempo em que imaginava os 80 quilômetros que ele havia percorrido a pé.

Depois de conversar melhor com ele, descobrir que o fanho se chamava Manoel Carlos do Amaral, que, apesar de aparência mais adulta, ainda era um jovem de 22 anos de idade, nascido em uma comunidade indígena do alto Juruá e que ficou órfão de mãe horas depois de nascer, e de pai, aos quatro anos de vida, quando foi trazido para Manaus.

Ouvindo o relato ainda na beira da estrada, notei que o Carlos embargou a voz e nublou os olhos, quando falou do pai. Então, quis saber a razão e ele prontamente:

- Senhor, por causa de mim, meu pai não existe mais.

- Como assim? – intriguei-me.

- Senhor, meu pai tinha vergonha de mim e toda vez que ele bebia ele chorava muito. Foi minha avó que contou. Na última vez que ele chorou foi assim: ele colocou a espingarda bem aqui (mostrou o dedo indicador direito debaixo do queixo).

O Carlos não conseguiu concluir o raciocínio e eu fui levá-lo aonde ele queria, no bairro São José Operário, distante de onde o encontrei mais ou menos 40 quilômetros.

*Filósofo e escritor.

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Os pesos e a balança

Ivânia Vieira*

O debate apenas começou. Judiciário e imprensa têm uma estrada comprida, desconhecida e carregada de grandes conflitos para percorrer.

Como será essa caminhada? Vai depender da qualidade da interlocução feita e das condições reais dos momentos vividos. Até hoje prevaleceram os passos de confronto entre dois desconhecidos, detentores de poder cuja função só se completa se colocada a serviço da sociedade e não de determinadas castas.

De um lado, o Poder Judiciário, cuja abertura é uma experiência recente e em construção no Brasil. E, de outro, a imprensa, em crise promissora, porque, acuada com o impacto avassalador da Internet, refaz caminhos e reinventa-se. Daí a importância do ‘namoro’ que o Judiciário amazonense e a mídia estão vivendo.

O cupido é uma turma da Escola Superior de Magistratura do Amazonas (Esmam) com percepção sobre as possibilidades em terreno árido e disposta a abrir trilhas. Nessa namoração não vale submissão de um a outro e nem se propõe o fim das tensões. Ao contrário, caminhar nessa estrada com maior segurança significa compreender as diferenças e as convergências entre o Judiciário e a imprensa.

Não se trata de uma relação de subordinação ou a busca do silenciamento. Tais tentativas, quando ocorrem, demonstram a linha tênue que separa autoritarismo e democracia. O exercício de agora é pelo avanço democrático das instituições. Por aqui, estamos aprendendo a sentar à mesa, juntos, para promover diálogos e estudar os posicionamentos.

A série de exercícios proposta é longa, deixa corpos e mentes doloridos. Afinal, a falta da cultura da conversa e do debate, para ambos, produz doenças perigosas, mantém abismos e cultua a linguagem fechada como espécie de muro para assegurar a intocabilidade de uns poucos.

Enquanto isso, no Planeta Terra, imprensa e Judiciário são cada vez mais pressionados por mulheres e homens cujos direitos estão ameaçados, foram e são negados e suas histórias não
entram em pauta.

*Jornalista de A CRÍTICA, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Tempo bom

Neuton Corrêa*

Meu coração apertou e meus olhos, como várzea na enchente, alagaram com a cena: um picolezeiro tentando consertar o lado esquerdo das sandálias. Ele iria correr para embarcar no 422, mas a alça do calçado que se encaixa entre os dedos saiu da sola. Mesmo assim, arrastou-se para embarcar no busão, mas era impossível conter a pressa do motorista em um domingo de pista livre.

Por isso, talvez por isso, a única coisa que voltou em mim foi o tempo. Ali estavam dois parceiros de minha infância: uma caixa de picolé e um par de sandálias de borracha.

Vender picolé no meu tempo de Rua 31 de Março era a diversão da garotada. Fora de moda era ficar em casa. Não tinha curtição melhor do que pegar um isopor no bar São Pedro, no Bar do Xangaia, no Mine Bar ou no Brasa. Nem todo mundo tinha o privilégio de sair pelas ruas gritando: “Picolé do Brasa! Picolé do Brasa!” Nunca tive essa sorte. Toda vez que me apresentava ao Brasa para o trabalho, negavam-se o serviço. Diziam que eu era gito demais (e era mesmo). Então, ia para o São Pedro.

Nesse saudosismo, lembro agora meus parceiros de trabalho Bereré, Paulo Turino, Senembu, Jonas, Musiquinha, Cocada, Abutre (já falecido), Busina e do Bi Garcia, hoje prefeito de Parintins, que naquela época era apenas o desengonçado Frank, vendedor de doce de leite, em lata de leite Ninho.

Pois bem, a bolsa de picolé era apenas um motivo para ganhar o mundo sobre as sandálias Cariri. Havaianas eram um artigo de luxo, ainda mais no caso de minha turma, que nunca voltava direto para a casa. Sempre havia tempo para uma partida de futebol na praia da beirada do mercado ou na praça da Catedral.

Essas brincadeiras me permitem ver agora quanta utilidade havia em nossas sandálias. Começava com o gol. Bastavam dois pares, duas bandas de um lado e de outro e pronto, as traves já estavam montadas. O Bereré era desconfiado. Com medo de perder o calçado e de levar surra com sandália, ele não se separava das dele. Metia-as no braço, à altura dos bíceps, e corria pra cima pra baixo.

As sandálias também serviam como luvas de goleiro, principalmente quando o jogo era com bola pesada ou molhada ou mesmo quando se sabia que ali tinha um atleta de chute forte. O Paulo, maior e mais fundo (bola murcha), preferia o gol. Ah, o Paulo, apesar da altura e da largura, tinha uma voziiiinha. Falava fino demais, parecia voz feminina.

Eu era relaxado com as minhas sandálias. Tanto que um dia tomei um chá de ripa de cedro porque não sabia por onde minhas sandálias andavam na hora de entrar na escola, que ficava em frente de casa. Fui com uma nova que meu pai comprou na mercearia Deus Proverá, do seu Zeca. Pois não é que nesse dia, na hora do recreio, ao chutar uma bola de meia, minha Cariri voou para o telhado do Ryota Oyama. Com medo do segundo chá de cedro, esperei as zeladoras saírem de lá e resgatei meu calçado.

Por favor, não me pergunte como foi, porque, toda vez que olho para a escola fico imaginando o risco que enfrentei para tê-las de volta.

Antes de finalizar essa história, ocorre-me agora a lembrança das sandálias com alça traseira de elástico. Lembram?

Foi pensando nessas cenas que meus olhos não aguentaram. Além disso, tinha visto o quanto o picolezeiro havia aproveitado bem suas Havaianas. Quando as levantou, deu para ver o desgaste da borracha. Aquele botão de baixo já não existia. Então, pensei que poderia voltar para ajudá-lo, mas, ao meu alcance, não havia nenhum prego. Então, segui a viagem internamente chorando com as lembranças daquele tempo bom.

*Escritor e filósofo.

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O terrorista

Neuton Corrêa*

Alguma coisa deve ter traumatizado o Juliano Petro Velho. À noite, quando já está recolhido, qualquer coisa o assusta, até mesmo o sopro de uma brisa fina na janela de seu quarto o faz tremer. Mas isso não tem sido tão ruim em sua vida. Graças a esse problema salvou seu casamento em uma aguda crise no relacionamento.

Nessa época, ele ainda morava perto de casa e, há alguns dias, estava em crise com a esposa, Katyane. Ah, preciso fazer esse registro antes de seguir a história. Os dois se conheceram na infância; na pré-adolescência, começaram a namorar; aos 17 anos, foram morar juntos; e, aos 30, casaram-se.

Eles não se falavam há dias e, naquela noite, as coisas atingiram o limite. O Petro Velho chegou meia-noite em casa, para o tudo ou nada: xingou e foi xingado; ameaçou e foi ameaçado; tentou seduzir, mas dona Katy não cedeu. Ele, então, estufando o peito e engrossando a voz, decretou: “Se for assim, não fala mais comigo”. E dormiu.

Mas, lá pelas tantas da madrugada, observando o relógio rodar sem conseguir dormir, Katyane ouviu movimentos no quintal e percebeu que a fechadura da porta da casa estava sendo forçada. Naquele instante, ainda lembrando a briga, hesitou em avisar o Petro Velho, mas depois deu o braço a torcer e, tremendo, cutucou o parceiro, sussurrando:

- Juliano! Juliano!

E ele, achando que ela havia cedido aos seus encantos, quis se valorizar:

- O que é? Agora quem não quer sou eu!

Ela imediatamente sussurrou:

- Tem gente querendo entrar em casa.

E ele, num abrupto reflexo, abraçou a parceira de cama e, como o milagre da transformação da água para vinho, afinou a voz e sussurrou longamente:

- Onnnnndee!!!!

Katyane não se segurou e deu uma gargalhada que deve ter assustado o ladrão.

Conto essa história porque esta semana encontrei o Juliano, que agora é vereador em Parintins. Assim que a gente se encontrou, ele contou:

“Rapaz, pois não é que o ladrão entrou em casa, de novo, e, por pouco, não virei um assassino? A gente tinha acabado de chegar da festa, umas duas horas da madrugada. Quando estava deitado, ouvi um barulho no quintal. A Katyane, também, e me olhou no mesmo instante, assustada.

Meu compadre, eu disse: ‘É ladrão e está rondando a casa. É um bandido perigoso e já matou os cachorros’. Eu falei isso porque nem o Fiuk nem a Miúcha latiam. O ladrão rodeava e casa: dava três passos e batia no piso. Aí, eu pensei: ‘esse cara quer me assustar e depois me matar. Mas eu não pensei duas vezes, peguei o telefone e liguei pra Polícia, mas não completava a chamada. Aí, eu comecei a tremer nas pernas.

Como o bandido continuava rondando a casa, assustando a gente, eu disse: ’Katyane, traz o Luan (filho) pra cá e vamos trancar o quarto‘. E assim fizemos. Empurramos mesa, cama, cômoda, guarda-roupa. Tudo! E disse: ‘aqui ele não entra!’

Compadre, aí deu três horas, deu quatro, deu quatro e meia… Liguei pro meus amigos e ninguém atendia. E o ladrão continuava rondando a casa. Andava e batia no chão.

Quando deu cinco e meia, eu decidi: Katiane, eu vou matar esse terrorista. Combinei com ela: na hora que ele passar por aqui (eles já estavam na cozinha), tu abre a porta que eu vou lá dar uma facada nele. E assim, combinamos. Dei um beijo de despedida na minha velha, porque eu poderia me dar mal. Mas quando ele passou dando pegadas pela porta, e que a minha velha abriu a porta, eu não tive coragem e pensei: ‘deixa eu primeiro olhar pela brecha da janela pra medir o tamanho desse bandido’.

Quando olhei, meu compadre, com o dia claro, dei de cara com o bandido perigoso: Pois não é que era um tracajá que me deram no interior, que andava e batia o peito no piso, mas fazia isso parece gente?”

Meu amigo Petro Velho não teve coragem de matar o bicho de casco e mandou soltar o quelônio no lago do Macurany.


*Filósofo e escritor.

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O homem-Onça

Neuton Corrêa*

O homem sentado no cantinho do busão me fez lembrar do Maneco, o Homem-Onça. Talvez a lembrança fosse porque o passageiro estava exatamente do mesmo jeito que o Maneco estava a última vez que o vi na cabeceira do rio Uaicurapá, zona rural de Parintins. Esse passageiro vestia bermuda, camisa desbotada do Flamengo e grudava ao ouvido a um rádio de pilha.

Assim estava o Maneco quando fui apresentado a ele em abril do ano passado. Para ser mais preciso: às três da tarde do dia 30 de abril, um sábado. Era festa de padroeiro na comunidade, mas, mesmo com a movimentação do povo, o Maneco mantinha-se imóvel e distraidamente sorridente ouvindo a narração de uma transmissão esportiva.

Eu estava só de passada por ali, mas, tão logo desembarquei da voadeira, meu amigo Juliano, que me convidara para a viagem, interrompeu o rumo em que caminhávamos e, puxando-me para o sentido contrário, disse: “Vem cá que eu vou te apresentar o homem que lutou com a onça”. O Juliano falou isso perto do Maneco, a quem pediu o testemunho:

- Não é verdade, Maneco, que você é caçador de onça?

E o Maneco, desgrudando o rádio da cabeça, respondeu meio assoviado por causa da dentadura que quase caía de sua boca.

- É verdade!

E o Manoel Rodrigues, este é o nome do Maneco, um sujeito de mais ou menos 60 anos de idade, moreno e rústico, de braços que não abriram espaço para nenhum pedacinho de gordura, começou, calmamente, como o lugar onde mora, a contar suas caçadas aos felinos.

A primeira e a mais marcante delas aconteceu quando ele ainda estava com 27 anos. Maneco se recorda bem da idade, porque naquele ano havia se casado. A caça era para festa do padroeiro. Cinco homens saíram para o mato. Estavam armados de espingardas e acompanhados de cães caçadores.

À certa altura da caça, o cachorro que lhe acompanhava acuou e passou a seguir uma presa. Era um veado. Quando percebeu que se tratava de um animal de grande porte, no ímpeto de sua juventude, resolveu acompanhar o cão até que o veado ficasse acuado em meio a uma galhada de uma enorme árvore caída na floresta.

Observando a galhada a distância e ouvindo o cachorro latir, Maneco gritava para que o cão continuasse cercando a presa. Mas, ao chegar perto da árvore caída, o caçador ouviu um latido desesperado e, após o desespero, o silêncio do animal.

Maneco não teve dúvida. “Era uma onça”, asseverou. Mas não pense que se intimidou. Não! Ele municiou a espingarda e rondou a galhada à procura da onça. O problema foi que a onça o surpreendeu antes e, assustado, Maneco fez um disparo que apenas raspou o couro da onça, deixando o animal ainda mais furioso.

- Ela veio pra cima de mim. Aí nós começamos a brigar: brigamos, brigamos, brigamos até eu e ela se cansar.

- Como? Perguntei, tentando entender. E ele:

- Minha preocupação era segurar a pata do bicho. Eu sabia que, se ela tocasse a pata em mim, não tinha jeito. E usei a arma pra me defender.

E continuou:

- Teve uma hora que ela veio pra cima de mim e, pra me defender, coloquei o cano da espingarda na barriga dela e ela voltou. Ficamos mais uma hora brigando, até ela me respeitar. E ela me respeitou!

- E aí, pergunto ao Maneco se ele ainda continuou saindo pra caçar e ele respondeu:

- Tenho evitado, parente, porque toda vez que saio à noite pra caçar morre um cachorro e amanheço sem saber onde estou.

Lembrando do Maneco, nem vi o que aconteceu com o flamenguista do busão.

*Filósofo e escritor.

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Ética e política: uma aula de Português

Darlem da Silva Monteiro*

Na preparação das aulas de acentuação, procuro sempre antecipar (ainda que mentalmente) um elenco de vocábulos com um mesmo padrão sistemático de acentuação gráfica, para não dar aquele “branco” lacunar na hora de provar os argumentos e a lógica das regrinhas gramaticais.

À guisa de exemplo, para as palavras oxítonas sempre vêm “paletó”, “guaraná” e às vezes “mané”.  Para as paroxítonas… Bem, para essas a lista é bem mais esticada.

Pensando nas proparoxítonas, veio-me à mente “política”. Em seguida, por uma razão que só Freud poderia explicar, “ética”! Seria muito fácil, para qualquer um (inclusive professor de Português!), construir uma oração, na qual essas palavras se relacionem muito bem sintaticamente. Difícil é demonstrar onde, na realidade fática (e às vezes fatídica) dos alunos, elas figurem juntinhas de verdade.

Se isolar os termos, um dicionário resolve. “Política”, ciência dos fenômenos referentes ao Estado e arte de bem governar os povos. “Ética”, juízo de conduta humana relativa às faculdades morais, do ponto de vista do bem e do mal, do certo e do errado, etc. Pronto, moleza! O problema é unir essas palavras. Separadas são apenas acepção; juntas, revolução. Quem quer se meter num assunto desses, numa aula de acentuação, às 9 da noite…?

– Talvez se eu colocasse num período “política” perto de “paletó” e “guaraná”, facilitaria para eles e para mim – pensei –, pois eles já sabem que quem anda envolvido com política, usa paletó e gosta de um “guaraná”. De quebra, aprenderiam o que é “período composto” e com um verbo transitivo indireto, pois na política as coisas “transitam indiretamente”. Logo, “quem gosta” deve gostar “de alguma coisa”.

Faltaria a oxítona terminada em “e”. Onde colocar o “mané”, então? Juntinho de ética, claro! Por que não pensei nisso antes?! Onde mais poderia andar o mané nesse país senão do lado da ética? Logicamente, não vou me preocupar em explicar o que (o) “Mané” está fazendo aí. Elementar coincidência. Melhor é mostrar como é interessante que o e é aberto em ética no início e o de mané no fim, para não ter trabalho com outras discussões. E país…? Bem, o que há nesse caso é apenas um grande hiato que separa os pólos silábicos, políticos e éticos, entre paletós e manés.

*Licenciado em Letras pela Ufam, especialista em Língua Portuguesa pela Ufam, Professor de Língua Portuguesa no Ensino Público Fundamental.

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