Archive for novembro, 2012

Sobre feiras e mercados

Wilson Nogueira*

Feiras e mercados públicos deveriam ser partes dos lugares mais aprazíveis das cidades. Mas, em Manaus, infelizmente, são a expressão do abandono. Mesmo assim, resistem como espaços de profunda convivência social, por onde circulam os alimentos, as raízes, os temperos, os aromas, as conversas e os causos que nutrem o corpo e a alma.

Não desconheço o esforço de cada feirante de zelar por seu espaço e mantê-lo o mais higiênico possível. Muitos agem assim, até porque precisam cativar clientes. Refiro-me ao fato de que inexiste, ao menos na prática, política pública voltada para a valorização da convivência sociocultural nesses logradouros. Cada vez mais permanecemos menos tempo nos mercados e feiras, ainda que essas visitas nos deem a satisfação do contato com personagens e situações típicas de determinados “pedaços” urbanos.

O retrato desse problema é a Feira da Manaus Moderna, localizada no centro histórico, na margem do rio Negro. Trata-se de um galpão tosco, sem iluminação e ventilação adequadas, onde centenas de comerciantes se espremem em cubículos. O público e o abastecimento de mercadoria transitam pelos mesmos corredores apertados. Não é um lugar recomendado para quem sofre de claustrofobia. A atual arquitetura ali praticada não leva em consideração uma convivência humana sadia e prazerosa. Longe disso: sugere a improvisação grosseira e o desrespeito com quem mora em Manaus ou a visita.

O entorno da Manaus Moderna é outro exemplo de descaso do Poder Público. Há acúmulo de lixo, criadouros de ratos, baratas e moscas e um insuportável cheiro de chorume, sinal de que os resíduos produzidos pelos comerciantes chegam a apodrecer ali mesmo. O chorume decorre de material orgânico em decomposição. Esses e outros fatos correlatos indicam que as feiras e mercados precisam ser tratados, também, como permanente caso de saúde pública preventiva. Através desses estabelecimentos, afinal, circulam os alimentos que abastecem as cozinhas que alimentam a população.

Menciono, de igual modo, que o acesso às feiras e mercados tradicionais – ou aqueles que funcionam como centros de abastecimento e, por isso, vendem produtos mais baratos – está cada vez mais difícil. Faltam estacionamentos públicos e as vagas permitidas nas ruas são disputadas a tapas. Também não há linhas de ônibus que atendam a esse segmento comercial. Sabe-se que compras de feiras não são bem recebidas em ônibus das linhas comuns, principalmente peixes e carnes. Por tudo isso, os frequentadores de feiras podem se considerar sobreviventes de uma tradição que remete ao surgimento das cidades.

A tendência é a de que as novas gerações se habituem mais à impessoalidade e a sisudez dos feirões dos hipermercados, mesmo que tenham que pagar mais caro pelo conforto, pela segurança e pela higienização. São lugares realmente funcionais, mas que padecem da ausência da convivência humana primordial, marcada pelo diálogo, pela amizade e pela solidariedade.

Nos hipermercados as transações são realizadas por meios de códigos de barra e caixas autômatos; a palavra do cliente não vale nada: quem autoriza o fiado é seu avalista, a empresa que está por trás do seu cartão de crédito; não há espaço para o menor gesto de afetividade entre o vendedor e o consumidor. Não há como pechinchar preços. O computador não autoriza descontos.

Imagino que é esse tipo de relação modernosa que pensam os gestores que querem a privatização dos mercados e feiras. Em vez de solucionar o problema querem se livrar dele a qualquer custo – para a população, é claro. Serviços públicos privatizados não garantem melhoria de atendimento aos seus usuários. Que o diga a transferência do Porto de Manaus para o setor privado. A mudança mais significativa nesse logradouro foi a do aumento nos preços das taxas de usos e serviços.

Por isso, o certo mesmo é que a sociedade exija que a Prefeitura assuma a reforma e a manutenção das feiras e mercados de Manaus como áreas de convivência social pública. Afinal, os feirantes, seus clientes e visitantes eventuais, como os turistas, necessitam de  espaços higienizados, confortáveis e seguros, para negociar, conversar ou simplesmente se admirar da diversidade gestos, sons, cheiros e cores que permeiam esses lugares tão antigos e modernos ao mesmo tempo.

  • O autor é jornalista
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Coerência e verdade

Tenório Telles*

Mestre Guimarães Rosa afirmava que viver é perigoso. Já na metade da minha travessia, após enfrentar tantas tempestades e dragões, e matar tantos leões, constato que a vida não é um ofício para amadores. Na verdade, viver é mais que perigoso, é um risco e qualquer passo em falso podemos colocar tudo a perder. São tantos os enganos desta vida que, de repente, podemos nos negar, entrar em contradição com o que somos e com nossas crenças. O pior de tudo isso é que, tomados pelas ilusões e demandas do momento, às vezes nem nos apercebemos da própria perda. Viver exige uma vigilância permanente, atenção com nossos atos e escolhas.

A verdade é que devemos palmilhar os caminhos dessa vida com firmeza e coragem, sem nos desviarmos dos nossos valores e princípios. Afastar-se desses referenciais que norteiam nosso existir, é perder-se irremediavelmente. Fato é que não é possível seguir na travessia sem as quedas e as perdas. Tudo é parte do jogo da vida. Só uma coisa, entretanto, não podemos consentir: perder-se. Na caminhada perdemos amigos, sonhos, bens… Abdicar das verdades e do que dar sentido à nossa existência é a nossa morte: simbólica e social.

As lições que tenho colhido no meu aventurar pelos caminhos do mundo é que devemos ter cuidado e proteger o nosso ser, fortalecendo nossas ideias e convicções, pois há sempre o risco de sucumbirmos a uma ilusão, promessa de poder ou ao dinheiro fácil. Trabalhar e conquistar sucesso e resultados materiais é legítimo, mas tornar-se escravo dessas coisas e amesquinhar-se é a nossa ruína. Por isso, não devemos nos afastar demasiado dos nossos limites. Devemos saber sempre até onde ir, sem por em risco a coerência e as verdades em que acreditamos.

A realidade política atual tem sido pródiga em exemplos de negação de princípios e posturas coerentes. Estabeleceu-se um jogo que parece não ter limites: para vencer, trai-se não só as ideias, mas os amigos.  Para vencer, trai-se até Deus e alia-se com o diabo. A postura de certas denominações religiosas e inúmeros pastores, que se portam como mercadores da fé, é incompatível com os princípios cristãos. Misturam a missão espiritual de que são portadores com os interesses mundanos, baixos e oportunistas. É uma vergonha o que fazem: além de usar o nome de Deus em vão, maculam a palavra de Cristo, que é sábia e sagrada, e nada tem a ver com a banalidade do vale tudo em que se transformou o processo político em nosso país. Nada disso é sincero e, como atores, fazem uso desse expediente para enganar o povo.

Essa incoerência é igualmente recorrente nas relações políticas. Antigos adversários se unem com o mesmo propósito de fazer valer interesses e conquistar posições e dinheiro no jogo do poder. Abre-se mão de fundamentos e convicções em nome de subterfúgios e eufemismos como “governabilidade” e “pacto pelo desenvolvimento”. Tudo palavras vazias. Hoje vivemos no país uma realidade insólita: direitistas de braços dados com ex-esquerdistas, torturadores conluiados com torturados, picaretas, como dizia lula (com minúscula, mesmo) antigamente, com as antigas vestais da ética e da honestidade. É um festim de enganos, em que o povo é só uma justificativa. Tudo isso pra quê? Essa gente esqueceu, entretanto, de uma coisa: na vida nada fica impune e a incoerência traz em si os germes de sua destruição. Manter-se fiel aos valores e à verdade é o porto seguro que nos salva das tempestades e das ilusões. E nos ajuda a seguir na travessia – fiéis a nós mesmos e ao que somos.

*O autor é escritor e editor

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Tem Nestor no Jaraqui

Ivânia Vieira*


O Projeto Jaraqui, nascido para ser teimosia em espaço público, elegeu Nestor Nascimento para ser homenageado no sábado, antecipando debates e reflexões pelo 20 de novembro deste ano. Singular a escolha. Contar a história de Nestor Nascimento é uma das tarefas nossas neste Estado e, reescrevê-la, outras tantas histórias de figuras responsáveis por protagonismos políticos no Amazonas até agora silenciadas ou em silêncio também serão contadas. O Jaraqui, renascido, lembra e convoca.

Não se trata de um registro em torno da existência de uma pessoa. Ao se mergulhar no rico universo existencial de Nestor Nascimento toma-se uma decisão de impactos múltiplos. Nestor fez provocações de todas as ordens. Deixou um legado cujo preço está diretamente vinculado ao valor que damos a nossa dignidade.

Nos anos, 80 teve a sensibilidade e a capacidade de reunir gente de todas as peles, ateus e religiosos, para pensar sobre racismo, preconceito, discriminação, fraternidade, generosidade, cultura, resistência… Criou o Movimento Alma Negra, não como proposta pessoal e sim fruto de suas ideias coletivizadas. O Moan fez barulho e dos bons. Levou para as dependências do Sesc/Centro, gente para debater o lugar dos negros, dos caboclos e dos indígenas no Amazonas e no Brasil; promoveu exposições de peças do vestuário, cabelos, adereços, alimentos, esquecidos na memória marcada pelas políticas represessoras que inundavam o Brasil daqueles anos.

Na capoeira jogada como símbolo da esperança ativa, nos molhos de pimenta malagueta e murupi, na farinha de mandioca e no baião-de-dois que incendiavam os jaraquis fritos – uma das formas mais comuns de celebrar os eventos – o Moan do Nestor Nascimento deixou páginas da vida ainda não retomadas para que sejam, como Nestor, parte do patrimônio da história de Manaus. Viva em nós Zumbi e Nestor! Hoje, precisamos muito dessa química deles para limpar a vista e enxergar o rumo.

*A autora é jornalista e professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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A regra de ouro

Tenório Telles*

Dois fatos marcaram a minha infância e contribuíram para fundar o meu ser e a minha história. O primeiro, em menino, foi uma desobediência que resultou numa “surra” inesquecível. Naquele tempo a “peia” fazia parte dos métodos de educação familiar, o que não significa que todas as famílias fizessem uso desse recurso. Trata-se de uma história simples: Cheguei em casa com um brinquedo, abandonado por um vizinho. Mamãe, ao me ver brincando com o objeto, foi logo me interrogando sobre a sua procedência. Lembro-me até hoje da cena:

– Meu filho, de quem é esse brinquedo?

– Mãe, achei no terreiro…

– Você vai devolver… se estava lá, tem dono.

– Mamãe…

Não tive tempo nem de completar a explicação. Ela foi logo atalhando:

– Já lhe ensinei para não pegar o que não é seu.

Pegou-me pelo braço e com o cinturão em punho, aplicou-me algumas “lapadas”, dizendo-me para nunca mais trazer para casa o que quer que encontrasse na rua… não pegar o alheio. Para mamãe, a afirmação o “achado não é roubado” não funcionava. Para ela, o “achado” tinha dono. A “pisa” era seguida de conselhos e recomendações para não repetir o erro. Era uma punição acompanhada por uma ladainha de admoestações. Ao término de tudo, a recomendação final:

–Vá deixar o que você pegou no mesmo lugar onde você achou…

Constrangido e envergonhado:

–Mas, mamãe…

–Preciso repetir o que já lhe disse ou você quer “apanhar” novamente… Vá agora!

Enxuguei as lágrimas e, em silêncio e humilhado, apanhei o carrinho que havia “achado” e fui deixar no mesmo local onde o encontrara. Estava triste com minha atitude. Mamãe estava certa: aquele brinquedo poderia ter sido esquecido pelo seu dono. Eu é que entendi que estava perdido, o que não me dava o direito de me apropriar dele. Ainda ouço a voz de mamãe: “Nunca pegue o que não é seu”.

A outra experiência marcante não resultou em “surra”, mas ficou para sempre em minha lembrança. Jovem, impetuoso e achando que podia tudo, fui arrogante, desconsiderei seus conselhos e disse-lhe coisas que a entristeceram. Decidira sair de casa. Mamãe, com os olhos marejados de lágrimas, disse-me algumas palavras que calaram no meu coração:

– Como você acha que me sinto, como mãe, depois de ouvir isso de ti?

Surpreendido e percebendo meu erro, calei-me.

– Meu filho, um dia você vai ter filhos e não vais gostar de ser tratado assim.

Fiquei sem voz, paralisado pelo arrependimento. Do seu jeito simples, emendou:

– Pense bem, não devemos fazer coisas que não gostaríamos que fizessem com a gente. Tome cuidado porque o mundo dá muitas voltas e pagamos por tudo o que fazemos.

Mamãe silenciou e foi cuidar das suas coisas. Fiquei em desassossego, pensando no que fizera e em suas palavras: “não devemos fazer coisas que não gostaríamos que fizessem com a gente”. Passei dias pensando no significado das palavras de mamãe. De onde ela tirara aquela ideia? Anos depois, lendo o filósofo Confúcio, descobri que ele ensinara a seus discípulos, há mais de dois mil anos, a mesma coisa: “Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem”.

Intrigou-me o fato de mamãe ter expressado conceito semelhante ao do sábio chinês, especialmente pelo fato de não ser afeita à leitura e nunca ter nem ouvido falar em Confúcio. Com o passar do tempo fui descobrindo que essa verdade é milenar e vem sendo transmitida através dos séculos, mantendo-se viva na memória dos povos. Pela sua sabedoria e valor moral, passou a ser chamada de “a regra de ouro”, transformando-se num fundamento indispensável das sociedades, quase uma lei do convívio humano, presente em todas as civilizações. Plantar essa semente no coração das crianças e dos jovens é condição para a construção de uma sociedade melhor, mais humana, ética e tolerante. As reprimendas e até as surras de mamãe ajudaram na minha formação. Ser-lhe-ei eternamente grato, entretanto, por ter me ensinado “a regra de ouro” – que floresceu em mim e norteia minhas ações. Esse ensinamento transformou-se em uma estrela que brilha na minha consciência e me guia no meu caminhar pelas arriscadas veredas deste grande mundo.

*O autor é escritor

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A mídia brasileira e as eleições norte-americanas

* Armando Clovis

A recente eleição presidencial na Venezuela quase passou despercebida pelos principais meios de comunicação brasileiros. O mesmo aconteceu com as eleições municipais em Cuba, ocorridas no último dia 4 de novembro. Não há nada comparável ao tratamento dado às eleições presidenciais norte-americanas, que ocuparam, por longas semanas, as manchetes das TVs e dos jornais brasileiros.

O que motivaria nossa velha mídia a cobrir de forma diferente as eleições nesses países? Não se tem uma resposta clara para tal fato, mas algumas suspeições podem ser levantadas. Talvez seja porque nós, brasileiros, tenhamos sidos informados que, nesses últimos cinquenta anos, a Ilha sempre esteve governada por um ditador que se aposentou e passou o bastão para seu irmão.

Nossos principais meios de comunicação desconhecem ou fingem desconhecer que há eleições em Cuba, por isso nunca as noticiaram. Ou mais grave ainda: não as noticiam porque poriam em risco a já baixa credibilidade dos seus editoriais contra experiências fora do eixo neoliberal. A Venezuela, por exemplo, não seria referência de democracia, por isso evitam divulgá-la, para que outros países do continente sul americano não se contaminem do socialismo do século 21.

Além do que Chavez seria um ditador que não respeitaria liberdade de imprensa e a democracia, mesmo tendo realizado várias eleições em seu país sob a supervisão de observadores internacionais, os quis sempre atestaram a  lisura dos pleitos. A presteza com a cobertura das eleições norte-americanas está associada, sem dúvida, à louvação ao modelo de democracia capitalista que serve aos capitalistas e não aos trabalhadores e aos pobres.

Por exemplo, enquanto os candidatos norte-americanos desembolsam fortunas para pagar propaganda na TV, por aqui se tem o horário eleitoral gratuito, tão criticado por parte da imprensa tupiniquim.  O que seria do PSTU, PCO, entre outros partidos, se essa moda pega no Brasil. Não mencionei o PSOL porque se trata de um partido que já está grande. Aliás, na última Carta Capital, o senador Aécio Neves (PSDB) fala em colocar em votação a cláusula de barreira, pois acha que existem muitos partidos no Brasil. Talvez nossa velha mídia sonhe em resgatar o bipartidarismo.

O Jornalismo feito no Brasil em torno da eleição norte-americana parece mais uma ação tática dos barões da mídia. Os Frias, os Marinhos, os Civitas vêem a possibilidade em criar no imaginário do eleitor brasileiro um modelo de eleição onde as forças em disputa não possuam grandes diferenças ideológicas. Ou seja, quem ganhar, ganhou. Nada mudaria na relação dos grandes conglomerados da mídia com as contas do governo. A pauta dos donos da mídia sempre volta a cada eleição e não estará fora da próxima de 2014. É uma tentativa sub-reptícia para tentar virar um jogo cujos resultados não agradam as mídias conservadoras e ultraconservadores. Afinal, o PT só venceu cresceu nas últimas eleições municipais. Contra a vontade da mídia aliada ao Tio Sam, claro.

Portanto, não nos iludamos com o caráter do “bom jornalismo” das grandes redes de comunicação brasileira. Não foi à toa que a Rede Globo enviou Wiliam Waack, um de seus principais jornalistas, a Nova York, para acompanhar a disputa entre Obama e Romney. Como diz o ditado popular: “nesse mato tem coelho” ou como dizia Milton Friedman, papa do neoliberalismo, de uma forma mais sofisticada: “”Não existe almoço de graça”. Daqui para frente toda tentativa será valida para impedir que o projeto presidencial encabeçado pelo PT seja novamente vitorioso em 2014.

  • O autor é economista
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Em defesa da calçada

Wilson Nogueira*

Na noite do último sábado, na esquina da Rua Ramos Ferreira com a Rua Joaquina Nabuco, no Centro, deparamo-nos – eu, Rosário Nogueira e Ivânia Vieira – com um casal empurrado um carrinho de bebê na pista para automóveis. E a calçada? Ah! Servia de estacionamento. A cena e o cenário do qual fizemos parte diz muito dessas cidades que dão mais importância aos carros que aos seus bebês.

Imaginamos o quanto de monóxido de carbono esse pequeno cidadão deve ter aspirado ao ser colocado próximo à descarga dos carros. E os seus pais? Supomos que, por terem nascido numa sociedade de culto ao carro, até estejam indiferentes a essa guerra entre gente e máquinas por espaço na superfície da terra. Ou não! Podem ter agido em protesto à ausência da indignação dos citadinos. E o bebê? Por que usar logo um bebê? As repostas são uma incógnita.

Não se trata de uma cena incomum. Numa cidade de poucas calçadas livres, ruas engarrafadas e sinalização precária, ela se repete, a cada momento, com outros personagens. A cidade fadigada é o teatro onde os carros capturaram a alma humana, tornaram-se máquinas cheias de vontades, e agora riem dos que lhes reivindicam uma brecha de chão para caminhar, mesmo que sejam crianças, velhos ou portadores de necessidades especiais. E assim os questionamentos se seguem a exigir explicações e reparações aos traumas e perdas da dignidade do viver total. O mal estar não afeta só os seres gentes. Ensina-nos o arquiteto Oscar Niemeyer, depois de observar as estrelas através de um telescópio, que jamais devemos acreditar que o universo só existe para atender aos caprichos e às necessidades humanas.

Os sinais da degradação da vida estão por toda parte. Mas é na cidade que eles acabam naturalizados e incorporados aos valores morais, éticos e estéticos de uma sociedade esvaziada de sensibilidade e inteligibilidade para resolver os seus problemas. Em vez disso, joga-os para debaixo do tapete ou faz de conta que os resolve com medidas paliativas. A falta de calçadas ou a invasão das calçadas pelos carros é uma dessas situações que entrelaçam moradores, universidades e gestores como responsáveis pela busca da qualidade de vida no espaço publico. As correções de erros, equívocos e a nova postura diante dos desafios do presente e do futuro exigem atitudes de um novo cidadão ou de um cidadão renovado nas suas atitudes individuais e coletivas. Desarmados das suas verdades e interesses particulares, cidadãos e gestores públicos poderão construir, por meio do diálogo e saberes compartilhados, cidades mais humanas e menos máquinas.

Quando nos colocamos diante da Manaus, sem calçadas livres, com as ruas engarrafadas, com seus igarapés poluídos, sem água encanada, sem luz elétrica e sem rede de esgoto nos espantamos com tanto descaso do poder público e dos seus moradores. Quantas décadas serão necessárias para reconstruí-la? Para jogá-la no fundo do poço, a saber, falta pouco. Um novo gestor poderia iniciar suas ações de reconstrução da cidade e aprimoramento da cidadania por meio da realização de obras simples.

Que tal começar pelo saneamento da cidade pela arrumação e devolução das calçadas de uma rua, preferencialmente localizada em bairro da chamada periferia? Uns e outros moradores até resistiriam em devolvê-las, mas depois de muito diálogo – ocasião em que encontrariam um lugar para seus carros, quem  sabe um estacionamento coletivo –, se convenceriam da importância dos benefícios da medida. O bom exemplo não tardaria a se disseminar por outras ruas, por outros bairros, por toda a cidade e daí por diante. Eis uma grande obra a espera de um novo gestor.

A essa altura, a humanização das cidades parece algo impossível de ser alcançado. Afinal, são muitos anos de desprezo e desrespeito à convivência urbana. Nessa desesperança se escoram os gestores públicos indolentes, intolerantes e refratários ao diálogo aberto e transparente. Os moradores da cidade devem reagir a esse tipo de postura, para que a qualquer hora do dia e da noite possam caminhar livremente pelas ruas e calçadas, sem correr o risco de acidentes ou de morte. Assim, a patética cena daquela noite de sábado só terá lugar em nossas memórias como fato que não deve se repetir nunca mais.

*O autor é jornalista.

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Gestor de conflitos

 

Wilson Nogueira* 

A campanha eleitoral reafirma claramente: a cidade é o lugar dos conflitos. Grupos étnicos, religiosos, econômicos, políticos e de gêneros apresentam suas causas e reivindicações mais urgentes. No fundo, cada qual quer se manter ou se inserir como força social nos domínios do poder legitimado pelas urnas. Mas os confrontos e interesses não se encerram na eleição. Logo, é recomendável que o prefeito seja um gestor de conflitos. 

Não me refiro ao conflito em situações extremadas. Penso o conflito no âmbito das lutas sociais em favor da ecologia citadina, cuja meta é tornar a cidade um espaço literalmente urbano. Poucas cidades no mundo escapam da degradação ambiental e da redução da condição humana. De Calcutá (Índia) a Manaus, elas refletem, na sua geografia, os impactos da globalização de mão única. As cidades se projetam permeadas por raras ilhas de riqueza arrodeadas por vastas regiões de pobreza. 

A persistência da partilha desigual da riqueza – tanto pela distribuição quanto dos serviços e equipamentos públicos – torna as cidades insuportáveis em qualidade de vida. Instala-se, por meio dessa prática perversa, uma situação análoga a dos tempos medievais, quando os poderosos e abastados se instalavam em seus castelos cercados por muralhas e vigiados por guardas especializadas. Os condomínios de luxo são as versões modernas dos castelos medievais. Essas cidades dentro da cidade caracterizam o apartheid gerado na lógica de um sistema econômico excludente. 

Na outra ponta desse sistema, posicionam-se as forças sociopolíticas que propõem a globalização que horizontalize os resultados dos benefícios econômicos em escala planetária. Nas sociedades democráticas, elas se manifestam nas reivindicações das associações de bairros, nos sindicatos, nas confissões religiosas, nos partidos políticos, nas expressões artísticas, nos movimentos éticos e nas diversas “tribos” urbanas. O gestor público precisa ouvi-las com a devida atenção. Mais que isso: precisa dialogar com elas, para que as suas ações atinjam resultados em favor do coletivo. 

As vozes que ecoaram na campanha eleitoral atestam, por exemplo, que Manaus espera resolver problemas que ultrapassaram os limites do suportável. Entre tantos outros, estão relacionados os da mobilidade urbana (engarrafamentos, transporte coletivo ineficiente, falta de ciclovias etc), do abastecimento de água tratada e energia elétrica; da coleta e tratamento do lixo doméstico, industrial e hospitalar; do destino adequado dos efluentes urbanos e das moradias subumanas. São problemas que só têm se agravado desde a década de 1970, principalmente por falta de planejamento urbano. 

A ideia que se tem, de imediato, é a de que os gestores da cidade ignoraram, por incompetência ou má-fé, os impactos do êxodo rural e da migração estimulados pelo comércio e pela indústria da Zona Franca. O resultado do descaso são milhares de pessoas a viver em bairros sem água, sem luz, sem asfalto, sem postos de saúde e sem escola. Ao mesmo tempo, a população, agora de um modo geral, sente que o mínimo de qualidade de vida esvai-se, em velocidade crescente, no trânsito congestionado, nos ônibus superlotados e na violência que ronda as ruas e os lares. 

Os especialistas em urbanismo apelam a toda hora: as cidades de porte médio também caminham para a tensão e estresse dos grandes conglomerados urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, não custa nada reforçar que Manaus clama por medidas corretivas e preventivas urgentes. Não dá mais para esperar que os bairros periféricos sejam ocupados por traficantes e milícias, para só então ser recuperados pelo poder público como trunfo político eleitoreiro; de igual modo, não é possível esperar que as pessoas enlouqueçam no trânsito, para só então tratá-lo como uma questão de saúde pública. 

Manaus aguarda um prefeito que tenha sensibilidade e inteligência para transformar conflitos de interesses em soluções que fortaleçam a sua unidade na diversidade, fator que entrelaça e sustenta a convivência social respeitosa entre diferentes. E que não lhe falte humildade. Afinal, a mania de grandeza e o destempero já fizeram muito mal a esta cidade. 

  

*O autor é jornalista

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Quando a alegria é triste

Ivânia Vieira*

Os debates sobre a economia verde são “tertúlias intelectuais”, comparou o cientista social Marcelo Seráfico. Para o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o assunto reivindica discutir uma outra sociedade; não a reposição e sim a transformação. “Quem são os inimigos da economia verde?” provoca o estudioso apontando uma estrutura na qual funcionam cada vez mais o que batizou de “tanques de pensadores”, espaço devidamente agendado pelo capital para atender determinadas demandas sem que aconteça posicionamento crítico sobre o modo de produção de riqueza e de dominação vigentes.

Seráfico, mais os professores Luiz Antonio Nascimento e Márcia Calderipe, da Ufam, e Tiago Paiva, da Prodam, atuaram em uma mesa, no dia 30 de outubro, que tratou do tema: economia verde/sustentabilidade/erradicação da pobreza. A iniciativa de reunir os estudiosos foi da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas (Sect-AM), na atividade ‘Café Científico’, dentro da 9ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

O encontro produziu indicações importantes que poderão seguir adiante ou serem esquecidas. Luiz Antonio Nascimento lembrou dos temas mágicos que percorrem periodicamente os textos e falas nas sociedades, nas universidades, tais como democratização, socialismo, democracia e, de acordo com o professor, a questão da hora – desenvolvimento sustentável. Disse que 75% dos alimentos consumidos no País são produzidos por trabalhadores que estão em 20% do território nacional enquanto o agronegócio detém 70% das terras, muitas delas resultado da ação de grilagem.

“De que modernidade estamos falando?”, questiona Nascimento alertando que nesse modelo o que se consolida é a insustentabilidade da economia verde. A antropóloga Márcia Calderipe indicou a vulnerabilidade da academia que aceitou ficar a reboque de ideias frágeis como a do turismo sustentável. “O que é o turismo sustentável? A quem serve?” Para Calderipe, é preciso parar e olhar as intervenções urbanas, as populações transformadas em reféns.

Se as tertúlias, inclusive as intelectuais, provocam mais ressaca que mudanças de atitude, eis alguns elementos que podem enfrentar o mal-estar e colocar a ação na rua.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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