Archive for junho, 2012

Indignai-vos!

Ivânia Vieira*

Enquanto jovens gastam horas ‘discutindo’ que estão velhos aos 28, 30 anos, um homem de 94 anos é pura chama acesa. E contamina pelo vigor, pela paixão e ousadia. Stéphane Hessel literalmente incendiou o mundo em 32 páginas, com o “Indignai-vos!”, lançado em 2010.

Amado e odiado, Hessel encarna o mais desaforado e corajoso jovem. Ou, talvez, tenha se reinventado para balançar os jovens envelhecidos e chamar a atenção deles quanto à responsabilidade que têm com o futuro desse mundo. Para isso, é preciso desorganizar o mundo atual, gritar que não há conformismo com o modelo de vida imposto à maioria das populações do mundo.

Hessel, nascido em Berlim e naturalizado francês, foi da resistência na Segunda Guerra. E um dos redatores, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje, conclama os jovens para evitar a derrocada, a não aceitar o desemprego, a construir uma outra sociedade e resignificar a democracia.

É esse homem que mobiliza para enfrentar os devastadores do planeta; para o combate à corrupção, à impunidade e à servidão da classe política e contra um sistema de “cooperação pela financeirização do mundo”.

Ele fala olhando uma Europa mergulhada em crise aguda, mas a matéria prima do “indignai-vos” cabe em qualquer continente, na maioria dos países.

A obediência ao consumo é um dos enfrentamentos propostos por Hessel. Afinal, na lógica constituída por e para a indústria do consumo reside um dos suportes desse mundo doente. Ter e ter virou obsessão, justifica qualquer ato. Crianças, adolescentes e jovens são as presas preferenciais.

A democracia aprisionada pelas oligarquias tornou-se um meio de negócio entre os poderosos e, asfixiada, perde a referência de ser uma experiência de êxito na história da humanidade. Por isso, Hessel é tempero novo na vida acomodada.

Em entrevista à “Carta Maior”, em dezembro de 2011, Stéphane Hessel disse: “Eu só convidei as pessoas a refletirem sobre o que elas acham inaceitável”. O convite continua valendo!

*Jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Ambientalista e otário

Neuton Corrêa*

Interrompi minha caminhada de todos os domingos para atrapalhar a passarinhada de um homem que montou suas armadilhas em um igarapé assoreado à beira da Avenida das Torres. Encontrei-o quando ainda alongava os músculos sem imaginar que mais à frente, quatro quilômetros depois, eu o encontraria outra vez.

O Sol acabava de se mostrar por completo naquela manhã, quando ele passou por mim. O homem estava em uma bicicleta e levava, pendurado no guidão do veículo, uma gaiola coberta com um pano branco. Como passou muito perto de mim, pude notar que não era um pano qualquer, mas uma capa, preparada como quem encomenda roupa de alfaiate, que vestia o cativeiro conduzido pela avenida.

Assim que vi a gaiola, lembrei-me de um episódio que aconteceu ali nas proximidades e que me envolveu. Foi em um mercadinho do conjunto Boas Novas, no derredor do bairro onde moro, na Cidade Nova. Lá, nesse comércio, costumava molhar a palavra, mas, por causa de uma grade encapada como aquela do ciclista, fiquei sem clima para continuar frequentando o lugar.

Isso ocorreu no dia em que conversava com o dono de mercadinho e que, de repente, um rapazote apareceu na rua carregando uma gaiola. E eu, já com a palavra encharcada, surpreendi-me com o garoto carregando um passarinho aprisionado. A surpresa era porque imaginava que manter passarinho preso, coisa que via muito na minha infância e que era algo como moda, fosse coisa do passado.

Nessa hora, olhei para o dono do bar e disse-lhe, apontando para o garoto:

- Você sabia que eu pensava que passarinhada fosse coisa do passado e que a garotada condenasse isso?

O comerciante, então, baixou a cabeça, riscou o chão no qual sentávamos sobre tijolos que ali serviam de bancos de bar, e assentiu com o que eu dizia. E, encontrando clima para vender meus valores da ética moderna ambientalista, fui além:

- Vou te dizer uma coisa, vizinho: Se eu fosse o pai desse moleque, chamaria ele e diria: ‘meu filho, que gosto tem ver canto de preso?’.

O dono do mercadinho outra vez concordou comigo e comentou:

- É, vizinho, eu vou chamar e falar isso para ele.

Depois, visivelmente constrangido comigo, o comerciante deixou minha companhia e pôs sua mulher para atender. Entendi que ele não havia gostado da conversa e nunca mais retornei ao seu comércio.

Pois bem, enquanto caminhava lembrando-me dessa situação constrangedora para mim, encontrei o ciclista outra vez. Ele já estava dentro do terreno cercado com arame farpado, o que me fez deduzir, já predisposto contra ele, que o homem havia invadido uma propriedade particular para capturar passarinhos. Então, interrompi minha caminhada para atrapalhá-lo.

De birra, fiquei ali, olhando a passarinhada. Ele já havia montando a gaiola em uma galhada perto do igarapé e se preparava para armar uma espécie de rede de pesca, mas não conseguia estendê-la, porque não conseguia abri-la e porque passou a se incomodar com minha presença.

Eu estava preparado para denunciá-lo à Polícia. Havia razões de sobra. Primeiro, por invasão a propriedade particular; depois, poderia acionar o batalhão ambiental, mas minha intenção era constrangê-lo. Mas, minutos depois, ele percebeu minha intenção, pegou seus apetrechos, a bicicleta e foi-se.

À noite, quando achei que minha missão ambientalista do dia já havia acabado, naquela mesma avenida, num mega show com atrações nacionais que participavam da Virada Cultural, encontrei um jovem extremante emocionado com o Seu Jorge e a banda RPM, tentando arrancar uma árvore do canteiro central e fui lá.

Bem, não vou dar detalhes da confusão que se formou. Conto apenas o final, quando o rapaz me procurou e me disse: “Pô, cara, nem tinha me tocado que eu estava dando uma de otário. Vamos lá bater uma foto perto da árvore”. E eu, pensando no risco que corri e também me chamando de otário, aceitei fazer a foto.

*Filósofo e escritor.

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Ser professor/a

Ivânia Vieira*

Há 14 dias**, professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) estão em greve. A suspensão das atividades faz parte de um movimento nacional cada vez mais representativo. São 48 instituições federais das quais 44 universidades, de um total de 59 paralisadas. A adesão progressiva ao movimento mostra um outro nível de compreensão da categoria quanto à necessidade de fazer valer compromissos e garantir conquistas.

É um retumbante sim à greve. Não pelo esvaziamento do espaço universitário e às férias antecipadas. Há uma postura de maturidade por parte da categoria nascida como resistência ao processo de decadência a que está sendo submetida a profissão de professor/a. O governo ampliou as responsabilidades e a carga de trabalho enquanto manteve encolhidas e precarizadas as condições de trabalho.

Do ponto de vista salarial, professores universitários têm rendimento achatados e congelados por longo período. Quando reunidos, esses dois indicadores compõem um cenário crítico. Não apenas para professores/as, pessoal administrativo e marítimo, mas à sociedade. É ela, em última instância, a vítima maior das ações de aniquilamento da educação superior.

A responsabilidade de uma instituição federal de educação está historicamente concebida no ensino, na pesquisa e na extensão.

São professores/as, independente do sol, da chuva, aqueles que multiplicam as pernas, os braços e ampliam o olhar para fazer assegurar a manutenção desses pilares nos meios urbano ou rural.

São professores/as que carregam os estudantes nessas andanças em nome da obtenção do conhecimento científico, da busca de qualificação nesse aprendizado.

São investimentos diário e anônimo numa formação técnica e humanística feitos ora nas salas de aula, nos laboratórios ora nos seminários, fóruns e ciclos de debates.

São professores/as que, mesmo na adversidade, nos revelam caminhos e oportunidades desde o capítulo inesquecível de um livro, a fala de esperança em meio a uma aula dada, até à monografia, à dissertação, à tese ou a alegria pelo primeiro artigo científico publicado.

A greve é o grito para além das paredes em nome da dignidade de ser professor/a neste País.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

**Publicado em 30.05.2012, no jornal A CRÍTICA.

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