Archive for julho, 2012

É hora de emborcar o cocho

Wilson Nogueira*

A insegurança piorou a qualidade de vida em Manaus. Faz tempo, mas só agora foge do controle da operação abafa do Governo do Estado em aliança com os setores comensais das elites econômicas e políticas. A ineficácia da proteção constitucional e o domínio dos bandidos, por meio do medo, amordaçam a sociedade. Denunciar para quem e para que? O efetivo atendimento aos apelos da população, pelos órgãos da segurança pública, é pífio, para a alegria dos malfeitores. Resta aos cidadãos de bem, principalmente àqueles que não podem contratar a polícia privada, reforçar as trancas da casa. Não há bairro em que o pequeno comerciante não esteja atendendo aos seus clientes em balcão por trás das grades.
Manaus vive, atualmente, sob o medo da violência que, longe de ser apenas um fantasma, é pura realidade revelada nos assaltos, nos latrocínios e nas execuções a sol a pino. A situação é tão grave que se torna difícil admitir que exista policiamento regular na cidade – ou que haja punição exemplar aos que afrontam as leis. Sem garantia de proteção, a tendência do cidadão comum, até por questões de sobrevivência, é silenciar, comportamento que só favorece não-punição dos delinquentes e dos maus governantes. A impunidade é a filha-dama da Omertà. Que digam a Itália dos mafiosos, o Japão da yakuza, a São Paulo do crime organizado do tipo PCC e os morros cariocas das meliças que controlam o tráfico de drogas e armas.
O problema não é fácil de resolver, porque é sintoma de um estado contaminado pela corrupção dos valores éticos e morais das suas instituições. Mas é preciso gritar: o péssimo exemplo vem de cima! Os ladrões de colarinho branco assaltam os cofres do contribuinte, enquanto juízes, parlamentares, promotores e policiais se corrompem e amolecem as folhas das leis. Assim, estimulam a si mesmos e aos facínoras a agir com a certeza de que não serão punidos. O dinheiro público desviado pelos criminosos faz falta na escola, na saúde, na segurança e na promoção da justiça. A indiferença à aplicação correta do dinheiro público alimenta o circulo vicioso que se espalha, com rapidez espantosa, por toda sociedade em razão da escassez de atitudes altruístas dos que deveriam dar bom exemplo.
Corrompido até a medula, o (des)governo tenta se sustentar nas bravatas espetaculares. Acossado pelos ladrões que ele mesmo alimenta, o estado faz-de-conta que toma alguma providência. Põe soldados armados com metralhadoras nas esquinas movimentadas e encharca a mídia com propaganda paga com o dinheiro do contribuinte para causar sensação de segurança. Simulacro vergonhoso! Ao invés de atender aos apelos das vítimas, os gestores de plantão preferem adotar a recomendação dos herdeiros de Goebbels. Os marqueteiros de esquina são impiedosos na arte de dissimular: repetem, repetem, repetem…, para ver se cola na sociedade uma realidade inventada por suas fantasias estimuladas por cifrões.
Mas os sentidos que se excitam com a profusão de sons e cores da propaganda são os mesmos que se compadecem e choram os seus mortos. E como se tem chorado em Manaus nesses dias de matança de taxistas que, heroicamente, saem às ruas para quebrar o silêncio que protege o medo! Outros trabalhadores e seus familiares também derramam suas lágrimas porque perdem seus entes queridos na saída ou no retorno para o lar. Noutros dias tombam jovens em provável guerra entre traficantes por pontos de vendas ou por quitação de débito por consumo de drogas, segundo versão da polícia. As mortes atribuídas à guerra do tráfico, aliás, parecem não ter importância alguma: nem para a polícia nem para setores da sociedade que preferem lavar às mãos a encarar as drogas como um problema coletivo. Afinal, são, em grande medida, os consumidores das classe média e alta que financiam, por meio do consumo, os negócios do narcotráfico.
Por isso, não importa quem ou quantos choram. Se os elefantes choram seus mortos por que os humanos não haveriam de chorar os seus? Estranho mesmo é constatar que a vida se transformou numa mercadoria sem valor no banquete da violência, onde não se distinguem mais quem são os homens bons e quem são os homens maus. Todos parecem comer no mesmo cocho. Então, é hora de a sociedade reagir e emborcar o cocho.

* O autor é jornalista e escritor

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Trabalho e arte

Agricultor da comunidade de Vara Cruz, no município de Maués (AM), na Amazônia brasileira.

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De volta para a senzala

 

Aldenor Ferreira*

Há seis meses, tornou-se rotina semanal percorrer 260 quilômetros de Jaboticabal para Campinas, no interior do Estado de São Paulo, sem me dar conta que o Brasil Colônia ainda permanece em traços, gestos e falas que podem ser ecos de um passado não tão distante dos mais de 500 anos que já se foram. Descobri isso ouvindo conversas dos outros no terminal.

Pois, toda quarta-feira, quando as luzes da cidade começam a se despertar com o descanso do Sol, desembarco no Terminal Rodoviário de Campinas. Ali, pego uma linha urbana para ir para casa. Como já comentei com os amigos do TEXTOBR, viajar é preciso, pois tenho aula uma vez na semana na Pós-Graduação da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

Confesso que nesse horário a visão do terminal não é muito boa. Sua moderna arquitetura é contrastada com um mar de gente que faz o lugar parecer mais com um reino de formiga de fogo depois de um curumim atirar uma pedra em cima do castelo, pois, do terminal partem ônibus intermunicipais, interestaduais, metropolitanos e linhas urbanas.

Aproveito esse cenário para exercitar meu olho e ouvido de Cientista Social, dedicando minha atenção às conversas dos inúmeros usuários que aguardam nas filas seus respectivos ônibus, estando, eu também, à espera de um.

Nas Ciências Sociais, isso se chama observação, uma técnica de pesquisa. Seria mais ou menos como exercer a técnica da participação-observação, na qual o observador faz parte de um grupo e aproveita essa situação para observá-lo. No meu caso, integro-me ao grupo de usuário do transporte público e do terminal.   

É fácil notar que ali, às 18h, estão voltando para casa muitos trabalhadores, homens e mulheres que passam o dia em Campinas, trabalhando em diversos ramos de atividade, principalmente nos ramos da construção civil, comércio e doméstico. As conversas nas filas denunciam essas atividades.

Campinas é uma cidade que cresceu muito nos últimos anos, possui distrito industrial e um custo de vida extremamente elevado. Isso criou uma demanda social alta por diversos serviços públicos como o de saúde, o de segurança, educação e principalmente o de habitação.

Como ocorre praticamente em todas as grandes cidades brasileiras, as camadas menos favorecidas são as que mais sofrem com essas questões e são relegadas à periferia da cidade. No caso da Região Metropolitana de Campinas (RMC), muitos trabalhadores moram nas cidades adjacentes.

Curiosamente, é da periferia, tanto de Campinas, quanto das outras cidades da RMC, que vem a grande maioria dos trabalhadores braçais que atendem às famílias abastadas dos bairros nobres da cidade.

Pois bem, estando eu um dia desses esperando o busão e exercitando os ouvidos e os olhos, testemunhei um diálogo que me fez refletir profundamente.

Ouvi um senhor de aproximadamente 40 anos, negro, barba rala, voz grossa, de estatura mediana e bem forte fisicamente, conversar com uma jovem senhora e sua colega, ambas na faixa dos 30 anos, sendo uma branca e a outra morena. A branca era magra e baixa, com cabelos claros e longos até a cintura. A morena era mais alta e mais forte, de cabelo curto e bem preto. Ambas muito sorridentes e falantes.

Esse trio estava em uma fila ao lado da minha e fazia piada com a própria situação de empregados, ora criticando o comportamento dos patrões, ora relatando situações de inferiorização enfrentadas e suportadas por medo de perder o emprego.

Elas, empregadas domésticas, ele jardineiro. Dá longa e animada conversa entre eles (provavelmente se conheciam), o que me marcou mais foi a frase que ele disse quando seu busão estacionou na plataforma: “Até que enfim! Demorou demais, não foi? (falou dirigindo-se às suas colegas). Estou louco pra chegar no meu barraco, amanhã tem jardim da mansão de novo”.

Eles partiram, eu fiquei por cerca de dez minutos esperando meu busão. Nesse tempo, as palavras barraco e mansão martelaram em minha mente. Lembrei do livro Casa-Grande & Senzala do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Suspirei e falei a mim mesmo: “É… 18h, hora de voltar para o barraco, essa “senzala” que insiste em não desaparecer”.

*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Doutorando de Ciências Sociais pela Unicamp.

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