Archive for setembro, 2012

O papel da memória

Ivânia Vieira*

Tornar a memória uma atividade do presente sempre rende confusão. São tantos os esquecimentos construídos, rios de dinheiro e de receitas a partir de imagens para erguer o muro mental da não-lembrança em nome da reputação, da moral e dos bons costumes ocidentais. Às mulheres, o apagamento é um instrumento histórico do exercício da violência em vigor pleno na atualidade.

O parlamento é uma demonstração exemplar dessa condição. Não menos diferente é o processo para os cargos de comando no Executivo. Vejamos: pela primeira vez, o Brasil atinge a cota mínima de participação de candidatas aos cargos de vereador e de prefeito. Aliás, ultrapassou: as mulheres são 32,5% do total das candidaturas homologadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – 2,5% a mais dos 30% exigidos pela lei 9504/97 (a Lei das Eleições). Venceu-se a batalha cínica travada anos seguidos entre o reservar e preencher debaixo da qual os donos dos partidos se abrigaram para retardar o preenchimento da cota.

São 15 anos desde a edição da lei até à conquista desse número, no 12° ano do século 21. Entre a comemoração pelo feito (só possível porque houve uma ampla articulação nacional das mulheres para organizar a compreensão em torno dessa luta e de setores da Justiça Eleitoral que perceberam a insustentabilidade da hipocrisia dos proprietários das legendas partidárias) e a realidade um outro enfrentamento ocorre, silenciosamente.

As mulheres candidatas a vereadoras, na imensa maioria, têm que se virar em suas campanhas. A máquina partidária teve que engolir o preenchimento, mas atua deliberadamente para garantir o triunfo de uns poucos homens candidatos. São eles os eleitos primeiros pelos partidos e para os quais a estrutura trabalha.

A desigualdade na participação de homens e mulheres na política expõe o quanto a democracia precisa avançar e ser aprimorada. Lembrar disso é uma tarefa estratégica.

* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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A outra meta

Ivânia Vieira*

Há um recorde não contabilizado pela mídia na maioria das abordagens sobre a greve dos professores universitários e a consequência dela. Professores, em função de um modelo de educação ainda fortemente cultuado no Brasil, são trabalhadores anônimos e colocados à margem dos processos de desenvolvimento periodicamente adotados pelo País. São tratados como estorvo quando deveriam receber dos governos e da sociedade um tratamento marcado pela atenção e com respeito à dignidade da qual são portadores.

A desestruturação da carreira de professor, como ora se assiste, não afeta isoladamente à sanidade dessa categoria. Ao contrário, expõe o nível de afastamento ao qual ela foi empurrada pelos governos.

A educação como prioridade elimina do discurso a figura do professor. Irônico e trágico, pois a tarefa desse profissional é promover o desenvolvimento intelectual, físico, moral, enfim ajudar na formação crítica dos estudantes e no estabelecimento de competências nas diferentes áreas. Ensino, pesquisa e extensão são um trabalho árduo, feito no cotidiano e nas condições mais precárias. Nessa tripla atuação, todos os dias, professores constroem uma rede para salvar vidas pela busca permanente do conhecimento.

Caminhei até aqui porque professores passaram pela minha vida provocando mudanças e continuam provocando inquietações. Ensinaram-me a ler e a ter necessidade de fazer novas leituras, a ter coragem e esperança, a questionar realidades e injustiças.

Professores universitários não têm auxílio-moradia, para o transporte, o telefone nem à aquisição de livros. Hoje, muitos professores estão doentes como resultado de anos de uma batalha invisível para a qual não há vale-saúde. Essa consequência não entra na lista dos danos apresentados nas reportagens sobre a greve.

A meta de viver dignamente porque se é professor não pode ter peso menor do que as outras metas. Professores são pessoas que lutam contra o desengano que consome, imobiliza e conforma o mundo.

* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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