Marcus Stoyanovith

Lá se vão alguns anos de vida. A fase deve ser a da experiência com visão e sensibilidade ampliadas, e, quando em vez, de muitas lembranças. Lembranças não contemplativas, mas comparativas em reação ao “aqui e agora” e às sombras de um pedaço do futuro. Ainda bem que o mercado não escolheu a faixa pós 50 anos, para seu alimento principal, preferindo a da juventude, com alguma lógica, talvez. Acho que deva ser porque na juventude há a pressa; há necessidade apenas de um padrão primário de perceber as formas e elaborar conteúdos, e uma enorme sede de ter. Uma pressa, amplamente, correspondida pela farta Tecnologia que arrebata, irresistivelmente, a todos, excluindo-nos de uma existência “onlife”, introduzindo-nos numa online. E quando o mercado e a tecnologia estão apontados para a Comunicação, a mais poderosa arma de sobrevivência das espécies vivas, o resultado é a pressa ampliada, muito mais que imediata; instantânea.

É nesse momento que a memória é primordial, mesmo desatenciosa em razão da ocupação de sobreviver às investidas sedutoras e mortais desse mercado que mostra como é fácil ser consumido pelo belo, pelo perfeito, e pelo o eterno. Mais fácil ainda por meio de uma venda, quando a única barreira para a posse desses valores é uma sedutora Vitrine. Mas, logo após o primeiro uso, tais valores/produtos, acabam ficando, cada vez mais cedo, subutilizados, obsoletos e ainda com longas e infláveis prestações a pagar. A memória, portanto, é primordial para lembrar que você é você mesmo, e que, como tal, pode decidir por tudo que lhe convier, inclusive pelas suas amizades.

Dia desses, o amigo Márcio chamou a atenção para uma observação feita por sua mulher, Manu: “Esse Facaebook  está acabando com as Surpresas e com a Saudade. Já não dá prá morrer de saudades de alguém e nem ter a surpresa de uma pessoa amiga batendo em nossa porta”, teria dito ela ao marido. Ou seja, a facilidade de comunicação é tamanha que se uma pessoa querida mora em Marte e você na Terra, basta acionar uma tecla que a câmera da sua máquina, um pouco maior que uma caixa de fósforos, lhe possibilitará uma comunicação instantânea de imagem e voz, tão nítidas que lhe dará impressão de essa pessoa estar no seu raio geográfico/social.

A interpretação, de repente, acionou a memória e me jogou nas ondas da Saudade, como se desejasse testar se eu estava contaminado pela ausência desse sentimento tão nutritivo para qualquer ser vivo. Lembrei-me das meninas e seus diários. Caderninhos guardados em lugares secretos e de tão segredados nem em pensamentos se mostravam, diante de quem quer que seja. Uma privacidade que ia muito além dos confessionários. Talvez Deus pudesse ficar sabendo, mas sem intermediários. No diário, desenhos, em traços coloridos, de corações com nomes amados; frases de um cotidiano atribulado; de uma má intenção apaixonada; de um relatório cronometrado, com hora, dia, mês e ano.

Ah! Lembrei de quanto tempo se levava para uma amizade acontecer; de como, dentre elas, eram feitas as escolhas para troca de confidências; de como a presença física era importante para a convivência; de como o olho no olho poderia revelar mil pensamentos, personalidades; mesmo o mais rápido e involuntário encontro de olhares, tinha seus significados mil, por vezes entendidos, telepaticamente, e expressados como uma paquera; tudo isso era importante para uma escolha. Havia calma para degustar o tempo, não pressa para engoli-lo; um tempo que sempre passou, está passando e passará sem precisar que ditem seu ritmo.

Agora, o Facaebook , mostra, a nós passageiros da terra acostumados às relações face to face, que somos navegantes espaciais com um diário, um diário de bordo sim, mas sem controle sobre ele; já não mais secreto como aquele das meninas daquela época, mas escancarado para quem quiser e não quiser ver, numa exposição global de nossos erros e acertos, do nosso Eu, psicologicamente, mapeado. Nessa passagem, o Facebook se entronou como Meio para substituir as cartas manuscritas ou datilografadas, recebidas, não em mãos, dadas pelos carteiros, ansiosamente aguardados, mas numa tela luminosa à mercê de ondas eletrônicas, emolduradas de banners comerciais.

Esse Facaebook , cara de livro querendo ser diário pessoal, e corpo de máquina se achando a rainha da sucata, já nasceu ancho para nos desarmar e ocupar o nosso lugar em nossas próprias escolhas, entre elas, a mais importante: a das amizades. Com o domínio do nosso perfil que, passivamente, lhe foi fornecido por nós mesmos, o Facaebook  não dará a opção pelo sossego; como o daqueles dias que você não quer papo; não tá a fim de conhecer, nem ser conhecido por ninguém. Esqueçamos essas sensações nostálgicas e de anticonsumo. Caso você não o acione diretamente, ele vai estar presente em outro Meio, lembrando-lhe de que tem alguém esperando para ser seu (a) amigo (a).

É de se imaginar uma humanização caracterizada do Facaebook . Um senhor perfeito, todo poderoso, cupido, fiador, articulador, descobridor, que tem licença para lhe interromper e apresentar alguém, de algum lugar do mundo. Aí você diz que não está a fim de saber de ninguém, nem para amizade, nem para uma rapidinha, tampouco para casar. Ele insiste e diz que se trata da pessoa certa para seu perfil, cuja essência ele conhece como ninguém. Você mantém sua posição, ainda ciente que é dono de suas próprias escolhas. Então, o senhor Facaebook , educadamente, se desfaz daquela que seria ótima opção de relacionamento e, imediatamente, incessantemente, lhe apresenta um catálogo com mais dez mil opções de pessoas para quaisquer relacionamentos. Sua mente, esgotada, com a única opção de abandonar a rede mundial de comunicação, acaba avaliando que o senhor Facaebook  tem razão.

Ao confirmar um novo relacionamento, fato que se repetirá muitas vezes, o senhor Facaebook bradará mundo afora que acabara de ultrapassar a marca do bilhão em seguidores/usuários/consumidores. Com tão densa propagação e tão convincente demanda, mais anúncios de ofertas de gente com seu perfil, de tênis, perfumes, carros, roupas, vão surgindo dentro de suas pesquisas ou consultas ao navegar na rede mundial de computadores. Nela o senhor Facaebook faz morada, dela dita o seu destino, utilizando as informações que você mesmo repassa para ele. O senhor Facaebook já não é apenas um elo eletrônico e modernoso Meio de comunicação entre amigos e eu, nem apenas uma porta instantânea para novas amizades, para conhecer o que ainda me é original, por ainda ser, por mim, desconhecido; o senhor Facebook é mais um meio de controle eficiente que me controla com as próprias armas e argumentos que lhe ofereço.

Um Meio construído para vender o que extrai de nós e nos devolver em forma de algo que desejávamos ter. Põe à venda com preço acessível e muita disposição para satisfazer o nosso ego exibido. O senhor Facaebook não é um diário, é um dossiê. Um dossiê implacável que expõe bem mais que seu perfil, expõe seu DNA para um mundo de gente, e não apenas quando você informa a idade, profissão, ou coisas do gênero, mas também quando se comunica; quando faz opções; quando dialoga com alguém; quando não se comunica, quando está sumido.

É mais provável que o senhor Facaebook, eficiente em distribuir facilidades, não saiba o que é amizade, nem como ser fiador para garantir o sucesso dos novos relacionamentos, pós venda. É provável que seja um senhor interesseiro, daqueles aproveitadores que gostam de empurrar mercadoria goela abaixo; daqueles que você não pode estender a mão porque vai querer seu braço. Mas o que fazer com aquele ensinamento “dize-me com quem andas que te direis quem és”? Para onde ir depois de desligar o computador? Talvez nunca saibamos ao certo, nem teremos a oportunidade de confirmar tais suspeitas, pois não há como ficar cara a cara com ele. E se nos olharmos no espelho, vamos poder encontrá-lo?

É provável que o senhor Facaebook seja um livro aberto que não goste de segredos, ou se desobrigue de guardá-los, sem remorsos, sem medir conseqüências. É provável que o senhor Facaebook seja na verdade um camaleão, um transformer, um mutante. Talvez ele venha a ser o que nós desejarmos que ele seja; um mergulho para alcançarmos o algo mais, ou a mais, sem muito ou nenhum esforço; o amigo de todas as horas? Como um eficiente gênio da lâmpada, consolidando necessidades, ele pode ser cada um dos mais quinhentos milhões de usuário/seguidor/consumidores, que, por enquanto, ainda não conseguem combinar o fim do mundo, na Praça da Saudade, acompanhado dos melhores amigos de há pouco ou de sempre.

*O autor é jornalista