Archive for março, 2013

Cidades, história e memória

Irian Butel*

Nesta semana foram derrubadas as seguintes unidades históricas: um chalé da família Lobato, localizado na Rua Silva Campos, ao lado da Loja Maçônica; a residência do saudoso escritor, poeta e antropólogo amador Tonzinho Saunier, na Rua Benjamin da Silva, e o conjunto de casarões que circundam a antiga Praça do Cristo Redentor, atual Praça Digital. Na foto, residência da família Teixeira, demolida neste mês.

Essa prática contraria a Lei Orgânica do Município, que no seu capítulo IV – Da família, da educação, da cultura e do desporto, Art. 171, § 4º, afirma: “Ao Município cumpre proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e sítios arqueológicos.”

Parintins negligencia o cumprimento das determinações legais de preservação e conservação dos prédios antigos, e assim fica difícil mantê-los de pé. É importante enfatizar que o diálogo entre antigo e moderno é possível e lucrativo, apenas depende de um planejamento sério e investimentos por parte do poder público.

As demolições em Parintins não são de agora. Esse é caso da antiga Delegacia, na rua João Melo, da Mesa de Rendas e outros prédios pertencentes ao conjunto arquitetônico da cidade. Cada prédio traz consigo a narrativa de seu tempo. São lugares de memória que nos dão significado e referências da cidade que somos hoje.

No decorrer dos processos de melhoramentos dos equipamentos comerciais e espaços urbanos, a cidade de Parintins se redesenha. Contudo esse novo diálogo com o espaço traz consigo a voracidade das demolições, das quais as construções antigas são o alvo.

Sobre as cidades paira o diálogo entre antigo e moderno. Constituídas na Idade Média, as cidades são o símbolo da liberdade, da modernidade, da multiplicidade que rompe com o mundo feudal. Sobre as cidades o Jaques Le Goff nos diz: “Considere a cidade da idade Média substitua os muros que a cercam, substitua pelas periferias e teremos a cidade contemporânea”.

Nessa cidade contemporânea, teremos os muros que limitam olhar sejam materiais ou imaginários. Aos muros imaginários atribuem-se as limitações em ler a cidade diante de nossos olhos, e a partir de então estaremos tratando não mais de espaços físicos belos ou não, mas espaços afetivos que trazem consigo significados que, para nós, e somente para nós, ganham referência. A esta categoria Pierre Nora chama de “lugares de memória” e que Ítalo Calvino definirá como “cidades Invisíveis”.

Afirma Calvino, no livro Cidades invisíveis: “Cidade que não se elimina da cabeça é como uma armadura, um retículo em cujos espaços cada um pode colocar coisas que deseja recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações minerais, vegetais, datas de batalhas, constelações, partes do discurso. Entre cada noção e cada ponto itinerário pode-se estabelecer uma relação de afinidades ou de contrastes que sirva de evocação à memória”.

Sobre os lugares de memória Loiva Otero Félix esclarece: “Cada vez mais o cotidiano afasta-se da tradição e do costume; a memória deixa de ser encontrada no próprio tecido social e passa a necessitar de lugares especiais para ser guardada, preservada em seus laços de continuidade. São os lugares de memória encarregados de desempenhar esse papel de manutenção dos liames sociais, de fugir à ameaça do esquecimento”.

Atribuir condição de afetividade e simbolismo a estes lugares não os esvazia da sua regular representação sócio-histórica, pois cabe a cada membro do grupo social que se identifica com esses símbolos, compartilhar, dividir, externar suas lembranças para então construirmos aquilo que chamamos de História, não a história de fatos engessada por datas, mas a historia da vida, a história com alma que salta a cada esquina, nos estímulos mnemônicos de cada um de nós.

Para um município que vive sob a imagem da Cultura, não dispor de museu, galeria, cinema, teatro. Quantos prédios precisaram ser tombados ao chão?

Para este questionamento não cabem apenas respostas numéricas, mas, acima de tudo, quais posturas serão adotadas, contudo vivemos em uma democracia e se esta é a vontade de todos, então podemos começar a preparar nossos livros de memórias, pois a tendência é que ele ganhe inúmeras páginas diante da atual conjuntura de derrubadas e perdas dos alicerces de nossa história.

*Especialista em História

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A Amazônia e o Papa

Ivânia Vieira

Da tenda aberta, em 1972, pela  Igreja Católica sobre a Amazônia – uma ação firme realizada por religiosos, leigos e pesquisadores comprometidos com a região – à criação da Comissão da Amazônia, em 2008, na estrutura oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os bispos que atuam nessa parte do mundo têm a tarefa de reapresentar esse universo ao Papa Francisco. E à própria CNBB.

Alguns religiosos católicos tiveram papel importante na inclusão da pauta amazônica no âmbito das ações da Igreja no País. Moacyr Grechi, Pedro Casaldáliga foram e são bispos que encarnaram a Amazônia e bradaram em tempos duros e sangrentos em defesa dos povos amazônicos. Em tempo mais recente, também de dificuldades, censuras, represálias e violência, apesar da democracia, somaram-se a essa luta outras vozes e, aqui, registramos o esforço de dom Luiz Soares Vieira que acaba de deixar o arcebispado de Manaus.

Dom Luiz instalou, na residência episcopal,em Manaus, um fórum não oficial para debater temas da Amazônia. Colocou o material debaixo do braço e o apresentou na assembleia nacional dos bispos, em Itaici. Surgiu a Comissão da Amazônia dentro da CNBB.

As questões da Amazônia no Brasil e no mundo permanecem. Aliás, em determinados aspectos, foram agravadas. Por isso, os compromissos dessa Igreja, assumidos no histórico encontro de Santarém há 41 anos, precisam ser ressignificados para animar as resistências dos povos diante de grandes projetos e da etiqueta de impossibilidade com que a região é tratada pelos governos.

Fazer isso não é apenas um dever para com os mártires do passado e do presente desta região; para com os missionários como Umberto Guidotti, Albano Termus, Claudio Perani (este falecido em agosto de 2008)… cujas vidas estão imbricadas a da Amazônia. É traduzir na fé e na ação os desafios do tempo de agora.

O Papa Francisco, ao olhar o mundo em outra perspectiva e ao eleger o legado franciscano como compromisso pode colocar a Amazônia na centralidade de um outro debate. Os pastores que nela atuam têm a tarefa de ser veículo.

*Jornalista, professora no Curso de Comunicação Social da Ufam.

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Francisco e a Igreja

Wilson Nogueira*

O mundo, pelo que se viu na mídia, alegrou-se com o novo papa. O argentino Jorge Bergoglio, o papa Francisco, emitiu mensagens de amor, esperança e, sobretudo, de humildade. Tudo o que um mundo conturbado pela insensatez, pela violência e pela ganância gostaria de ouvir do representante de uma igreja com mais de 1,2 bilhão de fiéis. Mas entre as convicções da sua devoção aos pobres e os interesses terrenos da Igreja existe um abismo a ser superado que, inevitavelmente, causará embaraços aos desejos do líder religioso diante dos imperativos das suas funções de chefe de estado.

De imediato, o que se pode dizer é que Francisco, nesses primeiros dias de papado, reafirmou as suas práticas devocionais a São Francisco de Assis, que, depois de viver a juventude na luxuria, recolheu-se a uma vida religiosa de completa pobreza. Francisco recusou o luxuoso cerimonial do Vaticano e clamou por uma Igreja pobre para os pobres. Seu protesto à ostentação veio, principalmente, por meio de gestos, ao não permitir que sua hospedagem, ainda na condição de cardeal, fosse paga pelo Vaticano; na dispensa do carro papal para deslocamento na cidade-estado; no uso do crucifixo de ferro etc.

Jorge Bergoglio incitou a magnanimidade e a gratidão ao comunicar, em coletiva de imprensa, que deve ao cardeal de São Paulo, Cláudio Hummes, a homenagem do seu papado a São Francisco de Assis, santo que orienta a Igreja na direção do acolhimento aos subjugados por aqueles que detêm poder e dinheiro. Nada mais justo e coerente para uma Igreja que tem Cristo como fundador, o filho de Deus que pregou o perdão contra a violência, a paz contra a guerra, a humildade contra a arrogância, o amor contra o ódio e a esperança de um sempre mundo melhor.

Francisco se anunciou um líder em favor da boa convivência entres as diversas religiões do mundo. Diferentemente do seu antecessor, o cardeal alemão Joseph Ratizing, o papa Bento 16, que provocou o islamismo e criou mal-estar entre as duas religiões com maior número de fiéis no mundo. Religiões são, acima de tudo, culturas e assim devem ser compreendidas e respeitadas, ao menos pelos líderes religiosos sensatos. Francisco assume o papado com a esperança do cidadão argentino que usava o transporte público em Buenos Aires e que habitava um acanhado quarto atrás da catedral que dirigia.

Não esqueçamos, porém, que a Igreja faz parte do sistema-mundo de poder, porque a religião não se resume a uma fé ascética, ela transita nas esferas da política, da economia e da moral. A história monstra que a Igreja ajuda a construir e a destruir regimes e sistemas de governo; que se envolve em escândalos financeiros; e que acoberta, em larga medida, crimes de pedofilia e abuso sexual de seus membros – dos menos aos mais graduados. A primeira impressão que Francisco causa é a de que ele veio “do fim do mundo” para ensinar os bons costumes a uma Igreja contaminada pela hipocrisia.

Esperemos o melhor de um ser humano cheio de bons propósitos, mas não devemos nos iludir de que as estruturas da Igreja, com mais de dois mil anos de existência, se renderão às modificações mais radicais esperadas por seus fiéis e pela própria humanidade, como a de uma Igreja voltada para os pobres. Francisco revela ao mundo um sonho idêntico ao do cardeal Albino Luciani (Papa João Paulo I), eleito, em 1978, sucessor de Joao Paulo VI, aclamado pelos fiéis como “Papa Sorriso”. Albino Luciani também queria uma Igreja mais próxima dos pobres, mas, infelizmente, veio a falecer 33 dias após se torar papa. Jorge Begoglio, de certa forma, reacende a esperança do Papa Sorriso, personagem pouco lembrada entre os papas contemporâneos.

É preciso que se diga que a provável Igreja franciscana não terá nada a ver com um possível retorno do marxismo cristianizado da Teologia da Libertação, movimento político-religioso que ajudou a derrubar ditaturas na América Latina, nas décadas de 1960, 1970 e 1980. O então cardeal Jorge Bergoglio, por sinal, vivia às turras com a presidenta da Argentina, Cristina Kischner, simpática ao socialismo do século 21 de Hugo Chaves, que instituiu na Venezuela uma república bolivariana. Francisco é conservador acima de tudo.

* O autor é jornalista

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O fotógrafo e a fotografia

Marcus Stoyanovith*

Do pensamento do fotógrafo para a máquina de fotografia, os segundos significam uma eternidade. Milésimos deles são suficientes para materializar uma imagem. Uma imagem que de tão instantânea se forma sem que o fotógrafo a veja. No exato momento em que o olho aberto pisca, imitando o outro fechado. A foto, combinação desse encontro da imaginação com a imagem, também ganhou tempo em sua construção a partir da tecnologia digital que possibilitou a sua visualização logo em seguida, após o click.

Como uma espécie de espelho ao avesso, a fotografia tem seus próprios recursos técnicos que dizem como harmonizar uma intenção com a extensão dos olhos, sempre com o suporte da técnica que produz equipamentos cada vez mais facilitadores e avançados. Mas fotógrafos e máquinas fotográficas sobrevivem, secularmente, das mesmas fontes de alimentos: da luz do sol (na alvorada, em solstício ou do crepúsculo) da lua (nos quartos minguante e crescente, nova ou cheia), do remoto eclipse, quando a brincadeira de esconde-esconde ganha ares celestiais e bota na roda o astro rei e a rainha das estrelas; o sol e a lua.

Na frenética busca de se transformar num olho humano, a máquina de fotografia pediu luz artificial e com ela o fotógrafo pode se sentir um Deus do Olimpio, e como vagalume quebrou o tom da escuridão, mostrou belos contrastes à meia luz; talvez os mais perfeitos em preto e branco, assim como nos sonhos. Pobre poeta Charles Baudelaire que ao satanizar o invento da máquina de fotografia, por ela não reproduzir algo que fora feito inteiramente pelo homem, como as pinturas, se esqueceu de perceber que elas também exigiam telas, pincéis tintas, molduras, também artefatos tecnológicos utilizados pelo artista.

Quem foi que disse que o tempo não pára? Perdoando o exagero da analogia, o fato do fotógrafo imobilizar um momento, dá a impressão que ele parou o tempo só para fazê-lo andar novamente nos olhos de outra pessoa. É quando a foto, resultado da sua produção em parceria com a máquina fotográfica, imobiliza um gavião real cruzando uma montanha; o dorso de um boto na superfície de um rio; a moça na porta da palafita mirando a enchente; o menino que avoa, por meio de sua pipa, nas alturas; um adeus para quem fica; uma expressão, um gesto, uma surpresa, algo surpreendente.

Uma linguagem para capturar não apenas uma forma, um desenho, um objeto, um ser vivo, mas também sentimentos. Sentimentos que, ao serem revelados, escapam ao controle do focado, estando ele ciente ou não. Essa interpretação fica nítida quando captamos uma desencontrada e corriqueira euforia nas palavras dos colunistas com a imagem dos colunáveis. É quando a fotografia ganha vida própria; é quando a imagem multiplica-se na sua intenção, independente da forma.

Um recorte de um espaço/tempo qualquer é traduzido como enquadramento que sugere um ângulo que sugere um movimento que sugere um tipo plano. Esses comandos formam, com outras ferramentas, a linguagem técnica da fotografia, sem ou com movimento. No lambe/lambe que usava a língua para grudar a imagem no papel, na película 35mm, do cinema, a imagem, seja no quadro 3×4, ou da tela que ocupa os 180° do nosso olho, sempre vai ter um algo mais a dizer. Não apenas por ser testemunha de um momento, de um fato, valendo mais que mil palavras; mas pela quebra do silêncio da alma dos capturados, para o bem ou para o mal deles.

Visitar o passado é um dos prazeres proporcionados pela fotografia. No compartimento das carteiras de bolso, nos porta-retratos, nos álbuns de família, nos livros de formaturas; nos jazigos, na mídia, as fotografias estão lá para causar lembranças. Numa dessas visitas ao um passado recente e muito didático na apreensão da extraordinária relação fotógrafo/fotografia veio à mente alguns amigos, profissionais zelosos dessa arte.

(…) o amarelo da cerveja mais demorada nos copos, combinava com as réstias de sol que empurravam a última ponta de escuro do céu. João Araújo (Pedro careca), Sidney Mendonça (catikit), Clóvis Miranda (criatura), Robson Maia (nêgo Robson) e João Lúcio (badboy), todos imaginativos, completavam assim mais um dia de produção. Para eles, as imagens reveladas sempre foram apenas um ponto de partida para novas imaginações. Xis!

*O autor é jornalista

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Da camiseta à ação

Ivânia Vieira*

Os discursos ainda são marcados pelo apaziguamento das tensões e os dados da realidade escapam. Ao final, o revelado hoje pede mais reação do movimento feminista do Amazonas. Um dos desafios é como colocar a cabeça de fora, para além das alianças político-partidárias em nome da governabilidade. As líderes das organizações feministas e de defesa dos direitos da mulher, em generosa fatia, vivem o dilema de atender às tarefas dos partidos e de outras organizações nas quais atuam ou os pedidos de socorro das mulheres em situação de vulnerabilidade.

Na quase totalidade dos encontros ocorridos em Manaus antes, durante e logo após o 8 de Março deste 2013, essa foi a tônica: A discrepância entre as ações e atenção às mulheres de Manaus e as dos outros 61 municípios amazonenses. A pauta nesse campo cresce sem resposta quanto a antigos questionamentos sobre o que foi feito até agora. Há uma tentativa, da fala oficial, de sofismar sobre avanços, desde o número de delegacias de crime contra a mulher (a “delegacia da mulher”) até  à constituição de núcleos multiprofissionais capacitados para a atenção integral das mulheres vítimas da violência doméstica.

A moradia do sal está no movimento. Brota dele o tempero dessas frentes de luta por conquistas efetivas para as mulheres no interior do Amazonas. Quanto mais as líderes aceitarem ser asfixiadas silenciosamente pelos comandos partidários e pelos pactos políticos feitos mais distante estará a vitória. Os encontros datados vão repetir lamentações, a sensação de dever cumprido e, logo em seguida, o jornal, a tevê ou o rádio estampam, nas brechas possíveis, a outra realidade. A do abandono, da omissão e da invisibilidade gigantesca mantida sobre as dores dessas mulheres, sobre as vidas sequeladas, sobre as vidas eliminadas.

O pacto exigido hoje é do posicionamento firme pelo fim da violência contra a mulher no Estado do Amazonas. E esse acordo precisa ter mais vigor, sair dos gabinetes, ganhar as ruas, dizer não ao conformismo e às práticas violentadoras. O tarefismo exacerbado das mulheres – luzes do movimento feminista estadual – as afasta do foco de luta, reduz o ecoar da voz da resistência e amplia prazos de respostas a situações que já deveriam ter sido resolvidas.

Passa também por esse pacto as construções com o Jornalismo, as práticas de mídia, a cultura e pela compreensão das líderes feministas que os governos, o parlamento, o judiciário, a academia, precisam ser mais incomodados. O direito a uma vida sem violência não pode ser apenas frase de intenção pintada na camiseta. Tem que sair dela. É a bandeira da batalha.

*Jornalista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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