Archive for janeiro, 2013

O Senado e as ruas

Ivânia Vieira*

Atropelada e em ritmo mais lendo, mesmo assim a mobilização social põe a cara nas ruas, em versões físicas e virtuais, para rejeitar o projeto de recolocação do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) na presidência do Senado.

Nesse movimento, as implicações não estão apenas na folha corrida do senador alagoano – cujo alvará de licença venceu faz tempo se considerada a anticonduta parlamentar dele, mas reabilitado a partir dos jogos locais, autorizando-lhe conquistas de mandatos e reafirmando os nós da rede de poder que o protege para o senador proteger outros. Em questão o Senado brasileiro. Renan Calheiros não é caso isolado naquele grande conselho formado por 81 senhores e senhoras. Ao contrário, Renan é uma tradução vergonhosa da feição maior do Senado, como resultado dos pactos político-partidários nos quais a alternância não conseguiu provocar mudanças para mudar. Somos todos, por correspondência, reféns do “efeito Renan?”

Em torno da eleição do senador há um trançado de partidos famintos pelas melhores fatias na repartição dos cargos da mesa diretora (aliás, o mesmo filme foi exibido por aqui no mês de dezembro). Outros, se autoproclamam libertários, promovendo tentativas de esquecimentos sobre a participação nada republicana em recentes episódios da vida nacional. Seguem cartilhas semelhantes têm fome de poder voraz vestida de autoritarismo e segregacionismo.

A rebeldia do PSOL, as cartas dos senadores Cristovam Buarque e João Capeberibe  são fios em busca de aliança com o lado de fora do Senado, reafirmando princípios à espera de recuperação pelos eleitores e pela população. O Senado tem sido pouco incomodado por nós. A eleição para a presidência da Casa legislativa é uma das possibilidades de promover bons incômodos a partir das ruas, ultrapassando os vidros da blindagem.

*Jornalista professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Vida à lei 12.781

Ivânia Vieira*

“É proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva ou que tenha se notabilizado pela defesa ou exploração de mão de obra escrava, em qualquer modalidade, a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da administração indireta.

Assim está escrito no Artigo 1º da lei nº 12.781 sancionada pela presidente Dilma Rousseff no dia 11.

O novo instrumento é um alento diante dos constrangimentos e da angústia provocada a cada vez que um explorador, um corrupto, um saqueador, um criminoso tem a existência dele imortalizada em um bem público sob a alegação de “bons serviços prestados” a um povo, uma comunidade. Há um séquito de maus políticos e de maus administradores se revezando nesse papel, prontos para atender às ordens dos que ‘devem’ ser homenageados ou para se apressarem na arte de bajular e formularem propostas do gênero.

Todos os dias trombamos, nas ruas, nas escolas, prédios e praças, com nomes de exploradores na condição de referência identificadora desses espaços. No Brasil, é pesada a herança deixada nessa área e ainda fortemente cultuada. Ao mesmo tempo, brasileiros e brasileiras cujas histórias de vida são exemplares e deveriam ser reverenciadas permanecem no subterrâneo como se nada valessem.

A lei é passo importante. Precisa ganhar vida em abundância, tornar-se conhecida e compreendida pela população para que ela mesma vigie e impeça as tentativas de ignorá-la na voracidade de homenagear exploradores.

No Brasil, o trabalho escravo integra a lista de crimes hediondos (racismo, financiamento ao tráfico de drogas, redução do trabalho à condição análoga à escravidão e crimes contra a humanidade). É uma segunda violência atribuir a um bem público, em forma de homenagem, o nome de um usurpador de direitos.

*Jornalista, professora do Curso de Comunicação da Ufam.

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A mudança de Artur

Ivânia Vieira*

Os primeiros oito dias da gestão tucana na administração de Manaus revelam fortes mudanças na forma de atuação de Artur Virgílio Neto.

No primeiro mandato de prefeito (1989/1992), Artur relegou a segundo plano a superexposição da imagem dele. Era possível afirmar, naquela época, a negação do ex-parlamentar a condutas de caráter populistas. Até a campanha vitoriosa pela Prefeitura de Manaus, no ano passado, Artur recorreu a esse perfil lembrando no horário eleitoral gratuito a referência feita a ele como “prefeito tatu” por conta da obras de tubulação feitas. Um “serviço invisível” que não produz votos, diriam mais tarde alguns dos seus aliados e ele próprio.

Nesses dias de prefeito do século 21, o que se assiste é um marketing pesado em execução em torno da imagem de Artur Neto. Há uma exploração exacerbada em várias posses, com diferentes vestimentas e numa sucessão de atos que atropelam espetacularmente a atuação da imprensa.

O que o prefeito Artur Neto ora faz se assemelha ao que fizeram, em larga escala, políticos como Gilberto Mestrinho (falecido em 2009) e Amazonino Mendes. Aliás, Amazonino que sucedeu Artur no executivo municipal (1993-1994) recorreu a um barulho grande ao chegar à prefeitura criando a sensação de grandes e imediatas mudanças no ritmo de administrar a cidade.

Ex-assessores de Artur, à época, comentavam surpresos o recurso utilizado para enterrar a gestão Artur e promover a ideia de que tudo estava começando a partir de Amazonino.

É no mínimo interessante ver, hoje, Artur Virgílio nessa outra configuração. O político do discurso forte, da oposição ativa, como gestor, na maturidade, aceitou vestir a jaqueta de gari, dirigir caminhão…

Há uma alegria fotográfica com essas cenas. E há uma cidade que precisa de muito mais. Nesse marketing, o prefeito será o fiel da própria balança.

*Jornalista, professor do curso de Comunicação da Ufam.

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