Archive for junho, 2013

Lindo! Lindo! Lindo!

Neuton Corrêa*

Paulo Faria nasceu para o espetáculo. Iniciou na rádio Alvorada de Parintins ainda adolescente. Foi apresentador de programas de auditório, no antigo Teatro da Paz, e apresentou o boi bumbá Garantido por mais de um quarto de século: 26 anos. Pode-se dizer que é o criador da ópera folclórica narrada.

Garoto, eu conhecia o Paulinho apenas pela voz do rádio e pela fúria que despertava nos vizinhos torcedores do Caprichoso, que haviam se mudado para perto de casa, trocando o território azul pelo vermelho, mas não deixando a paixão pelo bumbá do coração.

A ira dos meus vizinhos explicava-se pela genialidade do Paulo. “Aquele grilo falante”, para usar uma das frases da vizinhança, dominava o espetáculo amazônico. Passava três horas apresentando os itens e mexendo com a galera, para agitar “a oitiva maravilha do mundo”, como ele definia o Garantido.

Não tinha quem segurasse aquele rapaz franzino ao entrar na arena. Ao ser chamado, corria para o centro da arena, cumprimentava autoridades, visitantes e depois chamava o momento que ninguém queria perder: a contagem, do longo “Ummmmmmmm, dooooois, trêêêês e quando o tambor de marcação irrompia o instante de silêncio para começa a festa. Coisa de arrepiar até hoje.

Mas tudo isso era previsível. A principal marca do Paulo Faria, porém, era o improviso, como o que ocorreu no festival de 1994. Paulinho anunciara a alegoria do Gavião Real. O gigante pássaro entrou batendo as asas no ápice do espetáculo trazendo o pajé, a cunha-poranga e tudo mais.

O apresentador se empolga, defende o quesito alegoria, mas foi nesse instante que o gavião, no centro do Bumbódromo, quebrou a asa esquerda. A galera contrária se agitava em gargalhada, enquanto do outro lado o desapontamento abatia o vermelho.

Paulinho, porém, não perdeu o tom e dirigiu fala aos jurados dizendo: “Observem, senhores jurados, perversos caçadores atingiram gavião real. É o lamento do nosso povo da Amazônia. Lindo! Lindo! Lindo! Lindo, galera vermelha e branca!”

*Editor da coluna Sim&Não do jornal A CRÍTICA, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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A cobra grande do Jair

Neuton Corrêa*

A enorme serpente estava furiosa. À beira do lago, um a um, a cobra grande devorava o que via em seu caminho: o pescador, o agricultor, a lavadeira, o curumim pulando n’água e até o fotógrafo Panela de Ferro, que registrava tudo naquela noite de disputa do Festival Folclórico de Parintins de 1981.

Naquele ano, a festa ainda ocorria no estádio Tupi Cantanhede, num palco suspenso de madeira de lei sobre a grama. O tabladão aguçava ainda mais a imaginação do artista Jair Mendes, que nos anos anteriores já havia inventado o boi biônico, as alegorias e a cada festival criava uma cobra diferente e cada vez maior.

A linha frente do Caprichoso, como eram conhecidos os dirigentes do bumbá azul e branco, descobriu na tarde daquele dia que a equipe do Jair tinha preparado um alçapão ao centro do tablado, de onde a cobra do Jair surgiria do nada para ganhar mais um festival.

Diante da informação, o Caprichoso não hesitou em frustrar a criatividade do contrário. Aproveitando-se da ordem de apresentação, o bumbá da Cordovil resolveu pregar o buraco feito pelo Garantido.

Para não perder pontos nem levantar suspeitas, a pregação do alçapão ocorreu durante a apresentação do Caprichoso. O martelo e um quilo de prego de três polegadas foram levados escondidos pela então secretária do boi Socorro Lopes e a operação, feita sob a saia de Dona Aurora, figura que lembra os bonecos de Olinda, ocorreu enquanto ela se apresentava no centro do palco.

Só agora entendi porque a cobra do Jair engoliu tanta gente naquele festival.

*Editor da coluna Sim&Não do jornal A CRÍTICA, filósofo, metre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.

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