Archive for dezembro, 2012

“Vocês vão ter que me engolir”

Armando Clovis*

A frase que dá título a este artigo não é inédita. Foi proferida por Mário Lobo Zagalo em tom de desabafo, quando o Brasil ganhou da Bolívia em 1997
e, sob seu comando, conquistou a Copa América, apesar de toda crítica de nossa velha mídia esportiva. Pego emprestado a frase do velho Lobo para
analisar os noticiários dos últimos dias, em torno da pessoa do ex-presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva, que vem sendo
bombardeado sistematicamente pela grande imprensa.

O próprio velho Lobo depois comentaria: foi uma vitória daqueles que amam o Brasil, não daqueles que o repudiam. Guardada as devidas proporções e o contexto, tenho a impressão esse comentário serve para refletirmos sobre o momento atual. Enquanto o ex-presidente Lula é reverenciado mundo afora por grandes líderes mundiais, como ocorreu na Índia e, mais recentemente,
na França e Espanha, aqui o aparato midiático, a serviço de uma elite
ultrapassada, teima em achincalhar a pessoa do ex-presidente.

É uma elite que, quando esteve no comando do estado brasileiro desprezava os interesses nacionais e se colocava como subserviente dos
grandes centros econômicos. Concepção essa revertida com a chegada do ex-metalúrgico ao governo. Com Lula, o Brasil atingiu outro patamar
no contexto internacional. Isso é fato.

Apesar de toda artilharia midiática voltada contra a figura do ex-presidente, o povo brasileiro não se deixa enganar e reconhece quem
realmente fez algo para melhorar sua vida. A última pesquisa do insuspeito Instituto Datafolha sobre sucessão presidencial revela que se a eleição
fosse hoje Dilma e Lula seriam imbatíveis. Num dos cenários, projetado pela pesquisa, em que Lula seria candidato, este aparece com 56% de
preferência, liquidando a fatura no primeiro turno. Provavelmente muitas águas hão de rolar por debaixo da ponte até 2014, mas, apesar do forte
ataque dos últimos meses, o ex-presidente mantém-se com grande potencial eleitoral.

No segundo turno da eleição presidencial de 1989, o ex-governador Leonel de Moura Brizola declarou apoio a Lula afirmando que era preciso engolir o “sapo barbudo”. Evidentemente, tal afirmação nos dias de hoje seria descabida; no mínimo, poderia caber um sapo de bigode. No entanto, dado a
agressividade da direita conservadora, contando com o aparato midiático para sustentá-la, ainda assim, Lula continua contando com forte apoio
popular, conforme as pesquisas de opinião pública. A frase do Velho Lobo Zagalo seria mais apropriada: “Vocês vão ter que me engolir.

*O autor é economista

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À espera dos novos heróis

Wilson Nogueira*

É paradoxal constatar que o Brasil, a sexta economia do mundo, com status de país em desenvolvimento, continue entre as nações de “nível médio” em educação, segundo relatório da Unesco, instituição da ONU para o desenvolvimento da cultura e da educação. A constatação soa, para os que se incomodam com o vexame, como um alerta: o de que é preciso mudar a forma do tratamento que o estado e a sociedade dão a essa questão. O primeiro passo é pautar a educação como assunto importante do cotidiano, assim como se tem tratado a Copa do Mundo de Futebol.

Tornar a educação tema prioritário das ações e conversas dos governantes, dos professores, dos estudantes, dos pais de alunos e dos “papos de boteco” seria um grande avanço em relação ao passado e ao presente. Lembramos que foi somente a partir da Constituição de 1988 que o país mobilizou suas estruturas para pôr a juventude na escola e para reduzir a repetência. A partir de 2000, passou a lutar para melhorar a qualidade do ensino. Os recentes indicadores do Ideb mostram, no geral, melhora no desempenho escolar, mas revelam, também, as desigualdades regionais. Os Estados do Norte e do Nordeste, os mais pobres, enfrentam dificuldades para subir de posição. Algumas cidades dessas regiões até retrocederam.

É fato, portanto, que o Poder Público deve ampliar e aperfeiçoar os seus investimentos e mecanismos de ação, para acelerar as conquistas e corrigir as distorções provocadas pelo tempo perdido. Não se trata de tarefa fácil, principalmente porque sua execução depende de vontade política. E, infelizmente, existem poucos políticos com vontade de mudar as políticas educacionais do país. Daí a importância de se colocar a educação nos debates e nas conversas do dia a dia. Essa prática gera opinião pública; a opinião pública, por sua vez, pressiona quem decide políticas públicas. Assim agem os cartolas do futebol nacional e internacional para arrancar dinheiro público para realizar empreendimentos privados.

Ao contrário dos temas futebolísticos, os da educação passam ao largo da cobertura jornalística, das redes sociais e das conversas da esquina. Uma partida de futebol que terminou empatada tem mais importância, para a mídia, que o final de uma competição internacional de matemática para estudantes do ensino médio. Penso que, caso os programas, projetos e eventos que valorizam educação recebessem a mesma deferência, conseguiriam mais apoio e participação da sociedade. Lembro, a título de ilustração, eventos que reúnem milhares de leitores no Amazonas: a bienal do livro do Amazonas, as feiras de livros e saraus literários do Sesc, o Flifloresta, as quartas literárias e a liquidação de fim de ano do estoque da Livraria Valer. Em pleno domingo, milhares de leitores foram até a Valer garimpar livros abaixo do preço de mercado, mesmo sabendo que a promoção se estenderá até sábado.

Há uma vontade latente por educação, mas falta estímulo para que ela aflore e permaneça como projeto coletivo. A esse projeto não escapa a luta por escolas bem equipadas, professores bem pagos, estudantes com metas bem definidas a cumprir e pais de alunos inseridos no processo educacional. Países que estão no topo da educação mundial, como Coreia do Sul e Finlândia, há anos se esforçam para cumprir o dever de casa com louvor. Compreenderam que educação e desenvolvimento andam juntos. Também se esmeram para ser bons de futebol.

Aliás, dia desses, soube, por intermédio de um professor, que ainda hoje, em determinadas “instituições de ensino” do Amazonas, jovens “bons de bola” recebem avaliações generosas para defender o time da escola, quando o melhor mesmo seria incentivá-los a estudar com afinco, para que servissem de “bons exemplos” à formação intelectual e moral dos seus colegas. Felizmente há professores, jogadores e estudantes que valorizam tanto a bola quanto a escola e os livros. São esses os heróis que a mídia precisa revelar para a sociedade. Com urgência, por favor.

*O autor é jornalista

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